Notas iniciais
História antiga, já postei no Spirit em 2015. Não revisei muito, tá horrível.

Além-Mar. Você poderia chamá-lo de O País de Aslam, mas isso não seria correto. Assim como a Verdadeira Nárnia era apenas um pequeno espaço dentro da vastidão do País de Aslam, esse era uma fração de todo o domínio de seu Pai. Como alguns quilômetros de terra dentre inúmeros latifúndios, dado de um pai à um filho como um pequeno agrado. Como o jardim da Pequena Sereia. Um espaço no armário.

O Leão caminhava por um trecho curioso e solitário desse mundo. Um enorme campo, de relva verde e brilhante, que se estendia ao horizonte até que se perdesse de vista. A visão seria mais agradável com a presença de árvores e animais, mas a sensação de calma do local era inigualável. Nem o mar mais liso ou a câmara mais fria e silenciosa poderiam ser mais propícias aos pensamentos do que o campo em que Ele se encontrava. A Planície dos Pensamentos, era como a chamavam. Onde os pensamentos fluíam como pétalas coloridas ao vento. Para onde as ideias que valem a pena são atraídas. Onde as mentes semelhantes se unem.

Porém, nesse momento, Ele não era um leão. Era um homem. Sua forma era a de um jovem, alto, porém com o rosto liso. Os cabelos, pouco abaixo dos ombros, pendiam num rabo de cavalo frouxo sobre as costas do rapaz, dourados de modo como nunca antes fora visto, poderiam ofuscar o Sol e faziam o ouro parecer enferrujado quando estes lhes eram comparados. Nem claros demais, nem escuros o suficiente para que se tornassem semelhantes ao castanho. Mas, no instante seguinte, Ele já não era um rapaz. Como se nada houvesse mudado, um garoto caminhava em seu lugar, em seu rosto uma expressão de inocência e felicidade infantis. E então um ancião o substituía. Em seguida, um homem maduro, com um rosto cansado. E então o rapaz novamente. Mas havia algo que nunca mudava. Os mesmos cabelos loiros, tão belos, capazes de trazer harmonia ao mais angustiado dos homens.

O jovem que, aos olhos humanos, seria descrito como no auge de sua juventude e saúde era a imagem mais frequente. Por um longo tempo, era Ele quem caminhava suavemente pela relva, aparentemente, sem interrupções.

Até que ela chegasse.

Uma bela dama se aproximava. Ela trajava um vestido branco, simples, mas que reluzia de uma forma curiosa quando uma nuvem passava em frente ao Sol. O mesmo acontecia com seus cabelos: prateados, ou talvez brancos e extremamente brilhantes. Naquele momento, era impossível dizer. Seu rosto era contraditório. Sua expressão poderia ser lida tanto como infantil e inocente quanto como maternal e protetora. Porém, algo era certo: ela olhava para Aslam com devoção e carinho.

Mas havia também um certo receio.

"...Aslam?", ela murmurou.

Tirado de seus devaneios pela voz doce da moça, Ele se virou e encarou-a com um sorriso.

"Sim?", Ele respondeu, enquanto cruzava os braços atrás do corpo. "Diana... Ou Ártemis? Como prefere ser chamada?"

"Apenas Lua, por favor.", ela riu, com um sorriso nostálgico nos lábios.

"Lua", Ele confirmou.

"Aquilo...", ela hesitou por um momento, mas em seguida seu rosto tomou uma expressão decidida, como a de quem tem plena certeza de algo, mas, ainda assim, necessita de uma confirmação. Buscava sua âncora na realidade, a ciência de que mais alguém reconhecia o que lhe atormentava.

"Aquilo já começou, não foi? O primeiro Evento já ocorreu."

"Eu creio que sim. O Fim do Mundo foi alcançado. Essa foi a primeira previsão. Mas... Ainda há tempo."

"Se me permite... Quanto tempo?", suspirou a dama, aproximando-se do jovem e entrelaçando seu braço ao dele.

O loiro moveu o braço direito e segurou a mão da dama entre a sua. "Eu suponho... Mais de duas centenas de anos. Talvez três."

"Você pode me contar como será? Eu ouvi algumas profecias sobre. Mas o senh-" ao notar que Ele se precipitara para garantir que isso não seria necessário, ela corrigiu "mas você é o único que pode ter certeza."

"Certamente não o único, querida." ele riu, olhando para o horizonte. "Mas eu temo não poder revelar isso."

"Fará diferença? Eu acho que isso não importaria. Não se realmente acontecesse."

"Façamos dessa forma: pense no que você ouviu dos Profetas. Afinal, essa é a finalidade deste campo."

A garota engoliu em seco e olhou para o céu. Ao fechar os olhos, toda a planície pareceu se tornar mais escura: como se estes fossem a fonte de luz do local. No momento seguinte, uma brisa suave passou, carregando delicadas pétalas brancas consigo. O jovem, finalmente tirando o braço esquerdo de trás das costas, segurou uma delas com suavidade entre os dedos. Ao soprar sobre ela, a voz de Lua ecoou pelos campos, mesmo que a jovem mantivesse os lábios selados. Apenas poucos fragmentos foram compreendidos.

"Meu irmão se..." e voz se tornava apenas um sussurro. "Ambos seremos destruídos", eles ouviram.

"Sim...", Aslam respondeu. Ambos permaneceram em silêncio. Eles permaneceram lá, com as mãos entrelaçadas, os olhares desviados para o nada. Alguns minutos depois, o loiro virou-se para a Lua e colocou a mão esquerda em seu ombro. Ao olhar em seus olhos, buscando um pedido de aprovação, Ele notou que lágrimas se formavam abaixo deles.

"Não chore, minha criança.", ele murmurou, enquanto acariciava os cabelos da garota, que escondia o rosto em seu ombro. Ele enfim soltou a mão da dama, mas apenas para segurar-lhe com delicadeza a cintura, e ambos moveram-se numa dança que dançavam há séculos, e pensavam que nunca teria fim.

Mas esse fim se aproximava.

Notas finais
A intenção não é romântica, mas temo que tenha soado assim.
Muito obrigada a qualquer um que tenha lido.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!