Quando ouviu a campainha primeira vez, Rodrigo pensou que fosse apenas imaginação de sua cabeça, como naquela expressão “ouvir sinos tocando” quando se estar muito feliz.

— É mentira, não é? — Yuri resmungou porque também estava ouvindo.

— É sim.

Mas não era. Rodrigo pensou em diversos palavrões enquanto ouvia o toque insistente. Aquilo só podia ser carma. As férias que tinham planejado não foram possíveis, mas tinham decidido que já haviam esperado demais, e depois de um jantar romântico, estavam prontos para a primeira noite de sexo, exatamente quando completavam quatro meses de namoro. Não era possível que alguém estivesse batendo à sua porta naquele momento. Tentou ignorar, porém, fosse quem fosse aquela visita indesejada, não parecia disposta a desistir.

— Não vai não! — Yuri o segurou pelo braço quando ele fez menção de se levantar. Rodrigo queria obedecer, mas seu senso de responsabilidade o alertou para a possibilidade de ser algo importante. — Quem é o filho da mãe que visita alguém às onze horas da noite? — o rapaz resmungou, insatisfeito por ser deixado na cama naquele estado de excitação quase doloroso. Rodrigo não evitou se lembrar da pessoa que costumava fazer visitas inoportunas. Não saberia nem dizer quantas vezes Álvaro batera à sua porta às onze da noite em busca de algo que o fizesse esquecer o fracasso que era seu casamento. A fim de não quebrar ainda mais o clima, não falou sobre essa lembrança, e torceu para que não fosse ele.

— Deve ser o síndico, ou algum porteiro, pode ter acontecido alguma coisa. Vou resolver isso e já volto, ok? — prometeu, terminou de vestir o short e se inclinou novamente para beijá-lo.

— Você vai atender a porta desse jeito?

Rodrigo deu de ombros. Estava em sua casa e sempre ficava à vontade, não importava a hora. Dependendo do problema que levara alguém à sua casa, não pretendia dar a pessoa tempo para reparar no volume que havia sob seu short.

Tentou imaginar várias possibilidades enquanto andava descalço pelo corredor, mas nada do que pensou poderia ser superado pelo que encontrou ao abrir a porta. Não teve muito tempo para pensar, porque dois braços avançaram para seu pescoço e um beijo estalou em sua bochecha.

— Mãe... — gaguejou com ela ainda pendurada em seu pescoço, e pôde reparar no pai ainda de pé à porta. — E pai? O que... ? — Ficou sem ação quando o pai, sem esperar convite, entrou em seu apartamento, arrastando duas malas. Quando sua mãe finalmente o libertou do abraço, olhou para ela, tentando de convencer que era mesmo ela.

Era uma mulher jovem que o tivera com apenas dezessete anos. Agora, aos quarenta e cinco, tinha uma aparência de vinte e poucos. Seu corpo era bem modelado, os cabelos negros sedosos e compridos. A pele do rosto era impecável. Nas poucas vezes que saíam juntos, as pessoas perguntavam se ela era sua irmã, pois eram bastante parecidos. Os efeitos da idade sobre ela foram amenizados pela vida de rainha que o marido proporcionava. Rodrigo era capaz de fazer muitas críticas ao pai, mas admirava o amor e a dedicação que ele tinha por Laura.

Seu pai também tinha um aspecto bom, embora nele os vestígios do tempo fossem mais nítidos; cinquenta e quatro anos e cabelos grisalhos, uma expressão séria no rosto, cara de poucos amigos. Inácio nunca foi muito simpático; às vezes, pensava nele como um animal e a única pessoa capaz de domá-lo era a esposa. Nunca entendera como duas pessoas tão diferentes pudessem estar juntos há tanto tempo.

—Você está linda! — disse à mãe, sabendo o quanto ela gostava de receber elogios.

— Obrigada, querido, você também está adorável, meu filhinho está um homem! Olhe só para você, Rodrigo!

— Será que o seu pai não merece um abraço também, Rodrigo? — seu pai perguntou, com seu jeito peculiar que sempre parecia estar dando ordens.

Apesar de estar cismado com o fato de eles aparecerem de surpresa depois de meses sem dar notícia, nem sequer um telefonema, Rodrigo o abraçou.

— Parece que nós chegamos numa hora ruim, hein? — Inácio falou, e o sorriso dele era tão estranho que Rodrigo se assustou. A principio, não entendeu o que ele queria dizer, mas então se deu conta de como estava vestido e do short que não disfarçava em seu estado de animação. — Eu avisei, mas ela queria fazer surpresa — acrescentou Inácio, à guisa de explicação.

— E posso saber o motivo dessa surpresa? — Se virou para a mãe.

— Nós acabamos de chegar no Brasil e, acredite, o hotel cometeu um erro terrível com nossas reservas. Então resolvemos ficar com você.

— Ficar comigo?

Rodrigo teve que rir porque ver seus pais mentindo era engraçado, para não dizer assustador. Se o hotel deles tivesse cometido um erro na reserva, conseguiriam outro quarto na mesma hora, mesmo que estivessem lotados, dariam um jeito. Na última hipótese, Inácio compraria o hotel, mas não aceitaria chegar e não ter onde ficar. Sabia que eles estavam mentindo e ficou se perguntando se talvez seu pai estava falido ou algo parecido. Era a única explicação plausível para que ele estivesse ali. Mas não questionou a mentira, tentou induzi-los a cair em contradição.

— E vocês querem ficar aqui?

— A menos que seja incômodo pra você, Rodrigo.

— Não é incômodo nenhum, pai, mas eu não estava preparado pra receber visitas.

— Visitas? Desde quando seus pais são visitas? Que me lembre, esse apartamento é nosso também.

Por um instante, Rodrigo tinha até esquecido o quanto Inácio sabia ser desagradável. Como se temesse que os ânimos entre pai e filho aflorassem, Laura interviu.

— Não se preocupe que não vamos ficar muito tempo, meu bem — disse ela, com a mão pousada do ombro do filho. — Logo encontraremos uma casa para nós.

— Vocês vieram para ficar de vez no Brasil?

— Sim, mas falaremos disto depois, está bem? — Inácio falou, como se quisesse impedir que Laura contasse demais sobre os planos dele. Ainda desconfiado desse comportamento estranho dos pais, Rodrigo pediu que eles esperassem um pouco enquanto ele arrumava o quarto de hóspedes.

Mas não foi para arrumar nada que ele os deixou na sala. Correu de volta para o seu quarto, onde deixara Yuri, e onde o reencontrou, divertindo-se sozinho.

— O que você tá fazendo?

— É que você demorou e eu não estava mais aguentando — Yuri respondeu, parecendo nem um pouco constrangido por ser flagrado batendo punheta. — Então, quem era?

— Acho melhor você tomar um banho e se vestir.

— Por quê? Aconteceu alguma coisa? — Só então percebeu que Rodrigo estava nervoso. — O que foi? Quem era lá fora?

— Meus pais.

Rodrigo não sabia o que fazer. Se dava um jeito de manter Yuri escondido até que seus pais fossem dormir, ou se o apresentava de uma vez e torcia para tudo dar certo. Não queria apresentá-lo dessa maneira troncha, principalmente depois de ter sido tão bem recebido por Miriam, não seria justo com ele.

— Ai, droga!

— Rodrigo, o que tá acontecendo? — Se levantou e colocou a mão no ombro dele, tentando acalmá-lo. Lembrou-se de algo que ele havia dito, sobre o que a maioria dos gays tinha em comum, e deduziu que a família dele não era do tipo que o aceitava muito bem. Era absurdo que um homem, adulto, independente, bem-sucedido, se sentisse daquele jeito porque precisava contar ao pai que estava apaixonado por outro homem. — Eles sabem?

— Não. Eles teriam que se lembrar que têm um filho para saber — Rodrigo repetiu a brincadeira que dizia tantas vezes, e que guardava mais verdade do que ele gostaria.

Seus pais nunca foram um modelo de presença em sua vida. Talvez por ter sido mãe tão jovem, Laura não deixou de aproveitar a juventude por causa do filho. Rodrigo passou a infância vendo-a comprar roupas, experimentar cortes de cabelo diferentes, decorar a casa e dar festas. Ela o amava do seu jeito, mas não ficava ao seu lado quando ele estava doente, nem o levava para a escola — ela ia à escola apenas quando não era possível mandar alguém no lugar. Suas festas de aniversário eram um evento que ela adorava organizar, nada parecia deixá-la mais feliz do que mostrar as fotos do filho para as amigas, e comprar os melhores presentes para ele. Às vezes, o pequeno Rodrigo queria apenas que mãe sentasse em sua cama e lesse uma história antes de ele dormir.

Inácio, por sua vez, sempre teve a desculpa do trabalho para ser ausente da vida do filho. Durante sua infância, Rodrigo o via muito pouco. Ele passava o dia inteiro no escritório, e nos fins de semana, levava a esposa para viajar, deixando o filho aos cuidados de alguma babá. Não tinha paciência com crianças e se irritava se estivesse por perto e o garoto chorasse. Rodrigo ouvira mais vezes do que uma criança deveria ouvir, que homens não choram.

Depois que conheceu Álvaro, aos dez anos de idade, passava mais tempo na casa dele do que na sua, encontrava em dona Carmem e Afonso o que não podia obter dos pais. No campo material, tinha tudo que precisava. Estudava nas melhores escolas, fazia aula de línguas desde cedo, praticava esportes, tinha professores particulares para lhe dar aulas de reforço, ganhava os melhores presentes.

Quando ele estava com quinze anos, Inácio decidiu se mudar do Brasil para a França. Em parte, porque fixara uma sociedade em uma empresa em Bordeaux, mas também para realizar o sonho da esposa. Rodrigo não quis ir com eles, talvez tivesse gostado de morar fora, mas a ideia de abandonar Álvaro para sempre, naquela época, parecia-lhe a pior coisa do mundo. Se havia algo positivo em ter pais como Laura e Inácio era que eles não hesitavam em fazer suas vontades. Quando disse que não queria se mudar, eles não insistiram muito. Tentaram convencê-lo, mas depois trataram de tomar as providências para que ele ficasse. Instalaram-no num apartamento num condomínio de alto padrão, com empregados, e deixaram Afonso como procurador, para cuidar do que ele precisasse. Nos primeiros anos, Rodrigo sempre ia passar as férias com eles, mas assim que ficou maior de idade, preferia viajar com Álvaro. Já chegara a passar mais de um ano inteiro sem ver os pais.

Eles não o conheciam. Não eram pessoas ruins, mas vivam num mundo à parte. Rodrigo nunca havia contado sobre sua orientação sexual, assim como não havia contado sobre sua escolha da faculdade, ou qualquer outro tipo de assunto que os filhos, em geral, conversam com os pais. A aprovação de Afonso importava mais para ele do que a de Laura e Inácio. Por isso, aquela sensação de fraqueza e medo o deixava tão irritado.

— Vamos lá conhecê-los.

— Yuri, você não precisa fazer isso agora.

— Eles não devem ser tão ruins, né? — Deu de ombros. — O pior que pode acontecer é eles não irem com a minha cara, e acho que posso sobreviver a isso.

Yuri sabia que isso não era o pior que poderia acontecer, mas pretendia animar Rodrigo, e conseguiu êxito na tentativa. Foi ao banheiro, lavou as mãos, depois se vestiu, mas não penteou os cabelos nem calçou os sapatos.

Quando Rodrigo retornou à sala, com o namorado atrás de si, seu pai já estava se sentindo em casa: havia tirado o paletó e afrouxado a gravata, e estava sentado em sua poltrona preferida, reclamando que a única bebida que encontrara fora vinho quando preferia uma dose de uísque.

— Sinto muito, pai — Rodrigo falou para se fazer notar. — Bom, o quarto de vocês já está pronto.

— Obrigada, querido. — Laura se virou para o filho e só então percebeu a presença de Yuri. — Oh!

Inácio também o percebeu e houve uma intensa troca de olhares entre ele e a esposa, enquanto Rodrigo colocava um braço em volta dos ombros do namorado, como se pretendesse protegê-lo da reação dos pais.

— Que palhaçada é essa, Rodrigo? — Inácio disparou antes que seu filho pudesse falar qualquer coisa.

Rodrigo respirou fundo.

— Yuri, estes são meus pais, Inácio e Laura. Pai, mãe, esse é o Yuri, meu namorado — disse e pôde ver a surpresa estampada no rosto de sua mãe, enquanto Inácio se levantava e apontava um dedo ameaçador para ele.

— Você deve estar de brincadeira, não é?

— Inácio, fica calmo, meu amor.

— Um filho veado, era só o que me faltava, Laura. Um filho veado. Você não vai dizer nada? — Voltou a falar com Rodrigo, que continuou calado, encarando-o, com os dentes trincados. — Eu não te criei pra isso, Rodrigo.

— Ah, pelo amor de Deus, pai, você não me criou. — Até tentou, mas não conseguiu seguir no propósito de não discutir. — Nunca foi um pai de verdade pra mim.

— Nunca fui um pai de verdade? Meça suas palavras, moleque atrevido, eu sempre dei tudo a você.

Rodrigo deu uma risada e pôde ver o rosto do pai ficar vermelho.

— Seu dinheiro não faz de você um pai, não compensa suas falhas, nem preenche a sua ausência. Sim, você sempre me deu tudo que o seu dinheiro pode comprar, mas sempre foi incapaz de ser um pai de verdade, então não me venha com cobranças desse tipo, ok?

Se tivesse planejado, jamais teria dito aquelas coisas, mas se sentiu muito mais leve depois de dizê-las.

— Você está dizendo que virou veado por minha causa, é isso?

— Por favor, pare de dizer essa palavra — Rodrigo pediu. Detestava o tom pejorativo que seu pai usava.

— Ué, se você está com um veado — disse, apontando para Yuri, com o rosto contorcido numa careta de nojo. — Você é um igualmente, não é?

Rodrigo não teria ficado tão irritado se o pai não tivesse começado a ofender Yuri sem nenhum motivo. Não esperava que Inácio soltasse fogos, mas aquela reação dele era mais do que poderia suportar. Um homem que passara a maior parte de sua vida ausente não tinha direito algum de entrar na sua casa e tratá-lo daquela maneira.

— Não sei se você sabe, mas homofobia é crime, eu posso te processar por isso.

— Quem você pensa que é pra me processar, seu advogadozinho de merda?

Rodrigo ia responder, mas Yuri o impediu de um lado, enquanto Laura conteve o marido.

— Já chega, Inácio. Por favor. Rodrigo, seu pai não sabe o que está dizendo. Ele está cansado da viagem, amanhã vocês conversam.

— Acho que não, mãe. Aliás, eu prefiro que vocês não fiquem aqui.

— Agora você quer me mandar embora por causa desse...

— Pai! Eu juro que se você terminar essa frase, te dou um soco no meio da cara.

Até Yuri se assustou com a violência na voz de Rodrigo. Inácio ainda rosnou, mas como cão que ladra e não morde, ele recolheu as presas e ficou resmungando num canto, enquanto Laura tentava contornar a situação. Ela prometeu ao filho que iriam embora no dia seguinte, mas estavam cansados demais para procurar um hotel àquela hora da noite.

Rodrigo até pensou em ir ele mesmo passar a noite em um hotel, mas foi convencido a não fazer isso. Yuri voltou para o quarto para calçar os sapatos, e pediu que ele fosse levá-lo em casa e, assim, aproveitasse para esfriar a cabeça.

— Me desculpe, eu não deveria ter te jogado nisso assim, de repente. Sinto muito — pediu quando estavam no elevador.

— Está tudo bem, Rodrigo.

— Não está tudo bem, ele não pode dizer essas coisas e achar que não vai ter consequências.

— Essa não é a primeira vez que alguém me chama de veado, cara.

— Isso não quer dizer que nós temos que aceitar esse tipo de coisa. Ainda mais do meu próprio pai. Sinceramente, preferia que ele ficasse onde estava e não voltasse mais.

— Tem uma coisa boa nisso tudo, sabia?

— Não. O que é?

— Você batendo de frente com o seu pai pra me defender. Isso me deixou muito orgulhoso.

Rodrigo imaginou se teria feito o mesmo se ainda estivesse com Álvaro; não queria ficar fazendo essas comparações, mas sempre retornava a elas. Certamente não teria feito, porque jamais teria contado ao pais sobre Álvaro.

— Ei, deixa eu te contar um segredo — Yuri o segurou antes que ele entrasse no carro, então sussurrou em seu ouvido: — Te amo, Rodrigo.