Uma armadilha de memórias
3 Nervosismo e Hesitação
Após conversarem um pouco mais sobre como seriam as coisas a partir de agora, com Priscilla prometendo que suas visitas seriam constantes, ela deixou o ex marido com seus próprios pensamentos. Por conseguir a afeição dela novamente e ter a certeza de que ela ainda se importava, Elvis pensou que era recompensa o suficiente. Então, foi com alegria e empolgação que se preparou para a próxima visita dela.
Dessa vez, Priscilla parecia melhor, como se descansasse de forma mais efetiva e estivesse genuinamente feliz de estar ali.
—Oi — ela disse de forma mais empolgada na chegada, o abraçando primeiro dessa vez.
—Oi — ele respondeu, sorrindo para ela de uma forma radiante.
Priscilla não pôde deixar de notar que era um tipo de sorriso diferente, não tinha o charme dos palcos, ou o flerte da juventude, mas uma alegria genuína, uma expressão do que estava sentindo. Ela tinha medo do que aquilo podia significar, do que poderia mudar dentro dela em relação a ele. Ainda havia uma parte dela que se importava com ele, que queria o seu bem, mas ela também tinha medo de ceder ao amor. Tinha medo do que poderia significar no futuro, por hora, queria se concentrar em ajudar na recuperação dele. Era o que importava no momento.
—Seja bem vinda — ele decidiu desfazer o pequeno silêncio que se formou.
—Ah obrigada — ela se sentou no lugar que tinha se acostumado a sentar, na cadeira à direita da mesinha de centro, Elvis fez o mesmo na frente dela — então, tem alguma novidade? Como foi essa semana?
—Bom, nada muito diferente, eu andei pensando em começar a ler alguma coisa, talvez pegue um livro emprestado de alguém — ele deu de ombros.
—Ler é sempre bom, se quiser, eu posso trazer os seus preferidos — ela ofereceu.
—Claro, seria ótimo, obrigado por isso, mas e você? O que anda fazendo? — Elvis quis saber — aposto que tem mais novidades do que eu, lá fora o mundo ainda gira.
—É, tem razão, mas eu não quero te preocupar com nada, aliás, está sentindo falta da agitação de lá de fora? Tipo, do público e tudo mais? — Priscilla devolveu a pergunta, certamente intrigada e curiosa.
—Tá aí algo interessante que eu andei pensando mesmo — ele alisou o queixo, um gesto típico pensativo — é como se eu ficasse ansioso esperando por isso, mas nunca chegasse, e realmente nunca chega, e ainda assim eu sinto alívio por não ter que fazer nenhum show, não ter que passar por esse nervosismo de novo é uma sensação boa.
—Fico feliz de ouvir isso, esse é um lado seu que poucas pessoas conhecem, seu nervosismo antes de entrar no palco, sabe, assim que você põe os pés ali toda a sua confiança vem de uma vez e você faz o que faz, tão bom nisso... — ela disse de um jeito meio encantado, como se refletisse em cada vez que presenciou isso.
—Acha mesmo? — ele achou intrigante, não se lembravam de conversar muito sobre isso, sobre esse detalhe específico.
—Eu sei disso, vi de perto o suficiente — ela deu de ombros.
—Eu nem sempre fui assim — ele desviou o olhar e depois fixou os olhos nela, parecendo nostálgico, como se tivesse uma história pronta para contar em mente.
—Ah sim, o rapaz que me convidou para uma conversa na Alemanha, ele era nervoso, tímido, reservado, mas não menos charmoso — ela contou suas próprias lembranças — essa é uma ocasião que eu me lembro de você hesitante.
—Você estava mais animada que eu, se me permite dizer — ele declarou suas próprias recordações.
—Animada, uso curioso de palavras... quer dizer que não estava empolgado em conversar comigo? — ela decidiu enquadrá-lo, unindo as mãos sob os joelhos.
—É claro que eu estava, só não conseguia demonstrar por causa da minha hesitação, como você mesma colocou, Cilla — ele jogou a questão de volta para ela, mas estava sendo verdadeiro.
—Tudo bem, acho que é justo — ela acabou rindo.
—Mas eu tenho que admitir que... te ouvir falar sobre a sua vida e o que você gostava me fez ver quem você era de verdade — "e foi por essa jovem que eu me apaixonei" — ele quis acrescentar, mas achou melhor se conter.
—Eu vi o seu eu real também — ela acabou concordando — mas eu tenho a impressão que você queria me contar outra coisa sobre ficar nervoso com o palco, consegue se lembrar da primeira vez que sentiu isso?
—Eu? Ah, claro... — ele disse em tom de brincadeira, mas se concentrando nas lembranças — eu era tão novo... bem, lembro do Scotty e do Billy comigo, mamãe, papai, Dixie...
—Quem era a Dixie? — Priscilla levantou a pergunta por pura curiosidade.
—Ah podemos deixar pra outra história e outra conversa — ele despistou a questão, um resquício de vergonha que um marido sentiria ao contar sobre uma ex-namorada para a esposa, exceto que Priscilla realmente não era mais sua esposa, o pensamento repentino o deixou triste, mas ele decidiu prosseguir.
—Hum, está bem, só me conta a história — ela cruzou os braços, fazendo uma nota mental para cobrá-lo mais tarde.
—Enfim, nós íamos entrar e eu estava muito nervoso e aí comecei a cantarolar pra me aquecer e fiquei tão apreensivo que não conseguia ficar parado, cheio de tremeliques. Subi no palco e mal conseguia olhar pra plateia, quer dizer, eu olhei, parecia que tinha um sapo na minha garganta e eu falei com a plateia tentando parecer coerente, sem conseguir parar de me mexer, não queria que ninguém me visse tremendo. Então comecei a cantar e depois disso foi pura energia, sentindo a música por todo o meu corpo e me mexendo em consequência, e aí eu...
Elvis se interrompeu rindo, deixando Priscilla mais intrigada.
—Que foi? — ela ficou sem entender nada, esperando.
—Bem, as garotas começaram a gritar e eu não fazia ideia do porquê — ele explicou, rindo mais um pouco logo em seguida.
—Quer dizer que existiu uma época da sua vida que você não fazia ideia do efeito que causava? Que inocente... — ela fez um beicinho, também brincando.
—Sério, naquela época não tinha — ele se recompôs — e eu perguntei pros rapazes porque elas estavam daquele jeito e me falaram que era por causa do rebolado, acabei entrando na onda e chamei uma baita de atenção.
—Ah... — foi o comentário quieto de Priscilla depois da história — tá querendo me dizer que... uma das suas marcas registradas, o seu jeito de dançar veio do seu nervosismo?
—É, isso e claro, como as pessoas dançavam no bairro onde eu morava, era fascinante observar tudo aquilo quando eu era criança — ele acrescentou.
—Uma mistura incrível — ela concordou, refletindo sobre sua conclusão — coisas improváveis juntas formaram um espetáculo.
—Obrigado — ele disse quietamente, sentindo a emoção de compartilhar aquelas memórias.
—Nunca me contou isso — Priscilla se deu conta.
—Acho que nunca tive tempo pra pensar nisso — ele se justificou — só agora...
—Porque finalmente você teve tempo pra descansar — ela concluiu — foi muito bom ouvir sua história.
—E foi bom contar — ele concordou, refletindo que, reviver boas memórias de sua carreira também eram uma fonte de alívio.
Fale com o autor