Sorte do dia:

As situações mais banais da vida podem traduzir grandes revelações para você, portanto, preste atenção.

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Talvez eu tenha experimentado um momento epifânico ao pintar o cabelo hoje. Eu havia passado a semana incomodada, porque o descolori e meus fios alternavam tons de laranja e loiro — um típico desastre capilar. Porém, para a minha surpresa, eu recebi inúmeros elogios, até mesmo do meu pai — pessoa que sempre criticou meu cabelo.

Bem, caro leitor, não me odeie por causa desse início, tenho um propósito e vou chegar a ele. Paciência. (Ou talvez eu que esteja impaciente e me projete em uma segunda voz inquieta.)

Mas o X da questão é que eu me senti tão feliz pela aprovação das pessoas ao meu redor. Esse é um X bem ambíguo, porque eu me sentia, em parte, insatisfeita. Estava feliz por meu cabelo agradar aos outros enquanto ao mesmo tempo não me agradava 100%.

Como sou impulsiva, quis pintar de uma cor que julguei parecida com o tom que estava, mas os fios escureceram e me senti mal por ter estragado tudo. Agora não agrada nem aos outros e nem a mim. Porém debater essa questão não é meu objetivo agora.

A questão — percebo nesse momento — é que muito mais vezes que gostaria me senti mal por não corresponder às expectativas alheias... Sei que é um comportamento condenável em nossa sociedade "não pode ficar triste style", mas, ainda sim, sinto a necessidade de agradar e me culpo por me sentir assim.

É estranho como somos reféns da nossa própria mente. Eu poderia ir à esquina ou à República Tcheca se eu me permitisse ir — e quem sabe, ganhasse na loteria -, mas a questão é que sempre há algo que nos prende, e esse algo, muitas vezes, não existe de verdade, ou então se traduz em expectativas que criamos sobre expectativas que supomos que os outros tenham sobre nós. Confuso, não?

Enquanto reflito sobre isso, sinto que gostaria de voar para longe, mas me prendo a uma coleira imaginária que me diz que não posso. Tão difícil quebrar esse tipo de pensamento. Admiro aos que tem a liberdade de ser quem são sem se importar com amarras invisíveis.

Desconfio que essas pessoas sejam lúcidas o suficiente — ou o contrário — a ponto de entrever que cada pessoa traz um universo dentro de si e, com empatia, percebem que tal riqueza não poderia ganhar uma forma — como um vaso de barro sendo moldado por um artista — a não ser a sua forma original: devastadora, desafiadora, selvagem...

Sempre que me pego pensando nisso, imagino um belo pássaro exótico solto na natureza voando com coragem, como se estivesse em seu DNA o gene da liberdade. Enquanto isso, o homem carrega em si o gene da racionalidade, o qual, me ponho a refletir, parece ter se multiplicado milhares e milhares de vezes como uma epidemia.

Colocamo-nos a serviço de uma intensa racionalização de tudo e me pergunto se um dia poderemos seguir o exemplo de animais selvagens, que não foram domados pelo medo, e se permitem, a meu ver, viver, no sentido mais amplo da palavra, sem mais amarras.

A vida para eles, é bem simples. Quando cientistas falam com orgulho da nossa adorada capacidade de raciocinar, tenho a sensação de que esquecem a grande responsabilidade que se agrega a isso. Pensar complica tudo e por isso escrevo.

Neste breve instante do meu dia, me liberto e posso dar vazão à parte do meu eu que se rebela a ser moldada.