Uma dose violenta de qualquer coisa
39 Uma dose violenta de qualquer coisa
1 dia antes.
Rafa pegava os livros no seu armário quando alguém passou os braços pelo seu ombro. Torcia para que fosse Luana mas se decepcionou um pouco ao ver Marina, disfarçou o melhor que pôde e cumprimentou a amiga com um sorriso.
—E aí?
—E aí? – Marina ergueu uma sobrancelha –Não está nem um pouco apreensiva? Luana não foi à aula ontem e amanhã é a grande festa do Tiago que, aliás, é o único assunto na boca das pessoas hoje...
—É, estou sim – Rafa fechou o armário e começou a caminhar pelo corredor com Marina ao seu lado.
—O que tem de errado? – a loira parecia genuinamente preocupada, Rafa desconversou.
—Cansaço, só isso. Não vejo a hora desse ano acabar, chega de escola, vestibular...
—Isso! – a loira voltou a sorrir –Só eu, você e Luana em São Paulo! Ah, e talvez o Eli também...
Rafa estremeceu ao ouvir o nome da outra amiga mas tentou tirar a cabeça disso mudando de assunto:
—Eli?
—É, parece que ele já passou em uma faculdade em Campinas. É perto da capital mas ele provavelmente vai morar por lá mesmo. Bem, pelo menos ele vai estar por perto, sabe?
—Isso é bom – Rafa tentava se interessar pela conversa mas seus olhos procuravam aqueles cabelos loiros rebeldes de que sentia falta.
—Ansiosas? – Luana perguntou ao se aproximar por trás das duas garotas, Marina se assustou um pouco enquanto Rafa ficou sem saber como reagir.
—Você precisa parar de fazer isso – Marina reclamou mas logo sorriu e continuou –Não achei que estaria ansiosa mas agora estou!
—Sim! Quem sabe o que pode acontecer? Talvez a gente quebre a casa dele em vingança por todas as merdas que aquele pessoal aprontou com a gente esse ano... – Luana comentou com um sorriso no rosto e um olhar distante, Rafa não pôde deixar de notar que a amiga se encontrava à direita de Marina, bem longe dela, quando seu costume era ficar entre as duas.
“Será que ela está me evitando?”, pensou.
—Você prometeu sem encrencas – Marina chamou a atenção da outra loira.
—Só vamos arrumar encrenca se nos pegarem... – Luana respondeu rindo.
—Você é terrível – Marina devolveu.
—Me desculpe se tudo que eu quero é proporcionar um pouco de diversão para as minhas duas pessoas favoritas no mundo – Luana sorriu ainda com um olhar distante mas com aquele sorriso irônico no rosto.
Marina estava prestes a responder algo mas as palavras saíram da boca de Rafaela rápido demais:
—É só isso que importa, né? – as duas loiras olharam para a garota, Marina parecia apenas confusa mas Luana entendeu o recado e desviou o olhar assim que os olhos de Rafaela encontraram os dela.
—O que? – Marina perguntou.
—Diversão, tudo que importa é diversão... Não o que as pessoas sentem – Rafa respondeu, não queria soar tão amarga mas não entendia porque Luana estava agindo como se nada tivesse acontecido entre elas. Será que ela não havia significado nada? Que havia sido igual todos aqueles garotos aleatórios com que Luana ficara? Apenas mais uma pra lista?
—Rafa, você tem o coração bom demais. Se importa com aquele pessoal mesmo depois de tudo que fizeram com a gente, eles não merecem a sua preocupação, sério! – Marina comentou sem entender sobre o que realmente era aquilo.
—Tem razão – Rafa retrucou –Talvez eu não devesse me importar...
—Ok, eu tenho que ir agora – Luana disse friamente –Tenho que fazer algumas coisas depois da aula mas vejo vocês amanhã, na melhor festa do ano!
A loira sorriu para Marina e mandou um beijinho enquanto ia embora, Rafa percebeu que Luana nem se dera o trabalho de se despedir dela.
***
O último dia.
Rafa estava deitada na cama esperando Marina chegar para buscá-la. Já estava pronta há alguns minutos mesmo sem ter mais vontade de ir para essa festa, nem sabia ao certo o que a impedia de ligar para as meninas e cancelar. Talvez não quisesse decepcionar ninguém, e ficou mais tranquila ao se lembrar que sempre havia a opção de ficar escondida no banheiro ou ir embora discretamente depois de meia hora, ninguém perceberia de qualquer maneira. Todos estariam muito ocupados se embebedando ou ficando com alguém...
A buzina logo interrompeu seus pensamentos, Rafa suspirou e deu uma olhada pela janela. Reconheceu o carro de Marina e desceu as escadas rapidamente. Quando estava quase saindo pela porta da frente, ouviu a voz de Luciana:
—Rafa? – virou-se e viu sua mãe adotiva parada na sala –Já vai?
—Sim, mãe.
—Ok, não volta tarde, tudo bem? E cuidado.
Rafa deu um sorriso cansado e respondeu:
—Não tem com o que se preocupar, mãe.
***
—Acho que ela vai aprontar alguma coisa – Eli comentou enquanto Marina dirigia. Rafa estava sentada no banco de trás com a testa encostada na janela, sem ânimo pra participar da discussão que acontecia no banco da frente –Quer dizer, por que outro motivo ela não iria junto com a gente?
“Ah, eu sei o motivo”, Rafa se encolheu mais no banco de trás com esse pensamento. Sentia-se mal por essa situação, sabia que não deveria ter feito nada. Luana era sua amiga e ela precisava que continuasse sendo isso mas agora não havia como consertar ou apagar o que fizeram e tudo estava mudando.
—Não sei, ela prometeu não fazer nada – Marina rebateu enquanto virava à direita –O problema não é ela, pra falar a verdade. Luana vai ficar quieta desde que não a provoquem, o problema é quando a provocarem...
—Quando? Não quer dizer se? – Eli a corrigiu.
—Eli, por favor – Marina olhou rapidamente para o garoto e ergueu uma sobrancelha antes de voltar a atenção para a direção que estava tomando –Eles vão provocar ela. E Luana vai provocar de volta.
—E o que a gente vai fazer quando isso acontecer?
—O que nós sempre fazemos quando isso acontece – a loira respondeu –Torcer para que ela não piore as coisas e tirá-la dali.
Rafa observava as árvores passando rápido, queria qualquer coisa para se distrair da conversa, para parar de pensar em Luana mas seu coração apertava só de imaginar vê-la naquela festa e não ficar perto dela, não poder beijá-la como fizera no seu quarto.
Fechou os olhos, queria pensar em qualquer coisa, qualquer outra coisa mas não conseguia. Então apenas ficou com os olhos fechados sentindo o movimento do carro. Até o carro parar e o barulho da música insuportavelmente alta ser percebida pelos seus ouvidos.
—Tem muita gente – Eli olhou a casa, havia pessoas por todo o jardim e, pela porta da frente aberta, podia-se ver que dentro estava cheio também –Não acho que eles tenham chamado só gente da nossa escola pra isso...
—Com certeza não – Marina concordou enquanto desligava o carro –Vamos, temos que achar Luana.
Então Rafa abriu os olhos, suspirou e saiu do carro junto com Eli e Marina.
***
—Ei, então você está aí! – Marina se aproximou por trás de Luana que conversava com um colega de classe na cozinha –Estamos te procurando tem uns 10 minutos...
—E eu estou esperando vocês a horas – a loira sorriu ironicamente, olhou em volta e continuou –Cadê Eli e Rafa?
—Ah, deixei eles dançando na sala – Marina respondeu examinando o copo de Luana –O que tem pra beber?
—Ah, o de sempre... – a loira pareceu sem graça e tentou esconder o copo da amiga mas Marina reparou que havia algo errado e tomou o copo das mãos da outra loira enquanto examinava seu conteúdo.
—Luana – Marina não parecia entender o que estava vendo –Você está bebendo água?!
—Estou esquentando o estômago, pra bebida de verdade – Luana tentou brincar mas Marina ainda sentia que havia alguma coisa estranha.
—Por que a maior festeira que eu conheço está na maior festa do ano bebendo água?
—Quer que eu encha o cu de vodka e comece uma confusão? Posso fazer isso, se você preferir... – a loira respondeu mal-humorada.
—Não – Marina riu –Só achei estranho... Enfim, vou voltar pra ficar com o Eli e a Rafa, vamos lá.
A outra loira pegou a mão de Luana para levá-la até onde Eli e Rafa estavam dançando mas Luana recuou.
—Ah, preciso ir no banheiro antes, já encontro vocês...
—Tudo bem – Marina sorriu e voltou para a sala, onde a música era mais alta do que em qualquer lugar da casa.
***
Eli girava Rafaela ao som de alguma música dos anos 2000, Rafa nem lembrava o nome mas era algo que provocava uma grande nostalgia nela, como apenas esse tipo de música consegue provocar. Ela batia em algumas pessoas que a olhavam irritadas mas Eli logo a puxava para longe e a girava novamente em uma nova direção apenas para esbarrar em mais pessoas e receber mais olhares irritados. Os dois não se importavam com isso, continuavam rindo e dançando.
De repente, o garoto parou de dançar e encarou uma direção. Rafa se virou para ver quem ele estava olhando e seu sangue gelou ao ver Guilherme e alguns amigos dele vindo na direção dos dois.
—Fica calmo, nada de confusão – Rafa se virou rápido para o garoto que não teve tempo de responder pois o grupo se aproximou dos dois.
—Então você teve mesmo a coragem de aparecer aqui? – Guilherme perguntou com os braços cruzados sobre o peito, Eli não pareceu se intimidar e continuou calmo como sempre.
—Sou um cara bem corajoso...
Guilherme deu uma risadinha sarcástica mas Rafa podia ver debaixo de todo aquele deboche que o garoto não gostara da resposta.
—E Marina? Onde ela está? Já te trocou por outro assim como fez comigo?
—Olha, você não tem o direito de... – Eli começou e se aproximou perigosamente do outro garoto mas foi interrompido por Rafa.
—Vamos, Eli, vamos pegar umas bebidas – a garota começou a puxar o amigo pelo braço.
—O que? Não!
—Vamos! – Rafa insistiu e puxou-o com mais força enquanto Guilherme gritava para ser ouvido através da música alta.
—Ela parece ser uma santa mas não é, Eli! E vai fazer com você o mesmo que fez comigo.
—Você devia me deixar acabar com aquele cara – Eli virou-se para Rafa e reclamou quando eles estavam longe o suficiente da música para ter uma conversa normal.
—Acabamos de chegar – Rafa devolveu –Se quer arrumar confusão, que seja na hora de ir embora pra podermos fugir. Vem, vamos achar Marina e ficar longe das multidões.
—Temos que achar Luana também, ela ia encontrar a gente aqui... – Eli comentou como se não fosse nada.
—É, Luana também... – Rafa concordou com um nó na garganta.
***
—Ei, eu já ia voltar pra perto de vocês! – Marina comentou quando viu Eli e Rafa no corredor que dava acesso à cozinha –Vamos lá, ainda quero dançar com você, Eli.
A loira abraçou o garoto e deu um beijo no rosto dele mas, ao reparar o quanto estava tenso, o encarou preocupada.
—O que foi?
—Ah, nada – ele forçou um sorriso e a beijou nos lábios –Vem, a gente pode ir dançar na área da piscina...
—Rafa – a loira se virou para a amiga –O que houve?
—A gente encontrou o Guilherme mas não aconteceu nada, eu tirei a gente dali antes deles começarem a discutir feio.
—O que ele falou?
—Não vale a pena, Nina – Eli a acalmou –Aproveitar a festa é mais importante, certo? Deixa isso pra lá, não foi nada.
—Eli...
—Eu juro – ele sorriu e a loira o abraçou.
—Tudo bem então – ela se soltou do abraço de Eli e o pegou pela mão –Vamos logo.
—Vocês podem ir na frente – Rafa disse –Vou no banheiro antes.
—Ok – Marina concordou e logo puxou o namorado pelo braço.
Rafa pegou um copo na cozinha com algum líquido azedo dentro, provavelmente vodka, e começou a caminhar sozinha pela casa enquanto tomava alguns goles. Sentia a necessidade de ficar sozinha nesse momento e não queria atrapalhar Eli e Marina com seu baixo astral. Observou pessoas dançando, todas incrivelmente ruins, casais se agarrando nos cantos, garotos apostando quem virava mais rápido um copo de bebida e caindo logo em seguida e todo tipo de coisa ridícula até ficar cansada demais de tudo e decidir ir deitar em um dos quartos.
Subiu os degraus e testou as portas dos quartos até achar uma que estivesse destrancada. Aparentemente, o quarto que abrira era o quarto de hóspedes pois não tinha nada além de uma cama, uma cômoda e uma mesa simples. Nem decoração havia, com exceção das cortinas. Suspirou aliviada, virou o restante do copo de uma vez e deitou na cama dura.
Encarou o teto e reparou que uma lâmpada estava quebrada, o quarto não estava muito iluminado e isso a incomodou bastante. Pensou em ir no corredor e roubar uma lâmpada mas sentiu preguiça de levantar, estava confortável deitada daquele jeito. Ouviu o ruído da porta abrir e fechar lentamente, virou a cabeça um pouco para enxergar quem era e viu Luana parada na frente da cama.
—Que merda você está fazendo?! – a loira parecia irritada.
—Estou deitada – Rafa respondeu amargamente e voltou a encarar o teto.
—Isso eu consigo ver, gênia – Luana revirou os olhos e sentou na mesa do outro lado do quarto –Quanto você bebeu?
—Você quer me dar lição de moral?! Quanto você bebeu hoje? Aliás, quanto você já bebeu na vida inteira? Por favor, né? Me deixa pelo menos beber uma noite, você certamente sabe como é isso – Rafa sentiu-se irritada, era como se Luana quisesse que ela sentisse como se estivesse errada e estava conseguindo isso.
—Não é lição de moral – Luana suspirou se acalmando –Só não gosto como você fica quando bebe...
—Eu também não gosto de te ver bêbada, agora você me entende – Rafa rebateu ainda irritada –Por que não vai embora e me deixa em paz? Tenho certeza que você prefere ficar lá embaixo bebendo do que aqui em cima comigo resmungando...
—Eu não bebi hoje – Luana respondeu –E nem quero, aliás.
—E por que isso?
—Porque eu falava sério naquela noite, na sua casa – Rafaela encarou a loira sem saber o que pensar –Eu não quero mais fazer merda.
A loira abaixou a cabeça e cruzou os braços, Rafa sentou na cama com a boca aberta mas sem a capacidade de responder a isso. Não sabia o que sentia naquele momento, Luana a havia deixado com raiva e magoada mas ela a amava apesar de tudo. A garota suspirou e finalmente perguntou:
—Então por que você tem me evitado? Sabe o quanto isso doeu em mim?
—Eu sinto muito – a loira levantou a cabeça e não tirou os olhos cinzentos da garota –Mas eu não conheço outra coisa, Rafa. Você sabe o quanto é difícil...
—Pra você? Sim, eu sei! Mas você não é a única que tem dificuldades nessa vida, Luana, e devia parar de ser tão egoísta! – Rafa extravasou a raiva, não queria mais esconder o que sentia, estava cansada de se conter o tempo todo.
—Eu quero tentar, Rafa. Tentar ser menos egoísta, menos ruim... – Luana se aproximou aos poucos de Rafaela, sabia o quanto a amiga estava chateada com ela e pesava suas palavras com cuidado –Eu nunca conheci outra coisa que não fosse raiva ou abandono, mas eu juro que estou tentando. Nunca quis te deixar mal, nunca! Você sempre foi tão boa pra mim...
Rafa abaixou a cabeça, Luana se ajoelhou na frente dela para que pudesse olhá-la nos olhos.
—Eu tenho que ser sincera com você, certo? Eu não sou a melhor pessoa do mundo, você ficaria bem melhor com qualquer pessoa que não fosse eu, sei disso e você provavelmente também sabe. Mas mesmo assim você quer ficar comigo, não é?
Rafaela queria negar mas sabia que não podia esconder:
—Sim, sua idiota.
—E eu também quero ficar com você – Luana segurou as mãos de Rafa delicadamente –Você pode me desculpar? Eu juro que vou compensar as coisas pra você.
Rafa respirou fundo, apertou as mãos de Luana, não queria ter que soltá-las nunca mais.
—Eu posso tentar.
—Você vai conseguir, tenho certeza – Luana sorriu, um sorriso tão sincero que aqueceu o peito de Rafaela.
—Ah, é? E por que você acha isso?
—Porque eu tenho esse poder – Luana ergueu uma sobrancelha –Quantas vezes você não me perdoou apesar das merdas enormes que eu fiz?
—Talvez por você ter acabado de dizer isso eu não te perdoe – Rafa provocou.
—Não faça isso, Rafaela – Luana pediu.
—E por que não?
—Porque senão a gente não vai poder fazer isso – Luana segurou a nuca de Rafaela e colou seus lábios nos dela. Ouviu a garota suspirar de surpresa e naquele momento soube que nunca mais ia querer alguém que não fosse ela.
***
Eli mantinha Marina perto segurando-a pela cintura, a garota sorria enquanto balançavam ao ritmo da música. O garoto não se importava com os olhares curiosos de algumas pessoas em volta deles, sabia bem dos boatos que circulavam pela escola sobre ele, Marina e Guilherme mas, pela primeira vez em muitas semanas, nenhum dos dois parecia estar muito preocupado com isso.
A festa estava chegando na sua melhor parte, aquela em que todos estão bêbados e alegres e ninguém começou a passar mal ainda. A parte que antecede as confusões geralmente, antes de algum vizinho chamar a polícia ou dois garotos começarem a brigar pela mesma garota. Na área da piscina, que era onde os dois dançavam, a música não tocava tão alto quanto dentro da casa o que tornava possível ouvir as pessoas rindo e se jogando na piscina. Além disso, o brilho da lua refletido na água deixava tudo ainda mais lindo, era quase como se estivessem em outro mundo.
—Ei, preciso pegar alguma coisa pra beber – Marina se aproximou de Eli para ser ouvida através de todo o barulho.
—Já ficou cansada? Achei que você aguentasse mais do que isso... – o garoto provocou.
—A não ser que você queira me levar desmaiada pra casa, o que faria meu pai te matar, é melhor você deixar eu ir beber alguma coisa – a loira respondeu.
—Ok, ok – ele deu um beijo nela e sorriu –Traz alguma coisa pra mim também.
—O que você quer?
—O que você achar melhor.
—Ok, vou trazer água da privada pra você – Eli fingiu estar chateado, o que fez Marina rir enquanto se afastava –Eu já volto.
A garota entrou pela porta dos fundos e lutou para passar pelas inúmeras pessoas que estavam no corredor. Quando finalmente conseguiu alcançar a cozinha, abriu um cooler que estava no canto e procurou alguma coisa que não fosse muito forte. Foi quando escutou Letícia e algumas líderes de torcida conversando na bancada, de costas para ela.
—Quer dizer que ela trouxe mesmo o Eli? – uma delas perguntou, Marina começou a prestar atenção na conversa enquanto fingia estar procurando bebida.
—Sim, dizem que ela está tentando se vingar – outra respondeu.
—Se vingar? Pelo quê?
—Ora, por causa da Letícia e do Guilherme – uma delas disse o que fez todas começarem a rir e olharem para Letícia que se manifestou.
—Acho que ela já estava com Eli quando eu comecei a ficar com Guilherme.
—Não, ela ainda estava com o Guilherme – Marina encarou as costas das garotas –Nem tente ser modesta, Letícia. Todas nós sabemos que o Guilherme meteu um belo par de chifres naquela garota e você ajudou... E agora ela aparece aqui tentando sair por cima, coitada!
—Coitada mesmo – Letícia riu enquanto falava –Aliás, não foram só um par de chifres. Foram algumas dúzias, na verdade...
As garotas começaram a rir estridentemente enquanto Marina as olhava, a raiva crescia dentro dela de uma maneira que nunca acontecera antes. Se tinha uma coisa que ela odiava era sentir-se enganada. Fechou o cooler com força, o barulho fez as líderes de torcida olharem para trás assustadas mas tudo que conseguiram ver foi uma sombra desaparecendo no corredor.
***
Rafaela sentia sua cabeça girar, não sabia ao certo se era por causa da bebida que havia tomado ou pelos beijos que Luana lhe dava. As duas estavam deitas na cama do quarto de hóspedes fracamente iluminado, Rafa sentia Luana passar as mãos pelos seus cabelos enquanto a beijava. Os corpos das duas colados, suas respirações se misturando e ambas sem saber onde uma terminava e a outra começava. Rafaela puxava a loira mais perto pela cintura mas não parecia haver como fazê-la ficar mais próxima, toda a distância entre elas tinha desaparecido.
Luana mordeu seu lábio devagar e Rafa não conseguiu conter um suspiro, a loira riu ao ver o quanto a garota ficara envergonhada.
—O que foi? – ela perguntou com um sorriso e as mãos no rosto da garota.
—Nada... – Rafa respondeu ficando vermelha.
—Você é uma graça – a loira riu e beijou seus lábios delicadamente, Rafa abraçou-a pela cintura e descansou a cabeça no ombro dela. Luana voltou a passar as mãos pelos seus cabelos enquanto continuavam em silêncio.
—Você não vai fazer que nem aquele dia na minha casa, não é? – ao fazer essa pergunta, Rafa abraçou a cintura da loira mais apertado como se temesse que ela pudesse escapar pelos seus dedos.
—Como assim?
—Não vai sumir de novo, certo?
Luana deu um beijo na testa da garota e enlaçou seus braços no pescoço dela.
—Não, Rafa. Eu não vou mais sumir.
—Você tem que jurar.
Luana riu.
—Você é muito desconfiada.
—Vai jurar? – Rafa insistiu.
A loira se afastou o suficiente para que pudesse olhá-la nos olhos e respondeu:
—Eu juro – Rafa encarou aqueles olhos cinzentos e soube que ela falava a verdade –Agora você tem que jurar uma coisa pra mim também.
—O que?
—Que vai ter paciência comigo, por mais complicada que eu seja.
—Eu sempre tive paciência com você, Luana, e sempre vou ter. Eu juro.
A loira sorriu e beijou os lábios dela novamente.
—Meu Deus, eu não consigo ter o suficiente de você – Luana sussurrou –Se soubesse tudo que eu quero fazer, todas as coisas que quis de você durante os últimos meses...
—Talvez eu queira também – Rafa admitiu encabulada, a loira sorriu novamente pensando no quão doce e genuína era a garota, especialmente nessas horas.
—A gente vai ter tanto tempo que você vai enjoar de mim.
—Isso seria impossível.
Luana a encarou por alguns segundos, Rafa teve a impressão de que ela estava decidindo algo importante dentro da cabeça dela. Apenas esperou que ela lhe contasse no que estava pensando, o que não demorou muito:
—Tem um lugar que eu quero te mostrar, um dia. É pra onde eu fujo quando as coisas ficam ruins demais na minha cabeça. A gente pode fazer desse o nosso lugar.
—Sim – Rafa concordou –E aí você não vai ter mais que enfrentar essas coisas sozinha.
O sorriso que tomou conta dos lábios da loira foi tão sincero que Rafaela sentiu como se nunca mais fosse ver nada mais bonito na vida. Era como se pela primeira vez alguém tivesse dado uma esperança real a ela, algo em que pudesse se segurar e confiar. Luana disse num sussurro:
—Meu Deus, eu não mereço você...
Rafa queria dizer que ela merecia muito mais, que nada que fizesse seria o suficiente pra mostrar isso à ela mas as palavras não pareceram ser o bastante para expressar isso então a garota apenas a abraçou o mais forte que podia e ficaram assim por vários minutos. Uma não queria largar a outra, tudo que queriam era ficar juntas o máximo possível, o mais próximo possível.
Mas ambas se assustaram quando ouviram o barulho da música parar e uma discussão parecer começar em algum lugar da casa.
—O que está acontecendo? – Rafa se sentou e tentou concentrar-se no barulho, talvez conseguisse identificar as vozes.
—Ah, não deve ser nada. Só mais uma briga de bêbado, não se preocupe – a loira se sentou também e deu um beijo no ombro da garota –Deita de novo.
—Luana, pode ser uma coisa séria, por que iam parar a música?
—Provavelmente, não é nada – a loira beijou novamente Rafa mas dessa vez no pescoço –A gente devia continuar o que estávamos fazendo antes...
—E se a gente fosse dar uma olhada rápida? – Rafa insistiu apesar dos beijos no seu pescoço estarem fazendo calafrios subir pela sua espinha.
—E se não for nada, como eu disse?
—Você passa a noite lá em casa – Rafa viu um sorriso malicioso se formar no rosto de Luana –E eu passo a noite inteira te beijando se você quiser.
—Só beijando?
—Luana! – a garota fingiu estar envergonhada mas, no fundo, sabia que gostava desse atrevimento de Luana.
—Ok, ok – a loira riu –Mas a gente vai voltar ao que estávamos fazendo, certo?
—Certo – Rafa concordou e deu um beijo rápido em Luana para convencê-la a sair da cama.
As duas, então, desceram juntas e assim que passaram pelo corredor viram uma multidão aglomerada na área da piscina.
***
—Qual é o seu problema?! – Guilherme gritou depois que Marina jogou uma lata de cerveja nele, o cabelo do garoto pingava. Todos em volta pararam de fazer o que estavam fazendo quando perceberam o que acontecia, até mesmo a música havia parado de tocar e as pessoas mais distantes se aproximavam para ver o que estava acontecendo. Alguns olhavam com satisfação para a cena, outros pareciam apenas confusos, mas era certo que essa cena seria o assunto durante as caminhadas pelo corredor na escola no dia seguinte.
—Meu problema?! – a loira gritou e pegou um copo da mão de alguém para jogar no garoto novamente, Marina encharcou-o ainda mais –Não sou eu que engano as pessoas o tempo todo!
—Do que você está falando?
—Você sabe do que eu estou falando! Primeiro você espalha mentiras pela escola porque Eli te deixou inseguro e foi um amigo melhor pra mim do que você estava sendo e agora eu descubro que você mentiu pra mim enquanto estávamos juntos! – Marina encarou Guilherme nos olhos, todos os sentimentos bons que já sentira por ele viraram pó –Não significou nada, Guilherme? Os anos que ficamos juntos? Eu fui sua primeira namorada e você foi meu primeiro namorado... Eu imaginei que pelo menos nos trataríamos com respeito quando tudo acabasse.
—Respeito? – o garoto devolveu o olhar cheio de raiva –Você quer falar sobre respeito? Enquanto namorávamos você ficava andando pra lá e pra cá com esse cara e quer me falar sobre respeito? Você nunca foi nenhuma santa.
—Eu nunca disse que era! – ela chegou mais perto, todas as pessoas em volta em completo silêncio, o único barulho na casa era da discussão dos dois –E quer saber a verdade? Eu poderia ter ficado com Eli enquanto ainda namorávamos, eu tive oportunidades, mas nunca fiz isso! Ao contrário de você...
—Eu nunca fiquei com Eli... – Guilherme disse com deboche.
—E com Letícia? – o sorriso debochado sumiu do rosto do garoto quando ouviu essa palavras, ele parecia analisar a loira tentando entender como ela sabia disso, Marina insistiu –Eu quero ouvir da sua boca, quero que você me fale.
—Quem te contou isso?
—Não é da sua conta! Eu quero que você me fale – a loira continuou.
—Marina – Eli a chamou, quando a garota se virou e encarou aqueles olhos escuros não soube dizer o que ele sentia, era como se seu rosto tivesse se transformado em uma máscara de indiferença –Vamos embora.
—Não, Eli – ela não se moveu –Quero que ele me conte.
—Por quê? – o garoto passou as mãos nos cabelos brancos e pareceu ficar irritado –Ele não é mais seu namorado, não importa mais.
—Pra mim importa.
—Achei que você estivesse comigo agora...
Marina se virou e viu os olhos do garoto queimando de ciúme e alguma outra coisa, talvez raiva ou algo parecido. A loira se irritou com isso e disse:
—Ah, pelo amor de Deus. Não vai me dizer que você está com ciúmes dele! – Eli abaixou a cabeça, seu maxilar travou e pareceu deixar transparecer a vergonha e a raiva que ele sentia –Vai começar a fazer as mesmas merdas que ele fez? Achei que você fosse mais do que um garoto inseguro...
Marina se arrependeu das palavras assim que as disse, os olhos escuros de Eli encontraram os dela por um segundo antes do garoto se virar e ir embora. A loira até tentou ir atrás dele mas a multidão estava fechada demais e ela logo o perdeu de vista.
—Que pena, essas coisas acontecem... – Guilherme voltou com o tom de deboche o que apenas fez a raiva de Marina crescer.
—Eu ainda quero que você diga – ela continuou e virou-se novamente para ele –Se você foi homem o suficiente pra fazer então tem que ser homem o suficiente pra me contar.
—Como você soube disso?
—Por que isso importa tanto pra você?
—Foi a Luana? – o garoto perguntou.
—O que a Luana tem a ver com isso? – Marina ficou confusa.
—Marina... – ela escutou a voz de Luana nas suas costas mas não quis se virar, não queria brigar com mais alguém além de Eli –Deixa isso pra lá, vamos embora.
—O que você fez, Luana? – ela perguntou baixinho, ainda sem coragem de se virar.
Não houve resposta.
—O que você fez?! – ela gritou e se virou. A outra loira a encarou com os olhos cheios de vergonha, Rafa estava ao lado dela parecendo tão confusa quanto todos em volta.
—Ela sabia – Guilherme respondeu por ela, Luana continuou encarando Marina sem saber o que dizer –A sua amiguinha perfeita, aquela que você tanto defendeu quando eu avisei o quanto ela não se importava com nada nem ninguém, ela sabia. Ela me viu com Letícia em uma festa. Mas pelo jeito não foi por ela que você soube, né?
—Você fez isso? – Marina sentia a garganta fechar –Você não me contou?
—Eu não podia...
—Não podia por quê?!
Luana encarou o chão envergonhada, engoliu a seco antes de responder:
—Ele ia me entregar pelos trotes se eu falasse alguma coisa... Mas eu tentei tomar conta de você, tentei...
—Então mais uma vez o que importa é você, não? – Marina a interrompeu –Eu não sei porque ainda penso que você tem jeito...
Essas palavras fizeram uma expressão de dor cruzar o rosto da outra loira, Marina respirou fundo e se virou para a multidão:
—Quer saber? Meu mais sincero “foda-se” pra todos vocês. São todos a mesma merda. Ninguém se importa com ninguém, ninguém é sincero. Fodam-se vocês...
A loira então virou as costas e saiu empurrando as pessoas até conseguir passar. Rafa se precipitou para frente tentando alcançá-la mas havia muita gente no meio do caminho. A garota ainda tentou gritar mas Marina já parecia longe demais:
—Marina, espera!
—Rafa... – Luana a chamou enquanto as pessoas começavam a sussurrar e falar sobre tudo que ouviram. Guilherme e alguns dos seus amigos apenas se retiraram e entraram na casa.
—O que foi?! – Rafa sentia-se irritada com a loira.
—Podemos ir agora? – Luana parecia sentir-se extremamente culpada.
—E deixar Marina sozinha do jeito que ela está? – a garota perguntou –Nem pensar, vou atrás dela.
—Vou com você...
—Não – Rafaela a impediu –Você já fez o suficiente por uma noite.
—Mas...
—Mas nada! – a garota interrompeu a loira e começou a se virar para procurar a outra amiga –Tenho que ir atrás dela resolver a merda que você fez, como sempre...
—Rafa...
—O que foi?
A loira parecia ter um nó na garganta, a mágoa que sentia era evidente mas tentava escondê-la sem sucesso.
—Achei que você tinha dito que não ia me deixar sozinha.
—Isso foi antes de saber o que você fez.
—Não posso ir com você? – Luana tentou insistir uma última vez.
—Não. Depois eu te procuro.
Rafa apenas virou as costas e foi embora deixando a loira sozinha na área da piscina.
***
Rafaela não conseguiu alcançar Marina, quando chegou na frente da casa o carro da loira já havia sumido. Então a garota suspirou e apenas decidiu ir caminhando para a própria casa, já estava tarde de qualquer maneira.
As três garotas foram sozinhas pra casa naquela noite. Ninguém as acompanhou, ninguém tentou cuidar delas, ninguém quis se certificar de que chegariam seguras... Duas delas ficariam bem, uma não chegaria em casa naquela noite.
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