Uma dose violenta de qualquer coisa
49 Tributo
61 dias depois.
Marina caminhava pelos corredores apreensiva, era o último dia de aula.
“Espero que dê tudo certo, que Eli não arrume confusão e não seja pego”
A loira estava procurando Rafaela, já desistira de tentar encontrar o namorado. Ele não respondera suas mensagens e nem atendia suas ligações, provavelmente seria assim até o trote acabar. Era como Luana fazia...
Marina avistou Rafaela parada em frente ao memorial de Luana, a foto e a frase ainda estavam no armário da garota apesar de já terem se passado dois meses desde sua morte. Já não haviam mais flores nem cartões, as pessoas já se acostumaram com a ausência dela. Exceto Rafa e Marina, elas ainda sofriam com tudo que acontecera. Talvez depois de hoje as coisas mudassem...
—Ei, feliz último dia de aula. Pronta pra abandonar tudo e começar uma nova vida em São Paulo? – a loira surpreendeu a amiga por trás, Rafa deu um pulo assustada mas logo sorriu. Marina conseguia ver um pouco de tristeza apesar desse sorriso, sempre ia faltar uma delas.
—Mais do que pronta – a garota respondeu –Feliz último dia pra você também! Conseguiu falar com Eli?
—Não, ele está incomunicável. Assim como Luana ficava... – as duas ficaram em silêncio por um momento –O que está fazendo?
Rafa voltou a olhar a foto, a garota suspirou. Antes que Marina pudesse perguntar novamente o que estava errado, a garota se inclinou e arrancou a foto de Luana do armário da amiga. Dobrou a foto com cuidado e colocou no bolso de trás do jeans.
—Queria que ela estivesse com a gente quando tudo acontecesse. Parece idiota, eu sei, afinal é só uma foto... – a garota respondeu.
—Não – a loira a interrompeu e sorriu –É uma boa ideia, ela gostaria de estar conosco. Pelo menos figurativamente ela vai estar, certo?
—Certo – Rafa sorriu ao ouvir isso.
—Hora de irmos pra sala de aula, o show vai começar – Marina estendeu a mão para a amiga.
Rafaela segurou sua mão e caminhou com ela até a sala.
***
Marina olhava em volta e chegou à conclusão de que todos os alunos naquela sala sentiam o mesmo que ela: tédio. O professor de Química estava dando um discurso clichê sobre escolhas e sobre como todos deveriam ser mais responsáveis daqui pra frente, que a vida nem sempre dá segundas chances para todo mundo e todas aquelas coisas que adultos adoram falar para pessoas mais jovens.
A loira afundou na cadeira, foi um ano intenso. Intenso até demais, tudo que queria era que terminasse logo. Olhou para Rafaela que estava sentada a algumas cadeiras ao lado, a garota riu e articulou com os lábios sem emitir nenhum som:
—Que saco.
Marina balançou a cabeça concordando, Rafa voltou a olhar para o professor. A loira olhou para trás, para a cadeira que costumava ser de Luana mas agora estava vazia.
“Queria que você estivesse aqui, tudo é tão sem graça sem você por perto”
Suspirou e voltou a olhar para frente. O professor não parecia ter chegado nem na metade do discurso quando um chiado nos alto-falantes fez com que ele se calasse e todos olhassem pra cima, o mesmo devia estar acontecendo em todas as outras salas da escola. Os olhares de Rafa e Marina se encontraram, as duas cheias de empolgação e ansiedade.
—Bom dia, meus queridos colegas – a voz de Luana soou acima de todos eles, as pessoas começaram a se olhar sem entender o que acontecia. Por que estavam ouvindo a voz de uma garota morta?
“É só um CD, é só uma mensagem gravada”
Mas parecia tão real.
—Aqui quem fala é sua querida Luana! – tinha um divertimento muito grande no seu tom de voz, Marina sorriu, sentira saudade da voz da amiga –Gostaria de parabenizar a todos por terem sobrevivido até o último dia letivo!
“Nem todos, Luana, você não sobreviveu”
—E, como comemoração, preparei algo especial para todos vocês – todos os alunos continuavam se olhando, nem mesmo o professor entendia o que significava aquilo –Vocês devem estar imaginando: “essa não, vai expor as líderes de torcida de novo!” ou “lá vai ela estragar mais um momento bom”. Estão todos errados! Hoje, eu não quero me vingar ou provocar ninguém. Hoje, eu só quero que todos nós sejamos felizes.
A loira sentiu um calafrio percorrer seu corpo ao ouvir essas palavras, era tão estranho ouví-la depois de meses e ao mesmo tempo saber que não era ela que estava lá.
—A vida não é fácil, gente, não é mesmo. Vocês não fizeram a minha vida mais fácil e sei que eu também dificultei as coisas para muitos de vocês, mas hoje acho que podemos ver um pouco de beleza juntos. Então – a voz dela estava séria, Marina se perguntou quando ela gravara isso –Eu declaro todos nós vencedores, que ano horrível, hein?
Ela deu uma risada. Todos abaixaram a cabeça tristes, apenas a escutavam. Suas palavras eram como tiros em todos eles.
“Você não faz ideia, Luana, do quão horrível esse ano foi”
—Sei que ainda está cedo e estamos praticamente no meio da manhã, as aulas ainda não acabaram. Mas, já que eu mando nessa escola, anuncio que acabou. Estamos oficialmente livres, todos nós. – ela fez uma pausa -Corram, tem muita coisa para vocês verem lá fora...
Marina quase podia imaginá-la sorrindo ao dizer isso. Olhou em volta, estavam todos estáticos, ninguém entendia direito o que era aquilo. Estavam esperando mais palavras, mas elas não vieram. Ao invés disso, o alarme de incêndio começou a tocar.
Um burburinho tomou conta da sala, as pessoas se levantaram e correram até a porta. Marina correu até Rafa e segurou sua mão.
—Vamos – a loira disse com um sorriso enorme.
Quando chegaram no corredor, viram que estava coberto de papel picado e confete até os joelhos. Os alunos corriam até a saída da escola o que fazia com que toda aquela sujeira voasse, a luz fazia o papel picado brilhar, parecia que choviam cores em cima de todos eles. As garotas sorriram e começaram a correr no meio das pessoas ainda com as mãos dadas, lutando para não se separarem. Era uma bagunça, os funcionários da escola iam ficar loucos! Tudo voava ao redor das pessoas, era até difícil enxergar o que estava à frente mas todo mundo ria e gritava enquanto se aproximavam da saída. A loira olhou para trás e viu Rafaela com um sorriso divertido no rosto, parecia que uma chuva de papel caía ao redor de todos eles, ela podia jurar que tudo naquele corredor estava mais brilhante naquele momento: as pessoas, as paredes, o teto... Talvez fosse por causa do papel que estava grudando em tudo mas Marina preferia acreditar que era a magia daquele momento.
Finalmente, ela e Rafa avistaram a saída da escola. Havia uma frase riscada acima da porta em letras grandes e pretas, todos podiam ler claramente: EU ESTIVE AQUI –LUANA. As duas sorriram, ninguém esqueceria que ela estivera ali.
Marina empurrou a porta, o dia estava nublado. Sentiu o ar gelado bater em seu rosto e fechou os olhos. Mas os abriu novamente assim que um barulho ensurdecedor se fez ouvir.
A loira abriu os olhos e viu fogos de artifício riscando o céu cinzento. Não conseguia tirar os olhos daquilo e sabia que o mesmo devia estar acontecendo com Rafaela e todos os outros, apertou a mão da amiga. Era lindo e colorido, sentiu as lágrimas querendo sair mas as segurou.
Alguém passou os braços pelo ombro dela, Marina se virou e viu Eli com um sorriso triunfal no rosto. Ele perguntou:
—Acha que ela teria orgulho de mim?
A loira não conseguiu responder, foi Rafa quem acabou dizendo:
—Com certeza.
Os três se abraçaram e continuaram olhando o espetáculo acima deles. Os outros alunos em volta sorriam e apontavam, alguns tentavam tirar todo o papel picado e confete que estavam colados neles, outros corriam no estacionamento rindo... Estavam todos felizes, de verdade. Marina observou alguns jogadores e líderes de torcida olhando para ela, Rafa e Eli sorrindo, Guilherme deu um aceno educado com a cabeça que ela devolveu discretamente, Letícia balançou a cabeça em aprovação parecendo perdida, era como se todos tivessem sido perdoados naquele momento.
Então, os fogos acabaram e o últimos vestígios de cor desapareceram aos poucos do céu deixando apenas uma fumaça cinza para trás.
“Cinza como os olhos dela”
—Bom – todos se viraram para a saída de onde vieram, o diretor estava com os braços cruzados apoiado na porta, ele encarava Marina, Eli e Rafa –Foi uma tremenda zona o que fizeram lá dentro. Mas tenho que admitir... Isso é muito a cara dela.
Marina não tinha certeza mas achou ter visto um começo de sorriso no rosto daquele homem.
—Já que vocês sujaram a escola inteira, acho que não podemos mais ter aula por hoje. Todos para casa e boas férias – os alunos começaram a comemorar e se viraram para ir embora, o diretor continuou olhando fixo para Marina, Eli e Rafa –E, vocês três, se cuidem, ok? Não quero mais ter que ler nenhuma notícia trágica sobre um aluno dessa escola...
Os três balançaram a cabeça e se viraram para ir embora. O trote acabou, as pessoas deixavam a escola felizes e sentindo-se mais leves, mas eles ainda tinham outras coisas para fazer.
***
—Certo, quem quer começar? – Marina perguntou com um sorriso.
Ela, Eli e Rafa estavam no lago, como haviam combinado, sentados na grama em uma espécie de roda. O carro da sua mãe, que ela pegara emprestado como sempre, estava estacionado a poucos metros dali. Cada um deles tinha um copo na mão, o copo da loira estava cheio de água já que ela era quem ia dirigir. Mas, de qualquer forma, ninguém queria ficar bêbado ali, só queriam falar sobre Luana e se despedir daquele lugar que fora palco de tantos momentos bons para todos eles. A bebida só ia tornar tudo um pouco mais fácil ou pelo menos eles esperavam isso, não ia ser fácil deixar tudo aquilo no passado mas precisavam fazer isso caso quisessem começar uma vida nova em São Paulo no próximo ano. Precisavam colocar uma pedra em cima de todas as coisas que aconteceram naquela cidade e o lago era o lugar perfeito para isso.
—Eu começo – Eli se inclinou para frente e encarou as meninas –Nunca contei pra vocês como conheci ela, não é?
—É verdade – Rafa pareceu se dar conta disso de repente –Nunca ouvimos essa história.
—Apesar de termos ouvido muitas outras... – a loira disse fazendo todos rirem.
Eli coçou a cicatriz no pescoço e começou:
—Bom, eu frequentava algumas festas quando tinha 14 anos e costumava vê-la na maioria delas, sempre com um cara diferente e, geralmente, mais velho. Lembro de olhar aquela garota de longe e ficar intrigado, sabe? Não como se eu quisesse ficar com ela ou algo do tipo...
—Acho bom mesmo – Marina fingiu irritação mas Eli sorriu para ela e a loira não conseguiu evitar retribuir o sorriso.
—Por que eu só tenho olhos para uma loira mesmo – ele deu uma piscadinha para a namorada, Rafa revirou os olhos rindo –Ela parecia sempre tão... Perdida, sabe?
As duas garotas balançaram a cabeça concordando, sabiam exatamente do que ele falava.
—Teve uma noite que ela passou muito mal, bebida demais acho, e uns caras ficavam passando a mão nela mesmo com Luana pedindo pra deixarem ela em paz. Isso me deixou com tanta raiva! Não consigo explicar exatamente do que, só imaginei que uma garota daquela idade indo para essas festas e fazendo todas essas coisas que não deveria fazer... Parecia precisar de ajuda. Então eu fui até lá, a levei pra longe daqueles caras e, quando vi, ela estava desmaiada na cama do meu quarto. Dormi na sala naquela noite, não queria que ela acordasse na manhã seguinte achando que tinha rolado alguma coisa...
Marina escutava atentamente cada palavra, Rafa mexia na grama mas escutava tudo com atenção também.
—Ela acordou no dia seguinte e me viu no sofá. Ela ficou um tempão me olhando, eu só esperei que ela falasse alguma coisa. Que me xingasse, que perguntasse se tínhamos ficado juntos mas acho que ela sabia que eu não era esse tipo de cara... Ela só... Me agradeceu e depois saiu pela porta – ele deu um gole no seu copo e encarou o conteúdo antes de continuar –E isso se repetiu na maioria dos finais de semana seguintes. Eu a vi de longe, ela ficava bêbada, eu a levava para o meu quarto e ela ia embora no dia seguinte com um olhar estranho e um agradecimento sem graça. Eu tentei salvá-la todas as vezes que pude, juro.
—Eu sei – Marina concordou.
Os três ficaram em silêncio, Rafa encarou Marina e disse:
—Sua vez.
A loira se remexeu na grama e começou:
—Eu tenho uma história muito boa – ela sorriu –Tinha essa menina no nono ano que era muito afim do Guilherme, na época tínhamos acabado de começar a namorar. Acabei descobrindo através de umas pessoas que ela faria qualquer coisa pra ficar com ele e fui correndo falar pra Luana que eu ia perder meu namorado, que aquela garota era muito melhor do que eu... A Luana me olhou, disse que era pra eu deixar isso pra lá que ela ia resolver tudo. Não tinha ideia do que ela ia fazer mas obedeci. No outro dia, a garota apareceu com um corte no lábio.
—Meu Deus, isso foi por causa da Luana?! – Rafa perguntou rindo, Marina sorriu.
—Sim. Quando fui perguntar o que tinha acontecido, Luana disse que ninguém mexia com os amigos dela. E que eu era bem melhor do que, com as palavras dela, “aquela vaca miserável”. Foi aí que eu percebi que eu a amava e que podia contar com ela.
—Isso soa muito como algo que ela faria – Eli sorriu.
Novamente o silêncio pairou entre os três, apenas uma pessoa ainda não falara. Eles apenas esperavam que Rafaela começasse, a garota continuou calada, pensando em uma história que pudesse contar, algo que transmitisse todo o amor que sentia pela amiga. Acontece que a melhor noite que tivera com Luana também fora a pior... Ela engoliu a seco antes de falar, sua voz parecia frágil e infantil:
—Na noite da festa na casa do Tiago – Marina e Eli a encararam, não pareciam entender por que, entre todos os momentos que tiveram, Rafa escolhera justamente aquele –Eu estava brigada com Luana, talvez vocês se lembrem.
—Não sabia que vocês estavam brigadas mas senti que havia algo errado – Marina disse –O que houve?
Rafa deu um longo gole no conteúdo do copo que estava em suas mãos. Fez uma careta ao sentir o gosto amargo na boca mas continuou:
—Ela tinha entrado no meu quarto no meio da noite alguns dias antes e dito muitas coisas, ela estava confusa e triste. E eu a consolei, e disse algumas coisas então... A gente se beijou e depois fomos dormir.
Marina e Eli a olharam com espanto, novamente aquela expressão que dava a entender que eles haviam levado um soco no estômago.
—Rafa... – Marina parecia pensar em alguma coisa pra dizer.
—No dia seguinte, ela não estava mais na minha cama e ela passou a me evitar. – Rafa ignorou o chamado da amiga –No dia da festa, nós acabamos sozinha em um quarto e ela falou um monte de coisas de novo. Falou que queria fazer as coisas certas a partir daquele dia, que não queria mais machucar ninguém, que desistia de procurar nossa dose violenta de qualquer coisa, ela só queria ficar comigo. Então nos beijamos de novo – ela começou a chorar, não conseguia evitar, Marina e Eli se aproximaram, a loira tocou seu braço com delicadeza –E continuamos nos beijando até ouvirmos o barulho da discussão lá fora. Ela queria ter ficado no quarto, mas eu disse que tínhamos que ver o que estava acontecendo... Então tudo deu errado.
Rafa soluçava, Marina a abraçou enquanto Eli observava as duas com uma expressão triste.
—Sinto muito – o garoto falou.
—Sim, Rafa – Marina concordou com ele –Não fazíamos ideia...
—Tudo bem – ela tranquilizou os dois e sorriu cansada apesar das lágrimas –Pelo menos eu tive esse momento com ela e isso vale tudo pra mim, eu sempre vou ter isso...
Rafaela se desvencilhou de Marina e voltou o olhar para o lago. Tanta coisa aconteceu ali, ela mal conseguia lembrar de tudo.
—Sabe o que eu acho? – a garota perguntou depois de um tempo.
—O que? – Marina a encorajou.
—Acho que no fim das contas nós encontramos nossa dose violenta de qualquer coisa, todas nós.
—E o que foi? – Marina perguntou apesar de já saber a resposta.
—Ela foi a nossa dose – Rafa virou o resto do conteúdo do seu copo antes de continuar –E nós fomos a dela.
***
Eles passaram o resto da tarde relembrando momentos em que não pensavam havia muito tempo. Riram e choraram muitas vezes. Lembranças do começo do ensino médio, das festas terríveis que sempre terminavam em confusão, de quando Luana os fazia ir, das vezes em que ela testou a paciência de todos eles, se lamentaram pelas lembranças que deixariam de ter agora que ela não estava mais entre eles mas ao final daquela tarde compreenderam uma coisa: que é possível continuar vivendo depois que se perde tudo e que coisas ruins acontecem com todo mundo mas a vida não vai parar pra esperar você se recuperar.
Quando o sol começou a sumir no horizonte, Eli ergueu seu copo vazio e disse:
—Para sempre em nossos corações – as garotas riram, era mesma frase que estava escrita no memorial dela em seu armário.
—Para sempre em nossos corações! – Marina e Rafa o imitaram ainda rindo e os três arremessaram seus copos no lago.
Ficaram olhando o resto do sol sumir. Quando a escuridão tomou conta de tudo, Eli suspirou e disse:
—Vamos, ainda temos uma última coisa a fazer.
As meninas levantaram em silêncio e esperaram que ele pegasse algumas coisas no carro para que pudessem ir até a casa na árvore.
***
Eli, Marina e Rafa olhavam para a árvore sem dizer uma palavra. Eli tinha um galão de gasolina nas mãos e fósforos no bolso, todos tinham concordado que ele subiria, deixaria tudo embebido em gasolina, desceria, derramaria mais um pouco de gasolina no tronco da árvore e deixaria o fogo fazer o resto do trabalho. Mas agora que estavam ali, pareciam incapazes de se mover.
Aquela era a última parte de Luana viva no mundo e agora iriam destruí-la. Sentiam-se um pouco culpados em fazer isso mas, sabiam que tinha que ser feito. E ligariam para o serviço de emergência depois de saírem dali para avisar que um incêndio começara na área de preservação da cidade, não queriam causar nenhum desastre. Já tinham vivido tragédias o suficiente...
—Eu vou fazer isso – Eli tomou coragem e começou a caminhar em direção ao tronco –Fiquem aqui, ok?
Marina balançou a cabeça concordando enquanto via o namorado subir e desaparecer de sua visão. A loira passou os braços pelos ombros de Rafaela, ambas continuaram em silêncio observando a árvore.
—Fico feliz que ela tenha achado esse lugar, deve ter dado um pouco de paz à ela – Rafa comentou com um nó na garganta.
—É, isso é tudo que eu desejo agora – Marina disse –Que ela tenha paz. Depois do que ela viveu, ela merece estar em um lugar melhor...
—Acha que São Paulo vai ser um lugar melhor pra gente?
—Vamos fazer ser – a loira respondeu tentando encorajar a amiga.
Voltaram a encarar a árvore em silêncio. Rafaela suspirou.
—Acho que nunca vou deixar de sentir falta dela...
—Nem eu – Marina concordou –Mas a gente consegue viver com isso, a gente vai ter que aprender pelo menos. Vamos cuidar uma da outra, melhor do que cuidamos dela...
Rafa balançou a cabeça concordando. Ouviram o barulho de Eli descendo, o galão sacudindo na sua mão. O garoto alcançou o solo e começou a molhar o tronco e o espaço em volta da árvore, quando a gasolina acabou ele deixou o galão na base da árvore e se afastou.
Os três ficaram olhando o chão molhado por alguns segundos, o coração pesado. Eli tirou os fósforos do bolso e riscou um deles na caixa. A chama tremeluziu por um segundo antes dele atirar o palito no chão. Nada aconteceu imediatamente mas logo um rastro de fogo cercou a árvore e começou a subir pelo seu tronco rapidamente. Um bafo de calor esquentava o rosto deles, Marina e Eli viraram o rosto mas Rafa continuou olhando, mesmo quando seu rosto parecia queimar. A luz logo se tornou intensa demais e as chamas chegaram até o aposento lá em cima, estaria tudo acabado em alguns minutos.
—Vamos, temos que sair daqui e ligar pra emergência – Marina disse.
Os três viraram-se em silêncio enquanto Eli pegava o celular para discar.
***
Marina dirigia pela estrada, Eli sentava ao seu lado no banco da frente. Rafa observava a fumaça e a luz do fogo subindo em direção ao céu no banco de trás enquanto eles ficavam cada vez mais distantes. Não sabia o que se passava com Marina e Eli mas sentia-se mais leve, como se um peso enorme tivesse saído dos seus ombros. A garota virou-se para frente e encostou a testa na janela.
Apesar da temperatura agradável que fazia naquela noite, ainda sentia o calor do fogo queimando seu rosto. E pensou que sentiu a mesma coisa nos lábios quando beijou Luana.
“Talvez ela estivesse lá quando queimamos a casa, talvez o calor do fogo na verdade tenha sido um último beijo dela”
Rafa sorriu ao pensar nisso, era uma despedida adequada. Se bem que nunca se despediria da garota por completo... Não conseguiria nem se quisesse.
E agora, com o barulho das sirenes dos carros de bombeiros e as luzes vermelhas passando ao lado do carro em que os três estavam em direção ao incêndio atrás deles, ela não sentia mais que estava faltando alguma coisa ou alguém entre eles. Sentia que estavam completos, inteiros, tinham sobrevivido afinal... Então começou a soluçar pra valer.
E Eli se virou para olhá-la.
E ele começou a chorar também.
E Rafa viu Marina secando uma lágrima enquanto tentava dirigir.
E olhou para o lado.
E viu a parte da estrada em que haviam encontrado o corpo de Luana.
E todos começaram a chorar cada vez mais.
—Estamos bem, estamos todos bem – Eli esforçou-se para falar através dos seus soluços, Marina balançou a cabeça concordando.
Rafa fechou os olhos.
E acreditou no que ele disse.
Acreditou que ficariam bem.
Mas não ligava se não ficassem.
Ainda estavam vivos.
E era só isso que importava.
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