Uma estranha no ninho - Vol. I
32 Uma estranha revelação sobre nós dois – Parte I
Notas iniciais

Com muita dificuldade e a contragosto Saga forçou suas pálpebras a libertarem os olhos cansados e sonolentos. Piscou algumas vezes amargando o gosto de “sola de sapato” na garganta. O corpo inteiro dolorido e marcado por hematomas reclamou horrores quando tentou virar na cama. E que cama? Onde estava o futon enorme onde dormiu com Kyoko? E...onde estava Kyoko?
Devagar olhou ao redor, mas não por muito tempo; sua vista escureceu por alguns instantes e um enjoo absurdo arrepiou todos os pelos de seu corpo. Por instinto levou a mão a boca a fim de prender o que, seja lá, que estivesse em seu estômago de subir goela a cima, e mesmo com o som da porta abrindo e fechando Saga, ainda assim, não conseguiu desviar sua atenção do esforço sobre-humano que fazia para não vomitar.
Tentou ver quem estava ali, mas não conseguiu. A pessoa que entrou chamou seu nome; a voz tremula e surpresa. Era familiar; feminina, mas não era Kyoko. Também não era Baa-san. Era uma voz jovem, melodiosa e exageradamente familiar.
Flash de imagens confusas invadiram a mente do cavaleiro de gêmeos em enxurradas. Imagens de luta; imagens dos amigos...feridos; imagens de sua armadura; imagens de Ares. E a pior de todas...a imagem de Ares, seu outro eu, seu “eu” maldito a estrangular e molestar o corpo de Kyoko. Sua Kyoko!
E graças a aquela avalanche de péssimas recordações que Saga perdeu de vez o controle, deixando tudo o que queria e o que não queria sair. Só teve tempo de virar para o lado e em uma golfada forte colocou tudo que tinha e o que não tinha para fora, vomitando como a tempos não fazia.
A pessoa que entrara no quarto correu até ele tentando apartar. Era desesperador vê-lo quase sufocar por conta do vômito. O corpo definido se contraindo por conta do esforço, a pele morena adquirindo um tom avermelhado, saltando as veias dos braços e do pescoço por debaixo dela.
—Ah meu Deus! Saga! — disse a mulher.
— Ky...KYOKO!!- gritou ao finalmente ter tempo de recuperar o fôlego, ignorando totalmente a mulher que tentava ajudar. Só conseguia pensar no que Ares fizera a sua Kitsune.
Do banheiro a raposa branca quase derrubou a porta ao ouvir a voz implorar sua presença. Havia ficado com ele o tempo inteiro e Saga não dera sinal de vida em nenhum segundo. Achou que ele dormiria por dias, mas não foi bem assim, e justo quando seu corpo cobrava necessidades biológica ele tinha que acordar?!
De início Kyoko empalideceu com a cena de seu amado quase morrendo em meio a vômitos, mas logo depois sentiu ódio. Seus olhos faiscaram ao finalmente ver a mulher tão perto de SEU HOMEM! Tudo bem que Saga estava quase desmaiando naquele momento e era mais do que óbvio que qualquer ser em sua sã consciência tentaria ajudar, mas seu instinto protetor e possessivo não pensava da mesma forma e sim fazendo o ciúme de Kyoko disparar em níveis absurdos.
— O que pensa que está fazendo, vadia? — aproximou-se fazendo a mulher gelar e se afastar. —Quem lhe deu autorização para entrar aqui e ainda se atrever a tocar no meu humano?
— Eu...eu...sinto muito. Eu...me assustei. Pensei que ele ia desmaiar.
Kyoko abstraiu a explicação da mulher, subindo na cama para apartar Saga. Este ofegava fortemente, deitado de bruços e com uma das mãos apoiada no beiral do colchão tentava a todo custo respirar nos míseros intervalos daquele horror.
— Cala a boca! Não me interessa suas explicações! Conheço bem o seu tipo, prostituta barata! Agora saia e vá buscar água e uma sopa leve para ele comer. E mande alguém vir aqui limpar isso! — gruiu irritada.
A mulher meneou a cabeça em concordância odiando ainda mais aquela raposa que pensou nunca mais ver e sem ter alternativa saiu sem olhar para trás. Kyoko puxou Saga um pouco virando o corpo dele de lado assim que ele parou de pôr tudo para fora. Saga não ofereceu resistência, virando para o lado dela e a abraçando pela cintura enquanto repousava a cabeça no colo de Kyoko como um menino carente.
— Shiii! Calma, respira devagar. – sussurrou ela, acariciando lhe os cabelos desgrenhados e dando um beijo ali.
Ficaram assim durante alguns minutos. Saga ainda tentava se concentrar na tarefa de manter o estômago quieto. Tremia dos pés à cabeça, suando frio. Fazia anos que não sentia um enjoo tão forte.
— Você precisa de um banho. Olha como está suado. Vem! Se apoia em mim.
Kyoko então puxou Saga até a outra ponta da cama, abaixando um pouco para ajudá-lo a ficar de pé. Saga envolveu o pescoço dela com o braço direito para começar a caminhar em direção ao banheiro. E se achava que as coisas não podiam piorar foi aí então que o cavaleiro de gêmeos viu o que sim! As coisas sempre podem piorar. Olhou para o lado e na parte mais escura do quarto um par de olhos azuis vibrantes e luminosos o fitavam com o ar de sempre.
O jeito desdenhoso e esnobe, sarcástico e assassino parecia ler seus pensamentos mais profundos, mais pecaminosos. A perna direita cruzada por cima da esquerda onde os pés ostentavam botas negras de cadarço até os joelhos, a calça justa marrom-escura vinha por dentro delas, a blusa oriental vermelha escarlate brilhava no cetim em contraste com a enorme Kitsune bordada ali. A cauda do animal contornando seu corpo, passando pelas costas e acabando em cima de seu ombro esquerdo. Pequenas luvas cobriam somente os dedos finos e delicados que brincavam com um baralho de cartas como um verdadeiro malabares. A cartas dançando por seus dedos, sumindo e reaparecendo como passe de mágica.
Saga sentiu o ódio ferver nas veias como um vulcão prestes a entrar em erupção. Os olhos assassinos fuzilaram o semblante de Cheshire. O jeito descarado que ele olha para si só fazia sua raiva crescer ainda mais, pois mesmo o rosto jovem tendo agora o nariz e os lábios cobertos por uma máscara de raposa, Saga sabia que ele sorria. Sorria de sua atual situação, sorria de sua desgraça.
— Seu...FILHO DA PUTA!!!
Saga se jogou na direção de Cheshire sem se importar com as pernas que não o manteriam de pé por muito tempo. Acabou por cair no chão como um bêbado sujo e descabelado. E se aquilo não fosse humilhação suficiente para seu ego, ter caído aos pés do shinobi, quase lambendo seus sapatos, era o fundo do poço.
Cheshire só moveu os olhos já que estes não se desprenderam dos de Saga. Era incrível como ele simplesmente não perdia a imponência nem caído aos pés de alguém. Sorriu em baixo da máscara; ele era tão perfeito que o excitava!
— Saga! – falou Kyoko.
— Seu desgraçado! Miserável! Tudo isso é culpa sua. — vociferou o geminiano sendo amparado por Kyoko. — Traidor!!!
—Minha culpa? Hora Saga, não foi eu quem tentou estrangular Hime-Sama. — respondeu enfim irônico.
Saga bufou como um touro bravo. Estava furioso e mais ainda por suas pernas não lhe obedecerem. Não conseguia parar de imaginar arrancar o coração daquele desgraçado com suas próprias mãos. Queria quebrar seus ossinhos um por um como se quebrava palitos de dentes e depois palitaria os seus com eles.
Os olhos de Saga se estreitaram ainda mais e um brilho escarlate tomou toda a sua íris, seu cosmo começando a se intensificar, formando uma aura dourada ao redor de seu corpo.
Kyoko que até então tentava segurar Saga, engoliu em seco e amargo só de imaginar o que não queria imaginar, mas sabia que aconteceria. Ficou ao lado do amado para cuidar dele e mais ainda em saber que ele estaria furioso com sua sombra. E antes que a situação ali viesse a piorar, ela então se intrometeu com um berro:
— CHEGA!! PAREM VOCÊS DOIS! — fez uma pausa. — Saga você nem está conseguindo ficar de pé, então vê se para de valentia quando não deve ser e vamos para o banheiro. – puxou o cavaleiro como uma mãe fazia com um filho birrento. — E você, procure Baa-san. Diga a ela para vir aqui o mais rápido possível e traga roupas limpas e decentes para ele.
Cheshire manteve o olhar nos de Saga por alguns segundos, depois meneou a cabeça positivamente para Kyoko e sumiu como uma fumaça negra em meio a escuridão.
Com cuidado a raposa levou o geminiano para o banheiro. Ele ainda retrucava sobre sua atitude e reclamava em como ela ainda podia confiar naquele sujeito depois do que tinha acontecido.
— Eu tenho meus motivos mesmo que você não entenda. – respondeu séria.
Os olhos bicolores brilharam de desejo sobre a nudez do cavaleiro e mesmo ele estando em péssimas condições ainda era exageradamente desejável a seus olhos. Não conseguia parar de se questionar onde estava com a cabeça para se deixar levar por humano e que se, isso não fosse ruim o suficiente, possuía uma outra personalidade nada amigável, nada gentil. Haviam youkais lindíssimos também. Águia era a prova viva disso sendo dos quatro o shinobi mais belo deles. Realmente o amor era algo que não devia ser explicado e sim sentido.
—Kyoko, sobre ontem...nós precisamos conversar.
—Não quero conversar sobre isso agora. – respondeu sem muita importância.
—Não é assim que as coisas funcionam. Eu... – Saga rebateu.
—Já disse que não quero falar sobre isso agora, michê. – ditou ríspida. Depois se aproximou mais e tocou o rosto dele. —Olha, sei como se sente, eu sinto você. Vamos deixar isso para depois, okay?! Depois ouvirei tudo que tem a me dizer e eu sei que não é pouca coisa, agora...só me deixar cuidar de você está bem?
Saga acenou positivamente e deixou-se acomodar por ela na banheira, e com todo cuidado e carinho começou a banha-lo; primeiro começou pelos cabelos; o shampoo de ervas tinha um cheiro cítrico e muito bom, combinava com o jeito altivo e imponente de Saga. Depois abriu uma das várias gavetas na pia tirando de lá uma navalha. Pegou também uma espuma refrescante e com mais cuidado ainda começou a barbeá-lo. A lâmina afiadíssima subindo pelo pescoço, deslizando pelo queixo até as maçãs do rosto.
— Eu já tinha feito isso antes? – indagou limpando a lâmina em uma toalha.
—Já. Algumas vezes. – respondeu virando o rosto, sentindo o metal afiado deslizar por sua pele outra vez.
—Sentiu falta?
Saga abriu os olhos e encontrando os de Kyoko. O silêncio sendo quebrado só pela gota insistente que caída da torneira.
—O tempo todo. – ele disse, erguendo a mão molhada e com espuma para tocar no rosto dela.
Kyoko sorriu adorando o gesto. Sentada na borda da banheira e tendo Saga entre suas pernas, ela só precisou se inclinar um pouco para roubar-lhe um beijo apaixonado e quente. O corpo se aquecendo de paixão por aquele homem mesmo quando sabia que não devia. Não que estivesse com medo ou receosa pelo acontecido no dia anterior, mas sim pelo fato de saber do estado debilitado de Saga. Ele estava exausto e forçar seu corpo a uma relação sexual naquele momento poderia só fazer ele piorar. As mãos macias e de unhas longas, e pontiagudas desceram pelo peitoral molhado e nu, arrancando um doce gemido da garganta de seu homem. A pele morena arrepiando em cada toque, recebendo as carícias com deleite e muito, mais muito prazer.
—Aonde eu aperto o botão para desligar esse tesão louco que sinto por você? – ela sussurrou mordicando o lóbulo dele.
Saga sorriu jocoso. Kyoko era a personificação da luxúria, da sensualidade. Estava cansado, ou melhor exausto, mas não morto. A desejava demais para negar o que ambos queriam. E mesmo cheio de questionamentos sobre o ocorrido no dia anterior, Saga não conseguia evitar aquela Kitsune deliciosa e linda.
— Aqui! – respondeu no mesmo tom.
Sem aviso segurou no pulso esquerdo de Kyoko puxando a mão dela em direção a seu órgão — já bem animado – com força, fazendo ela escorregar e cair na água de roupa e tudo. Kyoko gritou com o impacto levantando rápido e sem acreditar que Saga tinha realmente feito aquilo. Gêmeos começou a rir da cara surpresa que ela fez, puxando-a pelos braços para encaixar melhor os corpos, colocando ela sentada em seu colo e de frente para si. Um beijo erótico se iniciou, enchendo ambos de um tesão quase animalesco.
Saga arrancou a blusa molhada de Kyoko, mergulhando agora naquele vale cheiroso e macio entre os seios fartos, a fricção dos órgãos fazendo ambos gemerem juntos, ansiando por mais, ansiando pelo enfim contato de pele sob pele.
—Não tem medo de mim? – ele inqueriu rente aos lábios dela, descendo a mão até o cos da calça que ela usava e começando a puxar para baixo.
—Por que eu teria?! Você nunca me fez mau...
—Kyoko, eu...
—Shiii...não quero ouvir nada sobre isso agora, já disse. – ela sussurrou se acomodando nele. — Ele está morto, derrotado. Não me interessa mais.
Saga gemeu lânguido de prazer ao sentir-se entrar dentro de Kyoko. Os quadris se movendo devagar para baixo e para cima, derramando a água da banheira que acomodava perfeitamente os dois. Os gemidos baixos da amada rente a seus lábios, os olhos bicolores presos em seu semblante anuviado de prazer. Que loucura era aquela?! Que amor era aquele? Que desejo insano era aquele? Não sabia, mas sabia ser bom, ser ótimo, ser incrível! Único! E toda a vez que a possuía Saga sentia-se o homem mais incrível, mas sortudo e sorria por dentro da sorte que tinha, sorria por dentro da inveja que Hiroaki sentia por Kyoko não o ter escolhido.
O grande youkai tão temido, tão poderoso não conseguia ter o amor de quem tanto desejava.
Kyoko pendeu a cabeça para trás dando mais espaço para ter o pescoço e os seios explorados pelos lábios habilidosos do cavaleiro de gêmeos. As mãos poderosas agarradas aos quadris dela, ajudando-a a subir e descer sobre seu órgão, a mão direita dela masturbando-se freneticamente, ensandecida em busca por alívio de seu tormento prazeroso. E este veio forte e intenso primeiro para ela. Com a ajuda dos próprios dedos, os dedos de Saga em seu orifício traseiro e os lábios sugando seus mamilos foram demais para suportar, explodindo em um orgasmo delicioso. Os gemidos despudorados e nada singelos, carregados de palavras obscenas serviram para aumentar o combustível para o prazer de Saga dando a ele agora o orgasmo tanto ansiado.
Ficaram abraçados, ofegantes durantes alguns minutos, aproveitando do conforto dos braços alheio. Saga pensou que dormiria ali. Suas últimas forças com toda certeza tinham se esvaído junto com aquele orgasmo. As pálpebras pesadas e o corpo em relaxamento total, os dedos de Kyoko acariciando seus cabelos só intensificaram a sonolência, e nem quando ouviu-se duas batidas na porta e Baa-san entrar na maior cara de pau ali eles não saíram da posição.
—Será que você não sabe esperar velha doida? – retrucou Kyoko.
—Eu não tenho o dia todo, sua pervertida, então será que dá para vocês terminarem logo? Não aguento mais ficar aqui ouvindo seus gritos e palavreado obsceno.
— Ahh cala a boca! Se não queria ouvir que tapasse os ouvidos. – berrou Kyoko irritada vendo Naomi voltar ao quarto.
♊oOoOo♊
Quando Kyoko e Saga finalmente voltaram ao quarto tudo já estava limpo e arrumado. A mesa de café bem arrumada cheirava a pães doces, salgados, frutas, chá, sucos e café. Saga, ao contrário do que a raposa tinha imaginado, comeu como um mendigo mesmo ainda estando um pouco enjoado. Baa-san o examinou dos pés à cabeça identificando que o problema dele nada mais era do que o choque que seu corpo levara por conta de muito poder usado de uma só vez quando não estava acostumado. A junção do ar do Makai e o poder da Adamantine exigiram do corpo de Saga o máximo que ele tinha, porém, o protegendo e o finalmente deixando quase totalmente imune ao ar do lugar, exceto pelo forte enjoo que sentiria sempre que usasse de seu poder. Para compensar e acelerar a recuperação do cavaleiro, Naomi lhe deu uma espécie de tônico azulado e de gosto horrível, mas como ele mesmo dizia: Remédio ruim é que fazia bem, então não tinha do que reclamar.
No fundo ficou muito feliz em saber que não precisaria mais daquele selo de proteção e mais ainda em saber que não seria mais humilhado por ninguém naquele lugar infernal, principalmente por Cheshire.
Ahhh...como odiava aquele shinobi.
Depois de toda a explicação de Naomi, Saga comeu mais o que podia quase entrando em uma disputa com Kyoko para ver quem comia mais que quem. Divertiram-se, riram juntos, brincaram juntos e se entristeceram juntos, mas amando-se ainda mais no resto de tempo que ainda tinham. Sabiam que aquela “mini lua de mel” estava prestes a acabar.
— Você não me disse onde estamos. – falou Saga dando um beijo na testa de Kyoko enquanto acariciava uma das orelhas dela.
—Estamos seguros, por enquanto.
— Tá! Mas...onde exatamente. Que lugar é esse? — Kyoko suspirou.
— Na mansão de Yamoto.
— Mansão...de...Yamoto?! – indagou com o cenho crispado o cavaleiro.
— Isso! É a casa dele. Meus shinobi tem vida, sabia?! Yamoto não nasceu um shinobi. Ele era um pescador e depois...bom...porque a gente não faz assim...- sentou de frente a Saga. —...porque não conversamos sobre outra coisa?
Saga empalideceu. Ao mesmo tempo em que queria conversar com Kyoko sobre tudo o que tinha ocorrido e explicar o que estava acontecendo, também estava receoso, mas o receio não era pelas coisas que haviam acontecido ali e sim pelo passado que não gostava de encarar e que agora não teria mais jeito. Teria que contar a Kyoko tudo sobre seu passado sombrio. O passado dominado por Ares. O passado em que o anjo de gêmeos se tornou o demônio do santuário.
— Por onde quer começar? – ela perguntou ao notar o desconforto dele.
—Eu...não sei. Tem tanta coisa sobre mim que você não sabe, que...você não sabia. – passou a mão nos cabelos, um ato típico de nervosismo.
—Okay! Então...porque você não começa pela parte de você ter sido esterilizado?
Saga pareceu ter sido acertado pelo esquife de gelo de Camus ao ouvir a frase de Kyoko. Ficou completamente perplexo e em choque por saber de forma tão natural da parte dela o fato de não poder gerar filhos e mais ainda em saber que ela sabia daquilo quando ele nunca, em momento algum, tocou no assunto. Achava que aquilo um de seus, agora, maiores arrependimentos, iria magoar Kyoko demais. Ele sempre admirava o jeito como ela lidava com as crianças do santuário e em especial Luy. Ela o tratava com tanto carinho que Saga chegou a se questionar em como seria bom e incrível unir suas espécies. Kyoko era especial e ter um filho com ela seria um sonho. O herdeiro do cavaleiro de gêmeos seria um hibrido de youkai com humanos. Como será que ele nasceria? Como será que ele seria? Não sabia e nem gostava muito de pensar, pois lembrava-se de que por atitudes tolas na juventude jamais poderia ter e dar aquela alegria a ela e a nenhuma outra mulher no mundo.
— Saga?!
A voz de Kyoko despertou Saga de seus devaneios. Ele então respirou fundo criando coragem para desabafar a ela coisas que não queria, mas que eram necessárias.
—Eu fiz muita coisa das quais eu não me orgulho. – fez uma pausa — Eu sou um cavaleiro de ouro e quando se é um cavaleiro tudo se torna mais...acessível. As pessoas veem até nós sem a menor dor na consciência ou receio de algum de nós sermos...psicopatas. Eu me tornei cavaleiro muito cedo, ainda era uma criança. Enquanto outras crianças estavam brincando de bola ou soltando pipa, eu estava defendendo uma deusa, esperando para matar pessoas. Eu tinha quatorze anos na época, já era um cavaleiro a alguns anos, mas...só isso. Me dedicava de corpo e alma e muitas coisas que um jovem da minha idade aproveitava eu não queria perder meu tempo, mas não que não sentisse necessidades. Um dia, melhor, no dia do nosso aniversário, Kanon, meu irmão gêmeos, disse que tinha um presente especial para nós. Eu fiquei meio...receoso, mas ele era meu irmão e mesmo que brigássemos quase sempre e ele não fosse de boa índole, ele ainda assim era meu irmão. Não questionei e fui. Quando chegamos onde ele queria me levar, eu...fiquei sem saber como agir.
Saga ficou em silêncio. Não sabia se devia ou não prosseguir com aquela história horrível. Estava com medo da reação de Kyoko quando contasse a pior parte.
—O que tinha lá? – ela incentivou se aproximando mais.
—Era uma casa onde cinco mulheres nos esperavam. Eu fiquei em choque na hora. Não sabia como reagir, não sabia como me comportar, mas elas sabiam...e Kanon também. Pensei em sair dali, mas minha curiosidade e a maldita voz na minha cabeça não deixaram e quando dei por mim já estava na cama com elas.
—Uma orgia como presente de aniversário...criativo da parte de seu irmão.
—É...foi aí que meus problemas começaram a piorar ainda mais. – respirou fundo, estava na hora. — Depois de um mês e meio uma das mulheres que estavam naquele meio e que eu já nem lembrava mais quem era, veio até mim....
“—Eu estou grávida! – disse a mulher sorrindo. Saga ficou paralisado sem saber o que fazer.
—E o que meu irmão tem a ver com isso? – questionou Kanon se intrometendo na conversa.
—O quê?! O que tem a ver?! Tem a ver que ele é o pai do bebê que estou esperando.
Kanon começou a gargalhar. Era só o que faltava, uma vadia querer dar o golpe da barriga em um deles e lógico que seria no bobo do gêmeo bonzinho; Saga.
—Pensa que somos idiotas? Vir aqui com essa cara mais deslavadas dizendo que está grávida de um de nós?! Poupe-me vadia! Você deve estar cansada de dar por aí e vem aqui querer que meu irmão assuma um filho que não é dele?! – vociferou Kanon. Saga não sabia o que fazer.
— Uma mãe sempre sabe quem é o pai de seu filho e ele é sim o pai do meu bebê! — rebateu a mulher.
—Você é uma idiota! Você deu para nós dois, somos gêmeos univitelinos, idênticos. Você nem deve se lembrar quem estava comendo seu rabo, sua vadia desgraçada. Agora sai daqui antes que eu perca minha paciência.
A mulher sentindo-se humilhada e desesperada resolveu que a conversa ali não devia ser com Kanon e sim com o sensato e verdadeiro cavaleiro de gêmeos. Precisava convencer Saga de que aquele filho era realmente dele. Não iria andar por aí com uma barriga, sendo apontada como a mulher que o filho não tinha pai.
— Saga, você precisa acreditar em mim. Esse filho...- começou a mulher para a maior irritação de Kanon. Ele conhecia bem aquele tipinho e não deixaria uma vagabunda qualquer enganar seu irmão e estragar a vida que ele tanto tinha sonhado em ter. —...esse bebê dentro da minha barriga é nosso. Tem seu sangue, é nosso fi...
Uma pancada forte na cabeça calou os apelos da mulher. O sangue que saíra da dali espirrou no rosto do mais velho, manchando em gotas o rosto jovem e bonito. Saga ficou parado; os olhos arregalados, e as mãos tremulas sem acreditar no que seu irmão tinha feito, e pior em saber que vira o golpe e simplesmente não fez nada.
A mulher caiu a seus pés agonizando em meio ao sangue que sai de sua cabeça, o punho direito de Kanon tingido de carmesim ainda pingava.
O mais novo pegou um pano qualquer e limpou o sangue de suas mãos. Depois aproximou-se do corpo e usando do poder que tinha enviou o corpo morto da mulher e o que ela dizia ser seu sobrinho para uma dimensão que nunca nenhum deles saberia.
— Você a matou. – sussurrou Saga.
—Sim, matei e fiz isso por você. Agora, deixa de ser marica e vamos dar o fora daqui.
— Ela estava...grávida, Kanon...
O mais novo voltou da porta, segurando o braço de seu gêmeo e o puxando para si, mirando os olhos iguais ao seus com seriedade e frieza. Kanon era assim; frio, maldoso e impiedoso.
— Agora não está mais. ”
— Eu nunca soube se ela estava realmente grávida ou, se estivesse, se era um filho meu. Eu poderia ter impedido, mas não impedi. Eu vi o punho de Kanon ir em direção a ela, mas eu fiquei parado, olhando. Não fiz nada. – fez uma pausa respirando fundo. — Eu não consegui dormir naquela noite, então no dia seguinte Kanon teve uma ideia. A ideia da esterilização. Isso era uma coisa muito comum no santuário, cavaleiros e amazonas optam por esse método para não ter...fraquezas. Sem filhos, maridos ou esposas não se tem pontos fracos. Alguém que pagará por nossos atos. Eu não queria que aquilo acontecesse outra vez, não queria engravidar outra mulher e ela pagar por algo que eu tenha feito...então eu...fui.
—Seu...irmão também é estéreo? – Kyoko perguntou sem jeito.
—Sim! Eu, Kanon, Milo, Máscara da Morte e Shura. Nós optamos por isso. Nunca achei que viveria tanto tempo. Cavaleiro tem vida curta e a única coisa que se tem certeza é a morte em batalha. Kyoko, eu nunca imaginei que conheceria você. Nunca imaginei que teria a oportunidade de ter uma vida com alguém, que ganharia uma chance de ter uma vida relativamente normal com alguém. E também...a influência do meu outro “eu” contribuiu muito para essa minha decisão. Não queria perpetuar meus genes contaminado pelo mal.
Saga mal terminou de falar e o som de palmas vindo de um canto do quarto chamou a atenção dele e de Kyoko. O cavaleiro crispou o cenho, mas nada disse dessa vez. Ficou observando a sombra de Kyoko caminhar um pouco para a luz enquanto o aplaudia sarcasticamente. Era típico dele agir assim, não dava para esperar menos que aquilo.
— História im-pres-si-o-nan-te! Seu irmão é um lunático, um sádico incrível. – ironizou o shinobi.
—Não é mais. Kanon mudou, não é mais assim. Ele se arrependeu de seus crimes e hoje é outra pessoa. Athena o perdoou por tudo que ele fez. – rebateu irritado.
— Cheshire se você voltou para cá para irritar o Saga mais ainda, sugiro que saia e só volte quando eu chamar.
O shinobi sorriu se aproximando de ambos. O rosto jovem já não mais estava coberto pela máscara de raposa. Aquele era um acessório típico dos quatro quando não estavam no Norte.
—Sumimasen deshita (Perdão) Hime-sama! Eu não estou aqui para isso, na verdade eu...preciso conversar com ele...a sóis se me permite.
Kyoko estancou surpresa. Cheshire conversar com Saga e ainda mais a sóis não poderia dar em boa coisa, mas em contrapartida pensava que o shinobi devia sim uma explicação ao cavaleiro. Só não entendia porque tinha que ser sem sua presença.
Trocou um olhar curioso com o cavaleiro e depois com Cheshire. Este não tirava o sorriso meigo do rosto. Os cabelos lisos e negros caídos displicente por sua testa, as bochechas rosadas, o nariz fino dando um ar angelical a alguém que de anjo não tinha nada. A Kitsune não soube dizer o motivo, mas achou que devia sair dali. Levantou da cama sem dizer nada e do jeito que estava; nua em pelos. Caminhou pelo quarto e pegando algo para vestir, prendeu os longos cabelos em uma trança frouxa e saiu do quarto.
Saga continuou sentado por um tempo, depois se levantou e fez igualmente como Kyoko, pegando uma roupa comum dentro do armário e vestindo. Sua vontade era esganar aquele nojento, mas se havia algo maior que sua raiva era sua curiosidade sobre ele. Queria saber quem era Cheshire. Não conseguia parar de pensar sobre o que ele dissera antes de despertar o mal dentro de seu corpo.
—Você é Hiroaki. – disse Saga em toda sua imponência. — É você quem está causando toda essa situação comigo e com a Kyoko. Seu traidor.
—Posso ser o que você quiser meu caro e trair qualquer pessoa na terra, mas ir contra a vontade de Kyoko-sama vai muito além do que posso fazer. – respondeu
—Hã! Ta me dizendo que não pode traí-la é isso?! Faça-me rir seu estupido!
— Bom...sorrir eu não sei dizer, mas tenho certeza que essa conversa acabará com você chorando. – volveu o shinobi.
—Vai precisar de muito mais do que meia dúzia de mentiras para me fazer chorar. – devolveu o geminiano cruzando os braços.
Cheshire respirou fundo e sorriu. Fechou os olhos e depois se levantou. Atrás da poltrona uma porta de vidro dava acesso a uma bela e espaçosa sacada. Caminhou até ali e ficou observando o pátio da mansão de Yamoto. Vários youkais entravam e saiam, uns sozinhos e outros acompanhados, mas todos buscavam a mesma coisa ali: prazer. Estava escuro e a sombra de Kyoko pareceu mais sinistro do que naturalmente já era. Os olhos brilhavam como duas micros lâmpadas em meio a escuridão. Os olhos de gato que enxergavam perfeitamente a imagem de Saga na escuridão.
— Era uma vez um youkai muito poderoso, tão poderoso que ninguém ousava sequer olhar para ele. Seu nome era Hiroaki. Ele andava por ambos os mundos em busca de poder e conhecimento, pois acreditava que assim, somente assim as coisas faziam sentido. As pessoas mais fracas temiam os mais fortes e ele gostava disso. Um dia ele estava caminhando pelo mundo homens e parou em um riacho para matar sua sede, mas para sua surpresa e desgraça ele encontrou algo que jamais pensou que encontraria em qualquer lugar do mundo: Uma Kitsune rara, com um olho azul e outro âmbar. Uma mistura perfeita de duas raças que jamais haviam sequer se visto. Lá estava ela, Kyoko, caída naquele chão de pedras frio, ferida, tão cansada que o grande youkai pensou que ela não passaria daquela noite. Com zelo ele cuidou dela com suas próprias mãos. Com suas próprias mãos fez os remédios e preparou sua comida. Os dias se passaram, as noites também. Os dias viraram meses e meses viraram anos. Kyoko aos poucos voltava a se socializar e a se aproximar daquele que a salvou e a alimentou. Um dia ela estava caminhando pelos corredores do casarão dele e um homem humano, um político estava ali. Kyoko sentiu medo e o homem gostou daquilo. Ele tentou se aproximar, mas adivinha Saga. – fez uma pausa. Saga não respondeu. — Ela o matou. Uma mordida certeira na jugular fez jorrar o sangue imundo daquele homem por todo o ambiente. Foi então naquele dia que Hiroaki entendeu o porquê de Kyoko estar ali.
— Ele chegou a tocar nela? – perguntou o cavaleiro.
—Ahhh não! Hiroaki-sama jamais permitiria uma blasfêmia como essas.
—Então, ele ficou observando? Como um sádico?
— É claro! Hiroaki nunca soube explicar, mas parar de observar, parar de proteger a Kyoko era algo que ele simplesmente não conseguia deixar de fazer. Ele a mantinha por perto o tempo inteiro, protegendo-a, treinando-a e quando não podia, mandava que alguém fizesse, mas...nunca julgou alguém melhor do que ele mesmo para zelar por ela, então...foi aí que eu apareci. – falou abrindo os braços...
“ —Tenho uma surpresa para você. – falou Hiroaki.
—Para mim?
— Sim, e para quem mais seria se não você?! – Kyoko sorriu feliz.
Ele então pegou na mão direita dela e saiu caminhando até um outro quarto onde ela nunca havia estado. O lugar estava parcialmente escuro e um silêncio estranho a deixou ainda mais curiosa. Hiroaki sorriu, abrindo mais a porta para que ela pudesse entrar.
— Eu não estou vendo nada. – Kyoko retrucou curiosa.
E foi aí então que Hiroaki apontou para um canto mais afastado e do meio da escuridão um par de olhos azuis brilhantes surgiu, logo em seguida a silhueta de um jovem começou a ganhar forma. Kyoko sentiu seus lábios abrirem por vontade própria. Olhou para Hiroaki e depois de volta ao ponto de partida. Deu um único passo e depois outro. O par de olhos azuis então começou a se aproximar até chegar a luz e deixando enfim sua imagem aos olhos bicolores dela.
— Oi...- ela disse
—Oi...- ele respondeu receoso.
—Vem cá, eu não vou te machucar. Pode vir...- estendeu-lhe a mão.
O jovem então caminhou até ela, parando somente a alguns passos. Não soube dizer, mas algo dentro de si vibrou com uma sensação até então desconhecida. Uma sensação de euforia e vontade de tocar naquela mulher que fora demais para ele suportar. O sorriso de Kyoko era a coisa mais linda que já havia visto.
— O nome dele é Cheshire.
— Como o gato?
— Sim! — fez uma pausa — Não precisa ter medo dele, nem quando ele parecer diferente. Nunca irá machuca-la e sempre, sempre estará onde você estiver mesmo que não o veja. É só permitir e ele se unirá a sua sombra tornando-se um com você. – informou Hiroaki se aproximando de ambos.
—Ele tem seus olhos. – sussurrou Kyoko. — Meu Deus...ele é...você.
— Sim! Kyoko, eu quero mais do que tudo que você fique segura. Os guardas não têm condições de fazer sua segurança, eu não confio neles, então...eu decidi que ninguém melhor do que eu mesmo para cuidar de você.
— Você criou um clone?! – espantou-se a raposa.
— Hahahaha...não, Kyoko! Ele não é um clone é só...uma parte de mim. O ventríloquo o modelou a meu pedido, usando uma parte minha para dar vida a ele. Todo o cuidado que tenho por você, tudo que sinto está nele. – Hiroaki se aproximou do outro e tocou seu ombro. — Ele fará tudo que você mandar, não importa se é algo bom ou ruim, ele sempre estará com você...”
—Kyoko-sama foi a primeira coisa boa e bela que conheci, e se talvez não fosse por isso, você nem estaria aqui hoje, Saga. – completou.
—Imagino, teria me matado quando tivesse uma chance, já que o sangue dele corre em suas veias.
— Não! Eu o teria matado quando tive a chance. – fez uma pausa ao ver a interrogação nos olhos de Saga. — A muita coisa sobre mim, sobre a Kyoko que você desconhece, cavaleiro...
Cheshire então caminhou até o quarto e parou diante de Saga. Os olhos verdes e tenso dele não desviavam dos seus um segundo sequer. Era como se Saga estivesse esperando por algo que nem ele mesmo sabia o que, mas sabia que tinha que vir. E Cheshire sabia que um dia aquilo teria que vir. Aquela história que só ele sabia, a lembrança que só ele conhecia.
— ...e está mais do que na hora de você saber...- ergueu a mão em direção a ele. —...está na hora de você lembrar...
De repente Saga sentiu como se sua mente fosse tragada por um vortéx temporal, o sugando para o interior da mente de Cheshire. Fechou os olhos por puro instinto, mas os abriu assim que pode. Ficou paralisado, observando a nevoa cinzenta e um frio cortar sua pele. Olhou de um lado para o outro e não viu nada além de árvores gigantescas.
“Onde estou? ”, pensou olhando de um lado para o outro não conseguindo ouvir nada além de seu próprio coração e o som aterrorizante do silêncio. Que brincadeira de mal gosto agora Cheshire inventou para perturba-lo?!
Com cuidado caminhou alguns passos, mas não via nada além de neblina e árvores. E foi aí então que ele viu um vulto correr no meio delas. Por instinto correu atrás o mais rápido que pode. Seus olhos forçados ao máximo em ver o que ou quem era que estava correndo ali. Olhou para trás em um susto quando sentiu algo estranho vir bem atrás de si. Desviou um pouco o caminho, se embrenhando entre os troncos, mas sem perder a primeira aparição de vista. Não parecia um inimigo, mas sim alguém que fugia de outro alguém.
De repente a primeira silhueta parou atrás de uma grande árvore, se escondendo. Saga avançou sobre ele, mas paralisou ao se dar conta do que estava diante de seus olhos. Aquilo era um absurdo, uma ilusão não tinha outra explicação.
Encostado no tronco um menino de mais ou menos quatro anos se encolhia ali. Estava apavorado, tremendo mais que vara verde. Os olhos arregalados, a tez pálida e molhada de suor. Saga não conseguiu mover um músculo sequer nem quando sentiu a energia negra vir logo atrás de si. Virou em um rompante e viu nada mais, nada menos que um monstro, um youkai horrível caminhar em sua direção, mas o mais incrível era que ele não parecia lhe ver. O monstro de mais ou menos três metros de altura lembrava um lobisomem com garras e dentes tão grandes que poderiam dilacerar um búfalo.
—Onde você está pedacinho de bosta? – rosnou o Youkai farejando o ar.
O menino tapou a boca com ambas as mãos, suas pernas curtas já não lhe obedeciam e já não tinha mais forças para sequer fugir. Estava desesperado, iria morrer.
Saga se aproximou do menino e abaixou bem perto dele. Ele não o viu. Não podia ver. Olhou para o lado e viu o youkai se aproximar cada vez mais.
— Sai daí seu covarde. – sussurrou para o menino que não o ouviu, olhando novamente para o youkai.
Mas antes mesmo de Saga voltar ao ponto de partida alguma coisa extremamente rápida agarrou o pequeno no chão, o tirando dali e levando para outra árvore. O menino se batia tentando gritar, mas não conseguia. Saga ficou de pé nervoso. Não vira quem ou o que havia pegado o menino. Correu para onde ouviu os gemidos e quando viu o que estava acontecendo, paralisou pela milésima vez.
— Shiiiii...- ouviu-se dizer.
O menino parecia não ouvir, se batendo e tentando se libertar dos braços de quem não sabia ser. Estava apavorado e só pensava em sair dali urgente.
De pé diante daquela cena, Saga sentiu as pernas fraquejarem ao ver ninguém menos que Kyoko. Ela segurava o menino com uma das mãos pela cintura e com a outra tapava sua boca. Os olhos iluminados, miravam o youkai pelos cantos. Ela girou ao redor do tronco ficando atrás do monstrengo. Devagar usou a cauda para manter o corpo pequeno bem perto do seu e com a mão livre segurou o cabo da katana de Mythrill. Saga não conseguia acreditar no que estava diante de seus olhos. Era como ver um filme ao vivo e a cores.
— Se gritar a gente morre. – ela disse somente.
E com uma habilidade incrível, Kyoko girou o corpo, saindo detrás da árvore, girando a katana com uma só mão e acertando o pescoço do monstrengo. Ele nem tivera tempo de gritar e só soltou um resmungo quando a lâmina da espada dela saiu de sua garganta.
—Imundo!
Sem mais Kyoko deu um chute frontal, acertando em cheio a barriga do youkai e o fazendo cair de um penhasco. Caminhou devagar até lá e observou friamente as ondas do mar se chocarem contra o enorme paredão de pedras.
O menino ao ouvir a voz feminina abriu os olhos, dando de cara com o enorme penhasco. A primeira reação que conseguiu ter foi a de tentar um grito histérico, depois segurou a mão que tapava sua boca e dando uma bela mordida.
—Yaaaaaaiiiiiiii!!! – gritou Kyoko soltando ele. O menino caiu de bunda no chão e ela acabou sentando ali também. — Chikishooou!(Droga!!)
O menino abriu os olhos, ficando logo em pé e vendo enfim quem estava o segurando. Paralisou sem saber como reagir. Kyoko estava sentada no chão, segurando sua mão mordida enquanto resmungava em outra língua. O pequeno não conseguia parar de olhar. Ele nunca em toda sua vida tinha visto algo parecido com ela. E...o que era ela? Era tão...bonita.
—O que tá olhando imbecil?! – ela gruiu irritadíssima. Ele nada disse. Não conseguia. Kyoko ficou de pé. — Eu deveria ter deixado ele comer essa sua bundinha seca, seu mal-agradecido!
O menino continuou parado como um tronco, mudo e completamente sem ação. A raposa, no entanto, estranhou a atitude dele, mas nada disse. Ficou olhando para ele por alguns segundos e achou que ele não passava de um maltrapilho qualquer. Respirou fundo achando que já era hora de sair dali.
— Olha garoto, vê se não fica andando por aí sozinho no meio da mata, é perigoso...- começou a caminhar. —...da próxima vez eu não vou estar aqui para te salvar e ele vai comer a sua bunda com certeza.
A raposa caminhou por alguns metros, mas parou. Olhou para trás e o que não esperava aconteceu; o menino estava seguindo-a. Os olhos grandes e curiosos não paravam de olhar para os seus. Ela mordeu os lábios, mas nada disse. Deu as costas e voltou a caminhar. Imaginou que se continuasse seu caminho uma hora ele se cansaria e a deixaria em paz. Foi assim durante longos metros até ela se irritar. Parou outra vez bufando. Aquilo era realmente sério?!
—Será que não dá pra parar de me seguir?! – virou enfim. O menino nada disse. — O que é que você quer hein?! Eu não tenho comida aqui.
— Desculpe! – ele disse enfim.
—Nani! (O quê?!)
— Me...desculpe. Eu...eu...não queria machucar você. – resmungou o menino. — Sua...mão está...sangrando.
Kyoko olhou para a ferida.
— É...você me mordeu bem forte. Tem dentes de cavalo para um menino tão pequeno.
— Me perdoe. – pediu sem jeito.
O pequeno então se aproximou devagar. Estava receoso, mas estava muito mais curioso e por que não dizer...encantado?! Não queria dizer, mas de alguma maneira estranha ele simplesmente não queria que ela fosse embora tão rápido. Estava sentindo-se muito culpado pela ferida na mão dela. Havia a agredido quando ela havia lhe salvado. Tinha de haver algo que pudesse fizer para retribuir o gesto, e foi pensando nisso que ele agarrou uma parte de sua calça suja e rasgando uma tira de pano na altura da coxa. Com cuidado se aproximou dela e com jeito começou a enfaixar a ferida não mão dela.
Kyoko ficou em silêncio observando o gesto doce e o jeito carinhoso do pequeno. Sorriu achando graça daquilo. Era óbvio que ele ficaria curioso por conta de sua aparência. Todos ficavam, era normal. Agora imagina uma criança?!
Abaixou de frente a ele e sorriu. O pequeno estancou envergonhado, desviando os olhos verdes dos furinhos que moldavam o sorriso dela para o que fazia, dando um pequeno nó e um lacinho miúdo ali.
— Ficou ótimo. Obrigada!
— De...de...nada.
— Bom...agora que já estou medicada, preciso ir. Vê se cuida hein?!
Kyoko ficou de pé, dando as costas para ele, mas antes mesmo de terminar seu primeiro passo sentiu sua mão ser segurada com força e um grito pode ser ouvido ecoar por meio das árvores.
—Não!
Ela piscou algumas vezes. Agora era ela quem estava curiosa. Voltou a abaixar, mas nada disse.
— É qui...é...qui eu...- gaguejava o pequeno, não sabia dizer, muito menos expressar a necessidade estranha de querer que ela não fosse embora. Era como se se a deixasse ir ela nunca mais fosse voltar, nunca mais a veria.
A raposa sentiu dó dele. O jeito envergonhado e educado não era muito comum nas crianças. Sentia que ele queria dizer algo, mas ao mesmo tempo não queria. Entendia a curiosidade dele e por isso resolveu ceder.
—Você não sabe voltar pra casa? – sugeriu.
— É...sim. Eu...me...perdi. – mentiu o pequeno. Ela sorriu.
— Você mente mais mal do que eu, sabia?! – riu. O menino ficou ainda mais envergonhado. — Está bem eu vou com você até sua casa, mas antes disso vamos nos apresentar...- limpou a garganta ficando de joelho e da altura dele. Estendeu a mão. — Eu me chamo Kyoko e você, como se chama?
—Eu...eu me chamo Saga. – respondeu apertando a mão dela.
—Ora! Saga! Nome forte para um menino tão magrelo...
Kyoko sorriu ainda mais ficando de pé. Aquele sorriso que só ela sabia dar e que era impossível não se encantar. O menino enrubesceu como um pimentão se encolhendo.
— ...muito prazer, Saga...
Atrás dele a versão atual de Saga mal tinha forças para respirar diante daquela cena. Aquilo não podia ser real. Ele nunca tinha visto Kyoko na vida, se lembraria se tivesse visto. Era impossível esquecer dela, então como aquilo era possível?!
—...agora vamos, espero que na sua casa tenha comida. Eu tô morta de fome.
E assim saíram, deixando a versão atual de Saga sem saber como reagir a nova situação. Fora quase expulso da mente de Cheshire. O ar faltando nos pulmões em nervosismo total.
—Isso...isso...não é real! Eu...me lembraria, está tentando me enganar. – rosnou com ambas as mãos nos joelhos.
Cheshire continuou de pé. Como odiava aquela lembrança. Queria poder nunca ter visto aquilo, e ainda mais ter compactuado com aquilo.
— Maldito seja o dia em que ela conheceu você. Maldito dia em que ela salvou você. Você...sempre foi você. Você estava lá, construindo a desgraçada dela mesmo sem ter a intenção.
— Está mentindo, eu nunca a machucaria!!! – berrou furioso e pela fúria Saga avançou sobre o shinobi, agarrando em seu pescoço e sendo novamente tragado para as memórias dele.
E novamente Saga sentiu-se ser absorvido para a mente de Cheshire. Fechou os olhos como da primeira vez, mas quando os abriu não estava mais na floresta e sim em outro lugar: Sua antiga casa.
Tudo estava como era antes, tudo como quando era menino. Os carrinhos de madeira arrumados em uma prateleira envelhecida e descascada, o chão de pedra estava devidamente limpo e encerado. As duas camas pequenas, uma de cada lado do quarto arrumadas com cobertas azuis iguais, o tapete simples no chão, um cabideiro atrás da porta e uma escrivaninha gasta e tão envelhecida quanto o resto da madeira do lugar. Saga sorriu singelo, nostálgico; estava em seu quarto. O primeiro quarto que tivera na vida. O quarto que dividia com seu irmão.
O som da madeira da janela abrindo assustou Saga. Virou de uma só vez e vendo Kyoko saltar pela janela para dentro do quarto. Ela caminhou um pouco pelo ambiente observando tudo com curiosidade. Saga a rodeou, olhando o rosto dela e seus detalhes. Não tinha como duvidar, aquela era Kyoko. Mas...se aquela era Kyoko de verdade e aquela era sua casa, então...por que não conseguia lembrar daqueles acontecimentos? Aquelas eram as memorias de Cheshire, podiam ser só um truque, não é?!
E foi nessa hora que a versão criança de si mesmo saiu da parte escura do quarto. Não tinha visto ele ali, sentado no chão frio, sozinho, chorando. Kyoko sorriu de início, mas parou ao notar o semblante carregado do menino. Deu mais alguns passos e ajoelhou diante dele. O pequeno virou o rosto aborrecido. Não queria que ela o visse assim.
—Ei, o que houve? – Kyoko perguntou baixinho.
—Nada! O que você está fazendo aqui? – indagou irritado.
—Mas que pergunta é essa? – devolveu a Kitsune.
—Vai ficar respondendo com outra pergunta?
— Qual é o problema nisso? – ironizou.
— PARA!!!- berrou o menino, Kyoko se assustou. — Para de fazer isso, está sendo chata! Vai embora, sua chata! Eu não quero falar com ninguém agora...Sai da minha casa e não volta nunca mais!
A raposa ficou sem entender o motivo daquela mudança drástica de comportamento do pequeno Saga. Ele era sempre gentil e educado, e nunca havia agido de maneira diferente. As mãozinhas pequenas empurravam a Kitsune na tentativa de expulsá-la dali, mas Kyoko era muito forte e não estava disposta a ceder.
—Ei, ei, para com isso Saga! – ordenou tentando segurá-lo.
—Não! Sai daqui, vai embora! Eu quero ficar sozinho. – resmungou se batendo. Kyoko o segurou, puxando-o para o chão.
— Ei! Já chega! – falou séria, dando um sacolejo a fim de fazer o pequeno voltar a si. O menino parou de se bater, mas não olhou para Kyoko. — Olha para mim!
O pequeno não obedeceu, mantendo o rosto virado para o lado oposto ao de Kyoko. Sentado na cama a versão mais velha de Saga observava a cena sem ao menos piscar. Estava curioso e tenso com aquilo.
—Saga, olha para mim? – Kyoko sussurrou, levando uma das mãos ao rosto dele. —Olha para mim. Eu vim ver você do jeito que me pediu para fazer, me pediu para não o deixar e quando eu venho é assim que me trata?!
O pequeno engoliu a saliva com força, prendendo o choro na garganta. Devagar virou o rosto na direção dela, deixando que ela o visse. Kyoko empalideceu ao ver o hematoma no rosto infantil. O canto do lábio estava com um corte que ainda sangrava e ao redor do olho direito uma marca roxa marcava a pele.
—Eu...briguei com meu irmão. De novo. Ele me disse...disse que sou um fracote. Um...bebe chorão. – fungou começando a chorar. —Ele acha...acha que sou um idiota, que sou...um bobão por querer ser um cavaleiro bondoso que...que...protege as pessoas inocente...
— Ahhhh pequeno Saga, não fica assim. – puxou o menino para seus braços. Ele aceitou de bom grado, chorando forte no ombro dela.
—Eu não...não quero ser mal com as pessoas.
— Você não vai ser...
—Meu irmão me odeia, me odeia!
—Shiiii...não fala isso, ele não odeia você. Irmãos não se odeiam, por mais que briguem eu sei que no fundo seu irmão só quer o melhor para você. Agora não chora, vem eu vou cuidar de você.
A raposa pegou o pequeno Saga no colo e virou com ele em direção a cama. Saga levou um susto, se afastando para ela passar mesmo quando sabia que ela não o via. Por mais que não quisesse acreditar naquela história toda, naquele filme que Cheshire o obrigava a ver, ele não conseguiu ficar imune a cena. Ver Kyoko o acalentando e um de seus piores momentos era demais para conseguir suportar. Odiava brigar com seu irmão, sentia-se a pior das criaturas quando não suportava as provocações e acabavam trocando socos.
Seus olhos verdes embaçaram e uma lágrima solitária molhou seu rosto. Não sabia dizer o que mexia mais com seus sentimentos; a imagem diante de seus olhos ou o fato de não se lembrar delas.
Saga estava tão imerso em seus pensamentos que mal notou quando sua versão mirim havia pegado no sono. Kyoko levantou devagar, cobrindo o menino e lhe dando um beijo na testa.
E como já era de se esperar e ao mesmo tempo não esperar, das sombras Cheshire surgiu, caminhando sorrateiro até próximo dela.
— Hiroaki-sama não vai gostar de saber disso. – informou o shinobi inexpressivo.
— Ele não saberá se você não contar. – rebateu a raposa se afastando do menino. — E eu sei que você não vai contar.
— Não é seguro. Hime-sama ele não é Akira...
—Eu sei que ele não Akira.
—Os humanos não são confiáveis.
—Ele é só um menino!
— Ele é um menino agora, mas crescerá e se tornará um homem!
—Se tornará um homem, sim! Um homem bom, um homem honesto. – Kyoko quase berrou, gesticulando.
—Hime-sama, eu não posso deixar você correr esse risco. – informou o shinobi.
—Não ouse me desobedecer. Eu o proíbo de machuca-lo...
—Não posso correr esse risco...
— É uma ordem! – ditou Kyoko.
Os olhos de Cheshire brilharam e seu semblante acalmou. Saga ficou estático, observando a discussão dos dois. O shinobi ajoelhou diante de Kyoko e de maneira robótica respondeu:
—Hai! Hime-Sama!
—Ótimo! Agora vamos embora. Já estou tempo demais aqui.
A raposa girou nos calcanhares e sua imagem e todo o ambiente começou a se desfazer como fumaça. Saga começou a olhar por todos os lados, vendo a mudança drástica de situação. Olhou de um lado para o outro, tentando reconhecer aquele lugar. Não! Ele não conhecia aquele lugar. Mas...não conhecia ou não lembrava? Eis uma boa questão.
Vários youkais começaram a surgir, caminhando e passando por sua imagem sem se dar conta de que realmente estava ali. Ouviu uma voz grave e muito, muito fria e imponente, tão imponente quanto a sua perguntar por Kyoko. Saga caminhou um pouco, abrindo uma porta de correr, chegando a uma ampla sala onde no fundo dela um youkai estava de joelhos diante de alguém.
— Ela não apareceu para a reunião. – disse o dono da voz.
—Kyoko-sama tem andando de um mundo a outro com frequência, meu senhor! Mas como bem sabes, rastreá-la quando assim não deseja é quase impossível.
O homem não disse nada, mas era notório que ele a sua desconfiança. Novamente as imagens se misturaram, formando um novo lugar e dando forma novamente a Kyoko. Ela saltou sobre uma pedra, escorregando até tocar o chão gramado. Ali, bem ali atrás da pedra o pequeno Saga chorava como nunca, andando de um lado para o outro sem saber o que fazer. Estava desesperado.
— Owuuu...desse jeito vai fazer um buraco no chão, pequeno. – ela se pronunciou. O pequeno levou um susto.
— Kyoko! – falou se jogando nos braços dela.
— Saga, o que houve? Você...está tremendo. Meu Deus! O que houve?
—Kyoko, me ajuda, por favor, o meu irmão, meu irmão ele está muito doente. Por favor, me ajuda. – pediu o pequeno.
O silêncio aumentou de forma extrema a tensão ali. O Saga mais velho, que até então observava a cena, lembrou daquele caso, mas não com clareza. Lembrava-se que Kanon havia ficado muito doente, mas não lembrava como e nem quando ele havia melhorado.
— Ta bom, vem.
Kyoko agarrou na mão pequena do menino e saiu correndo com ele em direção a casa dele. Saga não hesitou; saiu correndo o máximo que pode atrás deles. Algo lhe dizia que aquilo não acabaria bem. Não tinha boas recordações daquela ocasião mesmo que Kyoko não fizesse parte delas. Agora, sabendo que ela realmente estava ali começava a acreditar que as coisas tinham sido milhares de vezes pior do que se lembrava.
Entrando na casa, seguiram direto para o quarto em silencio. Julieta havia ido até a cidade atrás de um médico que pudesse ajudar Kanon. Kyoko empalideceu ao ver Kanon praticamente agonizar na cama. O menino era a cópia perfeita do pequeno Saga o que a deixava ainda mais tocada com seu estado.
— Kanon, por favor, não morra! – pediu o pequeno. — Kyoko, por favor, ajuda ele. Eu não quero que meu irmão morra. Por favor, Kyoko não deixa meu irmão morrer. – implorou puxando-a pela mão.
— Tudo bem! Tudo bem, calma ta bom?! Fica calmo, seu irmão não vai morrer. – Apaziguo a Kitsune
Saga engoliu em seco já imaginando o que Kyoko teria que fazer para ajudar Kanon, e para sua maior surpresa não errou. Ela sentou ao lado do futuro marina na cama, tomando o corpo abatido nos braços e cobrindo a boca pequena com a sua, forçando o gêmeo mais novo a engolir de sua saliva até quando julgou suficiente, libertando ele enfim e o colocando de volta na cama.
O pequeno Saga somente observava muito aflito. Não fazia a menor ideia do que Kyoko estava fazendo, mas mesmo assim não deixava de acreditar que seu irmão ficaria bem, que a raposa salvaria seu irmão.
E como era de se esperar a respiração pesada de Kanon começou a normalizar e a febre a baixar, a vermelhidão da pele deixando-o e voltando a cor normal. O pequeno mais velho sorriu feliz e correu para ver seu igual. Ele já não mais parecia doente e sim muito cansado. Kanon não abriu os olhos nem por um segundo e seu gêmeozinho achou melhor deixar ele como estava.
—Pronto! Acho que agora ele vai ficar bem. Deixa ele dormir, não o acorde, está bem?! — instruiu a raposa. O pequeno meneou a cabeça positivamente.
Ao saber que o irmão não corria mais perigo, o pequeno Saga não conseguiu conter a alegria que sentia. Kyoko era um anjo, não tinha outra explicação. Ela disse ser uma youkai, mas ele não conseguia vê-la assim. Kyoko não era um monstro; nunca foi; nunca seria. O pequeno se jogou nos braços dela, agarrando sua cintura com força. Não era muito adepto a gestos de carinho, tinha sido ensinado assim, mas quando o assunto era aquela raposa o menino não sabia explica porque seu coração batia tão forte. Kyoko era com toda certeza um presente enviado pelos deuses.
—Obrigado, Kyoko!
Ela sorriu, achando graça do jeito tímido e exageradamente educado dele. Agiu como era de seu feitio; abraçou o pequeno também e acariciou seus cabelos macios e finos. Mas para o desespero de ambos os Sagas o gesto não durou. O ato de curar Kanon exigiu muito do corpo dela, tirando o fato da energia gasta em ir e vir de um mundo a outro. A raposa sentiu as pernas fraquejarem e acabou por cair sentada no chão. O Saga mais velho, por instinto, correu para tentar segura-la, mas seus braços transpassaram o corpo dela como se ele fosse feito de areia. O menor caiu sentado também sentindo seu coraçãozinho doer de desespero.
O que estava acontecendo com ela? Será que Kyoko estava doente também e não sabia?
— Kyoko! Kyoko!- chamou o menino, mas a raposa não respondia. — Kyoko, por favor, acorda!
Pedia o pequeno já começando a chorar, sacudindo o corpo dela com força, mas ela não dava sinal de vida para o maior desespero do Saga mais velho. Ficar em pé ali no meio daquela situação só como telespectador era angustiante.
— Vai chamar ajuda seu idiota! — berrou o mais velho, inútil. Sabia que seu eu menor não podia ouvir.
Mas como quem estava ali era sua versão miniatura, não era possível que pensariam tão diferentes assim. O pequeno ficou de pé e quando virou para correr e buscar ajuda a mão possessiva de Kyoko agarrou seu braço com força, dando um puta susto em ambos os Sagas. O menor quase gritou e o mais velho quase desmaiou.
— Nem pense em fazer isso seu moleque. — Kyoko resmungou suspirando.
—Kyoko...eu...eu...eu pensei que você tinha morrido. — volveu. Ela sorriu.
— E morrer assim tão facilmente?! — fez uma pausa. — Eu só preciso dormir um pouquinho, tá?! Vai, me ajuda a levar.
O Saguinha fez como lhe foi pedido, ajudando a kitsune a deitar na cama. Kyoko deixou o corpo cair de lado, ficando assim de frente para ele. O menino abaixou um pouco, ficando bem perto do rosto dela. Estava muito preocupado.
Um trovão explodiu no céu, iluminando tudo ao redor e fazendo a luz elétrica cessar. Ele não se moveu, olhando o rosto bonito e cansado de Kyoko, os olhos sonolentos piscando devagar, balançando os cílios longos como uma caríssima leve. O pequeno puxou um banquinho de madeira e sentou ali, puxando o objeto para o mais perto dela possível.
Devagar segurou a mão macia, sentindo e gostando da textura da pele. Kyoko parecia tão frágil daquele jeito que o pequeno Saga só conseguia pensar em uma coisa:
— Pode dormir, eu não vou deixar ninguém te fazer mal. Eu vou te proteger.- sussurrou.
—Ah vai é?! Com essas perninhas curtas?! — zombou sorrindo e bocejando.
—Minhas pernas não são tão curtas, eu só tenho quatro anos. Quando eu ficar mais velho eu vou ser um grande cavaleiro, corajoso e muito, muito forte. Eu vou ficar alto e terei pernas fortes e você vai se arrepender de ter dito isso.
— Hummm...falando desse jeito não tenho...- bocejou. —...porque duvidar.
Kyoko se acomodou melhor na cama, encolhendo as pernas e apoiando a mão no travesseiro. O menino levantou rápido, pegando uma coberta ao imaginar que ela se encolheu por sentir frio. Com carinho cobriu a raposa e voltou a se sentar, admirando-se e segurando a mão dela outra vez.
Ficaram assim por alguns segundos. Mas só por alguns segundos:
—Kyoko...
—Hum...
—Você está dormindo?
—Estava...
(Silêncio)
—Kyoko...
— Hummmm...
—Quando eu crescer, fica comigo? – resmungou bem próximo do rosto dela.
Kyoko sorriu da pergunta inocente daquele menino tão doce e bondoso. Ela não sabia dizer até quando aquela amizade poderia durar, mas pensava que podia durar para sempre. O Saga mais velho arfou emocionando-se com a cena, aquilo não era possível. Ele se lembraria se fosse real. Era marcante demais tudo aquilo e impossível esquecer, então porque não lembrava? E Kyoko?! Ela nunca havia lhe dito nada. Por quê? O que Cheshire queria com aquilo tudo? Se sua intenção era lhe afastar mais ainda de Kyoko, com certeza aquela não estava sendo a forma mais eficaz.
O sorriso meigo dela se abriu mais e com carinho segurou o nariz do menor, arrancando um sorriso dele.
—Danadinho! – suspirou.
— Sim?!
—Volte a me fazer essa pergunta quando tiver pelos pubianos, okay?!
Saga não aguentou e mesmo emocionado sorriu. Sorriu da resposta típica dela e da cara de inocente que seu eu menor fez. Com toda certeza ele não fazia a menor ideia do que aquela frase significava, mas mesmo assim ele não questionou. Deixá-la-ia descansar conforme havia pedido.
Ela então fechou os olhos e o sono forte a pegou de vez. O menino acabou por não aguentar o cansaço e o som forte da chuva torrencial que caia do lado de fora. O Saga mais velho, caminhou até próximo deles e ficou ali, parado observando-se dormir enquanto segurava a mão dela. Um vento frio invadiu o ambiente o cavaleiro de gêmeos sentiu-se arrepiar. Ficou de pé olhando ao redor e nada vendo. Um relâmpago gigantesco iluminou todo o quarto e o que finalmente viu fez Saga engolir em seco.
No canto mais escuro um par de olhos azuis observava a cena, mas diferente de si ele não parecia se agradar daquilo. O homem caminhou para mais perto e finalmente deixando a luz de um novo relâmpago revelar sua verdadeira forma.
— Hiroaki...- sussurrou Saga.
O inugami parou quando achou que já era suficiente e seus olhos mudaram de cor, um brilho verde tomou toda a íris antes azul e várias rugas se formaram entre as sobrancelhas. O olhar de repulsa e insatisfação com a cena fizera o estômago do youkai embrulhar. Aquilo era um absurdo! Então era para isso que Kyoko estava vindo no mundo dos humanos? Para se...socializar com um pequeno ratinho?!
Saga caminhou para o lado sem ao menos piscar. Aquela era a primeira vez que via o inugami e numa situação como aquela a tensão era ainda pior. O jeito macabro como ele os olhava era tão claro quanto água que tinha odiado saber daquela informação.
Só desviou o olhar da figura imponente quando ele também assim o fez, olhando para a cabeceira da cama onde uma cadeira estava ali. Nela Cheshire estava sentado na mesma pose de quando estava no mundo real dentro do quarto; as pernas cruzadas e com um baralho de cartas nas mãos.
— Você sabia...- rosnou Hiroaki. — Não me contou.
—Não, não contei. – respondeu o outro.
—Por quê?
Uma carta com o naipe de copas surgiu entre os dedos do shinobi e um sorriso malicioso foi levemente encoberto pela carta. Nela podia ver-se a imagem da rainha desenhada.
—Por que não fui feito para obedecer a você, ou se esqueceu disso?! Mas ora Hiroaki-sama porque está tão preocupado?
A mão direita de Hiroaki tremeu e uma bola pequena de energia começou a rodar ali; ela era branca mista de amarelo. Saga empalideceu, mas não saiu do lugar. Sabia que não podia fazer nada a não ser observar o que era aterrorizante.
—Afinal...
Hiroaki levantou a mão.
—...ele é só um menino. – completou Cheshire ainda sorrindo.
—Um menino que irá crescer e se tornar um homem. – respondeu entre os dentes.
Cheshire fechou os olhos já antevendo o que aconteceria ali, e para sua surpresa não errou. A mão carregada pela energia desceu com tudo que tinha, mirando na cabeça do pequeno. O Saga mais velho gritou desesperado, mas mais desesperado ainda ficou quando viu onde a mão de Hiroaki acertou.
O golpe certeiro com toda certeza arrancaria a cabeça dele, mas não foi bem assim. No último segundo Kyoko acordou e quando levantou acabou por entrar na frente mesmo sem ter a real intenção. O golpe fora tão forte que atravessou o peito de Kyoko e acertou a cabeça do pequeno Saga. O menino voou para longe, caindo no chão com a cabeça ensanguentada enquanto Kyoko rolou da cama e caiu no chão já inconsciente. Hiroaki paralisou. Não era para ter acertado em Kyoko e sim só no menino, mas não foi bem assim. Um buraco enorme arrombou o peito dela, acertando uma parte do coração. Hiroaki abaixou já começando a se desesperar. Onde Kyoko estava com a cabeça para entrar na frente de um golpe assim?!
Cheshire levantou de onde estava sentindo o coração bater na goela só de imaginar ela não suportar aquilo.
Hiroaki pegou a raposa no colo e verificando que ela ainda respirava. Olhou para o lado e viu que a cabeça do pequeno Saga sangrava, mas ainda estava no lugar. Rosnou furioso, mas quando tencionou a terminar o serviço lembrou-se de que não tinha tempo para aquilo. Se demorasse Kyoko iria morrer de tanto sangrar.
— Ele ainda está respirando. – disse Cheshire observando o pequeno no chão. Os olhos arregalados, vidrados na cena.
—Então certifique-se de que esses serão os últimos suspiros dele. Traga a cabeça dele para mim. – ordenou entre os dentes, dando as costas e sumindo na escuridão com o corpo inerte de Kyoko.
Saga tremeu diante da fisionomia bizarra do shinobi de Kyoko. A mão direita dele estava suja com seu sangue e ele então colocou a mesma sobre o lado direito da própria face, sujando o rosto jovem com o líquido carmesim que manchava todo o chão. Os olhos vidrados dele, envoltos a olheiras negras deixavam tudo ainda mais aterrorizante do que normalmente seria. Saga sentindo o coração na goela, ansioso e perplexo com tudo aquilo e ficou ainda mais com o que veio a seguir.
Cheshire sorriu e uma kunai surgiu na sua mão esquerda, o sorriso macabro de quem parecia satisfeito demais em ter alguém tão inocente assim a seus pés. Era como se ele gostasse do que via e não se importava se o pequeno ainda sangrava e morreria se continuasse assim. Ele então apoiou a mão suja de sangue no chão e seu sorriso se abriu mais, levantou o rosto e mirou o menino no chão dizendo enfim:
—Eu prometo que vai ser rápido.
Saga fechou os olhos e depois abriu rápido. Sua boca abriu por perplexidade com tudo aquilo. Na mão do shinobi, em meio ao sangue de sua versão mirim o dedo mindinho de Cheshire se moveu ainda espasmando. Caminhou um pouco colocando o dedo amputado no bolso e pegando o corpo do menino no colo. Sem mais saiu pela janela e de forma estupidamente misteriosa o quarto tornou-se limpo outra vez.
O geminiano saiu correndo como um louco, seguindo atrás daquele shinobi maluco. Parou quando o viu diante do mesmo penhasco onde havia visto Kyoko pela primeira vez. Cheshire então pulou dali, caindo no chão com uma força brutal. As ondas do mar quebrando nas pedras com violência, os trovões iluminando tudo ao redor como os berros indignados de Zeus diante daquela cena. Com cuidado deitou o corpo do menino em uma pedra se certificando de que ficaria visível e que as águas do mar não o levariam. Observou-o por alguns segundos e sorriu outra vez.
Ahhh...o que não fazia por sua Hime-sama.
Não quer ver anúncios?
Com uma contribuição de R$29,90 você deixa de ver anúncios no +Fiction durante 1 ano, além de outros benefícios.
Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!Um trovão fortíssimo assustou Saga e quando ele se deu conta Cheshire já não estava mais ali. E agora sim, agora sim tudo em sua vida começava a fazer sentido. Um desespero cresceu violentamente dentro de si, suas pernas fraquejaram e ele então caiu de joelhos. As lembranças daquele dia fazendo agora todo sentindo em sua vida. Ele nunca soube como e nem como havia caído daquele penhasco quando criança e isso fora o que desgraçou sua vida. Disseram-lhe que havia caído enquanto procurava por ajuda para seu irmão doente, mas não foi bem assim. E depois de passar um mês em coma no hospital as vozes passaram a ser frequentes em sua mente e só pioraram com a ajuda de Kanon. A imagem de Kyoko e todas as lembranças que tinha dela foram aniquiladas pelo golpe covarde de Hiroaki. Era como se tudo aquilo de ruim que tivesse passado, tudo em sua vida fosse o preço que pagou pelo amor gratuito que recebeu dela enquanto era só um menino. Ares fora o castigo dado a si por Hiroaki por ter sido um dos únicos humanos a ter a audácia de roubar o amor dela quando este deveria ser somente seu.
Um grito altíssimo explodiu na garganta de Saga e ele finalmente tombou de joelhos, saindo da mente de Cheshire e voltando a realidade. As lágrimas saindo em abundância de dentro de seu amago, expulsando toda revolta e dor de tudo aquilo. Saber que se não fosse por ela, ele não estaria ali e se não fosse pelo amor dela Cheshire não o teria salvado.
O shinobi ficou observando o grande homem que o pequeno havia se tornado, o grande cavaleiro de ouro de Gêmeos, assim como disse que seria, retroceder no tempo, chorando como seu lado menino teria chorado ao perder sua grande amiga, seu grande amor. E como havia dito, tudo acabou com Saga chorando no chão frio.
Continua...
Fale com o autor