Uma dupla incrível
2 Helena Holmes
Notas iniciais
Às vezes, faço um bico de detetive por aí: faço pesquisas inimagináveis; meu raciocínio, geralmente lento, se transforma, e meus pensamentos ficam mais rápidos que vento que reboliça quintais limpos e sem folhas. Me faço perguntas ousadas, analiso cenários, investigo as testemunhas na minha sala imaginária; as circusntâncias vão me dando respostas. São respostas completas, mas não confiáveis. E aí, vem a segunda etapa: trabalhar como investigadora presencialmente.
Nessas horas, me visto de mim mesma, mas com um acessório novo: a curiosidade. Além disso, minha raposa pessoal me acompanha, pequeno bichinho de estimação, astuto, que me encontra em momentos de investigação. E assim vamos nós, eu e a raposa rumo aos lugares que precisamos ir. Me comunico mais, pergunto mais, interpreto mais, reflito mais. E assim, vou recolhendo provas, pistas, informações para esse quebra-cabeças que eu mesma montei. Percebo ainda mais a forma como você fala, os desvios de olhar, as pausas na fala, o seu tempo de processamento de resposta. Anoto tudo no meu diário mental, e depois, faço minhas reflexões no meu quarto, na sala de aula, na hora do almoço: todo lugar é lugar para refletir. Volto a interrogar minhas testemunhas, e junto dos meus juízes internos, vamos pontuando o caso.
Quando me canso, ouço uma música, volto para a realidade, vivo a vida. Mas é fato que o gene "Sherlock Holmes" foi ativado, e enquanto esse efeito durar, continuarei fazendo perguntas, refletindo, interrogando. Tem horas que isso tudo me enche a cabeça e me sinto um palito de fósforos, prestes a pegar fogo na cabeça, de tanto pensar. Nessas horas, e somente nessas horas, eu me permito fazer uma pausa. E no dia seguinte, volto à ativa, com meu disfarce de sempre, as roupas do cotidiano, acompanhada da raposa investigativa.
Quando não encontro respostas, preciso partir para algo mais crítico: preciso fechar o caso com a hipótese mais aceita, e eu não queria a hipótese mais aceita, e sim a hipótese certa, a mais próxima da verdade — se não, a verdade, de fato. E é quando me pergunto se... tudo isso é apenas uma tentativa de descobrir a verdade. A verdade não dita, a verdade que você talvez me esconda, a verdade que eu simplesmente resolvi investigar. E eu sei que poderia te perguntar diretamente: você me daria uma resposta, e talvez ela fosse verdade, talvez eu acreditasse, e talvez ficaria tudo bem. Mas eu não sei se o que você me diz é verdade... Pois você mesmo diz que não me conta as coisas para não me preocupar; acho injusto. Acho que mereço saber das coisas e que cabe a mim medir o quanto isso impactará no meu dia ou não. Mas também me pego pensando que... eu não sou a melhor companhia para você: devo ser muito histérica para você não querer me contar nada. E, ao mesmo tempo, não consigo me imaginar sendo uma pedra sem emoções enquanto você me diz algo claramente preocupante. Também compreendo que você pode apenas querer me proteger, mas não me sinto protegida assim... Não me sinto digna para receber essas informações. E assim, viro detetive, vasculho informações onde posso vasculhar, e crio cenários diversos na minha cabeça. Mas, afinal, o que causa mais impacto em minha vida: a verdade, dolorosa, preocupante e imutável, ou a investigação, a busca por respostas, os cenários criados, as testemunhas entrevistadas, os dias que perdi sendo uma Holmes? Acredito, meu pequeno, que a verdade sempre será a melhor resposta.
Também posso ser muito perturbada e pouco "Carpe diem", eu reconheço. Afinal, você é um espírito livre, vive despreocupadamente: o amanhã virá quando tiver que vir, e até lá, você não se preocupará. Uma ansiosa e um zen, quem diria, hein? Somos mesmo uma dupla incrível.
Fale com o autor