Uma aula do outro mundo

1 Uma aula do outro mundo


Notas iniciais
Esta é uma narrativa ficcional livremente inspirada relatos do próprio Francisco Cândido Xavier (Chico Xavier) conforme mencionado por alguns de seus amigos próximos.

Eram cinco horas da tarde de uma segunda-feira e o jovem Chico estava sentado no banco da praça. O bom das segundas-feiras é que ele sempre podia sair um pouco mais cedo do armazém onde trabalhava. Nas mãos um copo de café e um pão de queijo, ambos fresquinhos. Ao seu lado, descansando do banco, um livro. Geralmente se sentava ali relaxadamente, com gosto até, mas hoje estava um pouco incomodado e o motivo era exatamente aquele livro.

Já fazia algum tempo desde que começara a praticar o Espiritismo e tanto seu mentor, Emmanuel, quanto seus amigos mais experientes haviam lhe dito que estudasse as obras básicas da doutrina. Os livros eram realmente fascinantes, mas aquela linguagem era um pouco demais para ele, simples balconista de armazém e com tão pouco estudo. Ele não conseguia entender direito a maior parte do que lia e o pouco que entendia o deixava tão confuso que começou a se sentir inseguro.

“Como poderei ajudar os outros com minha mediunidade, se mal consigo compreender algumas poucas linhas desse livro? E já me disseram que há outros mais complexos!”

Estava nisto quando viu aproximar-se um senhor vestido com elegante simplicidade, segurando uma bengala, que o cumprimentou levantando o chapéu. O jovem médium soube imediatamente tratar-se de alguém “do outro lado”.

Com um sorriso discreto que demonstrava bom humor, o recém-chegado falou:

— Um passarinho me contou que você está tendo um pouco de dificuldade para entender algumas partes desse livro.

— Um pouco de dificuldade é uma forma caridosa de expor minha ignorância. — Respondeu Chico tentando devolver o bom humor.

— Todos somos ignorantes enquanto acreditamos que o somos. — Disse o homem sentando-se ao seu lado. — Qual sua dúvida no momento?

Impressionado com a presença daquele espírito que lhe falava com tanta segurança e ao mesmo tempo tanta familiaridade, Chico tomou o livro e abriu-o na página em que empacara há dias.

— Não consigo passar dessa página…

O homem olhou-a, sorriu amigavelmente e disse:

— Me lembro que também tive alguma dificuldade para passar dela.

E pôs-se a explicar ao jovem cada detalhe. Sua forma de falar era pausada e clara, começando por pedir ao rapaz que dissesse o que havia compreendido. Parabenizou os acertos iniciais e demonstrou onde poderiam ser mais aprofundados; corrigiu de modo afável, porém direto, os equívocos de interpretação e dirigiu o jovem médium a questionamentos que o auxiliaram a rodar as engrenagens do pensamento. Falava como um professor experiente, utilizando exemplos e comparações com coisas do cotidiano, partindo do universo conhecido pelo próprio Chico, que ia bebendo suas palavras, maravilhando-se ao perceber que seu entendimento se expandia a cada pergunta respondida.

O tempo voava e teria ficado ali por toda a vida, se não fosse o próprio orientador a lhe dizer:

— A tarde já se tornou noite, meu rapaz. Estou certo de que ainda tens atividades a cumprir hoje, não?

— Sim! — respondeu Chico – Hoje é dia de sessão mediúnica!

— Espero que agora você se sinta um pouco menos inseguro em sua tarefa na seara da caridade…

— Não sei… ainda há tanto para aprender e eu tenho tantas dificuldades para entender certos conceitos…

Amigavelmente o homem pôs sua mão no ombro do médium e disse com o tom de quem reafirma um compromisso de outros tempos:

— Eu sempre estive e sempre estarei disposto a ajudá-lo com suas dúvidas. Tenho observado você há mais tempo do que posso te contar no momento e sei das dificuldades, dos tropeços e das vezes que caiu. Mas também conheço bem seu esforço em levantar e seguir adiante. Nos encontraremos quantas forem as vezes que você precisar.

Em lágrimas o jovem Chico viu seu novo/velho amigo começar a desvanecer-se, mas sabendo lá no íntimo que a partir de então ele seria uma presença constante em sua caminhada. Com a voz embargada, Chico ainda disse:

— Até breve, ilustre professor!

E a resposta que ouviu na voz sempre bem-humorada foi:

— Ora, Chico. Você pode me chamar só de Allan…


Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.