Cure

''Tome meu passado e tome meus pecados

Como um veleiro vazio que pega o vento

E cure, cure

Me cure''

( 2013 — Tom Odell)

*****

Eu me arrasto até ela e me lanço em seus braços a mesma me abraça forte, sua pele continua bem gelada. Eu consigo ouvir as batidas do seu coração que está descompassado. Ritmo cárdico um pouco anormal, porém, talvez seja o medo de estar aqui, o medo de não saber se vai sair desse lugar viva. Depois de um tempo abraçada a ela eu a olho no rosto, tiro sua franja que tampa seu olho direito e encaixo atrás da orelha dela. Noto a cor de seus olhos, eles realmente são de um castanho-escuro tão escuro que chega a ser preto. Sua pele é tão branca que parece um pouco com um papel. Parece que ela nunca mais saiu para vê à luz do dia e sentir sua pele ser aquecida pelo sol, e ficou acabando pálida, mas por outro lado é uma pele bem macia e infelizmente cheia de feridas no rosto e nos braços. Seus cabelos são liso e preto feito ébano, seu corpo é um pouco gelado e eu ainda não entendo o porquê é assim. Camila suspira e diz numa voz suave:

— Deita na minha perna.

Eu deito minha cabeça sob suas pernas dobradas a observo fazer carinho nos meus longos cabelos ruivo. Eu consigo notar ela sorrir de canto, no fundo acho que ela não se sente mais tão sozinha nesse lugar, agora eu estou aqui com ela. Eu pergunto depois de longos minutos tentando refletir na pergunta para não ser indelicada, e resposta que ela provavelmente me dará:

— Por que você é tão fria?

Vejo-a mudar de expressão num piscar de olho, ela suspira engolindo em seco demorando a me responder, certeza que está pensando em como me vai falar sobre:

—O porquê eu não sei, mas possivelmente seja porque eu nunca mais sair desse lugar e só fico aqui dentro nesse cubículo frio, sujo e escuro. Acho que eu estou doente ou algo do tipo. — Acaricia minha bochecha sorrindo.

— Entendi. Entendi agora. — respondo sorrindo para ela não perceber que sei que ela mentiu o verdadeiro motivo.

Ela acena com a cabeça voltando a fazer carinho em meus cabelos voltando a sorrir, para alguém que esta aqui há tanto tempo ela sorri bastante, porém eu já entendi o porquê dos sorrisos, sorrir é uma maneira de esconder seus verdadeiros sentimentos e é isso que ela está fazendo, sorrir para não fracassar para não chorar.

— Você conhece aqueles homens? — pergunto.

— Sim. — suspira.

— Como eles se chamam?

— O primeiro que você viu é o Simon, o barbudo é o Rodrigo, o mais novo é o Augusto e o que fica olhando as câmeras e controlando o ar-condicionado é o Valentin.

Fecho meus olhos lentamente enquanto ela continua a fazer carinho em meus cabelos, observo-a sorrir novamente, porém dessa vez seu sorriso demonstrou o sentimento que ela tanto tenta esconder, consigo ver a tristeza em seu olhar. Ela chega perto da minha testa e a beija sinto algo liquido cair sobre minha testa e eu sei que são lágrimas. Ela está chorando, abro meus olhos a fitando seu rosto está um pouco vermelho e molhado, ela limpa minha testa e diz tentando soar calma, no entanto, sua voz está tremula e um pouco rouca:

— Vai ficar tudo bem, querida. Durma, pode dormir, vai ficar tudo bem. Eu estou aqui com você.

Sorrio de canto abraçando-a e logo em seguida volto a deitar em suas pernas, fecho meus olhos e com ela ali tão perto de mim, eu consigo dormir. Quando sinto que estou preste a entrar na profundeza do meu sonho, ouço algo soar alto me fazendo voltar à realidade, levanto-me de suas pernas assustada com o barulho e olho para Camila, ela já não tem seus olhos em mim, olho na direção que a mesma esta fitando. Ele nós olha com um grande sorriso sarcástico no rosto e exclama:

— Boa tarde, bela adormecida. — olha para mim. — Ora, ora quem vai ser a primeira a tomar banho? — levanta as sobrancelhas pensando.

Eu e Camila nos entreolhamos e logo ele faz um gesto inesperado batendo palma o que faz meu coração dar leves saltos de susto, Simon chega perto de mim falando sorridente:

— Já sei! A novata irá primeira.

Ele pega meus braços e o vejo destrancar a corrente com uma chave pequena levanta-me do chão segurando meu braço com forca, me encosta-se à parede perto da porta e alerta-me:

— Tente algo e você vai se machucar muito está avisado.

Ele sai me arrastando ate a porta coloca sua mão atrás do meu pescoço apertando-a pouco forte e sinto vontade de tirar suas mãos de mim, mas entrelaço minhas mãos para não reagir, pela primeira vez, lá no fim do corredor eu consigo ver a luz do dia já está um pouco escuro lá fora, ele me para de frente ao banheiro, onde consigo sentir a brisa do vento da porta chegar até minhas pernas, ele me diz colocando seus dedos em meu queixo fazendo-me olhá-lo nos olhos:

— Não demore, pegue essa roupa e essa toalha. Se demorar, eu entro ai.

Eu pego a roupa e a toalha da mão dele e observo Rodrigo chegar perto da porta e abrir para eu poder entrar, Simon empurra-me com tudo para dentro do banheiro fechando a porta atrás de mim. Suspiro fundo enquanto tiro a roupa do meu corpo, coloco a roupa suja no cesto de roupa — que por sinal é rosa — ligo o chuveiro e entro debaixo dela a água cai em meu corpo, uma água fria e até mesmo relaxante para todos os meus músculos. Molho meus cabelos enquanto ouço o som da água caindo no azulejo artístico tingido de branco com desenhos pintados de azul-escuro. Enrolo-me na toalha saindo do Box, seco-me e visto uma blusa de cor pálida dourada e um short jeans curto e apertado, o short é de um degrade de azul escuro a azul claro. A blusa ficou um pouco grande em mim, no entanto, dou um jeito de arrumar e deixá-la um pouco mais confortável, amarrando as alças em um nó.

Chego à porta e bato calmamente logo ouço a porta se abrir, ele me olha surpreso e admite:

— Ficou muito gatinha. — sorri maliciosamente.

Meu coração fica disparado e sinto minhas mãos começarem a tremer escondo-a atrás das costas, para ele não vê que demonstrei fraqueza com seus sorrisos maliciosos, ele segura meu braço e leva-me de volta ao quarto que por sinal não é tão pequeno assim como diz Camila, é um quarto escuro com apenas poucas lâmpadas e é um pouco sujo. Ele empurrou-me para dentro e colocou as correntes em meus punhos que já estão ficando avermelhados, o vejo olhar para a blusa que ficou larga, Simon comentou enquanto analisa a blusa:

— Parece que ela ficou grande em você, logo trago outra do tamanho ideal. Não quero vê-la fazendo nós nas blusas, coisa ridícula.

Afastou-se de mim e foi até Camila a soltou e saiu arrastando-a para fora ela olha-me antes de sair pela porta, ouço a porta sendo trancada e assim eu fico ali sozinha sem ninguém para conversar ou sem muito que fazer. Levanto-me do chão e seguro as correntes em minhas mãos e vou até a janela, tento esticar minha mão para pelo menos tentar alcançar a janela, mas além de eu ser baixa demais as correntes atrapalham por causa do peso delas. Suspiro encostando minha cabeça na parede e deixo as lágrimas caírem, estou presa em algum lugar no meio do nada, onde só se escuta o barulho do ar-condicionado e os pássaros cantando lá fora. Será que algum dia eu sairei desse lugar, será que vou sentir o sol aquecer minha pele novamente? Ou simplesmente vou acabar sendo descartada depois de anos trancafiada nesse lugar. Por que isso tinha que acontecer? Por que logo eu?

Sento no chão limpando as lágrimas do meu rosto, logo ouço a porta se abrir a vejo entrar no quarto. Seus cabelos curtos estão molhados consigo vê as gotas caindo sob seus ombros, ela esta usando uma blusa igual a minha, a diferença é que é de outra cor, é de cor pêssego essa cor cai bem nela. Sorrio de canto sentindo-me aliviada de ter alguém comigo nesse lugar, porém eu estou triste de como foi tão difícil para ela ficar nesse lugar dia após dia, noite após noite, sozinha. Seu short é curto como o meu a cor é de um preto indo para um tom cinza. Observo seus pulsos têm hematomas roxos por causa das algemas, logo quem terá os mesmo hematomas serei eu. Ele a amarra e se afasta dela, ele ia saindo, porém ele parou na porta olhou para nós e contou:

— A já ia me esquecendo — sorri. — Tenho uma surpresa muito boa para vocês hoje.

E ele sai. Eu olho para Camila e algo me diz que ela já sabe qual será a surpresa dele. Eu vejo seu olhar triste e no fundo consigo sentir que ela está com raiva, chego perto dela e eu a vejo me abraçar, ela acaricia meus cabelos que ainda estão molhados a sinto suspirar fundo e beijar minha testa e logo em seguida sussurrar em meu ouvido:

— Eu sinto muito.

— O que? — pergunto sem entender o que ela queria dizer.

— Eu apenas sinto muito.

Ela sorri de canto, o mesmo sorriso triste que tenta esconder de mim, mas é inevitável eu não enxergar. Eu vejo seus olhos se encherem de lágrimas e logo eles começam a descer pelo seu rosto, ela beija minha testa e novamente sussurra:

— Sinto muito.

A mesma começa a chorar em meu ombro, eu a abraço forte tentando fazê-la parar de chorar. Eu deito minha cabeça em suas pernas e ela volta acaricia meus cabelos, fecho meus olhos tentando prestar atenção só em seus toques delicados em meu couro cabeludo. Tentando não imaginar o que me espera por que se ela esta a chorar, coisa boa não vai ser e eu sei que nada poderei fazer para impedir.

Abro o portão de minha casa que faz um rangido estranho, olho para o céu e está de noite fico preocupada de meus pais ouvirem que provavelmente cheguei à casa muito tarde. Abro a porta e consigo vê meu pai no sofá assistindo noticiário, eu o vejo olhar para mim e em seguida voltar os olhos para a TV. Suspiro me sentindo aliviada de que ele, pelo menos, não está bravo comigo. Vejo minha mãe secando as mãos com o pano de prato e a vejo olhar em minha direção, mas ela também não fala nada o que acho estranho. Entro em meu quarto e me vejo deitada na cama vendo a rede social no notebook, chego mais perto dela e me agacho pousando meu corpo sobre a cama e vendo com quem a minha duplicata está conversando, observo o sorriso estampado no rosto dela e sorrio de canto ao vê o porquê de eu estar sorrindo, falar com ele me transmite paz, conforto e uma felicidade fora do normal, ele é umas das poucas pessoas que confio no mundo e eu acredito cegamente que nossa amizade nunca irá morrer. Eu sei que o que estou vendo não é real e que tudo que estou vendo é só um maldito sonho. Observo minha mãe encosta-se a batente da porta observando-me conversando e rindo, ela está muito feliz coisa que é um pouco raro eu vê em minha mãe. Nós duas estamos muitos felizes e bens com nós mesmos. Eu consigo sentir a minha felicidade transbordar por cada parte do meu corpo e por um lado eu quero estar com minha mãe abraçá-la e beijá-la até meus lábios doerem, entretanto, sei que nunca mais vou poder fazer isso como eu fazia aos cinco anos de idade. E agora eu sei por que eu estava feliz demais, eu sou uma criança de cinco anos, a linda garotinha ingênua que não via maldade em nada. Viro-me em direção a porta e vou até ela, sorrio de canto e piso na calçada — o que foi um erro — e acabo caindo no abismo que ali se encontrava.

Eu acordo em um sobressalto, volto deitar minha cabeça nas pernas dela e a mesma continua acaricia meus cabelos. Sorrio de canto enquanto a observo ela me lembra a minha mãe, não na aparência, mas sim no modo de agir no modo de ser carinhosa, é como se minha mãe estivesse comigo nesse exato momento. Logo eu percebo que estou chorando a vejo limpar as lágrimas que insistem em continuar a cair de meus olhos. Observo o quarto e vejo as luzes fluorescentes no telhado se acenderem suspiro deduzindo que já está anoitecendo e que não está muito longe da surpresa aparecer pela porta. Meus batimentos aceleram cada vez mais. Camila me faz ficar do seu lado ela segura minha mão entrelaçando-as. Observo-a e a vejo colocar seu dedo indicador sobre os lábios em gesto de silencio eu concordo com a cabeça e eu olho em direção a porta que lentamente se abre, e infelizmente ele não está sozinho os amigos vieram fazer companhia. Vislumbro Simon sorrir maliciosamente para mim, Camila aperta cada vez mais minha mão e eu posso sentir que ela está nervosa e com medo ao mesmo tempo. Simon Lembra:

— A surpresa chegou. E... Somos nós.

Não preciso olhar para Camila para ver em seu rosto o que eu não enxerguei antes, eu soube ali mesmo o que iria acontecer comigo. Ele se agacha a minha frente fica me observando por alguns segundos, o vejo passar a mão pela minha perna indo em direção a minha barriga, no momento que ele tenta tocar a minha barriga eu desfiro um tapa em sua mão franzindo minhas sobrancelhas. Ele volta a sorrir maliciosamente e em um salto o vejo agarrar meu queixo apertando-a com força ele beija minha orelha e sussurra:

— É melhor você ser uma boa menina ou as coisas ficarão complicadas para você.

— Babaca. — respondo cerrando meus lábios de raiva.

Ele solta minha mão de Camila me pega pelos cabelos e me empurra para a cama que colocarão para eu poder dormir, eu sinto meus joelhos latejarem com o impacto. Ele por fim sobe em cima de mim, Simon ri no tempo em que eu me debato debaixo dele tentando me soltar de suas mãos imundas que passam pelo meu corpo todo. Entretanto, eu sei que tentar não vale à pena sei que mais cedo ou mais tarde lutar contra isso não vai ter bom resultados, eu estou presa nesse lugar e isso é simplesmente inevitável de não acontecer. Eu tento com todas minhas forças tira-lo de cima de mim, mas eu não sou tão forte para impedi-lo de me machucar de tal forma que eu nunca vou me recuperar. No final ele me vence, se eu fui fraca? Sim eu fui, porém foi inevitável. Eu tentei de tudo, nós tentamos de tudo para isso não acontecer.

***

Meu corpo inteiro dói junto com a minha mente que fora destruída. Eles acabaram comigo, destruíram nós duas, fazendo a gente carregar a culpa e o tormento de todas as vezes que isso aconteceu e não podíamos nem se quer impedir de acontecer. Acabou com nossas vidas. Viro-me de costa para Camila que acaricia meus cabelos com pressa, sinto lágrimas brotarem em meus olhos não consigo tirar da minha mente os abusos que todos eles fizeram comigo, os palavrões que disseram durante o ato, à dor que sinto todas as vezes que o abuso tem que acontecer. Eu não tenho paz nem mesmo em meus sonhos, só existe pesadelos atrás de pesadelos. Eu estou completamente acabada cheia de dores e feridas que nunca mais irão se cicatrizar. A primeira vez que isso aconteceu doeu muito de eu não conseguir parar de chorar, ele dizia coisas horríveis em meus ouvidos o que me fez chorar ainda mais. Mesmo depois do ocorrido eu sempre choro por causa da dor que isso causa em mim, por ter deixado acontecer, por me sentir tão suja por dentro e por fora. E não adianta quanto banho eu tome, a sensação de estar suja nunca passa. Eles arruinaram minha vida quebraram de vez qualquer chance de eu voltar a ser o que eu era, o que sobrou de mim agora? Sou apenas uma casca do que eu fui. Agora sou uma garota frágil tentando se encontrar novamente no meio de tanta dor.

Três meses depois

Eu já fiz 14 anos, perdi meu aniversario de 14 anos o que eu tenho certeza que meus pais sofreram demais nesse dia. Eu contei cada dia que eu passei nesse maldito lugar, porém acabei perdendo a conta no quadragésimo dia ou quadragésimo segundo, já nem lembro mais. Eu e Camila já ficamos bem mais próximas, sei todos os seus segredos e até o dia em que ela foi sequestrada. 16 de novembro de 2012. Faz cinco meses que ela está aqui, cinco meses sendo maltratada tanto fisicamente como psicologicamente. Eu e ela viramos melhores amigas, eu já a considero como uma irmã mais velha e não vejamos a hora de saímos daqui e encontrar nossas famílias e assim tentar voltar a nossas vidas e superar com o passar dos anos todas as torturas que passamos, sei que seremos difícil nós duas superar, por simplesmente, ter passado tanto tempo vivendo nesse galpão nem todas as feridas irão cicatrizar-se.

Já estou cansada desse lugar, cansada de sofrer tanto, no entanto, tenho que ser forte para quando finalmente fomos libertadas e dessa forma poder viver a verdadeira vida que estamos perdendo a cada dia presas aqui, subsistir a vida que tanto desejamos. A vida que, de certa forma, pensamos que nunca chegaremos a vivê-la outra vez.

Notas finais
Olá? Tudo bem com você? Espero que sim! ♥ O que achou da historia? Legal né. ♥