Uma dose violenta de qualquer coisa

16 Eu queria que você ficasse...


111 dias antes.

Rafa acordou e se assustou ao perceber que já estava muito claro lá fora, vestiu-se apressadamente. Olhou para o lado e viu Marina ainda dormindo mas nenhum sinal de Luana. Se levantou e saiu da barraca, relaxou quando viu a amiga sentada na beira do lago.

Sem saber o que fazer, simplesmente sentou-se ao lado dela e ficou em silêncio. Certificou-se de que havia uma distância segura entre elas, não sabia se a loira ainda estava irritada.

—Ainda está com raiva de mim? – Rafaela perguntou abraçando os joelhos.

—Como posso ficar com raiva de você quando faz essa cara? – Luana sorriu para a amiga e tocou o braço dela delicadamente –Você se preocupa demais com as coisas...

—Você também se preocupou mais do que deveria ontem à noite – Rafa devolveu.

—Eu tinha motivos pra me preocupar. Você poderia ter morrido – Luana parecia dizer essas palavras com medo, como se falar essas coisas pudessem torna-las realidade.

—Às vezes eu também acho que você vai morrer mas aí fica tudo bem... – a garota continuou.

—Um dia nossa sorte vai acabar, Rafa – Luana respondeu e encarou o lago novamente –Já pensou o quão triste seria se uma de nós morresse sem encontrar a dose violenta de qualquer coisa?

—Seria bem triste mesmo... – Rafa comentou.

—Ei, eu não gosto desse clima mórbido – Luana riu e passou os braços pelos ombros da amiga –Devia se animar! Foi um “feriado” ótimo, não foi?

—O melhor que tive em muito tempo – Rafa sorriu para a amiga e encostou a cabeça no ombro dela.

Rafa e Luana ficaram um tempo encarando o lago sem dizer nada. Ambas pensavam a mesma coisa: não queriam voltar para Quixote. Queriam poder ficar ali onde tudo era calmo e não havia nada que as incomodasse, onde podiam desfrutar da companhia umas das outras. Mas elas sabiam que não podiam fazer isso. Luana suspirou e se levantou. Ela disse:

—Acho que temos que acordar Marina, não podemos ir embora muito tarde...

—Tem razão – Rafa concordou mas desejava ainda poder apoiar sua cabeça no ombro de Luana e ficar assim pelo máximo de tempo que fosse possível.

Luana deu as costas e entrou na barraca. Rafaela sentiu seu peito se apertar, sentia como se não aguentasse mais esconder seus sentimentos.

***

Marina suspirou quando viram a placa que indicava que estavam a 2 km de Quixote. Ela adorara o feriado e sabia que o mesmo se passava com suas amigas, até sentira uma ligeira vontade de deixar tudo pra trás e nunca mais voltar mas o bom senso falara mais alto e aí estavam elas, pedalando de volta pra cidade.

—Ei – Luana gritou na frente –Acho que não há nada mais justo do que nos despedirmos da nossa “viagem” com um almoço especial...

—Eu estou tão cansada, Luana... – Rafa reclamou.

—Vamos, eu pago! – a loira sorriu para as outras duas.

—Já que você insiste... – Rafa concordou apesar de realmente parecer muito cansada.

Elas continuaram até chegar na cidade e verem as casas. Depois as casas se transformaram em pequenos prédios e logo elas se viram no centro de Quixote. Luana as guiou até uma lanchonete pequena e entraram deixando as bicicletas do lado de fora.

Marina e Rafaela sorriram ao entrar no lugar, parecia uma daquelas lanchonetes dos anos 60! Tinha aqueles balcões vermelhos, garçonetes vestidas como antigamente, mesas separadas por cabines e até mesmo uma jukebox! Luana foi até uma das mesas no canto e se sentou, as garotas a imitaram.

—Incrível como você sempre encontra os melhores lugares... – Rafa comentou rindo.

—É porque, diferente de vocês, eu não tenho nada melhor pra fazer na minha vida além de andar à toa por aí – Luana respondeu fazendo sinal para uma garçonete que se aproximou vagarosamente.

—Boa tarde, garotas – uma mulher de aparentemente 40 anos com o uniforme de garçonete disse –O que vão querer?

Rafa e Marina se olharam perdidas mas Luana respondeu antes que elas pudessem falar alguma coisa:

—O especial do dia pra nós três.

A garçonete concordou com um sorriso e foi em direção ao balcão.

—Eu adoraria poder escolher minha comida – Marina comentou erguendo uma sobrancelha –Ninguém garante que você não pediu para ela nos servir merda...

—Eu não faria vocês comerem merda – Luana sorriu para a outra loira e afundou no banco.

Elas não falaram muito até a comida chegar. O cheiro da lanchonete era tão bom que as fazia ficarem distraídas. Quando a comida chegou até a mesa delas, a sensação que tiveram não poderia ser melhor.

Quando já estava na metade do seu prato, Marina conseguiu enxergar cabelos brancos no reflexo da janela. Se virou e viu Eli sentado no outro lado da lanchonete sozinho. Ele parecia olhar o cardápio distraidamente e não dava sinais de ter visto as garotas. Luana e Rafaela também não pareciam ter enxergado o garoto. Marina continuou comendo até acabarem e, quando se levantaram para ir embora, ela disse:

—Ei, por que não vão na frente? Acho que vou dar uma passada no Guilherme antes de ir pra casa...

—Tem certeza? – Rafa perguntou preocupada.

—Sim, sim – Marina procurou convencê-las a irem –Só preciso saber onde devolver a bicicleta.

—Pode ficar – Luana respondeu mas pela sua expressão Marina percebeu que a loira devia estar bastante desconfiada –Considere um presente.

—Ok – Marina apenas concordou e se virou. Esperou escutar o barulho da porta abrindo e fechando com a saída das amigas e então foi em direção ao garoto de cabelos brancos.

Ele não levantou a cabeça nem mesmo quando a loira parou bem ao seu lado mas a garota sabia que tinha sido notada.

—Posso me sentar com você? – ela perguntou um pouco insegura.

Ele apenas deu de ombros. A loira se sentou e olhou o garoto. Os hematomas do seu rosto haviam sumido quase totalmente mas ela não conseguia ter certeza já que ele ainda não levantara o rosto para olhá-la.

—Seu namorado não vai gostar de te ver aqui comigo... – ele finalmente disse e fixou os olhos negros nela.

—Meu namorado não é meu dono – ela respondeu irritada –Aliás, pensei que nós fôssemos amigos e até onde eu sei amigos passam um tempo juntos, não tem nada de extraordinário nisso.

—Eu só não quero ter mais problemas do que já tenho – Eli não desviou o olhar e isso começou a deixar Marina desconfortável, os olhos dele eram intimidadores demais pra ela conseguir encará-lo por muito tempo.

—Então é isso que eu trago pra você? Problemas? Eu não tenho nada de bom pra acrescentar na sua vida? – ela perguntou mas mantinha o olhar na janela enquanto observava os carros passarem do lado de fora.

—Você é boa demais – ele começou –E isso ainda vai te fazer muito mal... Olha, Marina, não é você que me traz problemas. Sou eu que trago eles pra você...

Marina o encarou surpresa. A expressão de Eli não trazia nenhum sentimento, era como se fosse um simples fato e ele já tivesse aceitado isso.

—Cada um sabe o que faz e você é meu amigo. Sinto te dizer que não é desse jeito que você vai conseguir me afastar... – ela retrucou e por um segundo vislumbrou surpresa no rosto do garoto mas logo desapareceu. Eli passou as mãos pelos cabelos brancos e suspirou.

—Você é impossível – ele sorriu –Guilherme deve ficar louco com você...

—O que quer dizer com isso?

—Quero dizer que ele é o tipo de cara que gosta de ter controle sobre tudo, que gosta de poder prever as coisas mas você é uma caixinha de surpresas, Marina. Não dá pra te controlar, não dá pra prever o que você vai fazer... Ele deve ficar totalmente perdido com você.

—E isso é uma coisa boa? – ela baixou o olhar sem saber o que pensar.

—Eu acho isso incrível – ela o encarou novamente, Eli ainda tinha um leve sorriso nos lábios –Eu amaria ter a chance de ficar com uma garota assim...

A loira sorriu e baixou a cabeça novamente. Eli se levantou de repente, a assustando e disse:

—Tenho que ir...

—Espera – ela se levantou também –Pode ir comigo até em casa? Eu não quero ter que ir sozinha...

—Então por que não foi com Rafa e Luana? – ele a pegou de surpresa, então ele tinha as visto ao contrário do que Marina pensara.

—Queria falar com você... – ela confessou relutante.

—Ok.

—Então?

—Então o que? – ele perguntou rindo.

—Vai me deixar em casa?

—Você realmente precisa que eu vá? – Eli parecia se divertir com isso.

—Sim – ela respondeu baixinho e o sorriso no rosto do garoto sumiu –Eu quero que você vá comigo.

Ele balançou a cabeça, passou os braços pelos ombros da garota e disse enquanto iam até a saída:

—Você sabe que eu sempre vou...

***

Rafa estava deitada na cama enquanto Luana arrumava o cabelo no seu espelho. Luciana estava de plantão, de novo, então as meninas não tiveram nenhuma preocupação ao entrar.

—Acho que eu vou pintar meu cabelo de verde...

—O que? – Rafaela perguntou surpresa.

—Brincadeira – Luana se aproximou rindo e sentou na beira da cama –Queria ver se você estava prestando atenção. Você está com uma cara de que nem liga pra mim por eu estar aqui... Oh, Rafaela, como pode fazer tão pouco caso de mim?

“Se você ao menos soubesse o quanto é importante pra mim, não falaria isso”, a castanha pensou mas ao invés disso respondeu:

—Talvez você não faça tanta diferença assim, afinal.

—Rafaela! – Luana fez uma cara que obrigou Rafa a segurar o riso –Assim você parte meu coração...

—Que coração? – a garota se sentou e brincou –Sempre achei que dentro de você só houvesse óleo e engrenagens.

—Talvez eu ainda tenha um coração, afinal de contas – Luana sorriu e empurrou Rafaela –Ou talvez ele só bata por você...

Rafa estremeceu quando ouviu essa última parte mas sabia que era tudo brincadeira. Luana fazia isso o tempo todo, ela não deveria levar a sério, deveria?

—Acho que tenho que ir – a loira olhou pela janela e viu que já começava a ficar escuro –Não quero ficar andando sozinha por aí de noite, pelo menos não hoje! Você me deixou muito cansada quase morrendo ontem...

Luana sorria mas Rafa ainda conseguia ver a garota que chorou desesperada na beira do lago quando ela demorou para emergir. Ainda conseguia ver a garota que ficara louca de raiva com a falta de prudência que tivera. E isso ainda a fazia se sentir culpada.

—Achei que você fosse mais forte que isso – Rafa provocou –Achei que aguentasse quase me ver morrer mas talvez você não seja tão corajosa quanto aparenta, não é?

—Nem tente me provocar, Rafaela! – Luana riu –Simplesmente não caio nas suas besteiras...

Luana se virou para ir embora mas Rafaela foi tomada por uma sensação ruim no seu peito. Uma vontade de pedir que a loira ficasse pois ela não queria ficar sozinha, não hoje. Não depois de quase se afogar, não depois de ter deixado a amiga tão preocupada...

A garota ficou de joelhos na cama e chamou antes que a amiga se afastasse muito:

—Luana! – a loira se virou com uma expressão curiosa, Rafa torceu para não parecer tão desesperada quanto imaginava que parecia –Por que não dorme aqui hoje? Amanhã é sábado mesmo... E eu... Não queria ficar sozinha...

Luana colocou a mão na cintura e sorriu.

—Quer dizer que você só me trata bem quando tem medo de ficar sozinha? É só pra isso que eu sirvo, Rafaela? – ela perguntou brincando mas se aproximou da cama e colocou as mãos nos ombros da amiga –Eu adoro ficar com você, é bem melhor do que ficar sozinha na minha casa de merda.

A loira subiu na cama e se deitou. Rafa a olhou com um sorriso nos lábios, Luana encarava o teto rindo.

—Somos duas babacas. Que patético, não?

—O que é patético? – Rafa ainda sorria mas seu peito parecia ser esmagado pela curiosidade.

—Duas garotinhas com medo de serem deixadas sozinhas...

—Pelo menos temos uma à outra – Rafa comentou.

—Verdade – Luana tocou a mão da amiga delicadamente –Ainda bem...

Rafa não soube o que dizer então ficaram em silêncio por algum tempo, era reconfortante sentir a mão de Luana segurando a sua. Ela só se lembra de terem ficado muito cansadas em algum momento e irem dormir, as mãos da Luana descansando na sua cintura e a respiração da loira causando arrepios na sua nuca.

“Se eu ao menos tivesse coragem de te contar...”, pensou enquanto sentia o quarto ficando mais escuro a cada segundo.