Uma estranha no ninho - Vol. I
10 Uma estranha posição.
Notas iniciais

A noite estava chuvosa. O vento forte impondo sua autoridade sob os galhos das árvores, forçando-as sem o menor perdão a travarem uma guerra entre si, chicoteando uma as outras com violência. O assovio do vento era como um grito de guerra dando ainda mais força a tempestade tendo somente os poderosos relâmpagos a se atrever a desafiá-lo, rasgando o céu avermelhado em vergões gigantescos e iluminando o Makai em cada explosão.
Os pequenos criados tremiam de medo enquanto caminhavam pelos corredores escuros do casarão, fechando as janelas, na tentativa de manter as velas acesas e o local não tão escuro... Mas o som vindo do fundo do corredor era o verdadeiro motivo que fazia aqueles serviçais tremerem. Todos conheciam muito bem e era exatamente por isso que o temiam e respeitavam tal como um deus.
O inugami gingava de um lado para o outro, para frente e para trás, comandando a melodia de sua masamune* cortando o ar com precisão e firmeza. O suor escorrendo por suas têmporas, molhando o rosto andrógeno e perfeito, os cabelos negros e compridos, presos em uma trança trouxa deixando somente alguns fios colados ao peitoral e as costas largas. Os pés descalços sapateavam o tatame em sincronia com os movimentos impostos a aquela espada tão peculiar. A seriedade e imponência era a marca registrada daquele youkai. Todos no Makai o conheciam, e aqueles que temiam por suas vidas sabiam que em seu caminho até as pedras e o próprio chão se curvavam diante dele...menos ela.
E era isso que a tornava tão especial.
“Lamentável.” – Mas um corte. “Depois de tudo que fiz por você?”— Outro e mais outro. A espada fora erguida para logo em seguida descer rápido e precisa, fazendo o som agudo da lâmina cortando o ar novamente correr pelos corredores.
Um pequeno serviçal tremeu de medo com o gesto e sem conseguir se conter voltou as presas, deixando o cômodo na mesma escuridão sem ter coragem suficiente para encarar o inugami ali presente. Isso era muito comum, mas para uns os efeitos daquela cena eram completamente diferentes. Ele era lindo, altivo e imponente. O cheiro másculo mesclado com o suor e a possessividade ao qual empunhava aquela espada fazia seu baixo ventre formigar de excitação.
Sorriu devassa. Ele sempre lhe causava aquele efeito e isso nunca mudaria.
— Deixa-me adivinhar: pelo jeito que está segurando a espada, presumo que esteja se sentindo sozinho. – Ela disse caminhando sexy na direção do youkai. — Até porque era sempre ela quem estava aqui com você lhe fazendo...companhia.
Tocou com o indicador a ponta da grande espada, deslizando devagar toda a extensão, alcançando as mãos do inugami até seu peitoral, deslizando as mãos até o pescoço e quando se aproximou para tomar-lhe a boca ele se afastou.
— Não há ninguém aqui capaz de substituí-la. – Ele ditou. A voz baixa e sexy.
Ela bufou. — É eu sei. Você já disse isso milhares de vezes e mesmo assim eu não consigo entender essa sua fixação por aquela traidora. Ela diz não a você a mais de duzentos anos e você ainda insiste. Por que não a deixa de uma vez Hiroaki-sama?
— Porque eu não quero! – Fez uma pausa. — Ela é única, sabe disso. Kyoko é...especial e é por isso que a maior parte da pedra foi designada a ela. — Hiroaki estendeu sua masamune, encostando a ponta da lâmina no pescoço de Naomi. Ela fechou o semblante.
— Ninguém pode substituir a minha Kyoko...
Dois anos antes....
A seriedade em seu rosto era assustadora, as sobrancelhas arqueadas, quase unidas em seu semblante tão conhecido e temido. O canino esquerdo levemente a mostra sobre os lábios carnudos.
Ele sorriu: — Eu amo quando esse semblante toma conta de você, fica ainda mais linda.
Kyoko uniu as mãos no cabo talhado de sua arma mais mortal, encostando a mesma em seu peitoral. Caminhou como um felino em meio à penumbra, dividindo sua face pela lâmina diante de si. O reflexo das pequenas chamas destacando seus olhos dourados como uma caçadora a rodear sua presa.
O assobio do vento fez Hiroaki ficar em alerta, erguendo sua masamune em defesa e ataque. Estava na hora...
...E sem aviso e com mais força do que o comum, naquela noite o vento empurrou as janelas, forçando-as contra a parede no momento de sua invasão, fazendo as chamas dançarem até por fim se apagarem deixando tudo na escuridão.
E se não fosse pela madeira Hiroaki não saberia dizer onde Kyoko estava. As espadas se encontraram, cintilando e iluminando em volta com um show de faíscas no encontrar das lâminas. A velocidade e habilidade eram praticamente iguais, a força e agilidade também, os movimentos dos corpos dançando juntos naquela valsa perigosa e mortal em meio à escuridão. O som das respirações se mesclando aos kiais*e o tilintar das lâminas tão afiadas que eram capazes de partir um homem ao meio como uma faca a cortar manteiga.
Hiroaki ergueu sua masamune com uma única mão defendendo mais um dos golpes que dessa vez veio em direção ao pescoço.
Sorriu novamente. Ela era sempre assim: rápida, precisa e mortal. Kyoko sempre lutava para matar, mesmo em treinamentos. Já havia perdido as contas de quantas cabeças a raposa havia levado como troféu em sessões como aquelas. Não era à-toa que sua admiração por ela chegava quase à veneração. De todos, ela sempre foi a melhor, afinal ele a havia treinado muito bem.
O mestre empurrou a discípula com força, fazendo-a rodopiar no ar e cair no chão como um tigre, apoiando sua katana estrategicamente no antebraço. Hiroaki já sabia o que estava por vir. Ele conhecia aquela raposa melhor do que ninguém e foi exatamente por isso que, sem demora ergueu sua espada até o alto de sua cabeça, ouvindo o kiai* de Kyoko sobrepujar o som do vento, ecoando pelos corredores junto com o berro das lâminas se chocando, deixando os rostos tão próximos que pode sentir o hálito quente dela batendo contra o seu, as íris douradas perfurando os verdes luminosos seus de forma tão ameaçadora que faria tremer qualquer youkai do Makai. Mas não ele. Ele sentia prazer e excitação quase sexual sempre que via aqueles olhos.
Os olhos assassinos de Kyoko Asano.
—Você está melhor a cada dia, Kyoko.
Ela a princípio nada disse, tampouco se moveu. Seus olhos assassinos presos nos do outro, a franja colada na testa e na bochecha, o sangue manchava a pele alva, tingindo também a lâmina de Hiroaki. Ele sorriu quando foi pego pelo ardor em seu abdômen onde o líquido carmesim manchava seu hakama*.
— A única coisa que falta em você é aceitar meu pedido de casamento.
Kyoko piscou algumas vezes como que despertasse de um transe, afastando a espada e dando as costas. Bufou.
— Lá vem você outra vez. — Hiroaki deu uma risada anasalada de desdenho.
As velas misteriosamente se acenderam revelando o rosto corado e suado de Kyoko e de Hiroaki. A raposa caminhou um pouco até alcançar a bainha de sua espada que jazia jogada em um canto qualquer.
—Já não é suficiente o que tem de mim?
— Não gosto de migalhas.
—Se você acha que o fato de ocupar minha cama quase todas as noites é migalha, então se sinta livre para cair na cama de Naomi. Sei que ela está louca para abrir as pernas para você, aliais, eu acredito que não exista ninguém aqui que não saiba disso.
— A única coisa que eu quero é que o Makai inteiro saiba que você pertence a mim. – Kyoko gargalhou.
— Eu? Pertencer a você?! Possessivo. – Desdenhou sentindo os braços dele envolver sua cintura.
— Case-se comigo, Kyoko?
— Hiroaki eu já disse que não vou me casar com você e nem com ninguém. Desista disso.
— Eu não vou desistir de você nunca. – Sussurrou. — Imagine, nós juntos seríamos invencíveis Kyoko, acabaríamos com essa farsa e...
— Chega! – Ela se libertou dos braços fortes, se afastando com o semblante irritado. — Eu já falei para você que eu não vou compactuar com isso. – Vociferou.
— Será que você não entende que o que eu quero é o melhor para nós? – Inquiriu ríspido.
—Não! Você quer o melhor para você. Eu já falei que não vou ser responsável pela extinção de uma raça inteira só porque você acha que isso é a melhor coisa a se fazer. – Kyoko devolveu no mesmo tom.
— Por que Kyoko? Por que mesmo depois de tudo você ainda teima em manter a ordem e tudo do mesmo jeito? Por que defender essa raça imunda que usou e abusou de você por tantos anos?
— Porque é minha obrigação! – Urrou em resposta. Hiroaki cravou as unhas longas na palma das mãos sentindo-se irritar com aquilo. Já estava perdendo a paciência. Adorava a kitsune, mas sua paciência tinha limites e esta já estava por um fio .— Eu não ganhei ambos por ganhar Hiroaki, eu ganhei para uma finalidade e eu prometi...prometi seguir com o legado dele e você também!
— Eles são maus, gananciosos, orgulhosos e egoístas. Não tem nenhum respeito pela vida e a tratam como lixo. Sacrificam suas crianças e matam seus próprios filhos, enquanto olham para nós como se fôssemos estrume quando na verdade eles são a fraqueza e a desgraça do mundo. Apenas gado Kyoko ...e nada mais. – O inugami se aproximou imponente, cobrindo o corpo de Kyoko com a sombra do seu, mas mesmo assim ela não se intimidou, mantendo o olhar firme preso nos olhos faiscantes dele. —Estou cansado deles, cansado de manter essa farsa. Não quero mais proteger algo que para mim não tem valor, eu quero liberdade.
— Busque sua liberdade como quiser, mas só não me tire por você. Não me envolva no seu planinho sujo e covarde. – A kitsune deu as costas para o mestre caminhando devagar até a porta. — Advirto Hiroaki para o nosso bem que é melhor não tocar mais nesse assunto até porque eu não quero me indispor mais ainda com você.
— Kyoko...
— Oyasumi(boa noite) Hiroaki-sama. – Ela saiu sem olhar para trás.
O inugami fechou os olhos sem acreditar que ela havia lhe negado outra vez. Estava farto de sempre ouvir não. Ela era a única a se atrever e mesmo assim ele a prezava e a adorava como a um deus mesmo com seu comportamento rebelde, ingrato e egoísta. Será que ela nunca enxergaria que o que queria era o melhor para seu povo? O melhor para o Makai? Dos quatro ela era a única que ainda se negava a acabar com aquele acordo ridículo que para ele, só beneficiava os humanos.
— Está satisfeito agora? – A voz sexy de Naomi tirou o inugami de seus devaneios. — O que mais ela terá que lhe dizer para que você entenda que ela não irá cooperar?
— Estou as suas ordens mestre. – Yukio surgiu em meio às sombras, deixando sua língua bifurcada tocar toda a extensão dos lábios negros.
Hiroaki respirou fundo, fechando os olhos com pesar. No fundo não queria aquilo, mas já estava cansado de insistir e se tentar de forma pacífica a convencer Kyoko de que o que queria era para o bem de todos, então ela teria que aprender da pior maneira.
— Ninguém irá substituí-la nunca. Você melhor que ninguém sabe o porquê. — Afirmou com toda sua imponência.
— Faz o que...dois anos? – Naomi perguntou colocando o quimono sobre os ombros de Hiroaki.
— Para mim parece que faz muito mais. – Fez uma pausa ficando de frente para a mulher. – Espero que tenha vindo até aqui para me dar boas notícias
— Bom...tenho que ser sincera eu...tenho duas notícias... A primeira é que sim, eu a encontrei... — Naomi sorriu, caminhando e sentando-se em uma das únicas cadeiras sobreviventes do lugar. — Já a segunda é que nossa amada Kyoko se misturou com os porcos humanos. Doze porquinhos...humanos.
Hiroaki fechou ainda mais o semblante, seus olhos perfurando todo o corpo da youkai que não se abalou. Ja estava acostumada.
— Que ela estava no mundo deles isso todo mundo já sabia, mas tenho que admitir, ela é bem mais esperta do que imaginei. – Levantou. — Acredita que ela fez desses doze porquinhos seus guardas costas? E ah, eles usam armaduras. De ouro. Dos pés à cabeça.
— O quê?! Naomi eu...
—Shiii...eu ainda não terminei. Sei que você está impaciente e...saudoso quanto o retorno dela, mas você precisa ouvir tudo que tenho a dizer e...tenho certeza que irá amar o final. – A youkai levantou, caminhando ao redor de seu mestre que a observava com desprezo e arrogância.
— Esses porquinhos são incrivelmente poderosos, com um...poder tão grandioso chega bem perto assim... – Sinalizou. –...dos deus. Podem correr e dar golpes na velocidade da luz...acredita?! – Gargalhou sarcástica. — Eles são adotados, venerados pelos vermes menores. Caminham sobre a terra trajando...essas armaduras e elas se moldam a seus corpos como se fossem um, dando-lhes ainda mais poder e olha só a ironia: a sua Kyoko foi... abraçada por esses homens como parte da família.
Hiroaki apertou os punhos sem acreditar naquela baboseira. Naomi só podia estar ficando louca, Kyoko nunca iria se misturar com aquela raça fedida e imunda, não a sua Kyoko. Ela podia até estar escondida no mundo deles, mas chegar aquele ponto...nunca!
— Não acredita?! Ahhh...agora vem a melhor parte... – Naomi puxou o youkai pela mão o colocando sentado, estava louca para ver a cara dele quando soubesse. —...a nossa querida e amada Kyoko está...a-pai-xo-na-da. – Fez uma pausa. — Apaixonada por um homem humano.
O coração de Hiroaki pareceu parar ao ouvir aquela frase. Sentiu vontade de cortar a cabeça de Naomi fora pela petulância em blasfemar daquela maneira. Reergueu-se tão rápido que ela teve que se afastar mais rápido ainda para que a masamune não a cortasse em duas. Hiroaki estava furioso, mas não temia. Sempre o alertou que Kyoko não o amava e nunca seria sua, mas ele nunca havia lhe dado ouvidos, nunca havia escutado a voz de quem realmente o admirava e o amava de toda a alma.
— Como se atreve? Como se atreve a blasfemar dessa maneira? – Um brilho surgiu em toda a extensão da lâmina da espada de Hiroaki, que apertou o cabo entre os dedos mais forte que o de costume, fazendo a mesma ranger junto com seus dentes. — Acha que pode vir aqui e me convencer com uma mentira dessas? – berrou fazendo a lâmina acender ainda mais.
— Oh...assim você me ofende, Heika. Ainda duvida da minha devoção? Duvida do quanto sou leal a você? Depois de tudo? Pois bem já que você acha que estou mentindo, veja com seus próprios olhos. – Naomi movimentou as mãos e uma esfera roxa surgiu no ar, e como um espelho d’água mostrou a seu amado o que ele não queria acreditar.
O inugami ficou paralisado observando a cena bem diante de seus olhos. Para ele aquela era coisa mais absurda que poderia ver na vida.
— Não...- Balbuciou. — Isso...não pode ser real. – Hiroaki esticou uma das mãos, tocando o espelho d’água e fazendo a imagem do beijo entre Kyoko e Saga tremer diante de si como se uma pedra fosse atirada em um lago, oscilando em ondas.
Naomi se aproximou, atravessando o espelho d’água e envolvendo o rosto transtornado de seu amado com as mãos em um gesto carinhoso:
— Eu sinto muito meu amor, sei que não é a primeira vez e por isso imagino o quanto é difícil para você, mas infelizmente temos que admitir que nossa Kyoko, sua Kyoko não existe mais. – Fez uma pausa rodeando o youkai como uma fumaça negra, mantendo somente seu rosto no formato original. — Mas...para provar a você o quanto sou fiel eu vou trazer sua Kyoko de volta. Peça o que quiser além disso e eu lhe darei com todo meu amor.
Os caninos de Hiroaki ficaram totalmente a mostra em sua boca entreaberta em uma careta horrenda, as unhas ficaram ainda maiores e seus olhos mudaram para um verde intenso, fazendo as pupilas de seus olhos se afinarem como de um felino. Naomi sorriu com aquilo antevendo o desejo de seu amado, e com a voz horrivelmente modificada ele expôs o seu desejo:
— Traga esse homem e os amigos dele para mim...vivos! – Rosnou.
Naomi sorriu perversa. – Seu desejo é uma ordem.
♊ oOo ♊
Saga gemia embaixo do chuveiro frio como se cada gota rasgasse sua pele até os ossos, principalmente a de seu baixo ventre.
— Inferno! – falou entre os dentes. Ainda não conseguia acreditar que como uma criança ou um adolescente afobado havia se deixado cair naquela armadilha. — Droga! – Seu punho acertou com força o azulejo deixando uma rachadura como lembrança.
Quando achou suficiente, fechou o chuveiro e devagar se enrolou em uma toalha. Cada toque do tecido parecia ferir sua pele ainda mais, mesmo sabendo que não possuía nenhum arranhão, a não ser a ferida no lábio inferior; a única prova de que pelo menos o beijo tinha sido real.
Apoiou as duas mãos na pia enquanto encarava seu reflexo no espelho, sentindo vontade de socar a si mesmo por ser tão estúpido. Onde estava com a cabeça para fazer aquilo? Era óbvio que Kyoko não deixaria passar: Primeiro por ter se aproveitado da inocência de Luy para uma aproximação e segundo por ter sido um idiota em ceder as investidas de Eva justo naquele dia, mas...como podia imaginar que teria uma oportunidade como aquela com a kitsune? Se soubesse que Kyoko ficaria em sua casa naquela noite jamais teria ficado com Eva.
“Não Saga é aí a questão, se você queria ficar com a Kyoko você não devia ter dormido com a Eva nenhuma vez.”, pensou.
— Merda! Tenho a sensação que meu pau está em carne viva. – Resmungou fechando os olhos, levando a mão ao pênis, completamente alheio ao fato de estar sendo observado.
— Bom dia! – Saga quase deu um pulo de susto. Kyoko encostou ao seu lado na pia com aquele sorriso matreiro. Como é que aquela raposa dos infernos tinha conseguido entrar se a porta ainda estava trancada? – Você não me parece muito bem.
— Jura?! Por que será? – Ironizou emburrado.
— Será porque seu corpo acredita fielmente que você fez sexo com uma “vagina fervente” mesmo quando você repete para si mesmo milhares de vezes que tudo não passou de uma ilusão?! – Gesticulou fazendo Saga emburrar a cara ainda mais.
— Você não podia ter me castigado de outra maneira, não?! – Rosnou fazendo uma careta de dor por conta de um movimento mais rude.
— Podia sim. Podia ter feito você acreditar ser um mendigo aleijado e deixar você rastejando por aí enquanto revira comida podre no lixo para o resto de seus dias ou... que tal ser um passarinho? Fazendo você pular do alto de StarHill e deixar você se esborrachar no chão do santuário feito uma jaca podre. – Saga nada disse, mas também não se intimidou. — *fuuuu* Eu espero que isso nunca mais se repita, Saga. Nunca mais mesmo, entendeu?!
Saga manteve o olhar sério preso nos de Kyoko por alguns segundos até a dor o pegar forte outra vez, fazendo-o torcer o rosto e se apoiar novamente na pia para não cair. A raposa, mesmo não querendo sentiu pena. Ela no fundo não queria ter feito aquilo, mas a raiva por sentir o cheiro de Eva exalar por todos os poros do cavaleiro fez seu sangue ferver. Ele precisava entender que ela jamais o aceitaria enquanto aquela mulher estivesse por perto e muito menos se deixaria tocar enquanto Saga dormisse com qualquer outra mulher que fosse.
— Ta doendo muito? — Ela perguntou compadecia.
—Sim...está. — Gemeu. — Você me atacou... com uma ilusão e se você não sabe...elas têm o mesmo efeito de um ataque físico ou pior, e você não pegou nem um pouco leve comigo.
— Tá...eu admito que peguei pesado sim, mas você bem que mereceu. – Fez uma pausa. — Quer que eu faça parar? — Saga observou o rosto de Kyoko e por Atena...ela parecia ainda mais linda. Mesmo com tudo aquilo sua atração por ela não havia diminuído em nada.
O cavaleiro movimentou a cabeça positivamente. Sentia um leve frio e um arrepio percorrer seu corpo fazendo seus poucos pelos se eriçarem e um gemido sair por entre seus dentes.
Kyoko sentiu mais dó ainda. Respirou fundo e em seguida enfiou suas mãos nos cabelos molhados do geminiano e olhando nos olhos verdes que lhe pediam em silêncio por alívio. Saga estava com febre. Seu corpo estava sofrendo violentamente os efeitos da noite anterior.
Ela então deu uma cusparada em sua mão direita e Saga estranhou aquilo, mas nada disse. Em seguida se aproximou mais e com a mão livre segurou o nó da toalha, mas Saga assustou-se com o gesto e por instinto tomou o pulso de Kyoko com mais força do que deveria.
— O que pensa que está fazendo? — Questionou ríspido.
— Você disse que queria que eu ajudasse. — Ela respondeu ofendida.
— A última vez que você tocou aí foi como se eu fosse queimado com ferro quente.
— Eu nem toquei em você pro seu governo. — Rebateu completamente ofendida. — Mas tudo bem, não sou eu quem está sentindo dor.
Kyoko deu as costas tencionando em sair, mas Saga a impediu, puxando seu braço com certa rudeza e fazendo a raposa bater contra seu peitoral nu. Gemeu de dor com aquilo e ela condoída segurou seu rosto entre as mãos novamente.
Os olhares se encontraram e Saga sentiu vontade de beijá-la outra vez mesmo correndo o risco de ser pego em outra ilusão. Os olhos bicolores dançaram sobre o semblante sofrido de gêmeos se compadecendo ainda mais.
—Desculpe eu...
— Shiii...tudo bem. — Os dedos finos tocaram os lábios machucados com carinho. — Eu não vou te machucar...eu prometo.
Kyoko novamente cuspiu na palma da mão e com a outra arrancou a toalha que protegia a virilidade do cavaleiro de gêmeos. Sentiu-se tentada em olhar, mas não olhou. Não estava ali para isso, mesmo seu corpo clamando o dele iria suportar o desejo até Saga tomar uma posição em relação a ela ou qualquer outra mulher que fosse.
Seus dedos tocaram o peitoral dele, espalhando a saliva pela pele, descendo pelo abdômen e sentindo os músculos tensos e quentes sob seus dedos.
"Deus como ele pode ser tão bonito?"
Saga não soube dizer se seu arfar naquela hora foi de dor ou desejo, mas este saiu sem nenhuma permissão. Em seu rosto a expressão de ambos se formou quando a mão de Kyoko envolveu seu membro.
—O...o que...está...fazendo?- Balbuciou por conta da dor.
— Calma! Vai doer só no início.
Kyoko levou a mão livre ao rosto másculo, apertando as bochechas entre o indicador e o dedão para forçá-lo a abrir a boca. Saga obedeceu e mesmo após a cusparada dentro da mesma ele não se opôs, recebendo como recompensa os lábios macios sobre os seus.
Realmente não estava esperando por aquilo, mas valeu a pena. A mão deslizava por seu falo espalhando a saliva enquanto as línguas se provavam com ânsia, o dente pontiagudo de Kyoko abriu a ferida novamente fazendo Saga gemer de dor após um movimento mais intenso em seu membro dolorido. A saliva dela escorreu pelo canto de seus lábios como um néctar que o curava pouco a pouco.
A dor finalmente começou a ceder e a febre a baixar. Seu membro começou a se enrijecer já que a dor começou a dar lugar ao prazer e antes que aquilo saísse de seu controle, Kyoko cessou o ósculo, deixando Saga ofegante e sem saber como aquilo era possível.
Os olhos verdes do cavaleiro de gêmeos se prendeu nos de Kyoko. — Minha saliva pode matar, mas também pode curar, assim como meu sangue. Espero que tenha aprendido a lição Saga porquê...eu não quero machucar você outra vez.
Dito isso Kyoko deu as costas, saindo do banheiro sem olhar para trás. Saga suspirou de alívio. Realmente a dor tinha aliviado em noventa porcento, mas em compensação aquele ato o havia deixado com outro problema...
— Acho que preciso de um novo banho frio. — Sorriu sexy e satisfeito.
♊ oOo ♊
Na entrada da casa de gêmeos Keiko acenava para Luy que descia com sua mãe. O combinado havia sido de pegar o menino cedo no dia seguinte. A mulher sabia dos compromissos dos dourados e não queria que seu filho atrapalhasse Saga em tal. Eles treinavam arduamente pela manhã, onde também passavam todos seus conhecimentos para os jovens aspirantes.
Em seguida Kyoko surgiu devidamente vestida com as roupas que sua irmã lhe trouxe, conforme havia pedido: Uma calça branca bem solta de tecido fino imitava um hakama, uma blusa preta justa com alças finas e sapatilhas também pretas.
— Obrigada! – Keiko sorriu dando um abraço na irmã. – Vamos logo, o Patriarca precisa conhecer você e Atena também, no caminho vou te apresentar para os outros. Tenho certeza que você vai amar conhecê-los. São uns fofos...com exceção de Aiolia. Ele é um horror.
— Você não tem jeito, Kyoko.
Ambas caíram na risada e partiram rumo ao décimo terceiro templo.
♊ oOo ♊
A raposa suspirou de alívio quando não precisou confrontar o leonino para subir as casas restantes, entrando pelo templo de virgem. Keiko deslumbrou-se com a visão fantástica de Shaka de virgem meditando sobre a enorme flor de lótus dourada e seu cosmo reluzente. Uma calça marrom e somente um sári vermelho cobria parte do peitoral do indiano, as pernas cruzadas e as palmas uma de frente para a outra.
— Kyoko ele...é...lindo. Parece um...boneco. Tem certeza de que é de verdade?
— É claro que é. Ele até toma chá, pratica yoga... – Shaka não moveu um músculo quando a mais nova o tocou de leve no joelho. – ...apesar de não parecer.
— Uall...é quente. – Keiko sorriu sacana fazendo Kyoko entender perfeitamente o recado. – Será que...
— Vem vamos embora sua pervertida, com esse aí eu não quero problemas mesmo.
— Quanto tempo ele vai ficar aí?
— Ihhh...quem sabe?! Talvez horas, dias ou até semanas. – Deu de ombros seguindo seu caminho.
Na casa de libra nenhuma novidade, Dohko não estava presente. Havia saído cedo em direção ao décimo terceiro templo para atender a um chamado de Shion. A raposa aproveitou a deixa para pegar duas maçãs e um cacho de uvas.
Já na casa de escorpião...
— Meu...Deus! – Os olhos de Keiko quase saltaram para fora com a visão de Milo que havia acabado de sair do chuveiro usando somente com uma calça justa, o peitoral nu e molhado pelas gotas que escorriam de seus cachos, totalmente alheio ao fato de – como sempre – Kyoko entrar sem avisar.
— Ah, oi, Kyoko. Cê não está sozinha hoje?! Que surpresa. Podia ter pelo menos avisado antes de sair entrando. – acenou o escorpião, jogando a toalha que secava os cabelo no ombro direito. Keiko quase caiu dura no chão. — Eu teria me vestido. – reclamou.
— Ah Milo, o que é isso?! Você está ótimo. Se estivesse sem nada staria mais perfeito ainda. – Ironizou a raposa.
Milo gargalhou. — Sempre sincera.
— O que você queria? Que eu mentisse? – fez uma pausa. — Vem Keiko, vamos deixar o escorpião terminar de se trocar.
— Ahhh...A...gente não...não pode...ficar mais...um pouco? – A mais nova não sabia para onde olhava: Os olhos, o sorriso ou o peitoral do escorpião. Realmente era uma dúvida muito cruel.
— Não, vamos logo, não quero que ele fique se achando. Não sabe como ele fica chato.
A raposa saiu arrastando a menor a base de muitos resmungou a contragosto.
Na casa de sagitário, Aiolos revirava alguns armários na cozinha...
— Olá, Aiolos. – A mais nova sorriu.
—Ah...Olá meninas. – Respondeu simpático.
— Estamos só de passagem, tudo bem pra você?! – Avisou Kyoko.
— Ah sim, tem minha permissão, só desculpem eu não poder dar muita atenção agora.
— Está tudo bem, Aiolos? – Keiko indagou preocupada com o olhar perdido e ao mesmo tempo questionador do cavaleiro.
— É que...bom, eu tinha certeza de que tinha deixado comida suficiente aqui para uns dois meses. – Kyoko arregalou os olhos e engoliu em seco. – Eu jurava que tinha deixado três potes de cereja em calda aqui, será que o Aiolia pegou e esqueceu de me avisar?
Kyoko tossiu sem jeito, agarrando a mão da irmã e a arrastando consigo. – Ahhh Aiolos...eu tenho certeza de que foi ele. Bom, temos que ir, foi bom te ver de novo.
— Mas, Kyoko... – A mais nova reclamou.
— Sem mas... – Rosnou entre os dentes.
Na casa de Aquário...
— Bonjour! – cumprimentou Camus passeando pelo saguão. Para ele a presença de Kyoko era tão comum que já nem se importava mais se ela pedia ou não permissão para passar, mas o fato de não estar sozinha dessa vez despertou sua curiosidade fazendo o sério cavaleiro parar e observar Keiko dos pés à cabeça.
A garota sentiu o corpo inteiro tremer com o olhar discreto e muito, muito sedutor de Camus.
— Por todos os deuses existentes na terra, que voz, ele é lindo e ele está olhando para mim. Kyoko se ele continuar a me olhar assim eu acho que vou desmaiar. – Sussurrou fazendo Kyoko erguer uma das sobrancelhas.
Camus era realmente lindo, mas aos olhos dela... sem graça. Ele nunca sorria. Nunca se irritava, não perdia a compostura e sempre a ignorava. Não tinha graça mexer com o aquariano, salvando o fato de ele possuir a segunda melhor biblioteca do santuário e um telescópio incrível. Isso sim era interessante.
— Ele é sem graça, vai por mim. Vamos embora eu to começando a ficar com frio.
—Ahhh não Kyoko ele ainda está me olhando. Eu vou lá falar com ele.
— Keiko-chan!! – falou Kyoko, vendo a outra se dirigir na direção de Camus.
Camus arregalou os olhos azuis ao ver Keiko dar o primeiro passo.
“Ahh non, lá vem essa raposa acabar com meu sossego. Se já non bastasse aturar Milo, Saga ainda me arruma uma dessas?! Ohh non, non, non, non! Lá vêm elas, é melhor deixá-las passar de uma vez antes que ela resolva furtar alguma coisa.”
— Non precisa vir até mim. Vocês têm minha “permisson”. Excuse moi. – Keiko paralisou no mesmo lugar. Camus com toda sua frieza simplesmente deu as costas e voltando em direção a área privada sem olhar para trás deixando ambas com cara de trouxas.
— Mas... o... quê?!! – sussurrou a mais nova incrédula.
— Viu?! Eu te disse, ele é um saco. – Kyoko emburrou-se dando as costas para a irmã e voltando a caminhar.
Ao chegarem no salão do grande mestre, Keiko foi calorosamente recebida pelo patriarca e pela deusa fazendo-a se apaixonar ainda mais por eles. Ambos eram tão doces e hospitaleiros que era impossível não se encantar. Dohko era divertido e muitíssimo simpático, e mesmo não sendo o papa convidou as meninas para um desjejum e para colocarem alguns assuntos em dia.
Falaram sobre os acontecimentos gerais e sobre os youkais que rodeavam o santuário deixando Atena e Shion bem preocupados. Shion comentou sobre o fato de logo após a batalha, sentir duas presenças estranhas; sendo uma mais sutil, mas quase impossível de detectar. Kyoko nada disse ainda mais depois de Shion confessar que não era a primeira que mais lhe preocupava e sim a outra. Esta era bem mais pesada, hostil e não parecia querer se esconder, muito pelo contrário. Num grande mapa aberto sobre uma grande mesa redonda Atena apontou o local exato de onde partia a tal ameaça e por conta disso o patriarca decidiu mandar alguns cavaleiros na direção indicada para averiguar o que era de fato. A ordem; aniquilar quem quer que fosse o dono daquela energia.
Kyoko sentiu-se triste em saber que Saga um dos escolhidos e estaria à frente daquela missão justo agora que as coisas “pareciam” ter começado a andar. Não podia reclamar, era a obrigação dele e de todos os outros cavaleiros, mas mesmo assim não conseguia deixar de sentir uma pontinha de insatisfação com aquilo e principalmente preocupação.
Já fazia um tempo que, assim como Shion, também sentia aquele ar esquisito pairar pelo santuário e isso era preocupante em demasia. Algumas vezes saiu para averiguar os arredores e seguindo seus instintos, mas nada encontrou. Estava preocupada com aquilo e mais ainda por não conseguir identificar de onde aquela maldita presença vinha de verdade. Era como se ela estivesse em todos os lugares ao mesmo tempo o que dificultava e muito a localização exata do autor, por conta disso foi impossível Kyoko não se surpreender ao saber que Saori havia conseguido achar o local. Já havia procurado por dias, então porque justo Saori conseguira detectar? Tinha ciência de que Saori era uma deusa e sua capacidade ia muito além do que imaginava, mas mesmo assim seu corpo era humano e como uma youkai sabia muito bem que se esconder com perfeição fazia parte da natureza youkai. Pensativa, a kitsune sabia que só existia uma pessoa no Makai capaz de tal ato e isso a deixava com os nervos à flor da pele. Se a pessoa que pensava estivesse realmente ali as coisas se complicariam e muito.
Depois do diálogo Kyoko seguiu com Keiko até a vila e lhe mostrando tudo que havia conhecido. A raposa ainda deu uma mãozinha ao senhor da banca de frutas e aproveitou para almoçar no restaurante de Bruno, um típico italiano que foi salvo por Mu de um ataque de espectros.
— Olá Kyoko, como é bom vê-la, seja bem-vinda! Vamos, entrem, entrem. Em que posso servi-las? – Perguntou simpático. O homem de meia idade sempre vinha pessoalmente recepcionar a raposa quando a mesma passava por lá.
— Oi Bruno, essa é minha irmã. – A moça sinalizou em resposta e sorriu. – Bom, deixa eu ver... eu vou querer aquele Risoto de Camarão delicioso e pra minha irmã...humm...Ah! Tortellini de Bolonha. E pra acompanhar...- fechou o cardápio. — Me traz aquele vinho tinto que você sabe que eu amo.
— Ahhh, mas é claro, minha querida. Pedirei para servirem bruschetta enquanto aguardam. – Falou saindo em seguida.
— Grazie!(Obrigada!) – Kyoko sorriu sexy.
— E então, como foi ontem com o bonitão da casa de Gêmeos? – Keiko sorriu curiosa. – Como ele é?
Kyoko bufou cabisbaixa: — Posso te responder quando eu também descobrir?
— O quê?! Fala sério! Não acredito que não rolou nada.
Kyoko passou a mão na franja e deixando sua expressão melancólica a mostra.
— Não...quer dizer...só rolou um beijo. Que por sinal foi incrível, mas...o cheiro dela ainda estava nele; na pele, nos cabelos, nos lábios. E não só nele como em todo lugar daquele quarto. Senti tanta raiva, ciúmes. – suspirou. — Não consegui me controlar.
Keiko arregalou os olhos. — Ai meu Deus, não me diz que você usou aquela ilusão de novo?
A mais velha acenou positivamente como uma criança ao ser pega em flagrante.
— Kyoko! Você enlouqueceu? Ele podia ter morrido. Da última vez que você fez isso o cara morreu com o cérebro saindo por tudo quanto é buraco na cara.
— Aquele cara mereceu. Ele teve sorte por morrer tão rápido. O que eu fiz com ele foi pouco. Devia tê-lo feito sofrer mais. – confessou amarga.
Keiko engoliu em seco ao notar os olhos de Kyoko mudar de cor. Já fazia algum tempo que não tocavam naquele assunto, mas por mais que o tempo passasse a reação dela era sempre a mesma.
— Calma, eu não estou dizendo que ele não tenha merecido. Ele mereceu sim tudo o que você fez. O que estou querendo dizer é que o Saga...ele podia ter morrido também. – Justificou-se.
— Saga é poderoso demais, nunca iria morrer com uma ilusão tão besta. – Fez uma pausa respirando fundo e retomando o controle. — É claro que ele se machucou, mas eu não sou idiota em deixar ele morrer, até porque...eu preciso dele vivo. Eu o quero vivo. – Confessou.
Keiko sorriu. Era mais claro do que água agora, Kyoko estava caidinha pelo cavaleiro. Kyoko até tentou disfarçar, mas diante do olhar sarcástico da mais nova, seu ar superior logo se desfez, deixando explicito toda a frustração que sentia.
— Ai Keiko...eu estou no meu limite. Ele...ele é tão...ai...lindo e...imponente, sabe?! O jeito como ele fala, a voz dele é tão sexy que me dá arrepios só de lembrar. O cheiro da pele e os olhos?!!! Ahhhh Keiko são os olhos verdes mais lindos que já vi. – Suspirou fechando os olhos. — Eu to ficando maluca, não estou?!
— Não, eu acho é que você está caidinha por ele. – zombou a menor.
— Estou...não vou negar. Sabe...as vezes eu acredito que...ele também gosta de mim, mas...eu não entendo: Se ele gosta de mim o que a Eva está fazendo na casa dele? E pior, porque ele ainda...come aquela vagabunda?
— Homens! Simples assim. Não importa se são youkais ou humanos, eles nunca podem ver um par de pernas ou uma bunda dando sopa por aí.
— Eu estou...com tanto medo, Keiko. Ele é humano e...aquela mulher é uma cobra. Eu sei que ela faria qualquer coisa para me prejudicar só que...o Saga ele...parece não ver isso e por mais que eu tenha dito ele...não acredita que a Eva seja capaz de fazer algo contra uma formiga e é justamente isso que me apavora. Essa...cegueira. – fez uma pausa — Eu tenho medo que ele acabe... que ele acabe fazendo como todos os outros. Eu não quero Keiko, não quero passar por aquilo outra vez. Se ele não acreditar em mim? E se me pren...
— Ei, o que isso?! Nem pensar! Não! Ele é um cavaleiro honrado. Não é possível que...será que...ele seria capaz? — Keiko ficou confusa, pesando a situação.
— Eu não sei. Eu não...sei até onde a vaidade dele vai. A única coisa de que tenho certeza é que...por mais forte que eu seja, não posso derrotar todos eles. Se o Saga ficar contra mim...eu vou morrer.
Um silêncio estranho tomou conta de ambas onde alguns segundos depois o almoço foi servido. Keiko manteve a cabeça baixa, mas olhando o semblante triste e preocupado de Kyoko por baixo das sobrancelhas. Olhou para a mesa e seu estômago roncou.
— Itadakimasu! – falou começando a comer.
— Nós nos beijamos hoje outra vez...quer dizer não era para ser beeemm um beijo, mas ele estava com muita dor e...
— Para tudo! Você usou aquele truque? — Keiko levou o guardanapo a boca.
— Sim! — A raposa sorriu safada, comendo.
— Então espera, deixa eu concluir: Aí ele estava morrendo de dor no corpo inteiro e você muiiitoo solícita deu um belo banho de língua nele com direito a um brinde no final. — Keiko sorriu safada enquanto fazia um gesto obsceno com a mão e a língua no canto interno da bochecha, quebrando o clima tenso.
Kyoko gargalhou.
— Não sua tarada, eu fiz pela boca e não com a boca.
— Aiiii você é um porre! Como perde uma oportunidade dessas?!
— Porque sou egoísta, não gosto de dividir. – Ditou séria.
— Esqueceu de acrescentar ciumenta e absurdamente possessiva. — Gargalhou.
— É...se ele vai ser meu, então eu quero ele por inteiro...só para mim. Com direito a todas as vírgulas, pontos e etc... — sorriu sexy.
— E ai de você que não me contar. Eu quero saber todos os detalhes, mas são todos mesmo, sem tirar nem pôr. — ordenou a menor com o dedo em riste.
Kyoko lambeu o garfo trocando um olhar cúmplice. Keiko sorriu mais, bebericando o vinho e olhando pelo vidro da janela. Com as sobrancelhas sinalizou olhando para Kyoko. Ela seguiu a indicação da mais nova, vendo do lado de fora Saga em toda sua imponência. Ele aguardava a raposa recostado em uma parede próxima. Ela caminhou sexy e sorriu quando sentiu os olhos verdes cobertos por um belo óculo escuro detalharem seu corpo e sua roupa diferente.
— Como se sente? — Perguntou.
— Muito melhor. Seu remédio funciona mesmo. – Saga tragou seu cigarro, se desfazendo do restante. Soltou a fumaça por uma pequena abertura nos lábios enquanto retirava os óculos de maneira naturalmente sexy para encarar o sorriso matreiro de Kyoko. — Milo disse que você queria falar comigo antes de eu sair. Quer me dar um beijo de boa sorte?
Kyoko gargalhou. — Você já teve sua cota por hoje, mas...eu quero lhe dar uma coisa sim.
A raposa esticou a mão e Saga entendeu o recado, retribuindo o gesto. Com a unha do indicador ela fez um corte na palma da mão dele, depois repetiu em si mesma deixando seu sangue pingar sobre a ferida. Saga sentiu-se zonzo, mas nada que o abalasse tanto, e Kyoko finalizou unindo as feridas em um toque delicado.
—É para dar sorte. — Sorriu.
Saga ficou observando as covinhas no rosto dela com atenção e sem nenhum pudor. Já estava cansado de ter que esconder sua atração seja lá de quem fosse. Nunca foi homem de se importar com o que pensassem de si e muito menos se tinha a aprovação de alguém para fazer o que quisesse e foi justamente por isso que sua mão grande rodeou o pulso de Kyoko e em um ato possessivo a arrastou consigo até um beco próximo.
— Um beco? Da última vez que me levou para um eu quase morri. – Ela resmungou, mas ele ignorou e quando achou que era suficiente fez o que estava louco para fazer.
Prensou o corpo menor contra a parede com total autoridade, tomando-lhe a boca com volúpia e urgência, forçando a língua experiente para dentro da boca da Kitsune que o recebeu com o mesmo ímpeto, iniciando uma batalha erótica e sensual. O corpo másculo e forte sarou sensualmente em Kyoko, arrancando um gemido dentro do beijo alheia ao lugar público onde estavam. Estava louca de vontade daquilo.
Saga deliciou-se com a mão dela puxando-o pela calça e aumentando a fricção de seu sexo, impondo a ele sua necessidade e vontade de forma urgente e tão sensual que pensou ser outro truque.
Os dentes se bateram como um alerta que Saga odiou ter que seguir. Queria mais, mas não podia, Mu e Shaka o esperavam e se não parasse agora não conseguiria mais retomar o controle. Em protesto, seus dentes cravaram nos lábios da kitsune, fazendo um gemido de prazer e dor sair pela garganta dela enquanto os olhos luxuriosos se mantinham presos um no outro.
— Isso sim é o que me dará sorte. — Saga deslizou a mão pela cintura fina, enfiando seu dedão em baixo da camiseta dela e expondo a pele alva a seu deleite. — Pedi a Julieta que juntasse as coisas de Eva e a avisasse para estar fora da minha casa antes de eu voltar e quando eu voltar...- Raspou os lábios e dentes no pescoço de Kyoko, enfiando a mão em baixo da blusa e sentindo a textura da pele alva próximo ao seio. — ...você será minha.
Kyoko arfou de tesão deixando Saga ainda mais orgulho e confiante dos efeitos que causava nela.
— Quando você vai voltar? — Indagou com sofreguidão
— O mais rápido que eu puder. Eu prometo.
E com dificuldade se afastou. Respirando fundo para recobrar seu estado normal. Kyoko fez o mesmo, alisando os cabelos de forma aflitiva.
— Mas...e a festa, você...
Saga apoiou um dos braços na parede, aproximando-se da Kitsune novamente tocando em seu queixo para sussurrar sensualmente ao pé do ouvido:
— Eu voltarei para uma festa muito melhor e essa será só entre mim e você, mas farei o possível para chegar a tempo da "sua" festa. — Sorriu sexy.
Saga começou a se afastar. Kyoko mordeu o lábio, indo até ele e o parando, segurando em seu braço. Saga olhou dentro dos olhos dela, percebendo ali o quanto ela estava aflita.
— Por favor, toma cuidado, tabom?! – pediu a kitsune se aproximando mais.
Saga sorriu, segurando o rosto dela com a mão livre e o acariciando com o dedão, gostando e muito da aproximação. Quando recebeu a ordem de Shion sentiu seu coração apertado, receoso de sair em missão e não conseguir ver Kyoko.
— Vai ficar tudo bem. Eu vou voltar, está bem?!
Kyoko ficou na ponta dos pés, esfregando seu rosto no de Saga, sentindo a leve aspereza da barba e o cheiro gostoso da pele dele. Saga amou o gesto, aproveitando para se deliciar por míseros segundos num beijo doce e que dizia muita coisa. E mesmo seu coração pedindo para que ficasse um pouco mais, Saga sabia de suas obrigações, saindo logo depois.
Kyoko sorriu sozinha, tocando os próprios lábios como uma criança feliz. Aquilo parecia um sonho. Um sonho tão bom que não queria acordar nunca mais. Caminhou distraída, chocando-se com Keiko que observava uma barraca de flores.
— Onde você estava? — Inquiriu a mais nova.
—Com Saga...ali...no beco.
— Beco? Que beco?
— Aque...Ãhn?! — Kyoko ficou incrédula ao constatar que ali não havia beco nenhum.
Fechou os olhos soltando uma gargalhada. Saga a havia arrastado tão rápido por uma fresta dimensional que ela nem havia percebido, criando a ilusão de estarem em um beco quando na verdade estavam em "outra dimensão".
Ele era tão bom naquilo quanto ela, mas aquilo não tinha importância agora, já que ele finalmente havia se decidido, colocando tudo que podia naquele beijo fogoso. Iria esperar, mesmo não querendo, mas como já tinha ouvido algumas vezes: A saudade é o melhor tempero.
Já tinha esperado até agora então...um ou dois dias não seriam nada.
♊ oOo ♊
As crianças corriam alegres em torno do chafariz lindamente decorado pelas rosas de Afrodite. Milo havia providenciado as músicas enquanto Kanon e Aldebaran as caixas de som. Uma mesa extensa ficava um pouco mais afastada onde bolos, frutas, doces, e tudo que Kyoko amava estavam a sua disposição. Mesas menores também foram estrategicamente posicionadas para os moradores e outras maiores e bem decoradas e servidas para Shion, Atena e seus cavaleiros dourados, afinal eles eram a elite da guarda. Era mais do que merecido serem bem tratados.
E como já era de imaginar, Luy não desgrudava um segundo de Kyoko que se desdobrava o máximo entre o menino, os cavaleiros e sua irmã. Todos estavam presentes, tirando o fato de Saga, Mu e Shaka ainda não terem retornado da missão.
— Só faltou ele, não é?! — Comentou Keiko. Kyoko sorriu sem muita empolgação.
Mesmo com toda a empolgação dos moradores e até mesmo de alguns dourados, Kyoko não conseguia relaxar desde a partida de Saga. Um cheiro pútrido e uma sensação pesada estavam deixando seus sentidos ainda mais aguçados e confusos. Sentia-se observada o tempo inteiro por alguém ou algo que não sabia identificar ainda mais ali no meio de tanta gente.
—Tyoko, Tyoko! Dancha cum eu?
— Ahnn ta!
Kyoko pegou nas mãozinhas de Luy e saiu com ele até o meio da praça, onde um enorme palco de dança havia sido montado. Crianças, jovens e adultos dançavam ao som das músicas rítmicas sorrindo e cantando de forma alegre e divertida.
A kitsune olhou ao redor até seus olhos encontrarem os do menino. Sorriu pegando Luy no colo e girando com ele, contagiando a todos com seu enorme sorriso. Precisava relaxar, precisava se acalmar e nada melhor do que estar com seu pequeno amigo para conseguir isso.
Pula para lá e para cá, um passo para frente e outro para trás e um olhar ao fundo fez a raposa parar no tempo. Aqueles olhos ela conhecia muito bem. Olhos de quem a observava e a odiava como a pior das criaturas. Os cabelos negros soltos e os olhos azuis estavam fixos nos seus, encarando-a com escárnio e repulsa.
Sustentou aquele olhar durante um tempo até Luy a trazer de volta a realidade com seu sorriso encantador e sua falinha enrolada. A raposa no automático retribuiu o gesto e quando seus olhos voltaram ao ponto inicial, Eva já não estava mais lá.
"Saga onde você está?", pensou.
— Tyoko to com sedi. — Disse o menino ofegante.
— Que tal a gente beber alguma coisa? — Sugeriu sorridente. O menino assentiu, abraçando a raposa pelo pescoço e seguindo com ela.
“Que droga, o que está acontecendo.”
Os olhos atentos rodaram o local como uma presa diante de um predador. Aquilo estava sendo péssimo, sentia-se caçada, mas o pior era não saber bem pelo quê. Eva não era uma ameaça e muito menos uma adversária a sua atura, então porque se sentia daquela maneira?
— Ah porra você está roubando, Kanon! — berrou Milo jogando as cartas na mesa. Ele havia acabado de perder para Kanon em uma partida de Pôquer. Kyoko se assustou com a gritaria. Estava tão concentrada nas sensações que se sentia perdida em meio à multidão.
Ficou parada por uns instantes observando a confusão na mesa dos cavaleiros. Várias pessoas os paparicavam enquanto outras andavam de um lado para o outro, as vozes se misturando, confundindo sua audição e sensação de percepção. Seus olhos giraram novamente pelo local e um esbarrão fez Kyoko quase pular de susto novamente.
— Tyoko voxe ta canchada? — Luy perguntou curioso.
— Não eu...só...estou com sede. Vem vamos tomar um suco.
Assim que se aproximou da mesa onde eram servidas algumas bebidas, uma menininha saiu correndo de encontro a sua mãe carregando o último copo. Luy fez um beicinho fofo e Kyoko se compadeceu. Explicou que logo uma nova rodada chegaria, mas ela não chegou e sem opção ela seguiu para a casa onde havia sido organizada as bebidas e comida.
Era uma casa um pouco mais afastada e não muito grande. Ela pertencia a uma moça chamada Rute e era conhecida em Rodório por possuir mãos de anjo quando o assunto era doce e afins. Fora ela quem organizou a parte dos quitutes.
— Olia Tyoko, tem maix sucu ali. — O menino apontou. Kyoko o pôs no chão e ele correu apressado até a mesa.
“Que sensação estranha, porque me sinto assim?"
Kyoko observou ao redor onde uma mulher lhe sorriu ao passar com uma bandeja cheia de salgados e sanduíches. Olhou novamente farejando o ar, mas nada sentiu.
— Eu num alcanchu!- Resmungou Luy se esticando até o copo sem sucesso.
— Ei deixa que eu pego para você.
Ela aproximou-se pegando um dos copos e entregando na mão do menino. Ele sorriu em agradecimento e começou a beberica do líquido.
A casa que deveria estar movimentada, por um momento se tornou estranhamente vazia, chegando ao ponto de se tornar até sombria. E foi bem nesse momento que o ar pareceu pesar duas vezes mais e ela, mesmo com toda sua habilidade, não soube identificar se aquilo era real ou coisa de sua imaginação.
E no extenso e escuro corredor o relógio badalou às 23:00. Um cuco saiu por ele batendo suas asas e começando a berrar, exigindo atenção. Os bicolores observaram o objeto por alguns segundos e por fim seguiram dele até uma sala ao fundo estranhamente mais escura do que de costume. Dois pontos brilhantes surgiram fazendo-a aprumar o corpo e antes mesmo dela dar o primeiro passo um cheiro mais familiar ainda fez com que voltasse a trás, virando rapidamente e se deparando com seu algoz.
A mulher se aproximou devagar até ficar frente a frente a ela, encarando-a com um sorriso de desprezo.
— O que você quer? — A youkai perguntou, irritada.
— Nada de mais, eu só...queria lhe entregar...isso.
Eva estendeu a mão e depositando um pequenino frasco na palma da mão de Kyoko. Ela ficou imóvel, observando aquilo sem entender. Seus olhos alternaram entre o frasco e os olhos azuis de Eva até o som de um copo bater contra o chão chamar sua atenção.
— Aiii...Tyoko. — O menino gemeu e tossiu, levando a mãozinha a boca. Kyoko sentiu o coração parar dentro do peito quando viu a mão do menino lavada pelo líquido carmesim.
— Não! — Balbuciou caindo de joelhos e aparando o corpo de Luy.
O menino não respirava, seu corpo estava frio e sangue escorria de sua pequena boca. Kyoko sentiu o peito doer mais ainda sem saber o que fazer ao contrário de Eva que sorriu chamando a atenção de sua rival.
— Vai pagar por tê-lo roubado de mim, monstro.
Eva gritou como uma louca, fazendo o que sabia fazer de melhor: Mentir. As pessoas olharam em direção a gritaria e correram para ver o que era e ao chegarem ficaram chocados.
Nos braços de Kyoko, Luy jazia praticamente morto enquanto Eva berrava aos quatro ventos que a raposa havia dado uma bebida diferente ao menino. Kyoko estava tão desesperada em ajudar Luy que nada mais a sua volta fazia sentido. Nada mais importava. Precisava tirar aquilo dele e rápido.
Deitou o menino no chão, abrindo sua boca e a cobrindo com a sua. Sua saliva escorreu pelos cantos dos lábios igualmente como a de Saga. Olhou novamente e nada.
—Luy! Luy, por favor, não! – Balbuciou sentindo o corpo inteiro tremer de medo. Com a própria unha marcou a palma da mão deixando seu sangue cair sobre o rosto pálido, mas sem saber quando e como a mãe de Luy tomou-lhe o menino, gritando de desespero:
— Luy! Meu menino! — A mulher chorava e gritava, sacudindo o filho na tentativa de despertá-lo.
— Foi ela, eu vi. Vi quando ela pôs o líquido no copo e deu a ele, olhem nas mãos dela. — Eva berrou apontando.
Todos olharam para Kyoko com espanto ao verem na palma de sua mão o pequeno fraco. A raposa estava tão desesperada que nem se deu conta de que ainda continuava a segurar a prova do crime.
"Vai pagar por tê-lo roubado de mim."
Kyoko franziu o cenho lançando um olhar assassino para Eva assim que finalmente entendeu o que ela queria dizer. O frasco estourou e suas unhas ficaram grotescas. Os olhos bicolores foram completamente substituídos pelos dourados e os caninos pontiagudos se sobressaíram nos lábios dela. Alguns se afastaram com medo ao ouvir o rosnado horripilante e o corpo de Kyoko ser aprumar em posição de ataque.
Estava furiosa e dessa vez Eva pagaria com a vida nem que tivesse que matar qualquer um ali.
— Desgraçada!!! — Berrou saltando em direção a Eva. A mulher correu para fora em meio à multidão. A raposa saiu como um predador, saltando entre mesas e cadeiras, fazendo as pessoas correrem de desespero de um lado para o outro sem saber para onde ir.
Os cavaleiros se sobressaltaram com o corre-corre e a gritaria.
— Mas que porra é essa? – Kanon se levantou, derrubando a cadeira no momento que viu Kyoko pular no meio das pessoas. Ela estava completamente descontrolada de uma maneira que ele jamais pensou em ver. Tinha muita gente ali e eles precisavam fazer alguma coisa e rápido.
—Tira essas pessoas daqui. — Ordenou Aiolos a Milo e Aldebaran.
Camus, Dohko e Afrodite ficaram na frente de Shion e Atena os protegendo.
O sagitariano tencionou a correr, mas Keiko surgiu em meio à correria impedindo-o de avançar.
— Por favor, não machuca minha irmã. — Pediu chorosa.
No palco Eva caiu sobre a madeira, arrastando-se aterrorizada. Um homem corria aleatoriamente e sem perceber passou entre ambas, a raposa agarrou o homem pelo pescoço, o tirando do chão e o jogou sobre a mesa de comida. Eva gritou de terror com a cena, tremendo e se arrastando na tentativa de fugir da youkai. Era a primeira vez que via Kyoko daquela maneira.
— Você...sua...vagabunda!! Eu vou...TE MATAR! — Kyoko gritou de ódio saltando como um predador feroz sobre o corpo de Eva com suas garras afiadas.
— Cápsula do Poder! — O golpe de Aiolia acertou a Kitsune em cheio quando ela estava a centímetros de acertar Eva, lançando-a sobre as mesas e cadeiras até se chocar contra uma parede.
Aiolia pareceu surgir do nada, trajando sua armadura de ouro. Puxou Eva pelo braço de qualquer maneira e fazendo-a se afastar.
— Sai daqui! Anda vai lo...
E antes mesmo de terminar, um soco potente acertou seu rosto em cheio o jogando contra o chão em cambalhotas até findar no chafariz. Kyoko mal deu tempo dele se recompor, o segurando pelo pescoço e disparando mais um soco dessa vez no estômago.
Da boca de Aiolia sangue jorrou, deixando o leão pasmo. O soco fora tão potente que mesmo trajando sua armadura sentiu como se suas costelas fossem partidas ao meio. Se estivesse desprotegido, Kyoko o teria partido ao meio.
— Se você a defende então, é tão assassino quanto ela. – sua mão apertou a jugular de Aiolia com mais força, ergueu a mão livre fazendo suas unhas crescerem ainda mais pronta para atacar, mas um ataque surpresa a obrigou a soltar Aiolia, sentindo seu ombro ser acertado.
— Não toca no meu irmão. — rosnou Aiolos apontando um flecha.
Kyoko franziu o cenho arrancando a flecha de seu ombro direito e a jogando longe. Sua vontade era fazer o cavaleiro engoli-la. De longe um grito chamou a atenção de Kyoko. Ela sentiu o frio descer pela espinha com a cena: Keiko se debatendo enquanto era arrastada por Milo.
— Keiko!
A raposa tentou avançar sobre Milo, mas Aiolia a golpeou, obrigando a Kitsune a pular para não ser pega. Aiolos aproveitou a deixa, atirando uma flecha que se dividiu em cinco.
— Parem! Não façam isso! – Pediu Dohko e Kanon.
Uma, duas, três flechas foram repelidas, mas duas a acertaram na coxa e no abdômen. Kyoko caiu sentindo uma dor aguda lhe afligir.
Ela era forte, mas tinha ciência de que não podia derrotar todos de uma vez e ainda mais ali.
— Não! Kyoko, para! Me solta. — Keiko deu uma cabeçada em Milo, obrigando o cavaleiro a lhe soltar e logo correndo na direção da mais velha.
— Sai daqui. — Kyoko gemeu tentando se reerguer.
—Não, eu não vou te deixar. Não dessa vez. — A mais nova respondeu chorando.
Kyoko se posicionou, erguendo um dos braços e fazendo o som de um relâmpago explodir no ambiente, fazendo um energia furta-cor a envolver de forma inédita. Aiolia prontamente elevou seu cosmo enquanto Aiolos preparava mais flechas. As energias tomando tudo ao redor, sacudindo os cabelos de ambos os três em uma dança frenética. As mesas e cadeiras sobreviventes foram empurradas para longe por conta da força das energias. Algumas pessoas também acabaram por ser lançadas para longe pelo mesmo motivo.
— Parem, é muita energia! — O patriarca pediu sendo protegido por Aldebaran e Camus.
— Eles vão destruir tudo. — alertou Kanon. — Kyoko não faz isso! Você não pode confrontar ambos dessa maneira, nós não somos seus inimigos.
— Se vocês protegem uma assassina, então são assassinos também. — berrou em resposta.
Em centésimo de segundo três pontos vermelhos surgiram no corpo de Kyoko. A raposa trincou os dentes sentindo-se paralisar a mercê do veneno do escorpião. Uma dor aguda atingiu seu sistema nervoso central de tal maneira que ela perdeu completamente o raciocínio. Berrou de dor, caindo de joelhos e fazendo Aiolos e Aiolia se acalmarem. Keiko correu novamente em direção a irmã, amparando seu corpo e a protegendo.
— Kyoko, Kyoko, não!
— Keiko...foge, sai... daqui. Eu...- três guardas surgiram da multidão agarrando Keiko pelos braços e a arrastando para longe. Kyoko tentou se levantar, mas um golpe forte a acertou em cheio a jogando novamente no chão.
—Yamero!(Parem!)...Kyoko-neesan! — berrou em meio ao choro, se batendo e contorcendo para se soltar dos guardas, mas de nada adiantou.
— KEIKOOO!!!! NÃO!! – Kyoko berrou furiosa atacando, matando dois guardas e ferindo mais dois. Aiolia avançou novamente, desferindo uma rajada de cosmo ao qual ela já não tinha mais coordenação motora para desviar, graças às agulhas de Milo.
— PAREM COM ISSO, JÁ CHEGA!! – bradou Kanon, correndo em direção a confusão.
Kyoko abriu os olhos com dificuldade, se reerguendo novamente. Sua testa sangrava e sua boca também. Aprumou o corpo e quando tencionou a avançar não conseguiu. Suas pernas perderam as forças e sua visão automaticamente se apagou em uma escuridão em meio ao último grito desesperado de sua irmã.
Aiolos ficou pasmo, assim como os outros. Kanon parou de correr, levando as mãos à cabeça ao ver a cena e imaginar como seu irmão reagiria. Afrodite gritou tão alto quanto Keiko. Não era para aquilo ter acontecido. Não...isso...isso...era errado!
Ao lado de Kyoko um guarda com uma espada na mão tremia de medo ao observar a cauda peluda separada do corpo inerte da kitsune.
Continua..
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