Uma armadilha de memórias
21 Presa capturada
Roland Mitchell tinha morado em Memphis pelo último ano. Tinha sido difícil se acostumar com a cidade, muito diferente da agitada Nova York, mas agitação era uma coisa que não faltava ali, afinal, a cidade respirava Elvis, por onde quer que se fosse, se topava com uma referência a ele, e por mais que isso pudesse ser um fator irritante e repetitivo para alguns, era o motivo que o tinha trazido ali.
Tudo começou com um rumor, simples imagens de segurança, antigas, de quase 50 anos atrás, de um shopping em um lugar remoto que Roland nunca tinha pisado os pés, mas ainda assim, suficiente para acender uma fagulha de dúvida que pairava no imaginário público. Aquela podia ser a prova verdadeira de que Elvis não estava morto.
Roland tinha 38 anos agora, e depois de tentar alavancar a carreira de jornalista de todas as maneiras, ainda se achava como um simples assistente. Buscou um furo de reportagem de todo jeito que poderia conseguir, até mesmo usando suborno, o que o encrencou e o despediu de empregos várias vezes, mas tudo sem sucesso. Até que teve acesso às imagens que, segundo seus divulgadores anônimos, continha ninguém mais ninguém menos que Elvis vivo. O que não havia dúvidas era que Priscilla Presley e a filha Lisa Marie estavam ali, na companhia de um homem alto, que ao que tudo indicava era Elvis.
Aquilo deixou Roland intrigado, mesmo se mostrando cético a princípio, no entanto, motivado pela curiosidade, decidiu analisar a imagem, dando zoom, editando, vendo se achava Elvis naquele estranho com a ex-esposa e a filha dele. Quando ele tirou a barba do estranho e colocou cabelo preto e costeletas, ali estava a prova definitiva, Elvis por completo tinha aparecido na foto.
Desde então, ele passou a investigar cada pequeno vestígio de que Elvis poderia estar vivo. Se expusesse algo assim à mídia, certamente conseguiria a promoção e as glórias que tanto queria. Sua última pista o tinha levado a Memphis, para Graceland para ser mais preciso. O que tinha capturado como vestígio era uma foto distorcida de um homem de aparentemente 80 anos cavalgando que, apesar da barba branca espessa e o boné que usava, parecia muito com Elvis Presley. Assim, com algumas teorias sobre isso na cabeça, Roland estruturou um plano.
Ele sabia da vaga de emprego de camareira em Graceland, por isso achou na jovem Heather Morris uma aliada relutante. Sabendo que a moça tinha se candidatado, a abordou e ofereceu dinheiro em troca de informações e pistas sobre o paradeiro de Elvis, que com certeza devia ser o cuidador de cavalos, segundo as teorias dele. Sendo muito persuasivo, conseguiu convencer Heather a ajudá-lo, motivada pela dificuldade financeira que estava passando.
Assim, alguns dias depois, Heather conseguiu o emprego em Graceland, o que a deixou feliz, porém apreensiva. A jornada de trabalho era relativamente curta, o que era o combinado desde sempre, outro detalhe tinha deixado Heather intrigada, ela não limpava todos os quartos, apenas parte da mansão.
Mais um detalhe que talvez poderia ser um das pistas que Roland tanto queria é que por vezes, mesmo de longe, Heather via Priscilla conversando com o senhor dos estábulos. Ela não sabia o nome dele, nem ao menos tinham sido apresentados. Algo no seu instinto, ou talvez fosse a constante demanda de Roland em forma de ameaça na sua cabeça, a empurrou a ir até ali e checar por si mesma.
Caminhou por um tempo considerável, até chegar aos estábulos, parando atrás dele, se esforçando para ouvir a conversa entre eles.
—Achei que ia gostar disso aqui, depois de um dia de trabalho — Heather reconheceu Priscilla dizendo isso.
—Ah obrigado — ouviu o homem rir a seguir — espera, talvez não fosse uma boa ideia.
Dentro dos estábulos, Priscilla observou o marido encarando a lata de Coca Cola, uma das suas bebidas preferidas, sem dúvida, mas não muito recomendada para ele, ainda mais na idade em que se encontrava.
—Por que diz isso? — ela se aproximou dele rindo.
—O médico com certeza proibiria, e eu tenho tentado manter a boa forma todos esses anos e agora por um breve momento você vem e me tenta com esse belo presente — Elvis se explicou, mas com um toque de humor, como fazia na maioria das vezes.
—É uma breve exceção, achei que ia gostar da surpresa — ela reforçou de novo.
—Claro que gostei, obrigado meu amor — ele beijou a têmpora dela agradecido, tomando um gole do refrigerante logo depois.
—O Tornado parece melhor, fico feliz que ele tenha se recuperado — ela comentou, observando o cavalo que agora descansava, depois de ter passado os últimos dias doente.
—Achei que íamos perdê-lo, mas ele foi mais forte do que pensávamos, surpreendeu todo mundo — Elvis opinou, orgulhoso do belo animal.
—Eu estou feliz, mas quem vai ficar mais é o Ben, é o favorito dele — Priscilla citou o neto que amava Tornado.
—Pois é, e o sentimento é recíproco — Elvis destacou — Tornado ama o garoto também, mas o Ben tem sorte, ele com certeza é o nosso neto que mais leva jeito pra equitação.
—Ele teve a quem puxar — ela acrescentou, cruzando os braços.
—Ah para com isso — o marido dela se esquivou de elogios.
—Não seja tolo, El, estava falando de mim — Priscilla o corrigiu — mas vou te dar essa colher de chá, você cavalga muito bem, sempre cavalgou.
—Obrigado, Cilla — ele riu e a beijou rapidamente em seguida.
Por mais que os anos tivessem passado e estivessem mais velhos, o amor deles só tinha se fortalecido e ali estavam eles, juntos, felizes e escondidos no seu pós-vida de quase 50 anos de duração.
Escondidos até o momento, já que sua conversa foi capturada pelo celular de Heather, que logo tratou de fugir dali, com medo de ser pega. Para o seu próprio bem, ela conseguiu escapar ilesa, esperando que o vídeo que tinha conseguido fosse o suficiente para tirá-la dos apuros de ser ameaçada por Roland.
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