Quando Elvis a viu chegar naquela tarde, sentiu alívio. Depois de propor uma reconciliação, temeu que Priscilla decidisse rejeitá-lo, mesmo admitindo que ainda o amava. Ela tinha demorado a chegar, o que o deixou assustado, mas espantando seus medos, ali estava ela, na porta de seu quarto, quase que esperando por um convite.

—Eu posso entrar? — ela perguntou, depois de vê-lo muito quieto e claramente a observando com afeição.

—Claro, por favor — ele a convidou e eles sentaram no lugar de sempre.

—Eu tô vendo que tá ansioso, aconteceu alguma coisa? — Priscilla teve que mencionar, vendo a sua inquietação.

—Não, não, quer dizer, pensei em algumas coisas, algumas possibilidades — Elvis admitiu, iniciando a conversa.

—É, eu também, então, quem fala primeiro? — Priscilla devolveu a incerteza.

—Você pode falar primeiro, se quiser — ele passou a vez, realmente querendo saber sobre o que ela tinha decidido.

—Eu... ainda estou bastante hesitante, e eu também pensei que não quero te pressionar a nada, vamos parar de pensar um pouco na sua carreira e focar em nós, é isso que decidi — Priscilla começou cabisbaixa, mas depois o olhou nos olhos ao terminar de falar — é como se namorássemos de novo.

—Está bem, obrigado — Elvis assentiu lentamente, mas abrindo um sorriso enorme, e depois pensando melhor e beijando ao redor de todo o rosto dela, só restou a Priscilla rir de tamanha empolgação.

—Certo, já que estamos conversados quanto a essa questão, pode me contar o que queria — ela interrompeu a comemoração para ouvi-lo.

—Na verdade, tá mais pra uma pergunta, uma opinião sua, na verdade — ele propôs inicialmente dessa forma.

—Está bem, pode mandar essa pra mim — ela se preparou para ouvir, esperando quem sabe, algum absurdo.

—Já pensou se... não sei, se eu... a gente, vivesse uma vida comum a partir de agora? — Elvis perguntou e deixou a questão no ar.

—Vida comum? — Priscilla refletiu sobre as duas palavras e o que elas queriam dizer vindas dele — o que você esperaria de uma vida comum? Você já teve um gosto dela antes, tem certeza de que não sentiria falta da vida que estava tendo até então? Quer dizer, você sabe do que eu estou falando.

—Fama e estrelato? Sei... — ele respondeu enquanto a viu assentir em confirmação — bom, é que depois desse tempo que eu estou aqui, tive tempo de sobra pra pensar sobre isso e sobre os detalhes, é verdade que eu amo música, é verdade que eu amo estar em um palco e me apresentar, mas agora eu penso em tudo que isso me causou, eu tive coisas boas por causa disso, é verdade....

—Como o que? — ela quis ver as respostas dele.

—Poder cuidar da minha família, tirá-los da pobreza e dar uma vida digna aos meus pais... — ele disse de forma nostálgica, seu olhar mostrava que estava quase se tele transportando para Graceland na época em que se mudaram para lá — fico feliz que mamãe viveu tempo o suficiente pra desfrutar disso.

—Sua mãe... sinto muito sobre ela — Priscilla se comoveu naquele momento, tocando o braço dele num gesto de conforto — eu sinto o quanto vocês dois eram próximos, por mais que nunca me falava muito sobre ela.

—Doía, sabe? Quando nos conhecemos estava tudo muito recente, e eu estava sendo pressionado pela mídia e os políticos, queria achar um jeito de esquecer a dor — ele confessou — e talvez eu continuei fazendo isso, até hoje.

—Não sei se compreendo completamente, mas sabe que eu não cresci com meu pai biológico e tem uma parte de mim que sim, fica imaginando como seria se ele me visse crescer, mas ao mesmo tempo eu sou grata ao meu pai, ao que eu tive — ela fez seus comentários sobre o assunto seguindo sua própria experiência.

—Entendo, eu também sou grato pelo tempo que tive com ela — Elvis suspirou, claramente tendo dificuldades em falar sobre sua mãe, mas se esforçando para isso — ela ia amar te conhecer.

—Acha mesmo que ela ia gostar de mim? — ela ficou imaginando a possibilidade.

—Com certeza, ia dizer que eu sou sortudo por ter conhecido uma boa garota decente, preocupada comigo, que se importa de verdade e que não é uma louca tentando arrancar minhas roupas à força — ele acabou rindo na última parte.

—Pois bem, eu também não gosto desse assédio e você disse não sentir falta disso — ela o fez se lembrar.

—Não, retomando o que eu estava dizendo — ele achou melhor voltar a se explicar — ser um artista me trouxe coisas boas, mas também trouxe coisas ruins, como eu ter cada gota de energia e dinheiro sugados de mim, eu não quero mais essa loucura, Cilla, eu ficaria feliz em voltar pra casa, eu, você e a Lisa, cuidando dos cavalos, cantando e tocando só por diversão...

—Me parece um cenário encantador, perfeito, eu ficaria feliz com isso também — Priscilla contou que desejava o mesmo.

—Então vamos, depois da minha reabilitação, vamos voltar pra casa e esquecer todo o resto — ele segurou a mão dela, de forma exagerada, mas genuína, ela teve que rir mais uma vez.

—Você sabe quem você é pra fazer algo assim? — ela o puxou de volta à realidade — as pessoas devem estar ávidas pra te ver de novo nos palcos e cantando e tudo mais.

—Então não concorda comigo em eu querer descansar? — ele ergueu uma sobrancelha, levemente desconfiado.

—É claro que eu concordo, me deixa muito feliz e satisfeita em te ver preocupado com sua vida, mas talvez você deva explicações a muita gente — ela mostrou um outro lado que ele ainda não tinha pensado.

—Bom, eu posso fugir, evaporar, sumir do mapa, sem dar maiores explicações a ninguém e aproveitar minha vida ao seu lado — ele enfatizou seu plano — não deu certo eu estar aqui?

—Bem, deu sim, mas tem gente querendo saber onde você está e o que aconteceu com você — ela avisou.

—O Coronel, suponho — ele contorceu o rosto com raiva ao se lembrar de Tom Parker.

—É, ele, mas estamos contendo ele como podemos — ela assegurou — ele não vai te explorar de novo, nunca mais.

—Eu agradeço o que está fazendo, mas aquele homem é ardiloso — Elvis rebateu — precisaríamos de algo ainda mais esperto para enganá-lo, pra enganar a mídia, pra que me deixassem em paz de verdade.

—Como eu disse, isso seria difícil — Priscilla suspirou — mas podemos pensar em algo, eu apoio sua decisão.

—Obrigado, meu amor, ouvir isso de você é muito importante pra mim — ele declarou com sinceridade, a lembrando de tempos mais felizes.

Priscilla sorriu, também contente por ele reconhecer sua presença e todo o amor que ela sempre teve por ele. A admiração logo passou a ser preocupação, ela notou a expressão de Elvis, pensativo, porém com um leve sorriso malandro, algo absurdo surgiria da sua mente maquinando, com certeza.

—O que é que tá pensando agora? — ela exigiu saber.

—Já que o Coronel não me esqueceria, muito menos os fãs e eu tenho uma legião deles, então pra me deixarem em paz, da forma como você colocou, só se eu fosse um homem morto — ele acabou falando meio em tom de piada.

—Não fala isso, nem brincando, eu não suportaria se isso acontecesse com você — ela deu um tapa no braço dele pra enfatizar, Elvis riu enquanto passava a mão em cima de onde ela tinha batido — sabe quantas vezes eu vi você colapsar e achar que você passaria dessa pra melhor? O suficiente!

—Mas aí é que está, Cilla, eu ainda estou aqui, e estou por sua causa — ele reconheceu — justamente por eu me desgastar tanto é que eu preciso de descanso definitivo — Priscilla fez uma careta de alerta — no modo figurativo.

—O que exatamente está tentando me dizer? — ela tinha ideia de onde ele queria chegar.

—E se eu fingir minha própria morte? Pensa, seria a desculpa inquestionável, ninguém precisaria saber onde eu estou, me deixariam em paz, me deixariam descansar em paz — ele propôs sua ideia maluca.

—Você só pode estar ficando maluco de vez! — ela se levantou de tão exaltada — isso é... loucura, um verdadeiro absurdo, isso é... não, Elvis, isso não me parece nada certo!

—Eu sei que não, uma grande mentira, uma bela e grande peça pregada para o público, mas depois de tudo que eu disse e que você mesma disse, talvez essa seja a única solução — ele ponderou.

Priscilla precisou de alguns instantes para respirar, andando em círculos, ponderando tudo que ele tinha pensado, pendendo a concordar com ele. Elvis tinha se tornado um astro, algo maior que a vida, um ícone, o rei do rock'n'roll. Ele estava certo de dizer que só o deixariam em paz se não tivessem como contatá-lo de forma alguma. Ela respirou fundo mais uma vez e o encarou, se reaproximando.

—Como é que a gente colocaria isso em prática? — Priscilla queria respostas do autor da ideia.

—Bem, eu acabei de tê-la, então vamos ter que ter mais tempo de elaborar isso — ele abriu os braços, se explicando de forma vaga, pego de surpresa.

—Se realmente quer que isso funcione, vai ter que levar isso mais a sério — ela alertou.

—Sim, eu sei, eu prometo que vou, mas quer dizer que concorda com meu plano? — era só o que Elvis precisava saber.

—Concordo, eu tenho que admitir que essa é a resposta pro nosso dilema — ela suspirou outra vez — mas vamos ter que bolar isso muito bem.

—Jerry e Billy são de confiança, podemos trazer eles aqui e converso com eles pessoalmente — ele propôs.

—Eu vou fazer isso — ela prometeu — só espero que dê realmente certo.

—É o que eu quero, vamos fazer o nosso melhor pra isso — Elvis assegurou.

Sentindo-se exausta e ainda desacreditada do que tinha acabado de concordar, Priscilla desabou nos braços dele. Em meio ao abraço, só queriam que a ideia maluca desse certo, para que a paz e o sossego que sentiam um com o outro fossem verdadeiramente duradouros.