Uma chance
6 Capítulo 6
Rodrigo olhava para a própria vida como uma sequência de escolhas malfeitas. Será que tudo começara a sair dos trilhos quando seus pais foram embora do país e ele preferiu ficar, mesmo ainda sendo menor de idade? Ou quando decidira estudar Direito tendo como única motivação ficar mais próximo de Álvaro?
Ainda que tivesse se tornado um bom advogado e gostasse da profissão, sabia que não poderia ficar para sempre se escondendo atrás do trabalho enquanto sua vida pessoal desmoronava.
Já havia pensado em ir embora da cidade, recomeçar em outro lugar, mas sentia-se perdido. Era ridículo que aos quase vinte e oito anos ainda agisse feito um adolescente imaturo e inconsequente. Seu maior arrependimento era de ter confessado seus sentimentos a Álvaro. Se tivesse sido apenas o bom amigo, o padrinho de casamento que era esperado que fosse, nada daquilo teria acontecido. Ainda estaria sofrendo, mas pelo menos não teria arrastado ninguém consigo.
Às vezes, perguntava-se como teria sido sua vida se tivesse ido morar com os pais na França. Será que teria esquecido Álvaro? Será que teria conhecido alguém e se apaixonado e não passado anos cultivando um amor doentio como aquele? Não tinha respostas para nenhuma de suas perguntas. Viveria para sempre com a dúvida e com o dever de tentar consertar tudo que fizera de errado.
Estava tentando, mas havia coisas que eram como cristais, e depois de quebradas, não voltavam ao que eram antes. Temia que sua amizade com Álvaro fosse uma destas coisas. Queria poder voltar a ter a mesma relação com ele, mas a antiga confiança fora minada e agora havia uma barreira entre eles, que o impedia de agir com naturalidade e que o forçava a se afastar. Dizia a si mesmo que era pelo bem de todos, mas não sentia que houvesse bem algum.
A única coisa que ainda o mantinha são era o trabalho. Concentrava todas as suas energias nos casos que defendia, fazia hora extra como se fosse sua diversão, passava horas debruçado sobre os livros, estudava as leis a ponto de decorá-las, tudo com a ilusão de que isso o faria esquecer o resto. Porém, bastava sair do escritório e o vazio o tragava novamente. As pessoas o viam como um jovem bem-sucedido, rico e bonito, com um futuro brilhante. Ele, no entanto, se sentia apenas como um solitário, confuso e com poucas perspectivas de felicidade.
Estava em sua sala, tentando se concentrar num processo. Infelizmente, isso estava um pouco difícil, pois, devido a um problema com o ar-condicionado do escritório, fazia um calor infernal. Já haviam reclamado e o pessoal da manutenção estava tentando resolver o problema; enquanto isso, usavam ventiladores ou abriam as janelas para tentar continuar trabalhando.
Tinha até tirando o paletó e a gravata, e também arregaçara as mangas da camisa. Não poderia receber um cliente naqueles trajes, mas não havia nenhuma reunião marcada naquele dia. Usava algumas páginas do processo como um leque quando ouviu uma batida na porta, e logo depois Yuri entrou.
Ele estava todo arrumado, parecia ter acabado de sair do banho. Usava um terno novo, provavelmente um presente da mãe pela formatura, uma gravata verde que combinava com os olhos, e com os cabelos compridos bem penteados.
— Aqui está o processo que você me pediu para revisar — disse ele, ao lhe entregar uma pasta.
— Obrigado. Você não está com calor?
— Está um pouco quente.
— Um pouco quente? — Indignado, passou a mão na testa suada e fez uma careta de nojo.
— Imagina como devem ser as coisas no inferno.
— Mais alguma coisa, Yuri? — Rodrigo acabou soando mais ríspido do que o rapaz merecia, mas estava irritado com o fato de o calor não fazer efeito nenhum sobre ele.
— Não, quer dizer, sim. Não.
— Sim ou não?
— Não. Deixa pra lá.
— Como assim? Se você quer falar alguma coisa, fala.
— Acho que não é um bom momento.
Rodrigo o viu engolir em seco e a curiosidade quase o fez esquecer o calor. Yuri soltou o ar e sacudiu os ombros, tal como um atleta antes de correr para um salto.
— Queria te chamar pra sair — falou de uma vez, atropelando as palavras, depois baixou a cabeça, como se quisesse afundá-la contra o peito.
— Co-como assim?
Ouviu Rodrigo gaguejar, e quando levantou a cabeça devagar, pôde ver as bochechas dele coradas.
— Tipo um encontro — murmurou, inseguro.
Rodrigo se deixou recostar na cadeira e abriu a boca, porém, não emitiu som algum. Era verdade que tinha se aproximado bastante de Yuri nos últimos meses, ajudara-o com o TCC e praticamente o transformara em seu estagiário particular — a prova era que ele trabalhava em todos os seus casos e vivia correndo de um lado para o outro para atender suas demandas. Além disso, ele sabia seu segredo, fora seu muro das lamentações, escutara sua confissão e não o julgara (se o fez, foi em silêncio). Mas daí à possibilidade de saírem juntos havia uma grande distância.
— Acho que não é possível — conseguiu murmurar, tão perplexo estava.
— Por quê? — Yuri questionou, parecendo mais seguro.
— Porque não posso.
— Não pode ou não quer? São duas coisas bem diferentes, né?
— Eu...
— Ok, por que você não pensa um pouco? Com o perdão do trocadilho, mas você parece estar com a cabeça um pouco quente agora. — Yuri forçou um sorriso à sua piada forçada. Depois saiu da sala com tanta naturalidade que deixou um Rodrigo atônito.
Rodrigo passara a maior parte de sua vida apaixonado por Álvaro e por ele apenas. Mesmo quando começou a sair com garotas — quando ainda se sentia na obrigação de agradar o pai e não queria que ele descobrisse sobre sua orientação sexual. Todos os relacionamentos que tivera foram, de alguma forma, frustrados. Foram três namoradas sérias, com as quais ele se comportava mais como amigo. E apesar de ser um bom amigo, não era o bastante para um relacionamento. Mas as coisas não mudaram muito depois que seus pais foram embora e ele não precisou mais esconder que era gay. Em qualquer garoto com quem ficasse, tentava encontrar Álvaro; se interessava principalmente por rapazes do mesmo tipo físico e esperava que eles fossem tão inteligentes e engraçados quanto seu amigo. Nunca demorava muito para perceber que não o encontraria em outra pessoa.
Tentou, em vão, se concentrar no trabalho, mas além do calor, a proposta de Yuri não permitiu. Fora questionado se não podia ou não queria aceitá-la, e naquele momento, se fez a mesma pergunta. Será que não podia mesmo? O que o impedia, afinal? Yuri era mais novo, mas cinco anos não chegava a ser uma diferença significativa, principalmente porque ele já demonstrara ter bastante maturidade; ele era bonito, ainda que fosse um tipo magricelo; era inteligente, bem-humorado e divertido. Parecia não haver nenhum contra naquela lista, exceto o fato de que Rodrigo não gostaria de usá-lo para esquecer Álvaro.
Como um dependente químico em recuperação, ainda estava tentando superar a falta de Álvaro em sua vida, em sua cama, não se sentia preparado para substitui-lo.
No final do dia, quando encontrou Yuri no elevador, na hora de ir embora, disse que não poderia aceitar o convite, e acrescentou que não era a melhor pessoa para um relacionamento naquele momento.
— Sinto muito.
— Eu é que sinto, Rodrigo, pelo que ele te fez. — Yuri se calou e ficou assim, olhando os números no painel do elevador mudando. Ao chegarem ao térreo e a porta se abrir, ele apertou o botão para fechá-las antes que alguém entrasse. — Mas quer saber? Não vou desistir. Você pode ter perdido a confiança em si mesmo, mas eu não. E pode ser que demore, mas vou te fazer perceber que não precisa dele, que você merece mais do que isso.
Com estas palavras, Yuri saiu do elevador e o deixou, mais uma vez, sem ação.
Aquela conversa foi como um divisor de águas na vida de Rodrigo. Havia se habituado àquela relação secreta com Álvaro, na qual viviam escondidos, se esgueirando pelos cantos e evitando qualquer demonstração pública de afeto que não fosse condizente com a condição de amigos.
Com Yuri, era totalmente o oposto. Ele havia dito que não desistiria, e cumpriu esta promessa. Mas não de um jeito que o deixava desconfortável. Simplesmente demonstrava seu interesse em pequenos gestos, fosse levando cafezinho de manhã ou escrevendo frases bobas em post-its colados nos processos que lhe entregava.
No começo, tentou resistir, mas era impossível ficar indiferente. Tampouco podia dizer que não gostava quando ele sorria de manhã ao encontrá-lo e lhe dava um bom dia todo especial; quando almoçavam juntos, mesmo com outros colegas presentes, ele sempre dava um jeito de sentar ao seu lado, e dava o máximo de atenção possível a qualquer coisa que dissesse.
Um dia, chegou para trabalhar e encontrou sua mesa arrumada, os documentos que pedira no dia anterior organizados, e além disso, havia uma caixa de bombons, e junto dela, um bilhetinho que ele desdobrou e leu:
“Será que eu já não mereço uma chance? De qualquer forma, tenha um bom dia.”
Não havia assinatura, mas não teve dificuldade em reconhecer a letra de Yuri. Hesitou um pouco antes de sair da sala para procurá-lo. Não o encontrou na mesa dele e logo ficou sabendo por Lúcia que ele fora ao tribunal com Fernanda e só voltaria à tarde.
— Você precisa de alguma coisa? Algo em que eu possa ajudar? — Ela se ofereceu prontamente, mas Rodrigo apenas agradeceu e disse que não tinha pressa.
Voltou ao trabalho, mas de vez em quando olhava para o bilhete que Yuri deixara ali, pensando no que fazer. Que ele merecia uma chance não havia dúvidas, mas Rodrigo ainda se sentia inseguro e a última coisa que poderia querer na vida era magoá-lo.
Na sexta-feira, Fernanda planejou uma happy hour para a qual todos foram convocados, porque quando ela decidia reunir os colegas ninguém ousava lhe dizer não. Encontraram-se num bar próximo ao escritório, depois do expediente. Como a maioria estava de carro, bebiam apenas drinques sem álcool. Fernanda determinou que ninguém falaria sobre trabalho, mas vinte minutos depois, essa regra já tinha sido descumprida, afinal, advogados era criaturas egocêntricas que gostavam de ficar falando sobre si mesmas e seus êxitos.
Passava pouco das oito quando Yuri se levantou e disse que precisava ir embora.
— Ah, fica mais um pouco — Fernanda pediu, usando uma vozinha de falsete. Ela costumava falar com Yuri como se ele fosse uma criança. O que poderia incomodar vindo de qualquer outra pessoa, dela era apenas engraçado. Fernanda era uma pessoa de um astral tão bom que ninguém conseguia se irritar com ela.
— Não dá, tia, se ficar tarde, minha mãe vai brigar.
— Mas é um rapaz de família mesmo — ela continuou.
Yuri apertou a mão de todos os colegas, menos a de Rodrigo porque antes disso, ele também se levantou.
— Eu também vou embora, te dou uma carona — disse ele.
— Fala sério, Rodrigo! — Fernanda protestou. — Vai dizer que sua mãe também vai brigar se você chegar tarde.
— Ela teria que se lembrar que tem um filho pra isso, Fernanda.
— Bobo! — Mesmo contrariada por ser abandonada por seus dois favoritos tão cedo, Fernanda se despediu deles, assim como os outros colegas.
Rodrigo e Yuri saíram juntos, mas ficaram calados até chegarem ao estacionamento.
— Não precisa se incomodar, Rodrigo — Yuri começou.
— Incomodo nenhum — garantiu.
Entraram no carro e depois de perguntar o endereço de Yuri, Rodrigo o digitou no GPS. Enquanto esperava que o computador de bordo calculasse a rota, parecia haver um elefante branco junto com eles dentro do carro. Os poucos segundos duraram uma eternidade. Já com um caminho definido, tentou puxar conversar, contudo, reparou que Yuri estava mais quieto do que o normal. Ele estivera assim durante o tempo que passaram no bar também, e Rodrigo se perguntou se teria algo a ver consigo.
— Está tudo bem com você? — fez a pergunta da maneira mais displicente que conseguiu. — Está tão quieto.
— Tô bem.
— Ok. — Aceitou a resposta e esperou. Já o conhecia há tempo suficiente para saber que havia aqueles momentos que ele calava antes de dizer o que realmente estava pensando. Podia imaginar o conflito interno antes de as palavras saírem por sua boca.
— Você ainda tá ficando com o Álvaro?
Não foi tanto a pergunta, mas o tom com que ela foi feita que surpreendeu Rodrigo. Ele até tirou um pouco o pé do acelerador e se virou para o rapaz.
— Por que você está dizendo isso?
— Porque é a única razão pra você não querer ficar comigo.
— Desculpe, Yuri.
— Não quero desculpas. Olha, me deixa bem ali na frente, ok?
— Não vou te deixar no meio da rua.
— Por favor, sei me virar.
Rodrigo tentou se lembrar se tinha feito alguma coisa que pudesse ter causado aquele humor em Yuri, mas tirando o fato de que havia conversado bastante com Álvaro durante o tempo que ficaram no bar, nada lhe vinha à cabeça. Para seu próprio bem, tinham voltado a ser apenas amigos, não tivera ainda nenhuma recaída desde que colocara um fim no relacionamento.
Ainda tentou insistir, mas Yuri foi categórico e pediu para ficar no ponto de ônibus. Rodrigo olhou a hora e como ainda era relativamente cedo, depois de alguns metros, ele parou o carro. Yuri murmurou um até logo frio e desceu.
Rodrigo seguiu viagem, mas não demorou nem cinco minutos para decidir voltar. Como seu telefone era conectado com a central multimídia do carro, usou o comando de voz para ligar para Yuri, torcendo para que ele ainda estivesse na parada. Como não obteve resposta, continuou tentando, enquanto buscava um ponto para poder fazer o retorno. Estava sem esperanças quando ele finalmente atendeu o telefone.
— O que aconteceu?
— Acho que sou um idiota, Yuri — Rodrigo falava e manobrava o carro, atento às ruas e ao sinal. — E provavelmente não te mereço. Mas seria ainda mais idiota se não aproveitasse essa chance que você me deu. Se você ainda quiser, claro.
Naquele instante, foi encostando o carro a poucos metros da parada de ônibus e sugeriu que Yuri olhasse em sua direção. De longe, viu quando ele se virou e sua surpresa ao começar a andar com passos largos. Alcançou-o em poucos segundos.
Quando ele destravou as portas, Yuri entrou e, sem esperar por mais nada, partiu direto para o beijo, deixando-o sem ação por um instante, mas não foi difícil responder aos lábios dele juntos aos seus.
— Espera, espera — interrompeu o beijo e se afastou, mas Yuri o puxou de volta.
— Já esperei demais, Rodrigo.
— Ok, mas vamos fazer isso num lugar mais seguro, além disso, não quero levar multa. — Dessa vez, conseguiu se afastar e deu a partida novamente. Tinha mesmo parado num local proibido, era sorte não haver nenhum agente de trânsito por ali àquela hora para multá-lo. — Tudo bem se a gente for pra minha casa?
— Claro, tudo bem — concordou e, se aprumou no banco, colocou o cinto de segurança, depois ajeitou os cabelos, jogando uma mecha para trás da orelha. — Só tem uma coisa, Rodrigo — continuou, tentando fazer suspense. — Não vou pra cama no primeiro encontro.
Apesar da voz dele ter soado séria, Rodrigo deu uma risada.
— Quem disse que tô tentando te levar pra cama? — continuou com o tom de brincadeira, mas depois o sorriso se apagou do seu rosto. — Não quero apressar as coisas com você, ok?
Viu Yuri coçar o nariz e balançar a cabeça, como se estivesse considerando a questão. Após alguns segundos, ele assentiu.
— Pasito, pasito, suave suavecito — cantarolou.
Chegando em seu apartamento, Rodrigo colocou uma música suave para tocar num volume condizente com a hora, e abriu uma garrafa de vinho. Yuri não era fã nem do jazz nem do vinho, mas estava pouco interessado em ambos; o que mais lhe importava naquele momento, era, finalmente, sentir aqueles braços fortes em volta do seu corpo, beijá-lo, correr os dedos pelos cabelos pretos comportados, apertar-se junto ao peito, sentir o cheiro dele.
Descobriram, naquela noite, que um primeiro encontro não precisa de tanta elaboração. Que surgindo de um acaso, as coisas podiam se tornar ainda mais especiais.
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