Notas iniciais
Yo! Bem-vindos/as, queridos/as! Já vou liberá-los à leitura, mas antes... Perdoem a escrita. Eu estou com um vício horrível de texto acadêmico! Procurei ser bem tranquila, mas... Se estiver rebuscada demais, avisem nos reviews que eu ajeito. E leiam as notas finais, sempre terão avisos lá... rs Agora sim, divirtam-se! Música opcional para acompanhar o capítulo: https://www.youtube.com/watch?v=sDnWDtm4LTY&hd=1

I. Ontem

O centro da cidade de Niterói, Rio de Janeiro, parecia um tanto mais movimentado do que o normal. Ao menos era a impressão causada por um grupo bastante numeroso e excitado de jovens, em maioria, na faixa dos vinte anos. Uns tantos mais novos, uns poucos mais velhos. Reunidos em frente ao campus da Universidade Federal Fluminense, alguns tratavam de pintar o rosto de outros com tinta guache. Faziam muito barulho: cantavam rimas e criavam apelidos uns aos outros. Uma minoria, sob muitos risos, demonstrava verdadeira revolta, esbravejando e ameaçando abandonar o local.

Ana Carolina Cunha Alvarenga estava entre eles. Apesar de estar cursando seu quinto período de Letras, já era considerada por muitos, senão todos, uma veterana com bastante experiência para reger um trote daquela categoria. Quando lhe perguntavam sobre seu segredo para obter tanto poder em tão pouco tempo, apenas sorria e dizia não ter feito nada. Mas só ela sabia o esforço aplicado a cada vez que tentava exercer sua sutil persuasão nas pessoas certas. Reconhecer essas pessoas também, para ela, era uma tarefa árdua e digna de nota.

— Fila indiana! — Gritou à multidão de estudantes. — Bora, calouros! Fila indiana!

Sua voz soou alta e clara ao ar livre e noturno da cidade. Os jovens de rostos pintados organizaram-se, à medida que os veteranos se afastavam. Apenas ela permaneceu próxima, capturando um novato fugitivo aqui, retirando um veterano intruso ali.

— Vamos começar logo isso. — Disse, sentindo a voz ser fortalecida pelo diafragma, encorpada dentro da boca e liberada em alto e claro tom. Benditas aulas de canto.

Dirigiu-se ao primeiro da fila, um rapaz sardento e assustado. Tocou-lhe o ombro:

— Seu nome?

— Jeferson, — respondeu, trêmulo. Ela quase riu de toda aquela tensão, mas não podia dar-se o luxo disso. Não agora.

Olhou o rapaz minuciosamente, desde os cabelos ruivos e curtos à escovinha até os sapatos engraxados demais. Ele tinha bom gosto; sabia se vestir. Mas não tinha personalidade definida. Parecia mais um boneco, de tão bem arrumado.

— Você e... — Examinou ao longo da comprida fila, — aquela loirinha ali, vocês já fizeram amiguinhos?

O rapaz inclinou a cabeça, piscou uma ou duas vezes e olhou para a tal menina que Carol apontara. Não demonstrou reconhecimento.

— Ainda não, — respondeu.

— Então façam. Vocês dois vão organizar seu grupo e ir em sentido Cantareira. Vem aqui, ô loirinha!

Desse modo, ela uniu mais duas duplas e designou sentidos diferentes da cidade antes de desfazer a fila. Virava a cabeça para cá e para lá, escutando cada sussurro, como uma professora formada cuidando de uma turma durante uma prova. Hora ou outra, chamava um veterano para ajudar. Quando tudo estava ao seu gosto, fez a voz soar com volume e clareza mais uma vez:

— Tá legal, prestem atenção aqui! Vocês têm que conseguir cem reais e depois vão encontrar a gente na Praça da Cantareira, ok?

— Cinquenta reais por pessoa? — Perguntou uma menina baixinha, usando óculos.

— Não, por grupo. E não interessa como vão fazer isso. Sugiro pedirem, mas... — Balançou os ombros. — Só não sejam presos.

Surgiram algumas risadas nervosas após essa frase. A menina bateu palmas duas vezes e dispensou os calouros que começaram a dissipar-se.

— Ah! — Acrescentou, perdendo a postura vocal. Odiava quando isso acontecia. — Vocês podem ir pra casa, mas se quiserem participar da calourada, vão ter que levar o dinheiro!

A calourada, como aquele evento era popularmente conhecido, consistia na inserção social dos novos estudantes em seu curso. No caso específico relatado, estudantes de Letras da Universidade Federal Fluminense. Os novatos, ostentando figuras embaraçosas como fantasias e rostos pintados, conseguiam dinheiro nas ruas, fosse pedindo, fosse tirando do próprio bolso, para pagarem rodadas e mais rodadas de bebidas por toda uma noite.

Enquanto rumava com um grupo de amigos em direção à praça Leoni Ramos, apelidada Praça da Cantareira, Carol recordava de sua própria calourada. Na época, desconhecia esse nome. Desconhecia até mesmo o fato de ter ou não um nome. Estava assustada e, ao mesmo tempo, animada com toda a balbúrdia. Mesmo após as frases negativas de seus pais sobre os famosos "trotes de faculdade", ela quisera participar. Submetendo-se ao baixo, ela cresceria. E estava coberta de razão.

O bairro de São Domingos, por onde caminhavam os universitários, conservara muito de sua antiga arquitetura. Os cidadãos alegam, orgulhosamente, que aquella área é bela por ser rústica. Carol, nascida e criada em um moderno condomínio na Barra da Tijuca, julgava aquela área feia por ser velha. Não que decorações rústicas fossem desagradáveis, muito pelo contrário! Mas São Domingos estava há muito acabado e mal reformado. Não deixava de apreciar a Praça da Cantareira por isso, entretanto. Cercada de bares, bonitos ou não, Carol gostava de gastar algumas horinhas de sua vida por ali.

***

O bar escolhido fora um pub, não muito espaçoso, mas confortável e com preços acessíveis a todos. Uma música ambiente tocava em algum lugar. Às oito da noite, dois dos três grupos já haviam retornado com o valor exigido, bastante desfalcados. Uniram-se com seus mais novos amigos, veteranos ou não, para beber e oficializar o ingresso na universidade. Carol, em uma mesa estratégica onde podia ver a entrada e saída de todos, conversava com dois amigos e bebericava uma taça de vinho branco. De momento em momento, relanceava o bar, observando o quanto os novatos estavam diferentes: mais animados, mais enturmados, por mais que eles mesmos não percebessem essa mudança. Carol também não percebera em seu momento, mas agora o fazia. Missão cumprida, ela pensava a cada fim de uma calourada.

— Alguém tem cigarro? — Pediu Bruna, uma mulata de cabelos longos e cacheados.

A menção ao fumo fez os lábios de Carol formigarem. Parecia que seu interior estava muito vazio e precisava ser preenchido imediatamente: vontade de fumar.

— Pior que nem tenho, gata... — A resposta partiu de Renato, o nerd oculto sob um moicano e uns dois piercings.

— Eu também queria... — Ela começou, mas foi interrompida por um aroma trazido pelo vento ao que a porta foi aberta para um senhor engravatado entrar.

O aroma não partia dele, entretanto. Era adocicado; pungente. Cheiro de fumaça, mas não aquele cheiro artificial de cigarros industrializados, tampouco aquele acre de maconha. Ela não sabia do que se tratava. Mas sua amiga sim:

— Pior que alguém está fumando cigarro de palha.

— O quê? — Os outros dois questionaram em uníssono.

Antes de ouvir a resposta, Carol já esquadrinhava o ambiente, em busca do fumo de cheiro diferente e gostoso.

— Ali. — Bruna indicou um canto mal iluminado.

Um alguém de boné, não era possível perceber detalhes da fisionomia, tinha um cigarro grande aceso em mãos. Estava próximo a uma janela. A sensação de vazio aumentava, mesclando-se com a curiosidadde de provar o cigarro desconhecido. Fá-lo-ia mesmo que fosse necessário pedi-lo a um estranho.

— Já volto, — disse aos amigos, levantando-se.

***

"Ai meu Deus, são verdes!"

Carol sempre adorou surpresas. Fazer uma descoberta inusitada causava-lhe um fogo interno que energizava todo o corpo. Amava a arte, mas odiava o previsível. Seus olhos cansavam-se muito facilmente da mesma coisa. Todos os seus sentidos, na verdade. Todavia, sua observação social, principalmente familiar, mostrara-lhe que demonstrar surpresa não é... "Legal". Menininhas histéricas e escandalosas causavam-lhe dor de estômago. Não queria ser uma delas.

Chegou à mesa onde o dono do cigarro misterioso estava só. Melhor dizendo, a dona. O rosto não era muito visível por debaixo da aba curvada do boné azul-marinho, a camisa de malha e os jeans surrados estavam folgados demais. Mas com um olhar atento, percebia-se tratar de uma mulher corpulenta e, sem querer julgar, mas já julgando, bem mal vestida. Os cabelos negros quase não podiam ser vistos, amarrados para trás e presos com o próprio boné. Estava imóvel, expelindo a fumaça tragada lentamente. Emanava uma confiança nata, apesar de estar tão escondida e ninguém parecer notá-la.

Desde que fora beijada a força por uma, há uns dois anos atrás, Carol carregava sentimentos opostos sobre mulheres: por um lado, adorava explorar o universo que era seu e, ao mesmo tempo, de outras pessoas. A ideia de unir as igualdades a excitava. Por outro lado, o sexo com mulheres nunca era tão fervoroso. Nada tinha a ver com a presença ou ausência do órgão que fosse, isso era certo. Os homens, normalmente, eram mais firmes e ela gostava disso. E, fazendo seu coração pulsar um pouco mais embaixo do que deveria, aquela mulher não exatamente bonita parecia possuir quase a mesma firmeza de um homem. Sem ser um. E fumava um cigarro de cheiro gostoso.

Carol sorriu docemente, do jeito que fazia quando queria pedir alguma coisa. De pé, abaixou o tronco para encarar o rosto da desconhecida.

— Oi! — Disse, suavemente.

A outra só abanou a cabeça e, com um gesto rápido, ergueu ligeiramente o boné. Seu rosto era largo, a pele cor de café. Nada tão extraordinário, exceto...

— Ai meu Deus! São verdes! Seus olhos são verdes!

E toda a euforia causada por uma surpresa e bem guardada no fundo de uma Carol escapou de uma vez em uma voz esganiçada e um sorriso maior do que o planejado. Tudo graças a um rosto negro, de traços firmes, lábios grossos... E olhos verdes, como os de um gato.

Notas finais
Bom, então é isso... Que acharam? Um reviewzinho não vai doer, aposto... Além de ajudar uma autora amadora a virar profissional xD Bom, os avisos: digam se devo continuar a postar, porque, em caso positivo, o próximo capítulo vai sair até Segunda que vem. E um aviso legal: a UFF existe, mas as pessoas citadas não. A cantareira também. Até arrumei um linkzinho pra vocês olharem: https://www.google.com.br/maps/place/Pra%C3%A7a+Leoni+Ramos+-+S%C3%A3o+Domingos,+Niter%C3%B3i+-+RJ/@-22.8998655,-43.13037,17z/data=!3m1!4b1!4m2!3m1!1s0x9983d6a2a59fbf:0x6bb084ef83e fc8f0?hl=pt E é isso, até mais! P.S.: capítulo editado. Notifiquem qualquer erro de edição e/ou formatação.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.