Uma Vida em Trilhos
1 Capítulo Único
Notas iniciais
A ESTAÇÃO
Olha para frente, olha para os lados, olha para cima, olha para suas mãos erguidas.
De um lado, papai a segura firme. Ele é seu herói.
Do outro, mamãe a acaricia com o polegar. Ela é sua protetora.
Você vê o trem se aproximando e seus olhos brilham com expectativa.
Seus pais te ajudam a pular o vão entre a estação e o trem.
Vocês entram.
O TREM
O vagão está cheio. Seus pais te sentam num banco e ficam de pé à sua frente.
Você finalmente observa o ambiente ao redor. Há muitas pessoas lá dentro, muito diferentes. Você se fascina, inicia conversas, brinca, faz amizades.
O trem para e seus pais se afastam. Pela primeira vez, você sente medo.
Eles te olham e sorriem: “Vai ficar tudo bem. Vai dar tudo certo.”
A VIAGEM
“Vai dar tudo certo.” Você confia.
Você retoma a conversa, as brincadeiras. Retoma a vida. Faz mais amizades. Relaxa.
Às vezes, você olha para a janela. Vê um imenso campo verde. Vê a cidade lá ao longe. Vê montanhas. Vê um lago.
Volta a olhar para o dentro do vagão do trem. Você sente a necessidade de mudar.
O trem para e você pergunta para os outros.
“Vamos trocar de trem?”
A ESTAÇÃO
Sai do trem. Alguns amigos te seguem, os outros decidiram ficar mais um pouco. Vocês prometem manter o contato.
Exploram a estação com os olhos. Para onde ir?
Olham os itinerários. Vocês se decidem e alguns se separam. Mas manterão contato.
Esperam ansiosamente a chegada do trem.
Ele chega e você e alguns dos seus amigos entram.
O TREM
O trem está cheio. Lotado. Muitas pessoas. Crianças, jovens, velhos.
Você gosta desse trem, alguns amigos não, mas vai ser uma boa experiência.
Conhecem novas pessoas, fazem mais amigos.
A vida lá é agitada. Você vai a festas. Você se diverte.
Você conhece A pessoa.
E O TEMPO PARA
Tudo fica confuso. Depois tudo fica claro. E parece certo.
Vocês ficam juntos. Se divertem juntos. Sofrem juntos.
Conversam, brincam, brigam, se beijam, brigam novamente, fazem as pazes.
Algo muda e nada é como antes.
Vocês se separam.
Mas, no final, valeu a pena. Ou não.
A VIAGEM
E a vida continua.
Uns amigos se afastam, outros se aproximam.
Seus amigos mudam, você muda. Todos evoluem. Ou não.
Observa ao redor novamente. Vê pessoas conversando, brigando, se beijando. Olha para a paisagem da janela. Ela muda. E você sente a necessidade de mudar de novo. Mudar de trem.
E você sai, mas não sem antes olhar para trás e sorrir. Vai sentir falta disso, mas é o que você quer.
E O TEMPO PASSA
De estação a estação. De trem em trem. Você embarca e desembarca em busca de alguma coisa. Ou de nada.
Reencontra velhos amigos. Encontra novos.
Conhece diversas almas gêmeas que pareciam certas àquela época.
Você avança, retrocede, muda e volta a ser o que era.
Reencontra os pais, reencontra o pai, reencontra a mãe. Descobre um meio-irmão.
Fica um tempo na estação, então decide embarcar novamente.
A ESTAÇÃO
Esperando o trem chegar, olha o relógio.
Ele está atrasado.
Olha ao redor sem realmente ver nada.
Pessoas desconhecidas passam, andam de um lado para o outro, olham o relógio, batem o pé impacientes, secam o suor do rosto com as costas da mão, bufam de cansaço.
Você já fez tudo isso.
Então o trem chega, você olha para frente, as portas se abrem e você entra.
O TREM
Insegurança. É isso o que você sente. Mas você segue em frente.
O trem não está vazio, nem cheio. Você senta no banco. Encara suas mãos ansiosas. E pensa em tudo o que já viveu até agora.
Alguém senta ao seu lado. Você não se importa.
Volta o olhar para frente. Confiança. “Vai dar tudo certo.”
Olha para o lado e seus olhos se encontram.
E O MUNDO PARA
Toda a racionalidade ruiu.
É a sua alma gêmea. Você tem certeza. Tal como das outras vezes, mas essa é diferente. O mundo parou.
Vocês se conhecem, conversam, brincam, se declaram, se beijam, brigam, fazem as pazes, sentem ciúmes, se tornam cúmplices.
De estação a estação, de trem em trem, vocês passam por tudo juntos.
E O MUNDO VOLTA A GIRAR
E vocês continuam juntos.
Vocês mudam juntos, vocês crescem juntos.
Se casam na estação. Viajam pelos trens.
Conhecem pessoas novas, reencontram velhos amigos. Mas sempre juntos.
E têm um filho. E a responsabilidade te assusta.
Mas depois de nove meses de gravidez, você fica feliz.
A VIAGEM A TRÊS
E vocês ajudam seu filho a entrar no trem.
Observam ele brincando, conversando, fazendo amigos.
O repreendem quando briga, o educam. Demonstram o carinho que sentem por ele.
E então você descobre o que seus pais sentiram quando te deixaram pela primeira vez sozinho naquele trem. Orgulho e medo. E confiança.
E quando ele te olha confuso, você repete: “Vai ficar tudo bem. Vai dar tudo certo.”
A ESTAÇÃO
Novamente, vocês estão na estação. Somente os dois dessa vez, juntos como sempre.
A estação está cheia, um caos.
Vocês estão de mãos dadas, se embrenhando por entre a multidão, procurando o itinerário. Decidindo o que fazer agora.
Está cada vez mais difícil e, inesperadamente, suas mãos se soltam.
Você olha ao redor, procurando sua alma gêmea.
E O MUNDO DESMORONA
Vê a pessoa que ama sendo levada por um mar de gente para um trem branco. Você grita por seu nome, você corre na direção dela. Ela te dá um sorriso fraco, tentando te confortar. Ela é empurrada para dentro do trem e as portas se fecham.
Ela está dentro. Você está fora. Você soca a porta, mas é tarde demais.
Pela primeira vez em muito tempo, vocês estão separados.
Pela primeira vez em muito tempo, você se lembra de como é chorar.
O trem parte. E você sabe que dessa vez é para sempre. Aquele trem não volta.
O TREM
E você segue em frente. Pega um trem qualquer, sozinho.
Não sabe se está cheio ou vazio. Não sabe que pessoas estão nele. Olha a paisagem na janela sem realmente ver nada. Está num torpor de dor.
Alguém senta ao seu lado, mas você não se importa.
Um senhor idoso, de cabelos brancos e bengala chama a sua atenção e diz: “Vai ficar tudo bem. Vai dar tudo certo.” E você acredita. Ou pelo menos tenta.
A VIAGEM
Você faz mais uma amizade.
O senhor conta a história dele. E você conta a sua. Vocês trocam experiências de vida. Você recebe conselhos.
Você reflete sobre toda a sua vida até agora e percebe: Você sorriu, você chorou. Você foi feliz, você sofreu. Mas valeu a pena. E você sorri.
Você cresceu, você amadureceu e, finalmente, você seguirá em frente.
A ESTAÇÃO
Saudade. Você sente falta daquele sorriso. Daqueles olhos.
Mas você segue em frente.
Espera o próximo trem, sem pressa.
Observa os casais, observa os pais e os filhos, os jovens e aquele grupo de idosos que mais parecem crianças. Você é um observador agora, mas está satisfeito com isso.
Até que alguém esbarra em você.
SEGUINDO EM FRENTE
E você descobre: É possível amar, aquele grande amor, uma segunda vez.
Vocês sabem que você nunca esquecerá o primeiro amor e que nunca poderá substituí-lo.
Mas mesmo assim, vocês seguem juntos e vocês sentem que estão certos.
E você realmente segue em frente, sem nunca esquecer nada, pois todo aquele passado faz parte de você.
O TREM
Entram no mesmo trem, sentam-se um ao lado do outro no banco.
O trem não estava cheio, nem vazio. Ele era confortável, embora sua aparência não fosse exuberante.
Olha a paisagem pela janela, a chuva que caía, cede. E as nuvens escuras abrem passagem para os raios de sol, criando um arco-íris.
Era a esperança depois da tempestade.
A VIAGEM
Durante toda a viagem, vocês se descobrem. Se tornam amigos, companheiros, namorados.
Juntam os trapos, se casam. Têm filhos. Você completa o ciclo de pais e filhos várias vezes.
Vocês se amam.
Mas nunca se esquece do primeiro grande amor, porque ele é inesquecível.
Ainda assim, você segue em frente, feliz e satisfeito.
A ÚLTIMA ESTAÇÃO
Vocês desembarcam.
A idade te alcançou rápido, mas você não se importa. Você viveu, foi feliz. De fato, houve sofrimento, mas nada que a felicidade não superasse. E agora você está cansado.
Você procura o itinerário.
Vocês se despedem. Essa é uma viagem para uma pessoa só.
E você espera, sozinho, o trem branco chegar. E ele chega.
O TREM BRANCO
E você entra.
Ele é... Exatamente como você esperava.
Branco, claro, simples, acolhedor, confortável, agradável.
Você senta e observa os passageiros. Algumas crianças, alguns jovens, alguns idosos.
Não há janelas, mas ninguém realmente se importa com elas naquele trem.
E você para e pensa por tudo que passou.
A ÚLTIMA VIAGEM
Você se lembra da primeira vez em que ouviu seus pais lhe dizerem: “Vai ficar tudo bem. Vai dar tudo certo.”
E você se lembra de cada trem, cada estação, cada viagem. Cada amigo, amor, filho. Cada alegria e sofrimento. Você se lembra de tudo e sorri.
Tudo ficou bem. Tudo deu certo.
E, no fim, tudo valeu a pena. E você não se arrepende de nada.
E NO FIM
Você só espera o que a última viagem lhe guarda.
Qual será o último destino.
A última parada.
A última aventura.
Você não tem medo.
Você só quer saber o que vem depois.
Todos querem. E todos, de fato, um dia, descobrem.
Até que, finalmente, você descobre. E sorri.
Afinal, sempre vale a pena.
E você não se arrepende de nada.
Fale com o autor