A estadia de Inácio e Laura no apartamento do filho se estendeu por mais dias do que Rodrigo imaginou. Ficou sabendo que seu pai havia deixado a empresa na França sob os cuidados do sócio e voltara para reabrir seus negócios no Brasil, o que era um pouco estranho, considerando a situação econômica do país, não esperava que ele viesse investir agora. Mas não chegou a questioná-lo. Inácio não pediria sua opinião e ele não a ofereceria. Aliás, nada disso seu pai conversou com ele, soube de tudo através de Laura, que continuava fazendo o papel de mediadora na relação de pai e filho.

— Vocês já estão aqui há uma semana, mãe.

— Você tem razão, nós não deveríamos ficar aqui atrapalhando a sua vida. Não se preocupe, não vamos ficar por muito mais tempo. Mas, Rodrigo, converse com o seu pai.

— Não vou pedir desculpas a ele, se é isso que você está sugerindo.

— Filho...

— Não fiz nada errado, mãe, foi ele quem entrou na minha casa e ofendeu a mim e ao meu namorado.

— Você não pode ser um pouco compreensivo com ele? Seu pai é de outra geração.

— Isso não é desculpa pra ser preconceituoso.

Apesar da presença indesejada daqueles hóspedes, as coisas com Yuri apenas melhoraram. Talvez ter batido de frente com o pai para defendê-lo tivesse mesmo um lado positivo, Rodrigo pensava, porque até os ciúmes dele tinham diminuído e ele passara a aceitar Álvaro como amigo também, com algumas ressalvas, mas já não ficava fazendo cara feia quando os via conversando.

Estavam juntos quando Álvaro chegou e pediu para falar com ele. Yuri fez menção de sair, mas Rodrigo pediu que ele ficasse, não tinham segredos.

— É que eu almocei com o seu pai hoje — Álvaro explicou, sem rodeios. — Ele está precisando de assessoria jurídica empresarial.

Rodrigo balançou a cabeça e não pôde evitar rir da ideia. Seu pai só precisava de alguém para ler os contratos e dizer que ele podia assinar sem medo.

— Quais as chances de você superar essa briga e trabalhar com ele?

— Nenhuma. Ele me chamou de advogadozinho de merda. Não acredito que ele te pediu pra falar comigo.

— Você tem todos os motivos pra ficar chateado com ele, mas...

— Por que você está do lado dele, afinal?

— Você sempre quis ter uma relação melhor com o seu pai, Rodrigo, talvez seja sua chance. E pode mostrar pra ele o quanto tá perdendo.

— Acho que o Álvaro tem razão — Yuri falou, causando surpresa nos outros dois, que o encararam de olhos arregalados. — Que foi? Ele está certo, você pode ter uma chance de recuperar sua relação com seu pai, não precisa desperdiçar isso por orgulho, isso não te faz melhor do que ele.

Álvaro assentiu com veemência, concordando com as palavras de Yuri.

— Sempre achei que esse garoto tinha potencial — disse.

— Olha só pra gente, tão civilizados! — Yuri deixou escapar a ironia. Era, de fato, inacreditável que depois de tudo pelo que passaram, estivessem ali, conversando naturalmente. — Então, você vai trabalhar pro meu sogro?

Rodrigo rolou os olhos, mas acabou sendo convencido a dar uma chance ao pai. Esperava que ele fizesse por merecer.

Inácio não chegou a fazer um pedido formal de desculpas, mas pelo menos parou de ofendê-los e deu mostras de que não deserdaria o filho por ele ser gay. Trabalhar com ele não foi de todo ruim. O homem impaciente e rude que ele demonstrava ser no trato diário, era diferente nos negócios. Implacável, sim, mas com um bom tino para negociar. Inácio estava adquirindo uma rede de hotéis nacional, que passaria a fazer parte do grupo que ele comandava junto com o sócio francês. Rodrigo tratou de todos os contratos, explicava ao pai as cláusulas que ele não entendia, especialmente porque Inácio estava desabituado à legislação brasileira. Aquelas semanas que duraram as negociações pareceu aproximá-los mais do que a vida inteira.

Ainda demorou mais de um mês para que tivesse seu apartamento de volta. Laura tinha finalmente se decidido por uma das vinte mansões que visitaram, contratou um arquiteto para fazer a decoração e um paisagista para cuidar do jardim, e já estava planejando a festa de inauguração, que também seria seu retorno à sociedade brasileira depois de treze anos ausente.

Para comemorar a volta de sua privacidade e também seu aniversário no dia seguinte, Rodrigo resolveu fazer um jantar em casa para o namorado. O marco dos cinco meses tinha passado e eles continuavam sem sexo, o que já podia ser considerado um feito e tanto. Não teria sido mais simples ir num motel e resolver o problema? Sim, de fato, seria simples, mas Rodrigo não queria o simples, porque Yuri merecia mais do que isso. De qualquer forma, as coisas iriam acontecer quando chegasse a hora. Se fosse naquela noite mesmo, melhor ainda. Estava tudo preparado para receber Yuri. Uma massa ao molho pesto, um vinho, uma música suave.

A única coisa que faltava era o namorado. Quase não tinham se visto naquele dia, porque Yuri estava saindo do escritório sempre na hora certa pois tinha começado a estudar para um concurso público. Rodrigo tinha mandado mensagens que ele apenas visualizou e não respondeu. Conhecendo-o bem, deveria saber que ele esquecia de mandar uma resposta, às vezes respondia no dia seguinte, mesmo assim, não conseguia evitar ficar com a pulga atrás da orelha, se perguntando por que ele não respondia, se o aplicativo mostrava que ele havia visualizado há menos de dois minutos.

As horas foram avançado, o jantar esfriou e foi requentado, e nada de Yuri chegar. Rodrigo perdeu a paciência e ligou para o celular dele, ouvindo o som da caixa de mensagens em todas as vezes. Quando passou de onze horas e ele não apareceu, perdeu a esperança. Desarrumou a mesa, guardou o vinho e foi para o quarto vestir o pijama e se deitar.

Quando Yuri chegou, já era bastante tarde, mas Rodrigo ainda estava acordado. Assim que ouviu o barulho da porta sendo aberta, se levantou e foi encontrá-lo. Quase não o reconheceu com os cabelos cortados curtos.

— Por que você cortou? — questionou depois de cumprimentá-lo com um beijo. Queria enchê-lo de perguntas e saber onde ele tinha se metido o dia inteiro, mas acabou não dizendo nada, não queria sufocá-lo com cobranças.

— Já era hora.

— Você adorava o seu cabelo.

— Me disseram que eu não parecia um advogado — ele confessou, dando de ombros.

— Bom, você continua bonito.

— Rodrigo, me desculpa por ter furado com o jantar. Tentei chegar aqui a tempo, mas aconteceram umas coisas estranhas.

— Que coisas?

— Depois eu te conto. Vem cá. — Yuri o puxou para junto de si e o abraçou. — Feliz aniversário.

— Pensei que você tivesse esquecido.

— Claro que não. Aliás, tenho um presente pra você. — Tirou a mochila das costas e procurou por algo dentro dela. — Por favor, não ache muito brega — disse, entregando uma caixinha de veludo ao namorado. Rodrigo a abriu e viu um par de alianças dentro.

— Uau!

Rodrigo até coçou a cabeça, sem saber bem como reagir àquilo, não esperava por algo semelhante, afinal, usar uma aliança ainda era um símbolo universal de compromisso. Yuri tinha as mãos um pouco trêmulas quando pegou um dos anéis e fez menção de colocar em seu dedo. Rodrigo olhou para a mão ornamentada com aquela joia e gostou da sensação. Devolveu o gesto, colocando a segunda aliança no dedo dele.

— Por favor, me diga que agora nós podemos transar — Yuri disse.

— Nem ao menos disfarça suas más intenções, tsc.

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