Uma estranha no ninho - Vol. I
36 Um estranho conforto que encontrei dentro de seus braços.
Notas iniciais

Você é a força
Que me faz andar
Você é a esperança
Que me faz confiar
Você é a vida
Para minha alma
Você é meu propósito
Você é tudo.
(Lifehouse – Everything)
Com muito custo Mu conseguiu abrir seus olhos. Piscou uma, duas vezes tentando se localizar em meio a visão embaçada.
— Ai! – resmungou levando a mão direita a cabeça.
Percebeu que não era só uma dor de cabeça que o atingia naquele momento, seu corpo inteiro doía até nos mínimos lugares. Respirou fundo fechando os olhos novamente na esperança de ter sua visão normalizada. Aproveitou para tatear o próprio corpo identificando que nos locais onde a dor era maior bandagens cobriam os locais.
— Acordou finalmente!
Mu levou um susto com a voz grave que escutou. Ergueu a cabeça rápido, mas se arrependeu logo em seguida por conta da dor. Fechou os olhos fortemente outra vez e depois os abriu. Ele conhecia aquela voz e sabia muito bem a quem ela pertencia.
Abriu os olhos mais devagar e olhando para a porta ele reconheceu logo quem estava ali e onde ele mesmo estava, o que foi maior surpresa ainda.
—Águia.
O shinobi caminhou devagar até Mu, notou que ele parecia incomodado com algo e logo imaginou ser as dores pelo corpo. Lembrou-se das indicações de Naomi, pegando alguns comprimidos em cima de uma mesa de canto e levando até o outro. Mu aceitou de muito bom grado, bebendo a água em temperatura ambiente como se fosse o néctar dos deuses.
—Como...viemos parar aqui? — indagou de modo confuso.
Águia respirou fundo, agora sim vinha a parte chata: Repetir pela milésima vez tudo que tinha ocorrido no Makai.
— Depois que Saga derrotou Hiroaki, nós trouxemos vocês de volta para o Nigenkai. Naomi achou melhor assim. Usamos a passagem que liga o antigo mausoléu de Suzuki ao mundo de vocês. O mesmo que Saga usou para...salvar Kyoko-sama da primeira vez. -respondeu com toda sua calma.
Mu não disse nada. Ficou pensativo e focado nos borrões que suas memórias haviam se tornado. Ele não conseguia lembrar de nada até a chegada a mansão de Yamoto. Lembrava-se somente de flashes que tornava tudo ainda menos coerente. E no meio desses flashes Mu pareceu se atinar em algo.
—Ume!
Águia ficou parado, olhando para o ariano sem dizer uma palavra. Ele já não conseguia mais discernir se estar ou não com Mu seria seguro para sua amada irmã caçula. O cavaleiro parecia um bom homem; centrado, calmo e pacífico, mas também forte e decidido quando queria algo, o que deixava Águia ainda mais incomodado com aquela situação, pois sabia que Mu não desistiria de sua amada irmã tão facilmente.
Ume era o xodó, a florzinha, a única cut cut que derretia o coração frio do shinobi mais sério de Kyoko. Águia possuía por Ume um zelo e carinho tão grande que as vezes chegava quase a obsessão. Cuidar de sua irmã era algo que ia muito além de viver e entregá-la assim de bandeja para alguém, principalmente um humano, era quase como morrer. Não que duvidasse das intenções de Mu ou que achasse que ele seria mal com sua irmãzinha, mas a devoção cega que aqueles cavaleiros tinham pela deusa deles era o que incomodava Águia. Saori era a deusa que regia pela Terra e Águia sabia que se algo acontecesse Mu teria que escolher, assim como Saga e era isso que o shinobi não aceitava: Ter que deixar sua irmã e Kyoko-sama nas mãos de homens que viviam para proteger outra mulher. Não queria ver sua irmã ser abandonada ou pior, morta, assim como Kyoko e sabia que seus companheiros pensavam da mesma maneira.
Por mais que Mu amassasse Ume a forma de vida que os cavaleiros levavam era o que preocupava Águia. Não queria perder sua irmã.
—Águia! — chamou Mu outra vez.
O youkai piscou duas vezes e depois olhou para o outro lado da cama de Mu. O ariano entendeu o gesto, seguindo a indicação inocente e vendo a florzinha dormir tranquilamente, desconfortável em uma poltrona. Sorriu aliviado. Graças aos deuses ela estava bem e estava ali também.
—Você me odeia, não é?!- Mu perguntou sem tirar os olhos dela.
Águia respirou fundo, coçou a nuca e cruzou os braços.
—Não é que eu odeie você, só não acho que você possa dar a minha irmã tudo que ela merece.
—Assim você me ofende, Águia.
—Quem disse que me importo? — devolveu sem se abalar. — A única coisa que me importo é com a segurança da minha irmã.
—Você está falando como se eu não pudesse fazê-la feliz. Como se eu fosse abandoná-la na primeira dificuldade.
—Me responde uma coisa, áries: Se ocorresse uma nova guerra dos deuses e você tivesse que escolher entre sua deusa e minha irmã, se tivesse que escolher entre a vida de uma delas qual você escolheria? — indagou sério, os olhos brilhando pela irritação. Odiava pensar ter de deixar sua irmã com um humano, era essa a verdade.
Mu ficou pasmo com a pergunta descabível, totalmente sem lógica que Águia lhe fazia. Aquilo não tinha como ser comparado. O que sentia por Ume era totalmente diferente do que sentia por Athena. No fundo até entendeu a preocupação de irmão da parte de Águia. Talvez se estivesse no lugar dele faria e questionaria a mesma coisa, mas mesmo assim ele não tinha o direito de acusá-lo de algo que nem tinha acontecido e muito menos menosprezar o cavaleiro que era.
Com toda sua calma e perspicácia, Mu sorriu por dentro. Águia estava tão enciumado com o possível romance de sua irmãzinha que nem se dava conta dos argumentos que usava. Pois bem; se era uma resposta que Águia queria então daria a ele a resposta que merecia.
—Agiria da mesma forma que você. Você não poderia escolher entre a Kyoko e sua irmã, não é?! Então não tente parecer imune a uma situação que você não é, me transformando em um vilão quando você e eu estamos no mesmo barco.
Águia empaleceu, sentindo todos os músculos enrijecerem com o tapa sem mão dado por Mu. Aquele branco azedo sem sal era muito...arrogante!
Mas antes que o shinobi pudesse rebater as palavras de Mu ele finalmente percebeu que já não estavam mais a sóis, pois sua amada irmã estava agora muito bem acordada, com os olhos pequenos arregalados enquanto ouvia a troca de farpas entre os dois. Mu percebeu e olhou para ver o que havia deixado o metido com cara de susto, olhando também para ter a mesma constatação.
Sem jeito e muito puto Águia achou por bem se retirar. Pensou em arrastar Ume consigo, mas assim como das outras quatro noites que Mu já dormia, ela não sairia do lado dele. Não estava afim de descontar sua ira na pobre e então saiu sem dizer mais nada.
Mu inflou. O ego satisfeito de quem sabia ter ganho a primeira de muitas batalhas. Queria muito ficar com Ume, mostrar a ela as belezas do seu mundo e que ali não existiam só pessoas más. Mas para ficar com a doce Ume, Mu teria que degustar o amargo que seria seu inevitável e intragável cunhado. Valeria a pena. Sim! Por aquele sorriso meigo e aquela voz doce valeria degustar do amargo e do azedo, por que o doce era o que cortava os dois.
♊oOoOo♊
A sensação de abrir os olhos e perceber que aquele era o teto de sua casa, era a mais relaxante sensação de todas. Lar doce lar! Nada como estar de volta! O cheiro bom dos lençóis exageradamente limpos, a maciez da cama enorme — sua cama — e aqueles olhos azuis penetrantes e sexys olhando seu corpo parcialmente nu com cobiça não tinha preço.
Mas espera aí! Como assim olhos azuis?
Camus quase deu um pulo da cama ao se dar conta de que era devorado por um par de olhos. Seu sangue gelou e por um segundo ele achou estar sonhando, ou pior, no inferno bem de cara para o capeta. Ficou estatelado, sentindo um frio mortal descer por sua espinha. Camus tinha ciência de sua atual fragilidade e mais ciência ainda de que encarar aquele que estava inacreditavelmente ali em seu quarto, sua casa era morte na certa. Mas a questão que não saia da cabeça de aquário era:
Como ele conseguiu sobreviver?
A pessoa que observava Camus sorriu mais abertamente. Ele era sempre tão frio e seguro de si, não demonstrava sentimentos e muito menos medo, mas agora o mago do gelo e da água não conseguia conter sua surpresa e muito menos seu nervosismo.
Devagar descruzou os braços e começou a caminhar em direção a ele. Suspirou satisfeita e delirante com o perfume do shampoo e de limpeza que saia de Camus toda vez que ele tentava se aprumar mais. Sabia muito bem o motivo e com razão para aquela reação negativa. Qualquer um deles naquele santuário não reagiria diferente e com toda razão. Infelizmente e não por sua própria causa sabia não ser bem vista naquele lugar.
—Ora, ora! Isso não é uma coisa que se vê todos os dias. O grande Camus de aquário se encolhendo como um bichinho amedrontado.
—Suzuki. – fez uma pausa.— Impossível! Non...non poderia ter sobrevivido. — balbuciou perplexo.
—Hahahahahaha...ai, ai! Tem razão Camus, Suzuki jamais teria sobrevivido e...- sentou-se ao lado dele na cama. — ...se Saga não tivesse chegado a tempo eu também não teria.
— Quê? Saga? – Camus ficou parado um tempo processando aquela informação, buscando dentro de suas memórias conturbadas alguma pista. Observou bem dentro daqueles olhos e aquele sorrisinho maroto deixou o cavaleiro completamente sem chão de tão envergonhado. — Naomi...
Baa-san caiu na gargalhada outra vez. Era divertido, mesmo que fosse maldade de sua parte assustar Camus daquela maneira. Suzuki era um pesadelo para qualquer um e dar de cara com a figura que ele usava não seria agradável para ninguém que o conhecesse. Acontece que a figura, a imagem que a marionete usava não lhe pertencia e quando ele já não conseguia mais conter sua verdadeira forma, rasgando-se em pedaços ele automaticamente havia devolvido sua forma falsa a verdadeira Naomi. Baa-san tinha o dom de curar youkais e também humanos, mas por conta da energia gigantesca de Suzuki ela nunca conseguiu curar a si mesma, sendo forçada a carregar a imagem de uma pequena idosa em seu corpo e rosto enquanto o Kage vivesse. Com a morte de Suzuki curar-se era brincadeira de criança, pena que Camus não estava acordado quando o processo aconteceu.
— Desculpe, não consegui resistir. – disse gargalhando. — Você tinha que ver a sua cara.
— Merci. (Obrigado) – respondeu mal-humorado.
— Ahhh Camus não seja tão ranzinza. Como se sente?
—Tirando as dores no corpo inteiro e o micro infarto que tive? Me sinto muito bem. – se acomodou melhor na cama observando Naomi sorrir e se afastar até a cômoda, e começar a preparar algo que julgou ser sua medicação.
Depois de alguns minutos Naomi retornou carregando uma pequena bandeja com um líquido roxo em uma seringa grande demais para o gosto de Camus, comprimidos e algo que parecia mais veneno do que chá. A mulher pegou um algodão e passou na veia do braço dele com cuidado, depois sorriu maliciosa; sabia o quanto Camus odiava aquelas coisas. Devagar enfiou a agulha na veia ouvindo o cavaleiro resmungar e virar o rosto em outra direção.
— Pronto! Nem doeu. – disse dando a xícara para ele. Camus aceitou sem reclamar.
— Como estão Mu e Afrodite? – indagou se acomodando melhor para Naomi começar a trocar seus curativos.
— Estão bem. Ume está cuidando de Mu e claro, Águia acabou ficando junto, o cavaleiro de Câncer e...ãhnn, como é mesmo? Ah! Capricórnio! Estão mimando Afrodite de peixes.
— E Saga? – indagou curioso. Naomi suspirou.
—Bom...ele está bem, na medida do possível. Algumas costelas quebradas, incontáveis queimaduras, várias partes do corpo foram perfuradas, um osso do rosto esmagado, fora outras coisas que eu nem lembro mais, mas está vivo e claro; tão apagado quanto você estava. – fez uma pausa para respirar. — A luta foi muito difícil. Hiroaki quase os matou; Cheshire perdeu o braço outra vez e Yamoto teve queimaduras, e vários ossos também fraturados. – respondeu sem desviar o olhar do que fazia. — Foi uma das lutas mais brutais que já vi na minha vida. Já vi Kyoko, Águia, Yamoto e principalmente Cheshire, e Ookami arrancarem membros de vários inimigos, mas sinceramente eu nunca pensei que veria Saga fazer o que fez. — Naomi respirou fundo apoiando as mãos no colo e agora sim mirando o rosto com alguns hematomas de Camus. — Quando eu o conheci eu entendi porque a Kyoko se apaixonou por ele. Saga exala superioridade e imponência por todos os poros, mas...também benevolência, uma bondade e paciência que cheguei a duvidar se ele realmente era humano.
—Saga sempre se destacou por essas características. Quando mais novo chegou a ser comparado a um deus por ser tão bondoso, mas o que isso tem a ver com a luta?
— Tem a ver que eu nunca imaginei que alguém tão bondoso pudesse arrancar a cabeça de outra pessoa com suas próprias mãos. – Camus empalideceu. Naomi sorriu de lado voltando ao que fazia. — Ele podia ter matado Hiroaki de um jeito rápido, mas ele não fez. Ele o estrangulou, o fez sentir a morte chegar bem devagar e quando se deu por satisfeito, depois de senti-lo agonizar em seus braços, Saga rasgou sua garganta e arrancou a cabeça dele com as próprias mãos.
Camus ficou em silêncio por um tempo. Realmente Saga devia estar muito mais do que furioso com Hiroaki, isso era óbvio. Mesmo sendo um cavaleiro, uma pessoa que mata outra com as próprias mãos dessa forma não queria só morte, queria vingança, tortura, prazer. Não gostou muito de saber daquelas informações, pois para alguém como Camus achava isso violento demais e desnecessário, mas também não queria julgar seu amigo. Saga não era desse tipo de gente e muito menos dado a violência extrema. Se o mais velho havia agido assim era por que realmente o que sentia por Hiroaki ia muito além da vontade de fazer justiça; Saga queria vingança!
— Saga é um cavaleiro experiente e fez o que achou que devia fazer. Hiroaki mereceu morrer e é isso que importa. – ditou firme e sério.
— Eu não disse que ele não mereceu, só estou dizendo que fiquei impressionada, só isso. Na verdade, depois do susto eu fiquei bem feliz porque a Kyoko ama o Saga demais, e agora que ele se tornou um Kage...
— Espera! Como assim “Saga se tornou um Kage”? – indagou de olhos arregalados o cavaleiro de aquário.
— Sim, Saga agora é um Kage e não um qualquer. Ele matou o Kage mais poderoso. – Camus ficou em silêncio, perplexo pelo que ouvia e ainda sem entender aquela história. — Camus, só se torna um Kage derrotando outro Kage, ou seja, você precisa vencer um Kage para se tornar um, diferente dos Shinobis que são escolhidos. Os Kages que perdem geralmente são banidos, mas na grande maioria mortos por seus desafiantes ou se matam porque não conseguem conviver com a vergonha de perder seus títulos. Eles são como reis de um país e por isso só existem quatro ou existiam. Eu não sei bem como vai ficar no caso de Suzuki e Yukio, mas quanto ao fato de Saga, agora, ter se tornado o senhor dos Kage, disso eu não tenho a menor dúvida. – terminou empolgada.
— Camus!!! – cumprimentou Milo ao chegar, empolgado e feliz da vida em ver o amigo acordado.
— Olá Milo. – respondeu frio como sempre.
Ookami entrou logo atrás tão empolgado quanto escorpião, o que fez Camus estranhar. Naomi sorriu travessa da cara engraçada do francês. Era natural ele estranhar aquela visita e ainda mais juntos, mas o que Camus não estranharia era o fato de Milo e Ookami estarem se dando tão bem que pensou já ter sido substituído. Que ótimo! Se já não bastasse aturar uma matraca, agora seriam duas e juntas!
Sorriu por dentro. Era muito bom estar em casa de novo.
♊oOoOo♊
Depois do despertar de Afrodite, Camus e Mu, dois dias depois foi a vez de Saga. O cavaleiro acordou num pulo, procurando pelo quarto algo que seu irmão sabia muito bem o que: Kyoko. Respirou aliviado e filhadaputamente dolorido ao vê-la dormir como um anjo, acalmando seus nervos. Do jeito que conseguiu agarrou a kitsune, enchendo-a de beijos por todo o rosto, feliz por estar em casa de novo e com ela em seus braços. Julieta chorou como um bebê, ou melhor, uma mãe ao saber que seu “filho mais velho” não corria mais risco de vida e ficaria bem logo. Correu para a cozinha para preparar uma canja de pé de galinha e miúdos para Saga se recuperar mais rápido ainda.
Naomi assim que soube que Gêmeos havia despertado correu para o terceiro templo, examinando o guardião e lhe entupindo de medicamentos. Saori também havia pedido aos melhores médicos que seu dinheiro podia pagar para cuidar da saúde de seus guerreiros afim de não sobrecarregar a youkai.
Tudo parecia estar indo muito bem: Mu já conseguia sair de sua casa e andar pela vila com Ume, mostrando a moça tudo de bom que tinha por ali, lógico, sob o olhar predador de Águia. Camus ainda reclamava do ombro ferido, mas também já conseguia sair de aquário arrastado por Milo e por Naomi, que queria que o cavaleiro lhe mostrasse tudo, principalmente o mar. Afrodite também voltava aos afazeres do dia a dia, cuidando de suas rosas e ainda sendo paparicado por Shura e Carlo, vulgo Máscara da morte. Tudo estaria às mil maravilhas. Perfeito! Exatamente como num conto de fadas se não fosse por um pequeno e muito delicado detalhe: Kyoko.
Quatro dias depois e mesmo com os esforços de Naomi, Kyoko ainda não havia dado sequer um sinal de que estava prestes a despertar, para o desespero dos quatro shinobis e principalmente de Saga e Keiko.
—Vê, ela não se move. Nada. Nenhuma reação. – informou a youkai passando uma agulha na sola do pé da Kitsune.
—Naomi não existe mais nada que você possa fazer? – pediu Keiko com lágrimas nos olhos. De todos ela era quem mais parecia aflita. Estava doida para poder abraçar sua irmã outra vez.
—Infelizmente não, Keiko. Eu já fiz de tudo e ela simplesmente não acorda. Até Athena já tentou, o que eu poderia fazer?
— Kyoko...- balbuciou a mais nova.
Saga bufou nervoso, passando a mão em um maço de cigarros e saindo do quarto. Aquilo só podia ser um pesadelo: Primeiro Kyoko estava morta, depois quando voltava a viver perdia a memória e agora que finalmente havia acabado com a raça do maldito Hiroaki e pensava que teria a vida dos seus sonhos, a kitsune entrava em coma e sem previsão para acordar. Que maravilha! Que ótimo! Tudo não podia estar saindo na mais perfeita ordem...CATASTRÓFICA!
Se já não bastasse ter que lidar com os youkais que se aventuravam na maldita abertura deixada por Hiroaki no céu, a preocupação e desespero por Kyoko ser a única a não acordar estava deixando Saga sem chão. Não é que estava perdendo a fé, mas sinceramente...estava esgotado com toda aquela situação. Nunca imaginou que amar alguém daria tanto trabalho. A coisa que mais queria era trazer Kyoko de volta para casa e mostrar a ela as maravilhas que nunca tinha visto em seu mundo, mas do jeito que a coisa ia parecia que isso não iria acontecer nem tão cedo.
Tragou seu cigarro com tanta força que por um segundo achou que o fumaria em uma única tragada. Fechou os olhos pensando em alguma coisa, qualquer coisa que pudesse fazer para despertar Kyoko, mas nada mais vinha em sua mente. Até Shion e Mu tentaram através de suas telepatias acordar a kitsune, mas para piorar algo estava bloqueando a mente de Kyoko, algo que iam muito além do que eles podiam imaginar. Não sabiam se o bloqueio era da própria ou algo que Hiroaki pudesse ter feito com ela antes de morrer.
—Vai com calma.
—Calma? Como Kanon? Como posso ficar calmo...desse jeito? — retrucou Saga gesticulando. — Não sei mais o que fazer. Estou...desesperado.
Saga começou a ofegar, na tentativa inútil de não desabar no choro ali na frente de Kanon. Virou o rosto para não ser visto tencionando a se afastar. Kanon conhecia seu irmão e sabia que por mais durão que Saga tentasse parecer naquele momento, no fundo ele não era. E antes que o mais velho pudesse se afastar para se isolar, Kanon o segurou pelo braço, puxando o irmão para um abraço consolador. Saga tentou se soltar, mas seu irmão não deixou. Acabou por se deixar guiar por ele, abraçando o irmão como se precisasse disso para viver, chorando como uma criança.
—Por que os deuses estão sempre me castigando? Por quê?
—Ela vai ficar boa, meu irmão. — consolou Kanon apertando o abraço. Dava dó ver Saga daquele jeito. Seu irmão havia lutado tanto por Kyoko e quando finalmente estava com ela aquilo acontecia.
—Aquela é...a Kyoko de verdade, Kanon. Não é uma...maldita boneca.
—Eu sei, meu irmão.
—Tenho medo que ela não acorde nunca mais...- confessou choroso.
— Não fala isso. Ela vai acordar, quando você menos esperar aquela kitsune maluca vai estar por aí correndo feito uma doida, deixando todo mundo de cabelo em pé, você vai ver só. — Kanon segurou o rosto de Saga entre as mãos, olhando fundo nos olhos dele. Sorriu, precisava fazer alguma coisa para tirar seu irmão daquele estado horrível de melancolia. Odiava ver Saga daquele jeito. — Você está doido pra transar, não é?!
—Ahhhh, porra Kanon!- gruiu Saga se afastando.
Kanon começou a rir. Agora sim estava satisfeito. Se existia algo que Kanon detestava era ver seu irmão triste. Saga era uma pessoa incrível, com um coração bondoso e do tamanho do mundo. Já tinha sofrido tanto na vida, não era justo que ainda sofresse mais.
Deu uma gargalhada gostosa, caminhando atrás do mais velho até a entrada da casa de Gêmeos e o abraçando por trás com um dos braços por cima do ombro. Era divertido irritar Saga. Sempre foi assim desde criança. O Gêmeo mais novo adorava tirar seu igual do sério, fazer o tão certinho e bondoso Saga perder as estribeiras, e isso era o que Kanon sabia fazer melhor do que ninguém. Quando criança não gostava de admitir, aliais, nunca admitiu, mas agora depois de terem revivido Kanon sabia e admitia sem peso algum o motivo de tanta implicância com seu irmão: queria sua atenção.
—Não vem não. — resmungou o mais velho emburrado.
—Ahhhhh! Para! Já falei que você não me engana. Sei que está triste com a condição da Kyoko, mas você está mais puto por ter que bater aquela punhetinha safada por que ela cismou de dar uma de princesa da Disney. — ironizou o mais novo.
—Você consegue ser absurdamente ridículo quando quer, Kan. — rebateu Saga cruzando os braços. —Não confunda nossas aparências com nossas personalidades, meu caro irmão.
—Ahhhhhh ta bom! Ahãn! Sei! Ter que dormir todo dia do lado daquele corpo sexy...
—Para! — ditou mandão, Kanon não se importou.
—...com aquele cheirinho de amora, aquela pele macia...
— Da para parar?
— ..branquinha, lá do teu lado e você ter que ficar só olhando para ela, dormindo e acordando de pau duro todo dia. — fez uma pequena pausa. — Conta outra, Saga. Você adora fazer sexo, muito mais do que eu. Então não vem com essa máscara de santinho pro meu lado que não cola.
—...
—Viu?! Nem tem argumentos. Isso significa que estou certo.
—Não! Significa que não estou afim de perder meu tempo discutindo minha vida sexual com você. — rebateu ainda mais ranzinza.
Kanon sorriu ainda mais travesso; estava quase chegando lá, no ponto! O ponto em que seu irmão perderia aquela pose toda.
—Discutir? Para quê? Pensa que não ouso seus gemidos?
Saga empalideceu. Sim! Era verdade. Se existia algo que Saga gostava mais do que ler e uísque, esse era prazer sexual. Kanon sabia muito bem disso, pois afinal fora ele mesmo quem mostrou aquele mundo ao irmão. Perdeu as contas de quantas vezes haviam feito loucuras dentro daquela casa e fora dela. A diferença era que Saga era mais reservado, mais tímido. Já Kanon era totalmente ao contrário: Sedutor nato e muito, muito safado. Não tinha o menor pudor em dizer que gostava sim de umas boas safadezas, diferente de Saga que prezava e muito sua discrição. Não era atoa que ele e Camus se davam tão bem.
— Seu filho da...
Saga virou na direção do outro que deu um leve pulo para trás, rindo satisfeito em ter deixado seu irmão exatamente como queria: puto e envergonhado. Kanon ainda tentou correr, mas estava tão satisfeito em ter tirado seu irmão daquele estado melancólico horrível que se deixou levar. Os gêmeos começaram a se agarrar, brigando como duas crianças. O mais novo ria entre os socos, ainda falando as várias putarias que Saga faria com Kyoko deixando-o ainda mais envergonhado – não que Kanon estivesse mentindo. O mais velho agarrou o pescoço do outro com o braço direito, o puxando para baixo a base de milhares de palavrões dos bem cabeludos.
—Até parece... que você vai resistir não bater umazinha olhando para aqueles melões lindos que a raposinha tem! — falou o mais novo rindo e agarrando o outro também.
—Cala a boca, seu filho da puta! Eu não admito que fale assim dela.
— Ai! Porra! Falar o que? Que a mulher do meu irmão é maior gostosa? Ihhhh! Foi mal! Falei de novo.
— Seu puto de merda!!! Você foi achado no lixo, adotado! — gruiu Saga apertando o pescoço de Kanon ao mesmo tempo que tentava libertar o seu.
—Ahhhh...você que foi. A Julieta me contou, ninguém... te queria e jogaram você no lixo. O adotado aqui e você, Saga! — rebateu tentando chutar o mais velho.
— Ahan!
Os gêmeos se assustaram, parando a brigaiada de irmãos assim que notaram já não estarem mais a sóis. Saga deu um empurrão em Kanon virando rápido para encarar Naomi. Ela sorriu tentando disfarçar e agir como se não tivesse visto nada, mas era impossível não achar graça daqueles homens enormes, sérios e principalmente imponentes ao cubo, brigando e se ofendendo como duas crianças de dez anos.
—Adotado! — resmungo Kanon se ajeitando.
—Cala a boca! Você que é. — rebateu Saga no mesmo tom, se aproximando de Naomi.
— A Keiko e a Julieta já terminaram de dar o banho na Kyoko. – fez uma pausa. — Eu...já vou indo.
Naomi se aproximou mais e mesmo depois da cena divertida que viu ela sorriu sem jeito tentando transpassar uma calma que sabia não ter. Não conseguia parar de pensar que tudo aquilo que sua amada Kyoko-chan estava passando era culpa sua. Culpa sua por ter usado uma técnica em Kyoko que não devia. Mesmo sabendo que fora um mal necessário doída toda vez que a via em cima daquela cama. Tinha medo de Kyoko não acordar nunca mais.
— Saga se a Kyoko...
—Tudo bem Naomi, não se preocupe. Se ela der algum sinal você será a primeira a saber. – interrompeu calmo.
Naomi acenou positivamente, dando um abraço em Saga e Kanon, e saindo logo em seguida. Os Gêmeos ficaram ali, na entrada do terceiro templo observando a noite linda e conversando sobre algumas possibilidades de fazer Kyoko acordar e também sobre algumas coisas que aconteceram no Makai como se nada tivesse acontecido. Eram irmão, e irmãos e amigos eram assim: Brigavam e faziam as pazes ao mesmo tempo.
Depois de alguns minutos Saga percebeu que já passava da madrugada e resolveu que era hora de tentar descansar pelo menos um pouco. Ficar acordado noites seguidas não adiantaria de nada. Deixaria para pensar junto com Shion e Athena no dia seguinte. Ainda não havia criado coragem para sair de perto de Kyoko, mas quanto mais o tempo passava mais Saga sabia que precisava fazer alguma coisa.
Caminhou a passos arrastados, se despedindo do irmão ao entrar em seu quarto. Se jogou em baixo do chuveiro frio ficando ali durante vários minutos, depois de banhado vestiu um short leve, sem cueca e caiu ao lado de Kyoko sem a menor delicadeza. Era como se todo o peso de seu corpo e alma fosse jogado naquela cama enorme. Ficou ali deitado ao lado dela, observando a respiração calma e a feição plácida, linda que ela possuía. Como queria ver aqueles olhos de raposa olhando para os seus, o sorriso lindo em meio as covinhas fofas que o convenciam a fazer todas as loucuras.
— Sinto sua falta. Vê se acorda logo sua dorminhoca. – sussurrou a abraçando, acomodando o rosto no pescoço dela e apagando em minutos.
♊oOoOo♊
Saga acordou muito cedo na manhã seguinte. Havia marcado uma reunião com Athena, Shion e Shaka para tentarem pensar em alguma maneira de acordar Kyoko e discutirem sobre as informações passadas pelos Shinobis, que por sinal não estavam no Nigenkai a alguns dias. Águia com muito custo deixou Ume aos cuidados de Mu que prometeu não tocar em nenhum fio do cabelo da moça, claro se ela não permitisse. Aproveitou para levar Ume até Athenas para passear pela cidade e mostrá-la a bela paisagem da costa. Naomi a muito custo convenceu Camus de Aquário a ir com o casal também. Ela nunca havia ficado tanto tempo no Nigenkai e queria mais do que tudo conhecer as belezas de que tanto tinha ouvido falar.
O Makai estava um caos. Sem os Kage para fazer a segurança das fendas, monstros sem escrúpulos se aproveitavam da atual fragilidade para cometer seus crimes. Uma guarda combinada com os guardas do Norte, que agora deveriam servir a Saga, e os do Sul que seguiam as instruções dos Shinobis de Kyoko se organizavam entre as fendas e uma equipe de segurança montada ao redor do zíper na tentativa de pelo menos diminuir a invasão de mais youkais ao mundo dos homens. Até Cheshire fora junto dos outros, o que Saga achou um tanto...estranho demais para sua inteligência e bom gosto. Alguma coisa lhe dizia que aquele shinobi maldito estava lhe escondendo alguma coisa.
Procurou não pensar muito nisso, na possibilidade de Cheshire estar escondendo algo ruim, mas sim dele estar – assim como os outros – buscando uma maneira de trazer Kyoko de volta.
Tomou seu café a muito custo graças a insistência de Julieta e sem demora partiu rumo ao décimo terceiro templo, mas não sem antes deixar de dar mais uma olhada, um beijinho, um carinho na sua amada raposa. Estava confiante naquele dia, apreensivo, mas mesmo assim confiante.
Tudo estava calmo, o dia lindo com pássaros cantando e um sol radiante no céu do santuário parecia rachar o solo de tão quente. Era verão na Grécia para a alegria de uns e mal humor de outros. Os gritos das crianças brincando na cachoeira próxima as doze casas podia ser ouvido da Casa de Gêmeos. Era sempre assim quando estava calor. Vários cavaleiros e amazonas, e principalmente aprendizes corriam para aquele lugar no intuito de se aliviarem e se divertirem quando tinham folga.
Um dos aprendizes correu rápido no alto da cachoeira, soltando um grito altíssimo no momento em que pulou dali e foi justamente nesse momento, de um sono sem sonhos ou pesadelos que Kyoko acordou no susto. O rosto transtornado com os olhos arregalados de quem não fazia a menor ideia de onde e nem em que era estava. Ela olhou de um lado para o outro, procurando alguma coisa que lhe desse pelo menos uma pista de onde estava, mas nada encontrou. Farejou o ar sentindo o cheiro mais do que familiar em todos os cantos daquele quarto enorme e para seu completo desespero não era o cheiro de Saga.
Nervosa a raposa tentou ficar de pé, mas sem entender bem suas pernas fraquejaram. Kyoko caiu no chão, desesperada, se arrastando até o canto entre a parede e o guarda roupa, se encolhendo naquele cubículo como um bichinho amedrontado.
Ficou assim durante vários minutos, escondida na esperança de alguém aparecer para tirá-la daquele pesadelo, mas o tempo passava e nada. Nem Cheshire, mesmo com seus múrmuros de socorro aparecia, piorando ainda mais seu estado aterrorizado. Estar naquele lugar outra vez e sozinha era pior do que a morte.
A respiração acelerada e o tremor estavam deixando Kyoko ainda mais nervosa. Não conseguia se controlar, o corpo tremia tanto que ela mal conseguia ficar parada no mesmo lugar.
Ela sabia muito bem o lugar onde estava, agora sabia o que era ainda pior. Aquele cheiro e aquela luminosidade que somente o astro rei podia emitir ela jamais se esqueceria e principalmente do único mundo que possuía uma estrela com aquele poder tão grandioso; o Nigenkai, ou seja, o mundo dos humanos.
Apavorada a níveis estratosféricos Kyoko não conseguia controlar suas lembranças conturbadas piorando muito sua situação. Não conseguia parar de pensar na possibilidade de ter sido sequestrada outra vez. Não conseguia raciocinar direito e muito menos parar de imaginar um homem humano invadir aquele quarto e a torturar sem nenhuma dó a procura de suas preciosas lágrimas. Respirou fundo tentando colocar os parafusos no lugar. Não podia ficar daquele jeito para sempre. Precisava fazer alguma coisa, qualquer coisa para sair dali.
Com muito custo, conseguiu ficar de pé. Percebeu que seus pés e mãos não possuíam nenhum tipo de amarra ou algo que a prendesse ali. Passou a mão no pescoço verificando se ali também não tinha nada. Suspirou aliviada, pelo menos não lhe colocaram uma coleira. Com cuidado e usando sua furtividade ao máximo a raposa se apoiou no guarda roupa, depois caminhou bem devagar; os pés descalços ajudavam ainda mais a não fazer barulho e isso era bom. Muito bom. Olhou na primeira porta e viu um banheiro, mas nada familiar. Respirou fundo, tentando manter o controle de suas emoções e principalmente de seu corpo, e mais sorrateira ainda abriu a porta do quarto. Mirou de um lado para o outro vendo o corredor enorme; farejou e nada. Engoliu em seco, criando coragem e pá! Estava fora do quarto. Na pontinha dos pés e com as costas coladas na parede, começou a caminhar; as orelhas erguidas, atentas, e os olhos arregalados não deixavam nada passar. Levou um baita susto ao ouvir uma voz feminina vir de uma porta do outro lado e mais à frente. Correu o mais rápido que pode, entrando na primeira porta que encontrou e se escondendo: era outro banheiro.
— Eu não sei que horas eu vou chegar, Sorento. O Kan está fazendo um favor ao irmão dele hoje e não sabe quando poderá sair. – uma pausa. — É claro que é importante. — outra pausa. — Tá, tá! Eu vou sem ele, está bem? Avise ao Julian que estarei aí logo, okay?! Tchauzinho!! – disse a mulher que parecia falar ao telefone. Kyoko ouviu um bufar e um pequeno barulho, um bip e novamente a voz da mulher:
— Ai que saco! Justo hoje que estava louca para ir à praia. – resmungou saindo.
A raposa ficou imóvel, concentrando sua audição nos passos que se afastavam gradativamente. Quando achou que devia olhou pela fresta da porta, respirando aliviada ao ver-se novamente só. Observou as próprias mãos e viu que elas pareciam tremer ainda mais. Saber que além de estar no Nigenkai e ainda ter a certeza de ter humanos por perto era medonho. Não gostava deles, aliás odiava. E sem poder se defender odiava mais ainda. Se não fosse por Saga com toda certeza aquela raça já teria sido exterminada. Não conseguia parar de pensar em sair dali desesperadamente.
— Kowaidesu (Estou com medo).— sussurrou baixinho, sentindo os olhos arderem e embaçarem. Não entendia por que estava passando por aquilo. Saga havia prometido ficar consigo e onde ele estava? Onde seus shinobis estavam? Por que a abandonaram justo quando estava mais indefesa? Será que haviam morrido? Não! Aquilo não era possível. Não queria nem pensar naquela possibilidade.
Sacudiu a cabeça a fim de espantar aqueles pensamentos. Passou as mãos no rosto e devagar tomou um pouco mais de coragem e saiu. Encostada na parede, ainda na pontinha dos pés a raposa se esgueirou até uma entrada grande. Farejou no ar um cheiro bom, cheiro de...comida! Seu estômago roncou; alto, dolorido. Pensou em entrar correndo, mas o medo que sentia foi maior. Pensou um pouco, olhando de um lado para o outro, observando de soslaio se ainda estava sozinha. Sim! Ainda estava sozinha.
Sem mais e morta de fome, Kyoko invadiu a cozinha, catando todas as frutas, pães, biscoitos que sua boca podia mastigar de uma vez. Nem parou para pensar se aquela comida toda poderia estar envenenada ou se elas eram realmente comestíveis. Correu um pouco pelo ambiente, abrindo a geladeira e seus olhos brilharam: um pote cheio de morangos e uma garrafa de suco de amora parecia estar ali só por sua causa. Sua boca encheu-se de água e sem pensar duas vezes pegou ambos, já começando a comer e beber tudo de uma vez.
— Que delícia! – sussurrou de boca cheia, devorando todos os morangos em segundos.
E foi justamente no momento que a raposa iria morder um pêssego a pior coisa que poderia ter acontecido, aconteceu. Kanon que até então não sabia de nada, entrou rápido e sem camisa na cozinha, levando um baita susto e assustando Kyoko como um monstro de filme de terror.
Ele gritou ao ouvir ela gritar também. Kyoko engoliu em seco observando a figura que parecia uma xerox de Saga, mas...não era Saga. Quem era ele?
— Kyoko?! – disse Kanon perplexo e sem entender. —Kyoko!! – completou feliz, se dando conta de que ela finalmente estava acordada, dando um passo na direção dela.
O problema era que Kanon só se parecia com Saga e Kyoko nunca havia confundido os dois e mesmo tendo perdido a memória, e nem fazendo ideia, ou melhor, não lembrando da existência do mais novo ela ainda assim não os confundiria, o que a deixou com um medo triplamente maior. Seja lá quem ele fosse ou o quê fosse, ele não era Saga e foi só nisso que ela conseguiu pensar quando viu homem se aproximar.
—Se der um passo eu arranco seus olhos!! – ela gruiu, pegando uma faca de corte em cima da pia e apontando para Kanon.
O marina parou na hora, erguendo as mãos. Era só uma faca, mas uma faca nas mãos de um espadachim que estava morrendo de medo e se sentindo encurralado era pior que uma arma de fogo. Kanon engoliu em seco duas vezes, pois quando se preparava para tentar desarmar Kyoko, Julieta entrou pela porta de acesso a área externa, dando de cara com a raposa e levando um susto também. A raposa agarrou a mulher pelos cabelos, apontando a faca no pescoço dela e a usando como refém.
— Ahhhh...Kanon! Pelos deuses! – berrou Julieta desesperada.
Os olhos de Kyoko brilhavam dourados, furiosos, avisando Kanon só com aquilo que se ele tentasse alguma coisa se arrependeria para o resto de sua vida. Kanon sentiu um frio na espinha, pois ele conhecia muito bem aquele olhar; o olhar assassino de Kyoko que dizia que ela no momento não estava brincando, para o maior desespero do marina. Agora sim as coisas estavam ruins. Kyoko não hesitaria em matar Julieta.
—CHEGA PARA TRÁS! – ela gritou apertando a faca ainda mais no pescoço da senhora.
— Calma Kyoko! Sou eu, Kanon! — tentou dando um passo para trás.
—Se você der um passo, se tentar qualquer coisa EU JURO QUE VOU MATAR ELA!
Kanon estancou. Kyoko parecia não ouvir seus apelos, e pelo olhar ela falava muito mais do que sério. Isso era a pior parte. Pensou em usar de sua velocidade e arrancar a faca de Kyoko, mas sabia que a raposa não era uma qualquer. Nervosa piorava a situação ainda mais. Não podia colocar Julieta em risco. Precisava fazer Kyoko entender que ele ali não era seu inimigo. Maldição! Ela tinha mesmo que acordar justo naquele dia? Saga e os shinobis haviam ficado com ela todos os dias religiosamente e justo naquele dia, o dia em que Saga tomava coragem em deixa-la só por algumas horas ela tinha mesmo que acordar? Maldito sejam os deuses!
— Sai da frente! – ela disse indicando com a cabeça. — SAI!
—Ahhh minha deusa Athena! – choramingou Julieta.
— Tudo bem Kyoko eu faço o que você quiser só, por favor, não machuca ela está bem? – pediu se afastando, dando espaço para ela passar.
Sem desprender os olhos um segundo de Kanon, Kyoko começou a caminhar de lado, arrastando Julieta consigo até chegar a sala. Observou ao redor verificando algum jeito de sair dali. Tinha que admitir que a aparência de Kanon mexia e muito com seus brios, mas não podia se deixar levar. Aquele não era Saga. Seu Saga.
—Kyoko, por favor, não...não me mate. – pediu a senhora.
— Cala a boca! – resmungou bem próximo do ouvido da mulher, seus caninos pontiagudos rasparam no rosto de Julieta, rasgando a pele. A mulher gemeu, chorando nervosa.
Sem muita alternativa Kanon concentrou-se em seu cosmo, tentando a todo custo alcançar Saga. Tentou devagar, mas nada. Tentou outra vez e a única resposta que conseguiu foi a de Aiolia.
“ Kanon o que houve? ”, respondeu Aiolia
“Aiolia eu preciso de ajuda. A Kyoko, ela...acordou. ”
“Bom, isso é uma coisa boa. ”
“Seria...SE ELA NÃO ESTIVESSE TENTANDO MATAR A JULIETA COM UMA FACA DE COZINHA!!”, berrou nervoso através do cosmo.
E dessa vez, alto até demais. O nervosismo de Kanon mexeu com o cosmo de todos os cavaleiros de ouro e de bronze de uma só vez. Shion, Athena, Saga, Shaka e todos os outros levaram um susto tamanho o nervosismo e desespero de Kanon. Nervosismo este que não passou despercebido por Kyoko. Saga empalideceu com aquela informação, dando um pulo da cadeira e correndo a toda velocidade permitida pelas doze casas.
A raposa não era quem era atoa e mesmo enfraquecida ela conseguiu sentir com clareza o pedido de socorro do homem através de sua energia. Sorriu maldosa. Kanon não devia ter sido um menino desobediente.
— Não!! – ele berrou desesperado.
Sem nenhuma piedade ou amor pelos humanos, assim como Yamoto havia dito, Kyoko enfincou a faca sem nenhuma dó na perna de Julieta. A mulher berrou de dor. Kanon correu para acudir a mulher que havia lhe criado como a um filho, abstraindo o fato de Kyoko estar fugindo porta fora sem a menor dor na consciência. A única coisa que ela conseguia pensar era em sumir daquele lugar. Precisava mais do nunca encontrar seus shinobis que, sabe-se lá por que cargas d’água, não estavam onde deveriam estar.
Kyoko correu o máximo que suas pernas podiam, vendo a saída do grande templo de gêmeos.
“Aldebaran! Ela está descendo”, berrou, desesperado outra vez pelo cosmo.
Aiolia desceu logo atrás com Máscara da morte também ao encalço de Kyoko. Ela desceu as escadarias ofegante, ansiosa em sair daquele lugar. Paralisou de medo ao ver a muralha Aldebaran subir as escadarias em sua direção. Caiu sentada de bunda, virando e voltando a subir, mas em vão. Aiolia e Máscara da Morte desciam correndo juntos, para o maior desespero de Kyoko.
Ela olhou de um lado para o outro procurando uma saída, mas de um lado só haviam rochas e do outro...um penhasco enorme onde as ondas do mar quebravam intensamente no paredão da subida das doze casas. Encurralada a Kitsune não pensou duas vezes; morrer seria melhor do que ser preza pelos humanos outra vez, e foi com medo justamente disso que ela correu desesperada. Aiolia e Aldebaran correram juntos, mas antes que pudessem alcançar a fujona, Kyoko pulou.
Os cabelos de Máscara, Aiolia e Aldebaran foram suspensos pela força do vento que vinha do penhasco. Aquilo era alto demais até para um cavaleiro de ouro.
—Puta merda! Ela pulou mesmo! – Máscara da morte disse embasbacado.
Aldebaran correu de volta a seu templo, se preparando para sair a procura de Kyoko. Aiolia mal conseguia acreditar que aquilo estava acontecendo. Aquela maluca tinha mesmo feito aquilo?
—O Saga vai enfartar. – falou consigo mesmo, passando a mão nos cabelos e começando a descer também. Era melhor que Saga nem soubesse disso ainda.
Lá embaixo, as ondas batiam com toda força contra as rochas do enorme paredão, não dando nenhum sinal de que Kyoko estava por perto.
♊oOoOo♊
A praia não estava cheia naquele dia, pelo menos não aquela praia. As pessoas costumavam usar aquela parte calma para pesca por divertimento ou procurar mariscos.
Luy caminhava pela beira do mar observando seus pés por baixo da água cristalina. A temperatura agradável fazia o menino sorrir e brincar com a mesma. Aquilo era tão bom! Adorava o verão. Mesmo ele sendo infernal de tão quente gostava por que era a época que podia se esbanjar nas praias junto com seu primo.
— Olha Dionísio, tem maix pulali. – apontou o menino, indicando mais mariscos.
—Sim, vamos! – concordou o maior, segurando a mão do primo e indo.
Os meninos caminharam um pouco mais, abaixando para pegar o máximo de mariscos que conseguiam. A mãe de Luy, Lena, havia pedido aos dois para catar aquelas coisinhas para o que seria o almoço da família. Era muito comum por ali, aquela praia quase não era frequentada justamente pela quantidade de mariscos que ela possuía, mas mesmo assim não deixava de ser tão bela quanto as outras praias da Grécia.
Foram assim caminhando, catando e catando até chegarem próximo as rochas onde havia uma concentração maior do fruto do mar. O mais velho soltou a mão de Luy para assim conseguir pegar ainda mais. Distraído Dionísio não percebeu algo diferente, mas que foi muito bem percebido por Luy. O menino abaixou de cócoras, segurando um pouco da água do mar com as mãos, que agora já não estava mais tão cristalina, e levando até seu primo.
— Dionísio, olha...- falou inocente.
— Pelos deuses! Luy!
O mais velho largou os mariscos que colhia, segurando a mão do priminho e a observando por todos os ângulos, mas Luy não parecia estar ferido, aliás, ele não estava, então de onde vinha aquele sangue?
Dionísio olhou para o próprio pé e observou o rastro avermelhado que se misturava na água do mar. Olhou atento, seguindo de onde ele vinha só com os olhos e percebendo uma pequena entrada entre duas pedras.
—Que isso Dionísio? – perguntou Luy sem entender bem.
—Eu não sei, parece...sangue. Pode ser de algum animal.
—Tadinho! Vamu vê e ajuda ele.
—Está bem, mas não sai de perto de mim.
Luy concordou, segurando na bermuda do primo e indo com ele até a entrada entre as duas pedras. O mais velho olhou devagar, percebendo que a cada passo que se aproximava mais a intensidade do sague aumentava. Começou a ficar assustado, mas também curioso. Não fazia a menor ideia do que iria encontrar ali, mas mesmo assim continuou.
Desceu devagar em uma parte levemente mais funda, formando uma piscina natural, mas bem rasa. Segurou Luy pela mão e com cautela colocou o rosto na entrada entre as duas pedras.
—De...uses. – sussurrou perplexo. Tão perplexo que Luy não deixou de notar a cara de espanto do primo.
O pequeno, agora com seis anos, colocou sua cabeça por baixo do braço do primo, seguindo o rastro de sague que vinha do fundo e quando seus olhinhos verdes viram o que ele não esperava e esperava para rever a anos seu coração pulou no peito.
— Tyoko! – quase berrou de tão surpreso e emocionado.
— Como é que ela veio parar aqui? — indagou o mais velho sem conseguir acreditar no que via.
Luy desceu aonde o primo estava na entrada daquela pequena caverna e saiu caminhando sem pensar. Dionísio ficou tão perplexo com o que via que só se deu conta de que seu primo se enfiava ali quando viu Kyoko abrir os olhos e soltar um puta rosnado. Ela estava com tanto medo quanto eles e rosnar era a única coisa que podia fazer no momento.
Dionísio correu até Luy o segurando. Ele nunca havia visto e nem se recordava de Kyoko algum dia ter emitido um rosnado daquele para eles. Lembrou-se da conversa de Saga com Luy e Lena sobre a falta de memória de Kyoko, e o quanto precisaria da ajuda deles. Observou a raposa com mais cuidado percebendo o quanto ela estava cansada.
—Ela tá matucada. – falou Luy tentando se soltar.
—Não Luy! É perigoso, ela não lembra de nós. Nós temos que sair daqui.
— Naum! – berrou puxando o braço. — Eu naum vô dexá a Tyoko sozinha.
E sem mais puxou o braço, saindo correndo até chegar a uma certa distância da kitsune. Dionísio congelou, paralisado no mesmo lugar. Os olhos de Kyoko observavam Luy como se ele fosse um inimigo ou pior, uma presa. Mas o menino parecia não notar ou se notava, não se deixava abater. Kyoko estava muito machucada e fraca. O máximo que podia fazer era rosnar para tentar se proteger.
—Luy vem para cá. – pediu o mais velho se borrando de medo ao ouvir ela rosnar e mostrar os caninos.
—Ta tudo bem Tyoko. Eu naum vô ti matucá. Naum fica tum medo.
O menino se aproximou mais um pouco, apoiando a mão em uma pedra e sentando nela. Kyoko não tirou os olhos dele, observando o menino com sangue nos olhos. Ficou assim, sem piscar, olhando nos olhos dele. O tempo começou a passar e ela sem perceber começou a se acalmar. Seu cenho fortemente crispado começo a suavizar até que ela percebendo não haver perigo se recostou mais na pedra, apoiando a cabeça e fechando os olhos. Estava exausta! Mal tinha forças para falar. Sua perna sangrava por conta dos cortes causados pelos mariscos quando pulou e acabou por bater a perna em uma pedra cheia deles. A única coisa que queria no momento era dormir. Suas últimas poucas forças com certeza haviam ido embora na luta contra as ondas do mar para chegar até ali.
—Ela plecisa de ajuda. – resmungou Luy com sua típica língua presa.
Dionísio ficou pensativo. Realmente tinha que concordar com o primo. Kyoko estava muito frágil e se continuasse ali no meio daquela água, sangrando daquele jeito ela iria morrer e isso nenhum deles queria. Precisava avisar Saga, procurar por ele, mas como? Quando chegasse à casa de gêmeos talvez Kyoko já estivesse morta.
— Dionísio...- voltou a si ao ouvir o apelo do menor.
— A gente precisa procurar ajuda para ela. Vem, vamos procurar ajuda.
—Naum, já falei ti naum vou lagá a Tyoko sozinha.
— Luy ela não lembra de você e se se sentir ameaçada ela pode te ferir, já pensou nisso?
— A Tyoko nunca ia me matucá. Eu naum vou dexá ela. – bradou o menor cruzando os braços.
O mais velho bufou. Não teria jeito, se quisesse ajudar Kyoko teria que confiar no extinto de Luy e dela também. Que Athena a guiasse ali.
— Okay! Mas não sai daqui está bem? Eu vou buscar ajuda. Ah! E também não toca nela, ouviu?!
Com muito custo e medo Dionísio saiu dali correndo a toda velocidade que suas pernas permitiam: uma pelo medo de Kyoko fazer alguma bobagem com Luy e outra por medo dela não aguentar muito tempo.
Na pequena caverna Luy tirou a camisa, molhando a mesma na água do mar e caminhando até próximo de Kyoko. Ela abriu os olhos só um pouco, observando ele se aproximar.
— Vai doer só um pôtinho. – informou
Devagar o pequeno torceu a camisa em cima da ferida, fazendo a água salgada e gelada do mar cair sobre as feridas na coxa esquerda de Kyoko. A raposa trincou os dentes, se contorcendo ao sentir o sal da água parecer...sal!
— AHHHHHHHHH...- berrou, apertando os punhos até a dor ir diminuindo.
— Minha mamãe diz que água do má fazi bem plos matucadus. – falou colocando a camisa sobre a ferida.
Kyoko encostou a cabeça na pedra de novo, ofegando. Sorriu de lado.
— Ah é?! Sua mãe é uma boa de uma vaca. – resmungou fechando os olhos.
♊oOoOo♊
Dionísio corria como um louco, procurando por alguém de confiança que pudesse ajudar. Estava desesperado, mas tão desesperado que mesmo quando ele trombou com Aiolia e caiu no chão não percebeu quem era a pessoa na sua frente. O leão levou um susto, mas logo reconheceu o menino e estranhou aquele desespero estampado no rosto dele.
— Você está bem? – perguntou abaixando para ajudar o menor a levantar.
—Sen...senhor Aiolia?!
— O que houve? – indagou curioso.
— Eu preciso...eu preciso de...ajuda.
Aiolia observou o menino por alguns segundos e depois ficou de pé ajudando o menino a ficar também.
— Diga! Estou ouvindo. – ditou calmo. Não queria deixar o garoto pior.
— É...a Kyoko, ela está lá na praia dos Mariscos.
Aiolia estancou surpreso. Por essa ele não esperava, mas gostou muito de saber daquilo. Não aguentava mais procurar por Kyoko debaixo daquele sol quente.
Sem mais saiu correndo de volta junto com o menino, seguindo o caminho já conhecido de cor por todos ali. Pensou em avisar a Saga, mas achou por bem investigar primeiro. Não queria deixar o amigo ainda mais desesperado do que ele já estava.
— Olha! É ali. – apontou o garoto.
Aiolia caminhou devagar, sentindo a água fria molhar seus pés. Com cuidado e por ser mais alto, abaixou somente um pouco, olhando pela entrada da pequena caverna e vendo que Dionísio não estava mentindo; Kyoko estava realmente ali e sim, muito ferida.
Caminhou sorrateiro até ela. Não fez movimentos bruscos, pois sabia da atual situação dela e principalmente por não se darem muito bem. Vai que ela ainda se recordasse do quanto o detestava e resolvesse pular em seu pescoço com aqueles dentes?!
Luy se afastou dando espaço para Aiolia. Ele segurou o pano que cobria a coxa de Kyoko, levantando um pouco para ver o estrago. Fez uma cara feia ao ver a gravidade dos cortes, mas aquilo não durou muito, pois Kyoko acordou assustada ao sentir um cheiro diferente. Ela tentou se encolher mais, mas Aiolia não deixou.
—Calma, eu não vou machucar você. – falou brando.
—Não! Fica longe...de mim! – ela pediu nervosa e com o medo estampado nos olhos. Aiolia se compadeceu.
Com medo de Kyoko se machucar mais ainda nas pedras, Aiolia com muito custo conseguiu segurar nos pulsos dela. Kyoko começou a se bater, tentando se soltar. O leonino não conseguiu entender, mas sentiu tanta pena dela que fez o que achou que devia: puxou Kyoko pelos braços, abraçando-a contra seu peito e a prendendo ali.
—Está tudo bem, tudo bem. Calma Kyoko, calma...
— Não...- ela gemeu finalmente cedendo.
Aiolia manteve Kyoko presa em seu corpo, esperando ela se acalmar. Ele não soube explicar e muito menos entender, mas sentiu vontade de olhar para ela...de perto. E como ela era linda. Linda demais para seu bom senso. Quando via Saga com Kyoko ele sempre se perguntava como Gêmeos podia ter se apaixonado por alguém tão...inconveniente como ela e agora vendo-a daquele jeito, sentindo o cheiro inebriante que a pele dela tinha, Aiolia finalmente conseguiu entender como Saga havia se deixado levar. Era uma sensação estranha, uma sensação de querer proteger.
Piscou algumas vezes, recobrando seus pensamentos. O que estava havendo consigo? Sempre detestou aquela maluca e não seria agora só por causa de uma fragilidade momentânea dela que mudaria isso assim tão rápido.
Com cuidado o cavaleiro de leão a pegou no colo saindo dali e a levando consigo. No meio do caminho achou por bem avisar Saga através do cosmo que havia encontrado Kyoko. Não demorou muito e nem metade do caminho para o cavaleiro de gêmeos surgir descendo as escadarias de touro para ir encontrar sua tão preciosa kitsune.
— Pelos deuses, Kyoko!
Saga observou a ferida como se fosse na própria carne, tomando Kyoko dos braços de Aiolia com possessividade. Abraçou-a com tanta força que a mesma acabou por acordar gemendo de dor. Olhou atordoada, piscando devagar e vendo finalmente alguém ali que podia confiar: Saga, seu Saga estava finalmente ali.
— SAGA!!!!
— Eu estou aqui, estou aqui com você. – falou retribuindo o abraço apertado.
Abraço esse que com certeza foi um dos melhores, se não foi o melhor. Era tão difícil escolher, todos eram bons demais e agora com ela ali, acordada e em seus braços tinha a certeza que finalmente as coisas dariam certo para ambos pelo resto de suas vidas.
Nunca mais deixaria Kyoko fugir de perto de si, de dentro de seus braços nunca mais...
Nunca mais!
Fim?!
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