Uma armadilha de memórias
11 Passeando entre ideias
Havia algo emocionante em caminhar em ruas desconhecidas, não havia nada muito familiar nas fachadas latinas, nos letreiros em espanhol, nos coloridos das ruas, mas havia familiaridade na vizinhança barulhenta, na vida rotineira que cada pessoa estava vivenciando, tão ocupados e concentrados que não notavam o astro do rock por suas ruas. Ali estava uma simples família, o pai, com seu filho, e o filho com a esposa e a filha, andando por ali, tentando encontrar caminho... para algum lugar que ainda não tinham encontrado.
—Onde mesmo estamos indo? Você não disse nada sobre onde planejava ir — Priscilla precisou esclarecer o motivo da caminhada, começando a se sentir perdida, mas percebendo que havia um pouco de diversão naquilo, e era justamente por isso que Elvis estava andando aparentemente a esmo.
—Eu não faço ideia de onde estamos indo — ele riu, respondendo o questionamento da esposa — mas vamos vendo onde vai dar.
—Você se lembra de alguma coisa dessa rua ou dos arredores quando veio pra cá pela primeira vez? — Vernon quis saber, vendo se aquilo ajudaria a família a se localizar.
—Eu confesso que não prestei muita atenção nisso, papai, eu estava bem nervoso e apreensivo, só pensei em chegar no hotel — Elvis contou, se lembrando da ocasião — mas acho que tem uma coisa por aqui que pode nos ajudar a achar um destino, enquanto eu assistia TV uma vez, senti um cheiro de algum tipo de comida, era bem diferente, mas com certeza deve ser muito bom, só por causa do cheiro.
—Vai nos guiar por Buenos Aires pelo cheiro de comida? Parece no mínimo inventivo e no máximo inusitado — Priscilla cruzou os braços, mal acreditando no que estava ouvindo.
—Vamos lá, vai ser divertido, não vai, Lisa? — Elvis procurou apoio na filha para sua ideia inusitada — procurar por comida só pelo olfato, é como uma brincadeira, ou um desafio.
—Nos tornamos o verdadeiro Hound Dog, não é? — Priscilla teve que comentar, sendo a primeira coisa que se passou pela sua cabeça.
—Não tinha pensado que ia lembrar disso, foi a coisa mais ridícula que já fiz — ele contou, fazendo questão de comentar seu velho show na TV.
—Sério? Não acredito, olha só pros seus macacões extravagantes — ela rebateu de volta, o cutucando um pouco, mas secretamente achando que ele era um dos poucos homens no mundo que podia vestir um macacão tão bem.
—Em minha defesa, eu não os uso mais — ele rebateu, deixando sua posição clara sobre o assunto, ainda com um toque de humor.
Ela teve que rir de novo, estavam em incógnito e mesmo assim era impossível deixar pra lá símbolos da sua carreira, eram grandes marcos, mas que agora eram boas lembranças. Eventualmente eles foram absorvendo as características do lugar à sua volta, observando casas, pessoas, algumas lojas de móveis, que ofereciam algum tipo de conserto e então finalmente, o fatídico restaurante. Elvis sabia que estavam no lugar certo pelo cheiro.
Era um lugarzinho pequeno, com as mesas meio amontoadas entre si, porém muito acolhedor.
—Onde vamos sentar? — Lisa perguntou, sentindo as pernas cansadas depois de toda aquela aventura de caminhada.
—Por ali acho que está bom, o que acham? — seu avô sugeriu e toda família acatou a decisão, assentindo e se dirigindo para lá.
—Ok, deixa que eu falo sempre que for necessário — Priscilla alertou o marido, conhecendo sua natureza ávida e impetuosa — não queremos chamar atenção.
—Tudo bem, eu entendo o que quer dizer e eu posso ficar quieto — ele garantiu — só prometa pra mim que vai encontrar aquela comida deliciosa.
—É pra isso que estamos aqui, afinal, não é? — ela deu de ombros, se lembrando do que os tinha motivado a encontrar aquele lugar.
Uma garçonete veio atendê-los e tentando se lembrar do que sabia da língua espanhola, Priscilla juntou a isso gestos e apontamentos no cardápio. Dentro de instantes, eles estavam servidos. O famoso prato com o cheiro inconfundível se tratava de uma espécie de ensopado vermelho, feito à base de lentilhas.
—Espero não ser tão ruim quanto tá parecendo — Elvis comentou depois de dar uma olhada no prato.
—Não acredito que fez todo esse discurso sobre como queria provar esse prato misterioso para agora não querer experimentá-lo mais — sua esposa teve que chamar sua atenção sobre essa questão.
—Você diz isso, mas ainda nem provou o seu — ele rebateu, tentando ganhar o argumento que surgiu de alguma forma.
—Não seja por isso — ela aceitou o desafio e engoliu uma colherada com vontade, não era nem um pouquinho ruim, muito pelo contrário — é maravilhoso, sim, agora é sua vez de provar.
Sem ter muito pra onde fugir e sendo um tantinho competitivo, Elvis provou o tal ensopado. Cilla tinha razão, era mesmo uma delícia, não tinha como negar que aquela comida diferente tinha valido à pena sua procura.
—Você tem bom gosto pra comida, apesar da sua relutância — comentou ela, enquanto eles ainda estavam comendo.
—Acho que é meio esperado ter receio de coisas novas, já que elas são realmente inesperadas e não sabemos bem o que fazer delas — seu marido comentou, mais reflexivo do que ele costumava ser, do que ela se lembrava.
—Isso sim que é algo novo, ouvir isso de você — Priscilla comentou logo em seguida, compartilhando um pouco de sua opinião.
—O que quer dizer? — ele esperou e pediu por mais elaboração.
—Você sempre foi um cara que mergulhou de cabeça no que era novo, sem medo, tomando saltos de fé, sem temer muito o amanhã — ela explicou — agora está aqui, hesitando frente o novo.
—Novo que é desconhecido — ele continuou — sabe que eu não sei bem o que me espera pela frente a partir de então, é claro, tenho o plano de voltar pra casa mas também estou bem ciente de que talvez isso possa não ser possível, ao menos por enquanto.
—Foi bom dizer isso, que tem noção que não vai poder pisar nos Estados Unidos tão cedo, até que esqueçam um pouco sobre o que aconteceu a... "você sabe quem" — ela apontou, pensando nas consequentes implicações de seu esquema.
—Já que não vamos poder pensar nisso agora, podemos pensar em outra coisa que eu andei considerando — Elvis mudou de assunto, esperando não assustar a esposa com outra proposta inusitada.
—Me conte o que é — respondeu Priscilla, num tom que já dizia muito sobre o que ela esperava ouvir dele, algo exatamente inusitado.
—Sabe que eu sempre quis visitar outros países, fazer shows por eles, mas já que isso não faz parte da minha vida, se eu apenas for como um turista, eu, você e a Lisa num passeio em família, pelo mundo — ele propôs de forma tão animada e convincente, que era difícil lhe negar qualquer pedido.
—Ah El... — ela se interrompeu ao quase dizer o nome dele em público — olha só, eu quase escorreguei agora, já pensou se acontece durante essas viagens e você é descoberto? Vamos por tudo que planejamos a perder desse jeito.
—Eu já estou em outro país, se sair de um pro outro, sem tempo o suficiente pra que me vejam ou me reconheçam, vai apenas despistar ainda mais a mídia — ele usou outro argumento — eu queria ver como é o mundo lá fora, apenas isso, isso que sempre me foi negado e talvez, justamente pela peça que pregamos, eu consiga alguma coisa boa, que é poder viajar e ser livre.
—Certo, certo, eu sei, eu entendo — Priscilla pediu um pouco de trégua no seu tom de voz — eu escutei e prestei atenção em tudo que disse. Sim, faz sentido o que você me disse, e eu prometo que vou pensar com carinho no que está me dizendo, eu sei que está inquieto e que é difícil ficar no mesmo lugar por muito tempo, mas cada passo seu tem que ser minimamente calculado, faz sentido não ficar no mesmo lugar por muito tempo, mas temos que nos programar pra isso.
—Então, gosta da ideia? — ele quis ter certeza.
—Tirando toda essa loucura que estamos vivendo agora, seria adorável viajarmos juntos — ela acabou confessando — eu vou me organizar e entro em contato, prometo, por enquanto, vamos aproveitar esse dia.
—Aproveitar o dia, um dia de cada vez então — Elvis refletiu sobre o que parecia ser seu novo lema de vida.
—É, com muito mais calma, um dia de cada vez — Priscilla reforçou a ideia, segurando a mão dele.
Isolados ali em um canto aparentemente esquecido do mundo, era revigorante para os Presley se sentirem como uma família comum, agradecidos pela companhia que tinham um do outro.
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