Uma dose violenta de qualquer coisa
18 Está tudo se voltando contra mim
105 dias antes.
Rafaela se perguntava o que teria na cantina para o almoço, ela saíra de casa sem tomar café da manhã e sentia seu estômago roncando de fome. Estava até um pouco envergonhada porque tinha certeza que o garoto que sentava na frente dela tinha escutado os barulhos... Olhou para o lado desconfiada e sorriu ao ver Luana dormindo de boca aberta, a cabeça encostada na mochila e os cabelos loiros rebeldes caindo sobre o rosto. Desviou o olhar para Marina que parecia distraída e percebeu com o canto do olho que Eli encarava a loira discretamente. Ergueu uma sobrancelha...
Sabia que Marina era fiel e não duvidava nem por um segundo que ela gostava muito de Guilherme mas algo estava mudando... Era como se, com a chegada de Eli, Guilherme estivesse mostrando o que tem de pior nele e consequentemente estava afetando o relacionamento dos dois mas ainda assim Rafa não sabia o que pensar. Eli era boa pessoa mas ninguém o conhecia de verdade, principalmente porque ele não se deixava conhecer. Era como se quisesse simplesmente ser deixado em paz e não seria Rafaela a pessoa que o incomodaria...
Faltavam poucos minutos para bater o sinal quando o diretor entrou na sala com uma expressão severa. Todos os alunos se endireitaram imediatamente e Eli cutucou Luana que se sentou assustada. Não havia um único sussurro na sala.
—Luana Lima, me acompanhe, por favor... – o diretor pediu em um tom de voz firme.
Luana levantou com suas coisas estampando uma expressão de indiferença no rosto mas todos na sala a encaravam confusos, principalmente Rafa e Marina. As duas amigas se encararam preocupadas, seus olhares pareciam trocar um milhão de informações. Elas ficaram preocupadas quando Luana saiu da sala sob a companhia do diretor mas ficaram mais preocupadas ainda quando ela não voltou nos outros tempos de aula...
***
Luana encarava o quadro atrás da cadeira pacientemente. Depois de sair da sala de aula sob o olhar curioso dos seus colegas de classe, o diretor simplesmente a mandou entrar e a trancou lá dentro. Ela não tinha ideia do que ele poderia estar fazendo. Talvez ele estivesse comendo seu almoço ou fodendo com a secretária, havia muitas possibilidades!
A loira girou na cadeira enquanto esperava, não havia muito o que fazer naquela sala minúscula e abafada. Pensou em furar o quadro com as canetas que ele tinha na mesa mas achou que talvez aquilo só fosse arrumar mais encrenca para ela. Um milhão de coisas se passavam pela sua cabeça...
Será que a tinham descoberto por alguns dos trotes que vinha aprontando? Ou será que descobriram que ela estava por trás de todos eles? Ela se repreendeu por ter sido tão descuidada! Ela teria que tomar mais cuidado e não aprontar nada na escola até o final do ano se quisesse realizar o grande trote que estava idealizando desde o primeiro ano...
O diretor entrou na sala interrompendo seus pensamentos. Ele tinha uma expressão bem séria e evitava olhá-la o que fez com que Luana o encarasse furiosamente com o objetivo de deixa-lo o mais desconfortável possível. Parecia estar funcionando.
—Então, eu vou continuar aqui o dia todo ou você vai me dar seu típico sermão e depois me liberar? – Luana provocou, o diretor nem mesmo a olhou mas ela percebeu seu maxilar se contrair como se odiasse o que estava fazendo...
—Não sei se você relaxa um pouco e para de pensar em si mesma às vezes mas, se fizesse isso de vez em quando, perceberia que todas as pessoas que te repreendem querem o seu bem e estão tentando cuidar de você...
—Eu não sou uma criança! Não precisam cuidar de mim! – ela interrompeu o diretor furiosa –Me diz o que diabos você quer ou eu vou embora agora mesmo...
Uma gota de suor escorreu da testa dele. Ele estava exausto, cansado de ter que bater de frente com aquela garota o tempo todo e só ele sentir o impacto. Ela parecia feita de ferro, parecia surda, parecia viver em um mundo separado de todas as outras pessoas... E esse mundo colocou uma armadura na sua cabeça e no seu coração, esse mundo tornou impossível que qualquer pessoa pudesse se aproximar dela e a ajudar mas ele ainda tentava, apesar de ficar profundamente frustrado às vezes.
—Eu não comuniquei a polícia nem o conselho da escola mas tenho algumas evidências que te incriminam como a responsável pelos possíveis trotes que vem acontecendo na escola esse ano. Vou te dar duas opções: ou você confessa logo ou, se conseguirmos provar a sua culpa, enfrenta as consequências que virão...
Luana fixou os olhos cinzentos no diretor e sorriu ironicamente. Ele pareceu tremer mas não disse nada, apenas aguardava a resposta da loira que não demorou a vir:
—Eu não fiz nada, sinta-se livre para começar a me investigar.
O diretor suspirou e afundou na cadeira.
“Ela não é fácil mesmo”, pensou.
***
Marina e Rafaela esperavam no estacionamento nervosas. Tinham feito todo o tipo de suposições sobre o que estava acontecendo mas desistiram de falar sobre isso quando viram que só estava as deixando piores. As duas amigas estavam sentadas em silêncio no capô do carro da mãe de Marina enquanto esperavam Luana. Já achavam que a loira não iria sair da escola tão cedo quando a viram sair pela portaria com um sorriso discreto no rosto mas tensão nos olhos.
Marina se levantou rapidamente enquanto Rafa ainda permanecia paralisada.
—O que diabos ele queria?! – Marina se aproximou e perguntou sentindo o coração bater mais rápido, pelo menos Luana parecia bem.
—Bater um papo, tomar um café, rir um pouco comigo... – a loira respondeu.
—Luana... – Rafa pediu e se levantou também.
—Olha, não é nada de mais.
—Claro – Marina a interrompeu –Nunca é nada demais quando Luana Lima é chamada na sala do diretor. Lembra da última vez que você foi pra lá? Acabou sumindo por dias!
Luana suspirou e foi em direção ao carro.
—Vamos até o lago, então.
Marina e Rafa se olharam preocupadas mas também entraram no carro e foram até os limites da cidade.
***
O dia estava estranho e as três amigas pensaram a mesma coisa. O céu tinha uma coloração triste de cinza, o ar estava com cheiro de chuva e o vento parecia gelado demais quase como se quisesse castigar as garotas pelo que elas vinham fazendo. Luana olhava as águas do lago com uma expressão indiferente enquanto Marina e Rafaela sentavam cada uma de um lado esperando que a loira começasse a falar algo, qualquer coisa, que as fizesse entender o que aconteceu...
—Então... – Marina disse baixinho, Rafa se limitou a esperar.
Luana encarou a outra loira.
—Então o que?
—O que diabos houve na sala do diretor? – Marina perguntou, finalmente.
—O de sempre, vocês sabem – Luana voltou a olhar para o lago –Um sermão, uma ameaça e uma dispensa nem um pouco honrosa...
—Ele sabe dos trotes, não é? – Rafa perguntou nervosa –Ele sabe e vai te denunciar. Droga, Luana, nós devíamos ter sido mais cuidadosas...
—Nós?! – ela interrompeu a amiga –Se tem uma coisa que eu não sou é covarde e vocês sabem disso. Não vou deixar vocês pagarem por uma coisa que eu convenci vocês a fazerem, a culpa é totalmente minha e eu aceito isso.
—Você é louca se pensa que vamos deixar você assumir isso sozinha – Marina comentou -Sua situação já é complicada demais, eu cuido disso. Eu assumo a culpa...
—Nem pensar que vou deixar você fazer isso, Marina – Luana a cortou.
—Luana tem razão, eu assumo a culpa – Rafa disse fazendo as duas garotas a encararem assustadas –Sou quem tem menos a perder aqui, vocês sabem disso. Luana já está encrencada demais e você, Marina, é presidente do Grêmio. Não tenho nada que vá me prejudicar, eu assumo isso...
—É justamente por isso que ninguém vai acreditar quando falar que foi você... – Luana comentou.
—Podemos tentar, não é? – Rafa tentou.
—Já disse que não sou covarde...
—Não é questão de ser covarde – Rafa continuou –É questão de que não vamos deixar de te proteger.
—Não preciso que me protejam – Luana parecia irritada –Não sou uma criancinha ridícula.
—Mas age como uma às vezes... – Rafa retrucou.
—Ei! – Marina interrompeu as duas antes que elas começassem a brigar feio –Chega dessas besteiras, não vamos brigar por causa disso! É o seguinte: Luana, o que exatamente o diretor tem contra você? Ele falou?
Luana respondeu enquanto continuava encarando Rafaela:
—Ele disse que tem provas mas se quer saber minha opinião, acho que o filho da puta só quer me assustar e me fazer confessar. Eles teriam me pego há muito tempo se tivessem provas de verdade...
—Então talvez o melhor que vocês façam é ficarem quietas por um tempo – as três se viraram assustadas ao ouvir a voz de Eli. O garoto estava encostado no carro da mãe de Marina enquanto as observava, o vento bagunçava seus cabelos brancos –Qualquer coisa eu assumo a culpa. Não estou fodido mas ao mesmo tempo as pessoas acreditariam se eu confessasse...
—Filho da puta, se você me assustar assim de novo... – Luana reclamou.
—Vai mesmo ameaçar seu possível salvador? – ele perguntou com um sorriso.
Luana parou por uns segundos e respondeu:
—Tudo bem, vou te perdoar dessa vez. Mas só dessa vez!
—Espera! – Marina chamou a atenção de todos –E quanto aos problemas que você já tem com o time e as líderes de torcida? Eles vão juntar todo mundo pra acabar com você...
—Eles tentaram uma vez, não deu certo... – Eli respondeu fazendo um arrepio subir pela espinha de Marina ao se lembrar daquele dia, do dia em que Guilherme os seguiu.
—Bom, tudo parece certo pra mim – Luana se levantou sorrindo –Isso merece uma comemoração!
—Ah, com certeza... – Rafa comentou ainda um pouco amarga.
—O que me diz, Eli? – Luana se aproximou do amigo e o abraçou pelos ombros –Que tal uma voltinha pela cidade?
—Se você não arrumar nenhuma confusão... – ele encarou a amiga.
—Eu nunca arrumo confusão – Luana comentou enquanto ia caminhando e os três a seguiam.
***
Marina não conseguia acreditar em como esse lugar era tranquilo, por que Luana nunca as levara até lá antes?
Não era exatamente um barzinho mas parecia um. Pessoas jovens estavam por todos os cantos mas não aqueles jovens que você vê nos filmes americanos, aqueles descolados, populares e perfeitos. Os jovens que estavam ali eram... peculiares. Garotas cheias demais, garotas magras demais, garotos baixos demais, garotos tímidos demais mas todos com o mesmo sorriso cheio de esperança no rosto.
As luzes eram escuras mas não tanto, mesas ocupavam o fundo e as laterais enquanto o meio se encontrava cheio de jovens dançando. Alguns bem, outros nem tanto, mas todos se divertindo. Mas melhor do que as pessoas e o lugar em si era o fato de Eli estar dançando perto dela. Não de um jeito sensual (senhor, ela tem namorado!), mas como amigos dançariam.
Os cabelos brancos grudados na testa pelo suor, um sorriso brincalhão (que ele não dá com muita frequência, todos sabem) estampado no rosto, as mãos dele casualmente encostando nela mas sem maldade. Ela quase pode vislumbrar quem ele poderia ser se se permitisse relaxar.
No outro lado do lugar, Rafaela estava sentada em uma mesa bebendo um copo de alguma coisa que Marina tinha pego para ela minutos antes. Sentia sua cabeça doer pela mistura da música e bebida.
—Você parece uma louca aí sentada – Luana comentou chegando por trás e se apoiando na cadeira da amiga. Ela tinha um copo cheio de um líquido vermelho na mão que bebia fervorosamente.
Rafaela apenas sacudiu os ombros procurando ignorar o quanto sua amiga estava perto e o quanto ela desejava que se aproximasse mais.
—Hm – Luana se aproximou para sussurrar no ouvido dela, Rafa sentiu calafrios –Quando você vai esquecer que está com raiva de mim e se divertir?
A garota continuou calada sem conseguir dizer nada mas não por estar com raiva, sinceramente isso já tinha passado, e sim por não saber mais como continuar desse jeito. Como continuar tendo Luana por perto mas nunca o suficiente, por não ter coragem de dizer o que sentia.
A loira a puxou pelo braço de repente fazendo Rafa quase cair no chão, Luana a segurou pelo braço e a ajudou a se equilibrar. A loira sorria.
—Que merda? – Rafaela perguntou confusa.
—Só quero que você se divirta, vem dançar – ela puxou a amiga para o meio da pista de dança e começaram a dançar juntas.
Rafa se lembrou de quando dançou com Marina na festa de Gabriel semanas antes mas isso era completamente diferente, ela não ficara tão nervosa quanto estava agora. Luana apoiou as mãos nos seus ombros e fechou os olhos enquanto se sacudia no ritmo da música, Rafa tinha vontade de apenas ficar parada a admirando mas simplesmente imitou os movimentos da amiga enquanto uma mão continuava segurando seu copo e o outro descansava na cintura de Luana. Rafaela sentia como se estivessem sozinhas apesar de estarem cercadas, ela desejou poder ficar assim por mais tempo, desejou mais do que tudo poder ficar assim por muito mais tempo.
—Ei, prova isso – Luana ofereceu seu copo com o líquido vermelho. Rafa hesitou mas logo entornou o líquido inteiro, sentiu sua garganta queimar e seus olhos arderem enquanto Luana virava apenas um borrão estranho e escutava sua risada –Uau, não era pra você acabar com minha bebida. Já volto, tenho que pegar mais...
E tudo pareceu sair de foco aos poucos para Rafaela.
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