Uma aleatoriedade de textos ao acaso

8 A culpa também é sobre achar que não tem direito a algo.


Notas iniciais
Aviso de gatilho: relacionamento abusivo.

O corte e depois o curativo por cima.

Um sorriso. "Você quer um bolo de chocolate?" "Olha que vestido bonito, vou comprar pra você".

Nenhum pedido de desculpas.

O corte dói, ainda sangra de vez em quando, mas talvez eu tivesse merecido mesmo, a culpa foi minha, não foi?

...

Como poderia ser tão ruim assim? Abusivo? Tóxico? Mas ele é tão bom comigo às vezes, que nem parece que...

Ele é uma bomba

"Sua demente!"

Prestes a explodir

"Você é burra!"

Qualquer coisa pode irrita-lo

"Cala a boca. Não tô falando contigo. Estou falando com a sua mãe."

Até mesmo as menores coisas.

Palavras que nunca disse por medo.

Palavras entranhadas em um emaranhado de culpa.

Não sei se um dia conseguirei me desembaraçar.

Não é tão simples, nunca foi.

Assim eu aprendi a me odiar.

Internalização.

Repetição.

Mil vezes silenciada.

Psicologicamente podada.

"As vezes a gente abraça aquilo que odeia". Eis o que me tornei: alguém que se cala mesmo contra a própria vontade. Já não sou mais eu. Talvez nunca tenha tido a oportunidade de ser.

Infelizmente a vida não é como nos livros e nas novelas. Não existe um bem e um mal devidamente categorizados. Vilões e mocinhos se misturam e, as vezes, um se sobressai ao outro. Como distinguir o benfeitor do agressor? É confuso decidir. É confuso aceitar a possibilidade de ter vivido tanto tempo em um relacionamento abusivo de onde menos se espera. De quem deveria dar amor e carinho.

A herança que carrego é a culpa.

Aos 24 anos, anseio tanto pelo grande momento em que poderei me tornar dona de mim mesma. Uma chama começa a brotar, me sinto prestes a queimar e eu pretendo me deixar queimar. Estou cansada de molhar caixas de fósforos.