Uma dose violenta de qualquer coisa
46 Justiça
29 dias depois.
Rafa estava parada no corredor da escola, encarando o memorial de Luana. Não haviam mais muitas flores ou cartões cheios de pesar e remorso, apenas a foto da loira sorrindo e a maldita frase: para sempre em nossos corações. Parecia que as pessoas se afetavam cada vez menos com o que tinha acontecido, estavam seguindo em frente. Mas Rafa não podia fazer isso, tinha que ir atrás de quem quer que tenha feito isso com a amiga.
Suspirou e começou a caminhar em direção à sala de aula. Viu as líderes de torcida caminharem ao lado dela, entretidas em suas conversas e rindo enquanto passavam as mãos pelos cabelos tratados com excesso de produtos químicos.
“Quem foi? Poderia ter sido uma de vocês?”.
Encarou as garotas até elas entrarem em uma sala e sumirem de sua vista, voltou a prestar atenção ao que estava na sua frente. Guilherme e alguns dos jogadores estavam encostados nos armários no fundo do corredor, eles riam com suas vozes graves e faziam gestos exagerados. Poderiam estar falando da última partida de basquete ou contando uma história sobre alguma garota, não tinha como saber com certeza. Os olhos de Guilherme encontraram os de Rafaela no meio de uma risada, o garoto ficou sério de repente e baixou a cabeça. Como se o olhar da garota fosse demais pra ela, acusador demais...
“Poderia ter sido você? Teria a coragem? Você é um cara bem covarde... Ou mandou um dos seus amigos fazer o trabalho sujo?”
Rafa sacudiu a cabeça para tentar se distrair dos pensamentos que a incomodavam, poderia questionar todos daquela cidade mas não conseguiria chegar a lugar algum.
***
E então aconteceu, de uma forma totalmente inesperada.
A aula de matemática havia acabado há poucos minutos e o professor já saíra de sala, os alunos aguardavam a chegada do próximo professor. Estavam todos espalhados, alguns riam alto, outros conversavam calmamente e uns poucos aproveitavam para terminar o dever de casa que haviam esquecido.
Rafa estava em seu lugar, Eli apoiava-se na sua mesa e Marina sentava em uma cadeira que havia colocado ao lado da garota. Conversavam sobre a ida para São Paulo no próximo ano, Marina falava sobre alguns dos apartamentos que havia visto na internet. Falava sobre um em especial que era perto do metrô e parecia ser o ideal para todos além de ter um preço em conta, Eli balançava a cabeça e sorria ao ver a animação da loira, Rafaela apenas escutava tudo. Faltava pouco para se formarem, seria ótimo deixar essa cidade para trás depois de tudo que aconteceu...
—Meu Deus, vocês não vão acreditar nisso! – uma garota com fones de ouvido se levantou e disse alto para a turma toda, ela tinha o celular no mão –Prenderam o assassino da Luana Lima!
A turma inteira voou para cima da garota, ela tirou o fone do celular e aumentou o volume. A sala ficou em completo silêncio, todos concentrados no áudio e vídeo que saía do celular. Rafa, Marina e Eli, que não se encontravam longe do amontoado de pessoas que se juntaram para assistir à notícia, ficaram congelados do jeito que estavam. O áudio chegou até eles baixo mas suficientemente claro para que pudessem ouvir.
—As investigações sobre a adolescente assassinada já duram quase um mês e apenas agora a polícia pôde entender o que houve. De acordo com o detetive responsável pelo caso, André Brandão, uma denúncia anônima o levou até a zona leste da cidade em uma área ocupada principalmente por viciados em drogas e moradores de rua.
A voz da repórter foi substituída pela voz de um homem, provavelmente o detetive:
—Recebemos relatos de um homem que afirmava ter encontrado a adolescente, não levamos a sério mas decidimos dar uma olhada e o que encontramos foi uma pulseira manchada de sangue que, quando mostrada ao pai de Luana, foi confirmada como sendo dela. O homem foi levado para interrogatório confessou o crime e deu detalhes desconhecidos pelo público, que somente o autor do crime poderia ter conhecimento.
O depoimento do detetive acabou e voltamos à repórter:
—O réu irá a julgamento em breve e, segundo advogados e promotores consultados, pode pegar sentença de 12 a 30 anos de prisão.
Rafa, Marina e Eli encaravam o chão sem se mexer. Os outros alunos, ao verem que a reportagem terminou, começaram aos poucos a se virar e encará-los. Um silêncio terrível caiu sobre eles, nenhum dos dois lados sabia o que dizer ou fazer então apenas ficaram todos sentados sem dizer uma palavra.
Rafaela sentia um peso enorme no seu peito, um sentimento que não conseguia descrever. Deveria estar feliz, certo? Pegaram o assassino, ele confessou, seria julgado, teria uma punição longa, então por que não se sentia nem um pouco melhor com isso?
—Eu espero que ele pegue a pena máxima – um garoto comentou, todos se viraram para ele incluindo os três amigos de Luana –Ele merece coisa pior mas, pelo menos, espero que ele seja preso pelo máximo de anos que a lei permitir...
Eli ia abrir a boca para falar alguma coisa mas o professor chegou nesse momento e todos voltaram aos seus lugares. O professor parecia não fazer ideia do que estava acontecendo fora da escola e sorriu enquanto falava sobre as provas finais.
Mas ninguém na sala parecia escutá-lo.
***
Marina, Rafa e Eli estavam sentados em uma das mesas da lanchonete mais próxima da escola, decidiram ir para lá depois da aula. Nenhum deles queria ficar sozinho nesse momento.
Não diziam nada, apenas davam pequenas mordidas cansadas em seus sanduíches. Era estranho o que sentiam. Quer dizer, o caso da Luana estava tecnicamente encerrado visto que tinham um suspeito que confessara mas não parecia que havia terminado. Talvez nunca fosse de fato terminar, talvez eles fossem viver o resto de suas vidas sentindo que havia algo faltando...
Rafaela foi quem quebrou o silêncio:
—Eu... Não gosto disso – a loira e Eli a encararam um pouco confusos mas esperaram que ela prosseguisse –Não teve um motivo, sabe? Ela foi morta por um drogado qualquer no meio do nada, parte de mim preferia que ela tivesse sido morta por algum dos ex-namorados dela ou alguém que estudava com a gente. É como se tivesse sido em vão, eu queria que quem tivesse feito isso tivesse pelo menos um motivo, alguma coisa, não queria que ela fosse tirada da gente por nada!
Rafa jogou o resto do sanduíche em sua bandeja, incapaz de comer levando em conta o quanto seu estômago se revirava, e afundou na cadeira com os braços cruzados.
—Eu sinto o mesmo – Marina confessou –Sei que isso pode parecer loucura e não fazer sentido nenhum mas... Também preferia que fosse alguém que a conhecesse. Desse jeito, parece que foi só uma questão de azar...
—Tudo na vida dela foi questão de azar – Rafa encarou os olhos azuis da amiga –A vida inteira dela foi uma coleção de falta de sorte e eu não consigo aceitar isso. Não consigo aceitar que essas coisas aconteçam e a gente não possa fazer nada para evita-las. Eu faria qualquer coisa, Marina, qualquer coisa pra voltar atrás e ter feito tudo diferente.
—Eu sei, eu também.
—Mas não podemos, né? – Eli encarou a mesa rabiscada enquanto recebia olhares das duas garotas –Agora temos que ir em frente. O assassino foi preso, ele será julgado, acabou. Tudo que podemos fazer a partir de agora é aprender com nossos erros e tentar fazer a dor de viver sem ela mais suportável.
As garotas balançaram a cabeça concordando. Marina voltou a comer seu sanduíche vagarosamente mas ainda havia algo que inquietava Rafa embora a garota não soubesse dizer exatamente o que.
***
31 dias depois.
Rafaela estava deitada na cama encarando o teto. Não conseguia se livrar da sensação de que havia alguma coisa errada, alguma coisa estava sendo esquecida.
Ela começou a pensar naquela última noite de novo, na noite da festa. Alguma coisa ela deixou passar, alguma coisa importante.
“Luana estava me beijando naquele quarto, tínhamos acabado de fazer as pazes. Lembro que era intenso demais, eu fiquei envergonhada”
—O que foi?
“Ela sorriu e segurou meu rosto com as duas mãos”
—Nada...
“Eu fiquei vermelha”
—Você é uma graça
“Ela riu e me beijou delicadamente. Eu a abracei pela cintura e descansei minha cabeça no ombro dela, Luana começou a passar as mãos pelos meus cabelos”
—Você não vai fazer que nem aquele dia na minha casa, não é?
“Eu perguntei com medo e a abracei mais apertado, tinha tanto medo de perde-la”
—Como assim?
“Ela parecia confusa”
—Não vai sumir de novo, certo?
“Ela vivia sumindo, sempre me perguntei pra onde ela ia...”
—Não, Rafa. Eu não vou mais sumir.
“Você sumiu, Luana, assim como das outras vezes. Só que agora era pra sempre”
—Você tem que jurar.
“Pra onde você foi das outras vezes?”
—Você é muito desconfiada.
“Onde você ia se esconder?”
—Vai jurar?
“E por que você se escondia?”
—Eu juro. Agora você tem que jurar uma coisa pra mim também.
“E como seu pai nunca sentia sua falta? Pra onde você dizia que ia?”
—O que?
“Como ninguém além da gente nunca reparava nos seus sumiços?”
—Que vai ter paciência comigo, por mais complicada que eu seja.
“Sinto muito por não ter tido paciência”
—Eu sempre tive paciência com você, Luana, e sempre vou ter. Eu juro.
“Mas eu não tive, naquela mesma noite eu quebrei essa promessa. Você ainda não sabia disso, então sorriu e me beijou de novo, você acreditou em mim”
—Meu Deus, eu não consigo ter o suficiente de você. Se soubesse tudo que eu quero fazer, todas as coisas que quis de você durante os últimos meses...
“Queria que tivéssemos tido mais tempo, queria ter te contado o que sentia antes. Daria tudo por algum tempo a mais com você, nem que fosse apenas alguns dias”
—Talvez eu queira também.
“Só mais alguns dias, era o que eu precisava...”
—A gente vai ter tanto tempo que você vai enjoar de mim.
“Não tivemos, eu não tive tempo de enjoar de você”
—Isso seria impossível.
“Sim, seria impossível mesmo. E então você me olhou, algo importante parecia passar pela sua cabeça e parecia que seu cérebro tentava decidir se deveria ou não me contar. Você acabou contando”
—Tem um lugar que eu quero te mostrar, um dia. É pra onde eu fujo quando as coisas ficam ruins demais na minha cabeça. A gente pode fazer desse o nosso lugar.
“Um lugar. Que lugar era esse? Era pra onde você ia quando queria fugir, isso eu sei, mas onde?! E por que era importante que eu fosse até lá?”
Rafa sentia o coração acelerado, a resposta parecia tão perto e ao mesmo tempo tão longe. Acabou caindo no sono com cada vez mais perguntas do que respostas.
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