Uma escolha
2 A descoberta
Notas iniciais
Meus pais me acompanhavam até o acampamento. As mãos tremiam, meus olhos estavam cheios d’água, a vontade de chorar era enorme, mas eu não podia, tinha que ser forte, tinha que resistir. Pude ver que a expressão de meus pais não era nem um pouco sossegada também. Minha mãe soltava lágrimas discretas que corriam rapidamente por seu rosto como chuva. As lágrimas realçavam seus olhos cinzentos e tempestuosos e, pela primeira vez, eles pareciam um tanto quanto melancólicos. Pude ver que ela tentava esconder a tristeza, mas também percebi que a tristeza realmente existia naquele momento. Meu pai era outro, tentava se conter, mas não conseguia. Lágrimas e mais lágrimas caíam de seus olhos, pingando no volante. Os olhos inchados e o rosto vermelho levavam uma expressão de desespero, como uma criança que acabou de perder a mãe no supermercado. Até parecia que eles sabiam o que ia acontecer...
Chegando a frente da Colina Meio-Sangue meu pai se virou pra mim. Ele me encarou com os olhos verdes penetrantes, me analisava de uma forma que pode ver meu desespero. Baixei o olhar e não pude mais conter as lágrimas, agora elas saíam como uma cachoeira, soquei o rosto sobre as mãos apoiadas nos joelhos e gritei, um grito que me aliviou. Senti a mão de meu pai sobre minha cabeça, acariciando meus cabelos, me acalmando, como sempre fizera. “Vai ficar tudo bem, bebê, acredite” ele sussurrou. Sequei os olhos e levantei o rosto, de olhos fechados, respirei fundo e quando os abri pude ver minha mãe me encarando através do retrovisor. Movi o olhar para a colina e uma onda de silêncio nos sugou. Abri a porta do carro e quebrei o silêncio, peguei minha mochila e saí caminhando sendo seguida por meus pais. Minha mãe caminhou até mim e me envolveu com um braço. “Menina forte, orgulho da mamãe” ela sussurrou e me fez sorrir pela primeira vez em muito tempo.
O chalé de Poseidon é bem agradável, pensar que meu pai morou aqui durante anos. O cheiro de maresia e o som do mar faz tudo parecer mais calmo. Tenho um tio, seu nome é Steven. Steven tem dezesseis anos e é completamente parecido com meu pai. Os olhos verdes são lindos e me lembram o mar, o cabelo escuro e bagunçado é cheio de charme. Mesmo sendo meu tio, ele ainda consegue ser meu melhor amigo, sei que com ele posso contar. Sentamos na beliche e ele envolve meus ombros com um braço, ele encaixa seus dedos em meio a meus cachos e acaricia meus cabelos loiros enquanto fita minha expressão triste.
– Ela era tão boa... – fungo.
– Oh, Liza – Steven me abraça forte – Eu sei, mas se lembre que ela não se foi para sempre, ela está no Elísio agora... Não, acho que ela não aguentaria muito tempo não – ele sorri – Ela voltaria na primeira oportunidade de reencarnação. Rachel nunca fez o gênero santinha, segundo Percy.
– Nem um pouco mesmo – Eu solto uma gargalhada gigante e caímos juntos no riso, contendo o choro pela primeira vez nas últimas horas — Oh Steven, só você pra me fazer rir em uma situação dessas – seco o canto dos olhos que ainda estavam um pouco molhados.
– Conte comigo – ele sorri e nós damos o nosso típico soquinho.
Meu pai entra a passos leves no chalé. Ele nos fita e tenta abrir um sorriso, mas parece meio abalado.
– O que aconteceu, pai? – pergunto franzindo a testa
– Quíron guardou essa carta da Rachel para você – Eu me movo até a ponta do beliche e ele me alcança a carta – Acho que... Bem, eu e sua mãe estaremos na casa grande lhe esperando.
– Pai, o que... – Sou impossibilitada de completar a frase pela batida da porta.
– Eu ein – Steven me encara – O Percy tava tão estranho, o que tem nessa carta aí?
– É o que vamos descobrir agora... – Eu abro o envelope e começo a leitura silênciosa. Ao reler o último parágrafo minhas expressões travam e eu largo a carta imediatamente. Cubro a boca aberta com a mão e sou tomada pelo desespero.
– Mas o que diabos... – Steven lê o último parágrafo e congela. Após alguns segundos resolve se manifestar – Liza... Isso... Como?
– Eu... Eu não sei... – Sinto minha pálpebras pesarem e só vejo o escuro.
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