Uma esposa adoravel

1 Um marido lindo e uma esposa adorável


A garrafa chegou numa terça-feira à tarde.

Franky Franklin apareceu no consultório de Loid com aquele sorriso enviesado que sempre significava duas coisas: problema ou piada. Dessa vez, era uma garrafa de vinho escuro, rótulo elegante demais para alguém como ele simplesmente “encontrar”.

— Importado — disse Franky, apoiando a garrafa na mesa. — Forte. Interessante. Use com responsabilidade… ou não.

Loid arqueou uma sobrancelha.

— Você tem uma definição flexível de responsabilidade.

— Só estou incentivando momentos de qualidade conjugal.

Loid suspirou, mas levou a garrafa para casa naquela noite.

Não havia intenção clara. Pelo menos era o que ele dizia a si mesmo.

A casa estava silenciosa. Anya já dormia. A luz do abajur na sala criava um círculo quente no sofá.

Yor estava na cozinha quando ele apareceu com duas taças.

Ela usava o vestido vermelho habitual, aquele que deixava as costas expostas em linhas elegantes e inesperadas. A pele dela refletia a luz de maneira suave, quase dourada.

Loid vestia algo mais simples do que o habitual: camiseta de manga curta clara, calça leve de linho. Sem gravata. Sem postura rígida. Apenas ele.

— Franky insistiu para eu experimentar isso — disse, erguendo levemente a garrafa. — Seria… desperdício beber sozinho.

Yor piscou duas vezes, surpresa.

— Sozinhos? Quer dizer… nós dois? Aqui? Agora?

— A menos que prefira convidar os vizinhos.

Ela balançou a cabeça rápido demais.

— N-não! Eu só… sim. Podemos. Claro.

Sentaram-se no sofá. Não colados. Mas próximos o suficiente para que o calor do outro fosse perceptível.

O primeiro gole foi tranquilo. O segundo mais longo.

O vinho era mais forte do que parecia.

As conversas começaram formais, sobre o dia, sobre o mercado, sobre trivialidades domésticas. Mas as pausas entre as frases foram ficando maiores. Os olhares, mais demorados.

Loid percebeu primeiro a curva do ombro dela. Depois, a linha da coluna descendo pelas costas nuas.

E percebeu, tarde demais, que estava olhando há tempo demais.

Yor começou a se mexer.

— Eu fiz algo estranho? — perguntou de repente, já ajeitando o vestido. — Está torto? Está sujo? Eu… estou brilhando demais?

Ele piscou, saindo do transe.

— Se estivesse estranho, eu teria avisado.

Ela corou.

— Então, por que está olhando assim?!

Ele inclinou levemente o rosto.

— Talvez porque você esteja… difícil de ignorar.

O silêncio caiu entre eles como um tecido espesso.

Yor tentou rir, mas o som saiu mais fraco do que pretendia.

Ela virou o corpo para ele.

Erro estratégico.

Agora estavam frente a frente. Joelhos quase se tocando.

Loid apoiou a taça na mesa. Ela fez o mesmo, alguns segundos depois.

O ar estava diferente.

Ele se inclinou um pouco.

Não o suficiente para invadir. Apenas o suficiente para diminuir a distância.

Yor entrou em curto-circuito visível.

— V-você está perto demais.

— Estou?

Ela colocou a mão no peito dele para empurrar.

Mas sentiu o calor sob o tecido fino da camiseta.

Não empurrou. Hesitou.

Loid segurou o pulso dela. Firme. Não agressivo. Apenas impedindo o afastamento.

Ela perdeu o equilíbrio por meio segundo.

E acabou mais próxima.

A respiração dela tocou o pescoço dele.

O mundo encolheu.

Ele levou a mão livre até as costas nuas dela.

Pele.

Quente.

Maciez sob a palma.

Ela arrepiou imediatamente. E olhou Loid nos olhos, diminuindo a distância entre ambos.

O primeiro beijo foi breve. O suficiente para não ser acidente.

O segundo não teve a mesma hesitação.

A mão dele agora segurava a cintura dela com intenção.

Yor subiu a mão até a nuca dele. Os dedos se perderam no cabelo claro.

A respiração começou a falhar entre um e outro.

Loid inclinou a cabeça e deslizou os lábios pelo canto da boca dela até o maxilar. Devagar. Sentindo cada reação.

Yor fechou os olhos.

Quando ele alcançou o pescoço dela, pausou.

A respiração dele tocou a pele antes do beijo.

Ela soltou um som baixo quando os lábios dele pressionaram ali, mais firmes.

Os dedos dela apertaram a camiseta dele.

Ele intensificou. A pressão mudou por um instante. O suficiente para fazê-la prender a respiração.

Imediatamente suavizou com um beijo mais lento.

Ela puxou o rosto dele de volta sem hesitar.

Beijou com mais urgência.

Agora o corpo dela estava completamente contra o dele.

O peito subindo e descendo rápido.

Loid deslizou a boca pela curva do pescoço até a clavícula exposta.

Beijos mais demorados.

Mãos mais firmes nas costas dela.

Yor tentou revidar. Puxou Loid e começou a fazer o mesmo movimento que ele tinha realizado nela.

Desceu os lábios pelo maxilar dele, menos calculada. Mais instintiva.

Quando alcançou o pescoço dele, pressionou demais.

Ele inspirou fundo.

Ela se afastou, alarmada.

— Eu machuquei você?!

Ele tocou o local, avaliando.

Um meio sorriso.

— Nada que eu não sobreviva.

Isso a deixa vermelha imediatamente.

Mas voltou. Agora, com mais cuidado. Beijos suaves na mesma área. Como pedido de desculpa.

Os beijos seguintes foram intensos. Lentos. Quentes. Testando limites.

Nenhum dos dois está completamente perdido.

Mas definitivamente além do confortável.

Ela se afastou por um segundo, os lábios levemente inchados, olhos brilhando.

Passou o polegar pelo canto da boca dele.

E murmurou, voz arrastada pelo vinho e pela vulnerabilidade:

— Eu tenho um marido muito …bonito.

Ele ficou imóvel.

Surpreso de verdade.

Os segundos que demorou para responder foram reais.

Então, ele levou a mão ao rosto dela, acariciando com o polegar.

— E eu tenho a esposa mais adorável.

Yor entrou em combustão.

Beijou-o de novo para silenciá-lo.

Um beijo intenso. Demorado.

Ela volta com beijos mais suaves ali, quase como pedido silencioso de desculpa. A respiração dos dois já está irregular. O ar ao redor parece mais pesado.

Mas… A energia muda.

Não diminui. Apenas desacelera.

Yor ainda o segura pela camiseta quando o corpo dela relaxa de repente. Os dedos, antes firmes, afrouxam.

Ela encosta o rosto no ombro dele.

— Loid… — murmura, mas a frase não termina.

Ele sente o peso dela mudar.

Olha para baixo.

Os olhos dela estão fechados.

A respiração, lenta.

Ela adormeceu.

Por alguns segundos, ele permanece imóvel, como se qualquer movimento pudesse quebrar algo delicado demais.

O calor do corpo dela ainda está ali. A mão dela continua segurando a camiseta dele, mesmo inconsciente.

Ele respira fundo.

O coração ainda não voltou ao ritmo normal.

Com cuidado, desliza uma mão sob as pernas dela e a ajusta no sofá. Deita-se também, puxando-a junto.

O sofá é grande.

Mas não o suficiente.

Yor acaba de frente para ele, encaixada contra o peito dele. Ele passa o braço ao redor da cintura dela, segurando firme o bastante para que ela não escorregue. As pernas dele precisam se dobrar um pouco por falta de espaço.

O rosto dela repousa logo abaixo do queixo dele.

Ele sente a respiração dela aquecer a pele do próprio braço.

Silêncio.

A casa inteira parece conter o fôlego.

Loid encara o teto por alguns segundos, tentando organizar os pensamentos.

Mas não há estratégia aqui.

Não há missão.

Não há cálculo.

Ele poderia ter parado.

Poderia ter mantido distância.

Poderia ter lembrado a si mesmo do papel que desempenha.

Não quis.

Ele olha para o rosto dela, relaxado no sono. Os lábios ainda levemente corados

A expressão tranquila

Os dedos dele sobem até o cabelo dela, afastando uma mecha com delicadeza.

E então ele percebe.

A surpresa não é pelo que aconteceu.

É por ele deixar acontecer.

Uma pequena exalação escapa pelos lábios dele.

— O que eu estou fazendo…?

Não há culpa na pergunta.

Só constatação.

Ele observa o próprio braço ao redor dela. A forma como o corpo dela se encaixa perfeitamente no dele.

Ele fecha os olhos por um instante.

Abre novamente.

E, num tom baixo demais para ser ouvido por qualquer pessoa além das paredes daquela sala, murmura:

— Eu estou completamente perdido com você…

A frase não soa dramática.

Soa verdadeira.

Ele solta um quase riso suave pelo nariz.

— Isso definitivamente não estava no plano.

Mas dessa vez, não há tensão na ideia de plano.

Só aceitação.

Ele ajusta o braço ao redor dela, trazendo-a um pouco mais para perto, protegendo o corpo dela do risco mínimo de cair do sofá estreito demais para dois adultos.

Encosta o queixo no topo da cabeça dela.

Respira junto com ela.

E, sem perceber exatamente quando, deixa o sono finalmente alcançá-lo também.

Não como agente.

Não como fachada.

Mas como homem que escolheu ficar.

E, pela primeira vez, não sente necessidade de se afastar.


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