Uma armadilha de memórias

25 Escapando para a liberdade


Os primeiros dias foram difíceis, era difícil não se desvencilhar dos comentários que vinham da televisão e internet. Elvis achou que pudesse sair de casa um pouco, como fazia nos últimos anos, mas logo percebeu que aquilo não era uma boa ideia.

Andou alguns quarteirões a cima de Graceland e logo foi coberto por olhares curiosos, persistentes, até mesmo acusadores. Ele tinha sido um fugitivo afinal, e agora tentava fugir da atenção, novamente. A experiência de ser observado daquela forma quase o espantou de vez do que tinha se proposto a fazer, apenas uma volta, uma olhada ao redor da vizinhança.

Talvez fosse o olhar de Elvis direcionado de volta aos seus acusadores, suplicante, pedindo por misericórdia, que os fez se afastar, não encarar tanto assim, deixá-lo passar em paz e apenas seguir seu caminho.

Por mais que fosse milagroso, sentiu-se como apenas um velhinho caminhando, quase voltando à tranquilidade que conheceu nos últimos anos. Andou um pouco mais e conseguiu entrar em um supermercado, imaginou que talvez fosse uma boa ideia manter-se ocupado comendo algo que não encontraria em casa no momento. Comprou um pacote de bolachas, falando pouco com a funcionária do caixa, que também mal o olhou, não por maldade, mas mais por hábito. O que poderia ser um ato de falta de educação acabou sendo motivo de alívio para Elvis.

Ele voltou para casa enquanto comia, não sentindo mais tantos observadores sobre si, era como se um botão fictício de mudança de realidade fosse apertado e de repente as coisas tinham mudado para melhor para ele. Mas no fundo, Elvis sabia que não era bem assim.

Ele tentou passar os próximos dias não pensando muito no que tinha acontecido, focado em manter sua rotina constante e pacífica. Então a mudança que parecia repentina foi aos poucos despontando. O que o fez sentir isso foi a opinião de outros artistas sobre sua ''ressurreição'', que por sua sorte, soaram bem compreensíveis.

''Como alguém que vivenciou tudo isso muito jovem e que até hoje lida com isso, entendo perfeitamente de onde veio essa decisão'' Elvis observou pela TV Brian May, guitarrista do Queen, comentar sobre seu caso ''muitas vezes me senti pressionado, cogitando como seria uma vida diferente, entendo que para os fãs é difícil de digerir, mas se realmente são fãs, precisam entender que além de sermos ícones da música, somos também seres humanos, somos frágeis e falhos também''.

Mesmo nunca o conhecendo pessoalmente, mas ouvindo um pouco de seu trabalho aqui e ali, as palavras de Brian confortaram Elvis. A partir dali, vieram outras palavras de conforto e eventualmente, melhor que isso, palavra alguma. O assunto tinha se esvaído, dando lugar a outras coisas mais recentes e pertinentes sobre artistas da atualidade.

Elvis experimentou sair de casa outra vez, com Priscilla sob sua companhia. Ela tinha sugerido viajarem para algum outro lugar, fugindo um pouco de tudo outra vez. Se havia um lugar em que tinham encontrado paz, tinha sido o Havaí, e depois de anos sem irem para lá, decidiram que esse seria seu destino.

As pessoas os trataram normalmente, mesmo que um ou outro olhar curioso se voltassem para eles. Continuaram sua caminhada como um casal normal, e agora, mais do que nunca, eram realmente um casal. Se revelar-se de volta tinha trazido algo bom, era poder anularem seu antigo divórcio de vez. E no meio de toda essa confusão, Priscilla sempre esteve ao seu lado, nunca o deixando sozinho. O coração dele transbordava de gratidão por isso.

Hoje eles estavam longe de Memphis, andando pela praia com os pés sentindo a areia molhada, o nariz captando o ar salgado causado pelo mar, os ouvidos atentos ao som da maré que subia e descia gentilmente. Era perfeito, como o paraíso na terra.

Escolhendo um lugar para se sentar, observaram uma silhueta que parecia quase um espelho deles mesmos, um outro casal com a mesma idade deles, se aproximando do lugar em que estavam sentados.

—Podemos nos sentar aqui? — o homem perguntou.

—Espero não estar incomodando, disse ao Sebastian que poderíamos encontrar outro lugar — a esposa dele o corrigiu.

—Ah por favor, fiquem à vontade — Priscilla respondeu a eles.

Elvis apenas sorriu e assentiu para o casal.

—Não se preocupem, há bastante espaço para todos — ele decidiu dizer depois de um tempo.

—Obrigada — a mulher agradeceu e sentou por ali.

Passou-se uns cinco minutos em silêncio, até que os Presleys captassem o casal murmurando, talvez até discutindo, o que pareceu a eles levemente cômico.

—Desculpe eu dizer, mas te reconheci sr. Presley — disse Sebastian, para o desgosto da mulher.

—Eu disse para ficar quieto! — ela o corrigiu.

—Me desculpe, Meryl, mas não consegui, você sabe o quanto ele foi importante pra nós! — ele insistiu.

—Eu fui? — Elvis ficou genuinamente curioso.

—Ah sim, nos conhecemos em um baile, sua música estava tocando alto e Sebastian me tirou pra dançar! — Meryl acabou confessando, chegando até a rir com a lembrança.

—Olha só, você agora quer falar com ele? — ela pareceu contraditória ao seu marido.

—Você começou — ela deu de ombros e prosseguiu — sua música sempre fez parte da nossa vida, ouvíamos sempre juntos seus discos, e chegamos a ir a Vegas uma vez.

—É mesmo? — o comentário pegou Elvis de surpresa.

—Sim, e foi muito triste tudo que aconteceu com você, mas saiba que estamos felizes que esteja vivo, dá pra ver que você está bem e feliz, isso é mais importante pra nós — Meryl revelou.

As palavras deixaram Elvis comovido, ouvir de uma fã verdadeira que tinha feito a escolha certa talvez era a única coisa que lhe faltava para ficar totalmente em paz depois de sua revelação.

—Muito obrigado, Meryl, isso significa muito — ele expressou sua gratidão.

A conversa que tiveram a seguir acabou mudando de rumo, falando sobre filhos, netos e a beleza do Havaí, mas a partir daquela tarde, Elvis teve a certeza de que tudo tinha valido a pena.

Não tinha sentido ter um talento se ele não fosse compartilhado, não fazia sentido insistir em algo cujo tempo tinha se acabado. Por tudo de ruim que ele tinha passado por conta da fama, Elvis Presley tinha tocado o coração das pessoas e por isso, sabia que sua missão como artista estava cumprida.

Notas finais
Bom, esse é o final dessa história que eu amei de coração escrever. Espero que o final tenha sido satisfatório a quem acompanhou até aqui, muito obrigada por mesmo por lerem e gostarem da minha escrita. Espero nos encontrar em uma próxima história. Mais uma vez, muito obrigada e tchau!
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.