Uma dupla incrível

1 Uma dupla incrível


Ela encarava o espelho completamente imóvel, quase que hipnotizada. Só saiu do transe ao ouvir os passos pesados atrás de si.

- O que achamos dessa... Uau! — Ele exclamou, se aproximando dela e soltando a bolsa no chão.

A bolsa estava mais pesada do que quando se separaram, ela reparou.

- Estava cheio de ouro por lá, hein? — Ela sorriu de canto, os olhos passando pelo interior da sala estreita da pirâmide.

Um fraco feixe de luz passava por entre as pedras do vértice do topo, já desgastadas e fora do lugar original.

- E como! Mas e essa belezura aqui, descobriu o que faz? — Ele se encarava no espelho fazendo poses que ressaltavam seus músculos humildes — estava apenas na segunda semana de academia.

- Não sei. Só sei que é hipnotizante. — Ela disse, evitando cruzar os olhos com a relíquia.

Ele continuou seus movimentos, e ela revirou os olhos: ele era um tanto vaidoso para alguém tão desprovido de beleza, e em uma hora como essa, ele ainda conseguia parar para se admirar. Pelo menos, aquela sala não parecia ter armadilhas.

Descendo os olhos por sua silhueta, percebeu que pisava na ponta no pé esquerdo.

- O que aconteceu com o seu pé?

Ele olhou para baixo e imediatamente corrigiu a pisada.

- Ah... Só dói.

Ela fez uma careta para ele, se agachando para observar o seu calçado.

- Desde quando o seu sapato está com esse rasgo? — Ela perguntou, percebendo que havia costuras e até mesmo um tecido grosso por cima.

- Desde... — Ele parou de se mexer para o espelho e encarou o chão.

- Anda, fala! — Ela ordenou.

"Humpf, e ainda tomou o cuidado de escolher um tecido de cor semelhante à do sapato. Espertinho...".

- Ah, eu fui mordido por um crocodilo na última missão. — Ele disse como se nada fosse, se aproximando do espelho, o pé esquerdo evitando contato direto com o chão.

- Você... — Ela se esqueceu de respirar por alguns instantes, a raiva a consumindo. — Isso foi antes ou depois da chegada ao acampamento?!

- Ahn... Antes. — Ele respondeu, apalpando cuidadosamente a parede em volta do espelho.

Ela sabia, ele estava procurando formas de evitar aquela conversa. Porém, ela não era de deixar as coisas pra depois.

- E você não me disse nada?? Por que não me procurou? Eu já estava na tenda da enfermaria! — Ela esbravejou, se levantando.

- Você estava cansada. E meu pé nem doía tanto assim. Eu enfaixei ele e fui dormir.

Ela sentia seu sangue borbulhar.

- E se você tivesse desenvolvido algum tipo de infecção?! Você podia ter pedido uma licença! — Ela falava cada vez mais alto ao se lembrar das atividades perigosas para as quais ele foi enviado logo no dia seguinte ao do ataque do crocodilo. "Repouso é fundamental para a recuperação... E se esse pé estivesse quebrado? Ele precisou correr pular, além de lutar, em alguns momentos...".

Eles ouviram um "clique" quando ele segurou no espelho. Ficaram imóveis, o ar preso nos pulmões enquanto eles tentavam identificar qualquer tipo de armadilha. Ele fez um pouco mais de força para mover a relíquia, sem sucesso.

- Escuta aqui, você vai sair dessa missão diretamente pra minha enfermaria! — Ela esbravejou aos sussurros.

Ele deu de ombros.

- Nem preciso. Já passou muito tempo e meu pé nem dói mais.

- E por que ainda anda na ponta do pé??

- Porque sim.

Ela suspirou de forma audível. Ele procurou mais algumas armadilhas em volta do espelho de forma lenta, com medo de que houvesse alguma pegadinha ali. Pelo reflexo, viu que ela estava inconformada. Reconhecia aquele brilho que descia vagarosamente pelo seu rosto; se sentiu incomodado ao vê-la dessa forma.

- Por que não me contou depois, pelo menos? — Ela perguntou olhando para o lado, visivelmente chateada.

Se culpava por não ter reparado no seu estado de saúde, e se culpava ainda mais por saber que ele foi enviado para missões perigosas com o pé daquele jeito.

Ele não respondeu.

Ela se virou para sair dali: precisava respirar, espairecer, deixar as emoções fluírem.

- ... Mas o quê...?!

Ela se virou rapidamente, preocupada.

- O que... Minha nossa!

Os dois fitaram o espelho em completo choque: dele, saía um brilho natural que iluminava todo o ambiente. Ele tropeçou na bolsa, e ela o ajudou a recuperar o equilíbrio.

- "Eu não queria preocupar nignuém do grupo. Estávamos em uma missão urgente e importante, e não podíamos recuar ou esperar por minha causa".

Os dois abriram as bocas, surpresos.

- E-essa voz veio do...?

- ...

Os dois tentavam achar respostas. No espelho, havia o reflexo dele.

- Eu ouvi certo? Era a sua voz saindo do espelho...? — Ela questionou, sem entender.

- P-parecia... Parecia sim. — Ele ainda se recuperava do susto.

Ela pensou por alguns instantes.

- O seu pé ainda dói? — Ela perguntou, olhando dele para o espelho.

- Claro que não! — Ele disse mais confiante.

O espelho brilhou.

- "Sim, meu pé ainda dói. Tenho algumas feridas não cicatrizadas, e acredito que me pé esteja torcido".

Ele franziu a testa e começou a gesticular.

- Não, não, não, meu pé tá muito bem!

Ele firmou o pé no chão, fingindo naturalidade. Ela o observou atentamente: sabia exatamente quando estava mentindo, e esse era um daqueles momentos.

- Muito bem. Você gostou do meu corte de cabelo?

Ele a olhou sem entender.

- Sim, já disse que ficou a sua cara!

- "Não. Achei que ele te deixou estranha assim".

- Sabia!

- Droga!

Os dois se encararam.

- Um espelho da verdade!

- Um espelho da verdade!

Ele sorriu, impressionado.

- Mas por que você não me procurou depois da missão? Poxa, essa ferida no seu pé é algo sério!

Ele respirou fundo, voltando a se aproximar do espelho. Devia saber que ela não o deixaria em paz até que obtivesse respostas e lhe desse uma lição de moral.

- Vamos tirar esse espelho daqui; depois a gente fala disso.

Ela se aproximou do espelho também, tateando a parede em volta dele, um pouco inconformada. Ainda assim, ele tinha razão: não podiam ficar tempo demais ali dentro.

- "Você estava muito ocupada e estressada; eu seria mais um problema para você resolver. Não queria te preocupar com as minhas questões."

Ele suspirou, uma pitada de raiva em suas feições.

- Espelho x-9...

Ela o encarou, parando de tatear a parede.

- Mas você podia ter me procurado mesmo assim. A minha função é justamente cuidar da saúde da equipe, independente de estresses ou de muitas ocupações! — Ela respirou fundo e endireitou a postura. — Você infringiu a regra de segurança 342: devia ter me dito sobre o pé machucado assim que chegou no acampamento!

- É, mas o que você ia fazer? Não tinha nada que você poderia fazer.

- Eu poderia ter verificado o seu pé, imobilizado ele!

- E aí eu seria um peso morto na equipe. — Ele resmungou, desistindo de remover o espelho do lugar e procurando por pistas nas paredes da sala estreita.

- Mas parar por causa de ferimentos é necessário!

Ele não respondeu.

- "Eu machuquei o meu pé um dia antes de voltar para o acampamento".

- ... Você ficou esse tempo todo mancando?! E a sua equipe não fez nada??!! — Ela se exaltou, caminhando atrás dele.

- Nós nos separamos e eu fiquei sozinho. — Ele continuou a responder como se isso fosse insignificante. Começou a observar o feixe de luz que vinha de cima.

- E por que não informou à base??

- E eu ia informar pra quê? Pra preocupar vocês? — Ele finalmente a encarou. — Quando você fica preocupada, você não consegue focar nas suas coisas. Eu não ia enviar um sinal por rádio só pra dizer que estava machucado. Vocês não tinham a minha localização exata, você tinha muitas missões pra resolver naquele dia e estava estressada, e eu podia me virar com aquele crocodilo e com o meu pé. O que você poderia ter feito por mim à distância? Nada.

Seu olhar era frio, distante; ela raramente o vira assim. Sentiu suas palavras lhe atingirem como uma flechada no peito. Ele tinha razão: ela e sua equipe não poderiam ajudá-lo de imediato, uma ação de resgate atrasaria a missão, e ela realmente se preocuparia com ele. Entretanto, não a ponto de parar seus afazeres ou de se machucar na missão por falta de atenção.

Ele percebeu que fez algo errado quando ela fez um semblante de decepção e quando as lágrimas caíram.

- Não, calma... — Ele estendeu a mão em sua direção, ainda relutante, mas ela recuou.

Ela deu mais um passo para trás, mais um e mais um. Uma distância considerável se formou entre eles.

- O que você tá sentindo? — Ele tentou manter a comunicação, em vão. — Você não vai falar mais nada? — Ele perguntou, quase indiferente.

Ela permaneceu em silêncio. Ele se virou para a parede, decidido a finalizar a missão e a não falar mais naquele dia. Ela buscava respirar, se controlar, manter a calma: ela não podia perder a cabeça ali. Ela olhou para o espelho, desejando que ele falasse por ela.

O espelhou brilhou outra vez; ele não se incomodou com o brilho e continuou a procurar por pistas na sala, se assustando com a voz que saiu da relíquia dessa vez.

- "Me sinto chateada. Te conto cada mínimo detalhe das minhas missões pois somos uma dupla recorrente. Porém, você não me conta nada, nem mesmo as coisas mais importantes. Me sinto inútil e indigna de estar ao seu lado."

Ele respirou fundo, os olhos na parede à sua frente, pensativo. Ela se sentiu aliviada: tentava colocar os pensamentos em ordem, e ouvir o espelho a ajudou.

- Você não precisa saber tudo.

- Mas somos uma dupla... — Sua voz saiu quase inaudível.

- Sim, mas tem coisas que você não vai poder me ajudar. Aí eu vou te contar pra quê? Só pra te preocupar?

- Mas eu prefiro saber do que não saber...

- Mas você não precisa saber de tudo.

Um silêncio se fez.

- Mas você tem que me contar sobre seus ferimentos...

Ele não respondeu, e ela entendeu que ele não lhe contaria sobre essas coisas nem que sua vida dependesse disso.

Um brilho diferente saiu do espelho, e ao se virar, viu a parceira brilhando também, os olhos vidrados na relíquia.

- Ei, o que é isso? Está bem?? — Ele se aproximou, segurando-a pelos ombros.

- “Às vezes, sinto que viro detetive.” — Ela começou a dizer juntamente com o espelho, a voz saindo de sua boca e da relíquia. — “Faço pesquisas, perguntas ousadas, analiso cenários, e as circunstâncias vão me dando respostas. São respostas completas, mas não confiáveis”.

Ele a balançava e passava a mão na frente de seus olhos, fitando o espelho e a companheira, preocupado. Ele desistiu e apenas a observou, ainda segurando-a pelos ombros, os olhos fixos nos dela, mas também atentos ao ambiente.

- “E aí, viro investigadora. Nessas horas, sou pura curiosidade: me comunico mais, reflito mais. E assim, vou recolhendo provas e pistas para esse quebra-cabeças que montei. Quando me canso, volto para a realidade e vivo a vida; quando não encontro respostas, preciso ficar com a hipótese mais aceita, e eu não queria isso… Eu queria a hipótese mais próxima da verdade, ou então, a própria verdade. Talvez, isso seja apenas uma forma de entender as coisas por mim mesma, de descobrir a verdade. A verdade que você me esconde, a verdade que eu simplesmente resolvi investigar. E eu sei que eu poderia te perguntar diretamente, mas você me daria uma resposta, e talvez ela fosse verdade, talvez eu acreditasse, e talvez tudo ficaria bem. Mas eu não sei se o que você me diz é verdade... Pois você diz que não me conta as coisas para não me preocupar, e eu acho injusto. Acho que mereço saber das coisas e que cabe a mim decidir o quanto isso vai impactar no meu dia ou não. Mas também penso que, talvez, eu só não seja a melhor companhia para você: devo ser muito histérica para você não querer me contar nada. E, ao mesmo tempo, não consigo me imaginar sendo uma pedra sem emoções enquanto você me diz algo claramente preocupante. Também entendo que você pode apenas querer me proteger, mas não me sinto protegida... Sinto que não sou digna para receber essas informações, ou até mesmo para ser sua amiga. E assim, viro detetive, viro investigadora, atrás da verdade”.

Ela parou de falar, o rosto banhado em lágrimas, os olhos se fechando.

- “O que causa mais impacto na minha vida: a verdade, dolorosa e imutável, ou essa investigação cansativa, a criação de cenários, a análise de pistas aleatórias?”.

Ele se virou para o espelho, que brilhava sem mostrar reflexo algum.

- “Acredito que a verdade sempre será a melhor resposta”.

Ele se sentiu perdendo o fôlego. “Tem alguma coisa aí? Foi o espelho sozinho que falou?”.

- Também posso só ser muito perturbada da cabeça. — Ela falou, abrindo os olhos lentamente, o olhar voltado para cima, perdido e sem foco, um sorriso fraco em seu lábios.

- O que quer dizer? — Ele perguntou por perguntar. Só queria sair dali: estava incomodado com o espelho, com as palavras dela, com a situação em si. Se xingava mentalmente por não ter aprendido nem o básico dos primeiros socorros: e se ela precisasse de ajuda? Estavam sozinhos naquela missão, e uma bolsa de relíquias e um pé machucado não pareciam ser muito úteis para salvar alguém.

- Você é um espírito livre, vive de forma despreocupada: o amanhã virá quando tiver que vir, e até lá, você não se preocupa. Uma ansiosa e um zen. Quem diria, hein? Somos mesmo uma dupla incrível. — Ela sorriu, ainda um pouco atordoada.

Ele sorriu junto, mas ainda incomodado. Devia mesmo ter pedido por ajuda para pelo menos enfaixar o pé.

- “O amanhã é uma dádiva, e o presente é um presente”.

Ambos fitaram o espelho, que começava a falar sozinho. Eles trocaram um olhar.

- Eu acho que podemos deixar isso pra trás.

- Eu acho que isso pode ser bem útil!

Ela revirou os olhos, se sentando no chão. Areia começou a cair sobre eles, fina e aparentemente inofensiva.

- Tudo bem, dessa vez, você tem razão.

- Eu sempre tenho. — Ela se levantou com a ajuda dele.

- “Yin, yang, completude da vida. Duas forças opostas que se complementam e alcançam o equilíbrio…”

O espelho continuava a falar coisas estranhas; as pedras do topo da pirâmide se soltaram, e a areia, inofensiva, caiu como se fosse chuva, perigosa e torrencial. Ele pegou a bolsa nos ombros, ela foi guiando o caminho, e a última coisa que viram no espelho foram seus reflexos os encarando.

- Eu, hein, tá repreendido!

Notas finais
Tive que criar essa capa no chatgpt (custei a achar algo legal, e essa imagem ficou bem bacana). Enfim, essa história foi criada com base numa reflexão aleatória que fiz e que deixarei no capítulo seguinte. Bye ˆˆ