O ar que encheu os pulmões de Elvis quando ele deu um longo suspiro de alívio estava definitivamente fresco, apesar de todo o clima fúnebre e solene que ainda rondava Graceland.

Era a primeira coisa que tinha chamado sua atenção desde que tinha retornado pra casa, a quantidade de homenagens, cartas, fotos, presentes, objetos de valor sentimental que os fãs relacionavam a ele e tinham deixado ali. Tinha se passado quase um ano e meio de sua "morte" e era ainda assim que os portões se encontravam.

Priscilla, que tinha o acompanhado durante a viagem de volta, preferiu deixá-lo descansar das regras de descrição. Ele estava ansioso para voltar, mas ao mesmo tempo, estava bem calado e reflexivo, devia estar com uma porção de coisas e possibilidades na cabeça, se ele não queria compartilhar agora, ela respeitaria sua decisão, mas no fim, o conhecendo bem, sabia que ele contaria o que quisesse quando estivesse pronto.

Eles entraram pelas portas dos fundos, despistando alguns civis que passavam pela frente, ávidos por espiar um pouquinho do lar do seu ídolo. Lá dentro da mansão, tudo estava muito limpo e arrumado, como se encontrasse sua casa depois de um show, mas ele a sentiu sem vida. Foi ali que deu mais um longo suspiro, custando a acreditar que estava de volta.

—Tudo parece do mesmo jeito, não tem nada mudado — foi o primeiro comentário dele.

—Eu não quis mudar, preferi deixar como nós gostávamos, do jeito que sempre foi — ela explicou — querendo ou não, se tornou uma memória viva.

—Entendi, mais um símbolo que me representa — Elvis assentiu, compreendendo — não pode ser mudado.

—Eu não pretendo mudar — ela confirmou — mas falando em mudar, eu precisava falar com você sobre o que vai mudar daqui em diante.

—Certo, claro — ele se sentou no sofá com cuidado, mas abraçado pela familiaridade do assento.

—Sua familia se mudou daqui, houve um pequeno debate se deveriam continuar ou não, mas por fim, por causa do segredo e da sua memória, Billy os convenceu de deixar o local — ela contou.

—Mas estão todos bem? Não seria isso injusto com eles? Essa casa não era só minha, era dos meus parentes também — ele apontou.

—Eu sei, mas... seria difícil continuar aqui sem você — ela explicou com paciência — além disso, quanto menos gente souber do nosso segredo, melhor.

—Está bem então — ele assentiu, confiando em Priscilla que aquela era a melhor decisão quanto ao assunto.

—Você vai poder continuar morando aqui, mas vai ter que despistar os funcionários, digo, não puxe assunto com eles, vá pra outro lugar quando eles precisarem entrar na mansão — ela continuou instruindo — você pode ficar na cabana perto dos estábulos se precisar se esconder de alguém, e eu se precisar dizer quem você é, direi que é o Johnny, o novo cuidador dos cavalos.

—Entendi — ele assentiu, disposto a cumprir tudo aquilo — algo mais?

—Bom, no seu testamento, você deixou a propriedade para Lisa e eu sou a guardiã legal dela, o que me deixa responsável por Graceland — Priscilla acrescentou a todos os acordos que tinha proposto até então.

—Mesmo com você sendo tecnicamente minha ex-esposa? Se houvesse uma forma de anular o divórcio... — Elvis sugeriu, querendo que aquilo fosse realmente possível de alguma forma.

—Eu não posso anular um divórcio com um homem morto — ela disse a contragosto, era difícil mesmo depois de um tempo tratar Elvis como morto, mesmo ele estando vivo, bem ali na frente dela — além disso, se eu fizer isso, vai piorar minha situação de um certo modo.

—Piorar sua situação? O que tá acontecendo? O que não me contou, Cilla? — ele se aproximou dela, tocando seu rosto para consolá-la, vendo que ela tinha ficado chateada ao tocar no assunto.

—A mídia tem me chamado de interesseira, por ainda usar seu sobrenome e agora ter Graceland sob meus cuidados até que Lisa seja maior de idade — ela confessou, sem olhar muito para os olhos dele.

—Não dê ouvidos a isso, por favor — ele segurou as mãos dela, olhando nos seus olhos — não importa termos nos divorciado, tudo que eu sei agora é que eu ainda te amo, sempre vou te amar, estamos juntos e se eu pudesse, me casaria com você de novo.

—Ah Elvis... — ela suspirou, dando um sorriso de alívio, sentindo o conforto que ele queria lhe passar.

—Eu falo sério — ele assentiu, sem pestanejar.

—Dá pra ver, eu sei — ela suspirou outra vez — só... obrigada, por dar uma segunda chance a nós, por estar aqui comigo agora.

Impulsionada por emoção e alívio por ele estar ali, acabou o beijando, grata porque apesar de todas as dificuldades que estavam enfrentando ainda estavam ali.

—Vai ficar tudo bem, meu amor, eu prometo — ele a abraçou.

Assim, fizeram um voto silencioso naquele momento que ambos entenderam, mesmo sem palavras, iriam usar todas as suas forças para continuarem a ficar juntos. Nos dias seguintes, trataram de fazer as adaptações que precisavam para se instalar ali. Elvis a ajudou com algumas bagagens e por mais que não imaginasse voltar ali depois de tudo que tinha acontecido, voltar a Graceland enchia Priscilla de esperança, o sonho que seu marido tinha compartilhado com ela estava se tornando real.

Priscilla fez questão de que a propriedade ficasse cheia de funcionários o menor tempo necessário, eles faziam as manutenções necessárias no local e depois iam embora. Assim que eles partiam, os Presley tinham o lugar inteiramente para eles.

Uma das primeiras coisas que Elvis fez depois de voltar foi andar à cavalo, coisa da qual ele sentia muita falta. Era um dos seus velhos hábitos que lhe dava a sensação de realização e satisfação por voltar a praticar. Enquanto cavalgava pelo campo ao redor da mansão, notou o que havia mudado pela vegetação em um ano e meio. Havia uma macieira grande e frondosa, da qual não se lembrava direito. Cavalgou para mais perto, a observando e a admirando, chegando a sentir o aroma das maçãs maduras, cheiro de lar, delicioso.

Sem cerimônia, ele pegou uma das frutas e lhe deu uma mordida generosa, estava realmente deliciosa, ou talvez fosse a saudade de casa acentuando o sabor, fosse como fosse, a simplicidade do momento encheu o peito de Elvis de felicidade. Um tempo depois, teve a ideia de trazer Lisa para cavalgar com ele.

Pela manhã, contando sua empolgação e animação, foi até Lisa, com muitos planos divertidos para o dia em mente.

—Olha só quem ainda está dormindo — ele se esgueirou pelo quarto da filha, sentando-se na cama dela, a observando com orgulho.

—Papai? Não, não quero acordar... — Lisa murmurou, querendo ceder mais ao sono que tomava conta dela no momento.

—Não, Lisa, tá um dia tão lindo lá fora, e eu planejei tanta coisa legal pra fazermos juntos... — ele disse em tom convidativo, esperando que fosse suficiente para despertá-la.

—Será que não pode ser mais tarde? — a menina balbuciou, se revirando na cama.

—Se for mais tarde, vamos perder tempo — ele alertou — vamos, Lisa, vamos lá!

Elvis acabou apelando para cócegas, resultando nas risadinhas fofas dela, o que o deixou mais feliz, sua garotinha saudável e sorridente, bem ali com ele.

—Tá bom, eu vou — ela ergueu as mãos em rendição, se esforçando para levantar.

Priscilla ajudou a se arrumar para o dia, enquanto curiosidade enchia a mente de Lisa.

—O papai contou alguma coisa sobre onde vamos e o que vamos fazer? — ela quis obter alguma pista com a mãe.

—Eu não sei, meu amor, mas pelo jeito que ele está animado, parece ser bem legal — ela explicou, instigando a menina ainda mais.

Depois de um delicioso café da manhã em família, Lisa acompanhou o pai aos estábulos, entendendo o que fariam.

—Isso vai ser tão legal! — presumiu a menina, animada.

—Você nem imagina! — seu pai prometeu com um ar encantado, quase mágico.

Com a ajuda dele, Lisa subiu no cavalo, com seu pai logo atrás dela, e então, eles tomaram o caminho até a macieira que ele tinha encontrado no outro dia.

—Você encontrou essa árvore, pai? — ela perguntou — eu vim aqui algumas vezes, fugindo da mamãe e de todo mundo.

—Fugindo? Lisa Marie, o que aconteceu pra você ter que fazer algo assim? — ele quis saber, automaticamente preocupado.

—Ah quando eu fico chateada, e todo mundo pergunta se estou bem, eu não quero falar como eu estou me sentindo, quero só ficar no meu canto — ela explicou sinceramente — às vezes as pessoas não entendem isso.

—Sei do que tá falando, mas não se preocupe, sabe que pode contar qualquer coisa pra mim e pra sua mãe, não sabe? — Elvis fez questão de dizer, fazendo uma nota mental para ficar atento caso isso acontecesse de novo.

—Eu sei pai, tá tudo bem melhor agora, porque você tá com a gente — Lisa mostrou a razão para estar se sentindo melhor, o que deixou o pai dela comovido.

—Eu não vou a lugar algum, meu bem — ele beijou a cabeça dela afetuosamente, com a certeza mais uma vez de que uma das suas principais missões desde que ela tinha nascido e agora, mais que nunca, seria estar sempre presente e protegê-la.

Passaram mais um tempo ali, conversando, rindo e comendo maçãs, apenas Lisa e Elvis aproveitando o seu lar.