Uma despedida em laranja.
1 A cor da felicidade
As ondas se quebravam nas pedras trazendo consigo pequenos animais marinhos e o som calmo para aquele fim de tarde cinzento. O vento varria os cabelos curtos daquele homem solitário e choroso na beira do penhasco.
Seus dedos avermelhados pelo frio amassavam um pequeno pedaço de papel enquanto seus olhos miravam qualquer coisa lá embaixo, parecia verdadeiramente compenetrado, embora não houvesse muito para ser visto além do movimento repetitivo do mar e o céu sem graça refletido nas águas. Por seu rosto escorriam grossas gotas de um choro que esperava lavar sua alma e remover todo o resquício de tristeza e lembranças que lhe amargavam o peito. Poderia ser classificado como um amargurado solitário, mas havia mais do que apenas o que podia ser visto de longe. Ele tinha uma história e essa agora estava ali amassada entre os dedos frios.
Uma vida toda em pouco mais de dez centímetros, uma única foto em preto e branco. As cores não podiam ser vistas, mas ele lembrava-se muito bem da cor dos cabelos daquela mulher. Laranja como a cor das chamas que queimavam seu coração, laranja como o limão maduro que lhe causava azia. A mesma cor que agora faltava naquele final de tarde nublado, que faltava em sua vida.
Aquela imagem permaneceria para sempre em sua memória, o dia em que o amor de sua vida fugiu com outro lhe deixando com o coração partido e responsabilidades que pareciam impossíveis.
Ele levantou-se, os olhos miraram uma última vez para as pedras tão distantes enquanto seu coração batia em desespero. Uma ideia vaga da pouca falta que viria a fazer naquele mundo voou por sua mente tristonha. Um passo e as poucas gramíneas foram esmagadas, mais um e a beira estava mais visível, porém, antes mesmo que seu pé direito alcançasse a borda do precipício ele subitamente parou. Aquela voz angelical e infantil o parou.
— Papai!
Uma única palavra e ele desistiu de sua ida, apenas cinco letras que resumiam sua vida toda o fizeram virar as costas para o penhasco e se agachar à espera daquele abraço caloroso de bracinhos curtos e quentes.
Ele esperou de olhos fechados e só os abriu quando sentiu o corpinho aconchegado em seus braços. A primeira coisa que viu foram os fios alaranjados e em meio as lágrimas sorriu. Havia por um curto momento esquecido que a cor laranja também o remetia a algo feliz. Abraçou o filho com mais força e lembrou-se do momento que o viu pela primeira vez, aquele tinha sido o dia mais triste de sua vida, mas também o mais feliz. Sua prole que possuía aquela característica especial, era caloroso como o sol e doce como a polpa de mangas maduras.
— O senhor está triste papai?
Em um profundo suspiro ele se virou em direção ao penhasco novamente e dali jogou fora a última lembrança triste de sua vida.
Em silêncio os dois observaram o papel cair lentamente, mudando o curso de seu voo algumas vezes pelo vento frio. E quando por fim ele tocou as pedras e foi coberto pela água salgada o homem se permitiu sorrir.
— Agora não estarei mais, vamos ser felizes meu filho.
E ele jurou ter visto uma fina réstia de sol tocar sua pele numa despedida silenciosa e quente.
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