Uma Vida sem Sol
2 Lucy.
Provavelmente todos a conhecem.
Mas como vou começar a descrevê-la? Pelos motivos de sua fama ou por sua individualidade? Pelos meus sentimentos obscenos por ela ou pela dor que vem quando sinto sua falta?
Meus sonhos foram estranhos e preenchidos de culpa. Abstratos. Por mais que aquela voz dentro da minha cabeça não pudesse gritar mais alto, era como se estivesse dentro dos meus ouvidos, prestes a estourar os meus tímpanos. Nos mais fundos dos meus pensamentos, parecia que eu estava sentindo o tamanho da minha traição.
O quarto estava escuro, mas a luz que refletia a lua atravessava os vidros e as finas cortinas brancas de seu quarto sem qualquer dificuldade, eu estava completamente acordado e eram provavelmente três da manhã. Lucy dormia ao meu lado, uma das minhas mãos estava junto às suas, não teria coragem de me mexer mesmo que quisesse, me contentava apenas a olhar pra ela.
O luxo que me rodeava e estava totalmente fora de meu alcance existia graças aos negócios da família dela, Lucy vivia uma vida confortável graças à Hanmei e sua carreira promissora como modelo, claro, ela era provavelmente a pessoa mais encantadora que eu conhecia, e posso dizer que seu trabalho neste campo é absolutamente impecável.
Minha mão formigava.
Para descrever sua personalidade, pularia direto ao ponto de dizer que ela almeja esconder tudo sobre si, mas ao mesmo tempo sinto que conheço absolutamente tudo sobre ela. Fascinante. Todos em torno dela sempre recorriam à Lucy para algo, mas também genuinamente gostavam dela e a admiravam muito, posso dizer isso com certeza.
Olhando novamente para ela, me percebia de volta com uma expressão neutra.
— Por que está acordado? — Soltando-se de minha mão. — Tudo bem?
Sentou-se, sua mão direita agora acariciava meu rosto e eu era capaz de sentir seu cheiro, acredito que de pêssego.
— Tudo bem. Estou aqui com você. — Sorri, segurando sua mão e lhe dando um pequeno beijo. — O que mais eu poderia querer?
— Dormir, são... quatro da manhã, eu acho. — Suspirou, de forma audível. — Você acordou só para flertar comigo?
— Não. Só acordei e não conseguia dormir de novo. — Me levantei o suficiente para encostar meu queixo em seu ombro e abraçá-la.
Se Meguri soubesse disso ele me odiaria pra sempre. Qualquer coisa disso.
— Casual demais. — Colocou as mãos em meu cabelo e nos deitamos, perto demais. — Você sabia.
— Uhum. — Quase não consegui evitar um bocejo. —O que tem na sua mente agora?
— Com certeza não é o mesmo que tem na sua. — Já estava com os olhos fechados, prestes a dormir novamente. — Eu não acordei de madrugada preocupada com algo.
— Você sempre sabe tudo.
Ela não esboçou expressão em relação a isso, mas tenho certeza que eu não sou tão bom assim em esconder meus sentimentos e ela via as minhas intenções como se fosse transparente.
— Sou tão fácil assim de ler, pra você? — Perguntei, ainda agarrado nela.
— Sim. — Disse, com um suspiro frustrado. — Sabe que agora não tem mais volta, certo?
Assenti.
— E não me arrependo. — Me estiquei o suficiente para beijar seu rosto. — Não foi um caminho ardiloso, e estou com você. Mesmo que me arrependa depois.
— Você vai se arrepender. — Profetizou.
Dei de ombros.
— O que passa pela sua cabeça é uma coisa que sempre me pergunto, sabia, Lucy? — Nos afastei, olhando para seu rosto incomodado. — Todos acham que te conhecem profundamente, mas eu sei que é totalmente impossível te conhecer de verdade.
Sua expressão se misturou entre ofensa e contentamento.
— Talvez eu queira ser percebida assim. — Fechou os olhos, como se eu fosse desaparecer ao parar de me encarar. — No fundo, muitas coisas doem em mim, mas ninguém precisa saber sobre elas.
Me forçou a ficar em silêncio, acariciando sua bochecha livre, com o peito apertado.
— Eu gostaria de saber. — Sussurrei, encostando nossas testas e fechando os olhos. — Boa noite, Lu.
— Boa noite, Takashi.
┅☼┅
O sol brilhava lá fora e meu reflexo na tela do celular me encarava de volta, enquanto eu esperava Lucy descer as escadas para poder ir embora. Minha moto e meu trabalho me esperavam.
O café da manhã estava todo a mesa, impressionante como as coisas pareciam fáceis por este ponto de vista. Simplesmente acordar e ter um monte de coisas gostosas esperando para simplesmente serem devoradas, sem ter que preparar nenhuma delas. Então, me sentei para apreciá-lo, por mais que não estivesse nem um pouco acostumado a comer durante a parte da manhã.
Lia mensagens em meu celular pela barra de notificações, não sabia como respondê-las, como explicar onde eu estava e com quem eu estava? Principalmente para alguém que não poderia saber, pelo menos não neste momento.
Meguri, por mensagem, me questionava se eu estava em casa, dizendo que estava tentando falar comigo desde ontem à tarde.
A culpa era sufocante, mas o arrependimento não existia. Dizer que tive que cobrir o turno de alguém no trabalho não parecia uma mentira tão impossível. Enquanto isso, Lucy se fazia presente ao meu lado.
— Bom dia. — Ela sorriu pra mim e se sentou a minha frente. — Gostou da roupa?
Por que se arrumou tanto?
— Bom, com certeza está no seu estilo, como sempre. — Impecável. — Tá linda, Lu.
Mas para onde você vai?
— Obrigada. — Arrumou a posição de um dos vários anéis que estava usando. — Aonde vamos hoje? Quer passear? Almoçar em algum lugar?
— ...Eu tenho que ir trabalhar, Lu. — Era sábado, mas não meu dia de folga. — Podemos ir depois que eu sair, que tal? Na semana que vem estou livre no final de semana todo.
— Ah. — Pareceu incomodada com a ideia de ter que deixá-la por um compromisso qualquer. Os compromissos de Lucy dependiam sempre de suas vontades. — Posso te levar se você quiser, meu carro está aí e...
— Não precisa. Eu vim com a minha moto. Tá tudo bem, sério, não precisa se preocupar comigo.
— Não é preocupação, só pensei que talvez seria mais confortável pra você. —E procedeu a se ocupar com seu café da manhã.
Coloquei minha mão sob a de Lucy.
— Ei. — E me olhou, se me olhasse de forma mais inocente poderia suspeitar que não era ela. — Quando acabar o turno, volto para te ver. Sabe que eu sempre volto para você.
— Alguém tem que voltar, certo? — E sorriu. O que queria dizer com isso, Lucy? Eu não te trocaria por nada neste mundo.
— Por que diz isso?
Negou com a cabeça.
— Nada de mais. — E sorriu. — Você não precisa voltar para quem não tem, Takashi. Você não é de ninguém, Takashi. Nunca foi.
Não que ela estivesse errada, mas não queria concordar com seu ponto de vista, queria estar com ela, se não fosse assim não estaria ali e não teria me disposto a estar com ela.
— Lucy, eu... — Não sei o que dizer.
— Nos vemos mais tarde, então? — Olhou para seu relógio de pulso. — Que horas vai estar livre?
— Posso te enviar uma mensagem assim que estiver totalmente liberado, eu sabia que ia trabalhar hoje, mas não achei que iriamos passar a noite juntos. Eu só queria te ver.
— Tudo bem. — Assentiu com a cabeça.
Por que não pode ficar feliz que queria vê-la? Não fiz isso por outros motivos se não para estar com ela. Mas, de qualquer forma, teria que ir.
— Espero que tenha um bom dia. — Foi o que ela me disse ao deixar sua casa, mas não entendo por que não queria falar direito comigo ou por que não falava abertamente sobre seus sentimentos.
Lucy nunca foi uma pessoa muito calorosa, mas, agora já era muito diferente da pessoa que conheci alguns anos atrás.
Por onde posso começar a contar?
Conheci Lucy há aproximadamente três anos, na época, claro, ela já estava com Meguri, afinal, o conheci primeiro e viramos “confidentes”. Parecia o tipo de menina bonita, mas tímida demais e extremamente emocional e obediente às vontades alheias.
— Bom dia.
— Bom dia, Takashi. Preparado pra hoje? —A bandeja obviamente me esperava.
Lucy nunca falou muito de si, mas não era difícil descobrir o pouco que os outros sabiam sobre ela — ou o que era público na imprensa sobre ela — sabia que morava apenas com Sean, que teve problemas sérios com os pais durante a infância e que havia tido alguma questão psicológica grave aos dezesseis anos e por isso Sean podia ser superprotetor com ela.
Sabia que gostava de moda, de ter e comprar todo o tipo de coisa que gostasse e de sair para qualquer tipo de lugar que rendesse fotos bonitas para guardar de recordação ou para decorar sua conta com milhões de seguidores no Instagram. Também sabia que tinha uma tendência a se embebedar em festas e de se desprender da realidade nestas situações. Me pergunto se há algo por trás disso que está fora do meu conhecimento de melhor amigo do ex-namorado.
— Bom dia, já foram atendidos? — É preciso adornar a face com um sorriso.
Desde a primeira vez que vi Lucy eu sabia que de alguma forma, meus sentimentos por ela não eram simplesmente amigáveis. Obviamente, nunca tivemos uma grande aproximação, mas recentemente estávamos conversando mais, já que sempre fiz o possível para provar que sempre seria seu aliado e de mais ninguém se fosse necessário. Era estranho ser o confidente de seu namorado e seu confidente.
O relacionamento deles se esvaiu com o tempo. Como dizem? Caiu na rotina? Mas não descreveria a situação apenas assim.
Anotei alguns pedidos e servi bebidas em algumas mesas, enquanto esperava pelo trabalho da cozinha.
Meguri e Lucy tem mais de uma coisa em comum, mas a principal delas eu diria que é o fato de ambos não serem pessoas fáceis de se lidar com. Lucy com sua personalidade misteriosa e privativa pode parecer condescendente, já Meguri, se tornou de certa forma um antissocial devido a seu estado mental. Recentemente, tem tido problemas com seu tratamento de transtorno bipolar e e seus próprios pensamentos, mas, não acho que esse tenha sido o grande problema no relacionamento dos dois.
Lucy sempre era o centro das atenções e já não queria mais ser o tipo de pessoa que seria capaz de ficar ao lado de Meguri.
Meguri, por outro lado, era muito inteligente, mas muito severo com si mesmo. Sempre contava com a minha presença quando tinha crises depressivas ou maníacas. Às vezes, eu apenas ficava lá com ele, enquanto Meguri não falava nada e parecia olhar para o nada.
Ele era muito dedicado aos seus estudos, queria ser engenheiro e já estava na faculdade com uma idade menor que seus companheiros de turma e dizia que tinha que dar orgulho aos pais, afinal, o pai era professor, tinha que ser o seu melhor. Mas nunca percebeu a própria capacidade e o quanto ele já estava fazendo isso mesmo tendo se graduado com honras em seu ensino médio. Sempre tinha que ser melhor e melhor.
Meguri tinha a tendência à algumas vezes abandonar suas medicações e se negar a tratar-se, esses acontecimentos eram raros, mas eu sempre estava lá, assim como Lucy.
Sempre que pedisse pela minha presença, lá eu estaria.
— Obrigado pela preferência! Voltem sempre. — E realizava a limpeza da mesa, para liberá-la logo para o próximo cliente.
Penso que Lucy queria receber de Meguri um valor que ele era incapaz de oferecer, além do mais, o que todos diziam por aí (e em todos os sites de fofoca) era que Meguri havia traído sua confiança com outra garota. Mas, ela sempre negava isso e até hoje defende a integridade dele, parece que de certa forma Lucy ainda possui muito respeito por sua figura e entende suas limitações em relação à saúde mental e tenta seu melhor para protegê-lo.
Após o término, outra figura encontrou seu lugar no destino de Lucy, que a esse ponto já estava confuso o suficiente.
Katsu não era tão ruim quanto nossos outros amigos achavam. Eles juravam que ele tinha sido o estopim para o término de nossos amigos, mas, como um bom espião que sou, eu sabia que a situação não era bem assim e que ele não era nem metade do que nosso grupo poderia teorizar. Ele era simplesmente muito melhor que isso.
Eu mesmo fiquei impressionado com Katsu quando soube um pouco mais sobre suas particularidades.
Posso começar dizendo com propriedade que Katsu e Meguri são essencialmente diferentes em quase tudo. Ao comparar o cabelo preto, cortado de forma duvidosa e bagunçado de Meguri com o cabelo castanho, bem cuidado e estranhamente brilhante de Katsu, por exemplo, a primeira coisa que eu diria que era diferente seria: a ausência de caos em sua presença.
Katsu era budista, Meguri se considerava um ateu e não parecia ter nenhuma fé na humanidade no geral.
Katsu estudava direito e já havia morado sozinho na França por um ano, Meguri estudava engenharia e nunca havia deixado o Japão sem Lucy.
Katsu não falava muito, mas era um cara formal, que se importava com bom comportamento e não aceitava bebida durante nossas festas, Meguri não falava muito se não fosse para ser sarcástico, tinha um comportamento rebelde e fumava como uma chaminé já que não podia beber por conta de suas medicações, o que de certa forma o frustrava (já que dessa maneira, naquele momento, ele estava sendo excluído de um grupo que ele gostaria de fazer parte), às vezes, ele simplesmente ignorava esse fato e bebia como se o amanhã onde ele se arrepende não fosse chegar nunca, mas, ele sempre chegava e eu sempre estava lá.
Admito que odiava trabalhar aos sábados.
Se fosse me comparar a Katsu e Meguri, talvez eu não fosse nem um pouco melhor que eles. Talvez eu seja o meio termo entre eles, e por isso posso falar sobre o que penso abertamente em relação a isso. Trabalho como garçom, não estudo, nunca saí do país, vivo sozinho, não sei discernir sobre minha própria fé, gosto de esquecer da realidade e me divertir, e tenho albinismo oculocutâneo.
Acho que a única coisa que com certeza teríamos em comum (sem nenhuma sombra de dúvida) era que uma moça de cabelo preto e olhos verdes tinha a capacidade de nos fazer sofrer com apenas uma palavra, e o pior, não seriamos capaz de prever qual palavra seria, pois Lucy era absolutamente imprevisível, mas extremamente sedutora, e por que ela era assim? Por que sentia tanta dor em meu peito quando pensava nela?
Outra coisa em comum.
Nenhum de nós saberia responder. E mesmo assim, eu só conseguia pensar no que ela me disse na noite anterior, sobre como tentava seu melhor para esconder tudo que a feria, era uma confissão que juntava todas as peças do quebra-cabeça complicado que ela era na minha mente, como se minha teoria fosse verdadeira e eu fosse o único no mundo que a conhecia de verdade, porque eu sabia de suas projeções, mentiras e barreiras.
Ou talvez eu apenas fosse extremamente presunçoso com as coisas que descobria sobre a pessoa que estava se tornando o maior amor da minha vida, mas não podia evitar fazê-lo, era como uma aventura onde eu precisaria reunir o maior número de informações possíveis sobre ela se quisesse sobreviver sem ser esmagado pela sua superioridade e pelo meu próprio coração agoniado com um senso de culpa crescente.
Talvez ela realmente fizesse profetizações corretas em relação aos meus sentimentos, e por isso eu me entregasse tão facilmente, como um livro totalmente aberto para ela. E eu ainda a deixaria rabiscar minhas páginas, dobrar os meus cantos para encontrar alguma memória que mais lhe brilhasse os olhos e me colocar em sua cabeceira como decoração ou para ler quando pudesse, sendo a última memória de sua noite e a primeira de seu dia.
Estar sempre em seu pensamento, de alguma forma, era o que eu queria, ao ponto de fazê-la refletir, chorar e rir. Às vezes, os dois ao mesmo tempo, em uma felicidade inexplicável. Mas, mesmo assim, eu, por mim mesmo, sozinho, jamais conseguiria fazer com que Lucy abandonasse seus princípios e rotinas que havia estabelecido consigo mesma para se proteger e projetar a imagem perfeita de si mesma que eu conhecia, a qual havia me encantado desde o primeiro dia que soube de sua existência.
De certa forma, acho que somos todos assim. Expomos nosso melhor e escondemos nossas fraquezas da melhor forma possível, mas nem todos foram agraciados com fama e poder como ela, alguns de nós são simplesmente pessoas comuns que vivem uma vida constante, extremamente cotidiana e repetitiva, fazemos porque precisamos sobreviver mais um dia e menos um dia.Me pergunto se ela também o fazia para poder sobreviver, mesmo que eu não quisesse acreditar nessa possibilidade, sabia que ela era perfeitamente plausível considerando todo seu histórico.
Toda dor é insuportável para quem sente, fatores externos no fim da linha não importam tanto assim quando falamos de nós mesmos em relação a algo absolutamente doloroso. Quando dói, não conseguimos focar em mais nada ao nosso redor, então imagino que não seja diferente para ela. Uma dor bem válida e escondida, num complexo misto de estar totalmente afundada no mar e estar em sua margem, prestes a emergir e destruir tudo ao seu redor.
A sensação constante de afogamento, em qualquer uma das situações. Desesperador.
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