Uma Valsa
1 Único
Notas iniciais
Bervely se arrastou de volta às masmorras, deixando as pernas fazerem o caminho que já conheciam de cor. Depois das sucessivas injeções de adrenalina daquela noite e do breve cochilo na enfermaria, estava exausta, mas sem nenhum sono.
Uma vez em seu quarto, sentou-se na própria cama e as mãos foram direto para o espelhinho no criado-mudo. Ela hesitou. Imaginou que seria inútil tentar falar com ele àquela hora da manhã, mas acabou tentando mesmo assim.
— Regulus? Você está aí?
Sua voz soou instável aos seus ouvidos. Bervely esperou, os molares cravados no interior das bochechas, o peito queimando de antecipação. Quando o rosto dele surgiu no espelho, ela percebeu que estivera segurando a respiração e a soltou de uma vez só.
— Aí está você — ele disse, a voz entusiasmada até ler a expressão no rosto dela. — O quê há de errado?
Ela balançou a cabeça, sem querer preocupa-lo.
— Nada. Não tem nada errado — afirmou, soando quebrada e exausta. — Só queria... só queria ver você antes de ir para a cama, acho.
Ele a contemplou com uma expressão insondável, então assentiu.
— Também queria, estou feliz que me chamou. Como foi a sua noite?
Bervely delirou sobre que tipo de magia ela precisaria usar para atravessar o espelho e sair do outro lado, do lado dele. Como na noite em que Narcissa morrera, a única coisa que a prevenira de se desfazer em pedaços tinha sido a presença de Regulus, os braços dele em torno do seu corpo, ancorando-a. Desejou que pudesse tê-lo aquela noite também, e nas noites depois daquela. Então estremeceu, presa entre a vontade e a impossibilidade de que aquele desejo se realizasse.
Percebendo que estivera em silêncio por longos segundos, pigarreou para o que pretendia ser um tom casual de conversa.
— Foi meio estranha.
— Ah, é? Estranha como?
Ela hesitou, bem consciente de que horas eram e de que o dia dele terminava quando o dela começava.
— Devo preveni-lo de que é uma longa história.
Ele sorriu, imperturbável.
— Eu sou imortal, Bev. Tenho todo o tempo do mundo para ouvir sua história.
As palavras colocaram uma sensação morna no seu estômago e um arrepio em seus braços.
— Espere aqui, volto já — ela disse e deixou o espelho sobre a cama.
Primeiro foi ao banheiro e lavou o rosto, então se livrou dos sapatos que massacravam os seus pés, chutando-os para um canto do quarto. Considerou se livrar do vestido de festa, mas mudou de ideia. Estava cansada de falar quase sempre em seus pijamas.
De volta ao quarto, fechou as cortinas sobre a janela em escotilha, diminuiu a luz da lareira para uma pequena chama tremulante e subiu em sua cama, trazendo o espelho para a altura do rosto.
— Pronta para dormir? — Ele sorriu quando a viu de volta.
— Não realmente — Bervely inclinou o espelho, mostrando que não estava em seus pijamas. — Não estou com sono.
— Você estava prestes a me contar uma história — Ele lhe lembrou, um brilho interessado nos olhos claros.
Bervely se acomodou melhor entre os travesseiros e começou a contar a noite anterior, começando do momento em que Draco a tinha procurado nas masmorras para falar sobre a festa. Regulus ouvia sem interromper, mas sua expressão acompanhava a explicação. Ele achou graça da ideia de uma festa de São Valentim nas masmorras e franziu o cenho com reticência quando Bervely explicou a teoria de Draco, de que os Sonserinos pretendiam causar problemas. Um olhar incrédulo surgiu em seu rosto quando ela lhe contou sobre o seu plano de se infiltrar como adolescente.
— Isso explica o vestido — ele disse, num tom divertido. — Achei bem juvenil para os seus padrões atuais de guarda-roupa.
— Não enche — ela disse, as bochechas esquentando. Mas ele negou com a cabeça, o sorriso de lábios fechados se ampliando.
— Não, eu gosto. Queria poder dar uma boa olhada nele.
— Não tem nada demais — ela insistiu, o que só aumentou o brilho de diversão nos olhos do vampiro.
— Tem alças. Deixa o seu colo exposto.
— Isso é tudo que importa para você? Um acesso desimpedido ao meu pescoço?
— Não tudo — ele disse, e completou com um pequeno dar de ombros. — Eu só disse que gosto do conceito de alças. Mas, continue sua história. O que aconteceu na festa?
Bervely continuou, chegando ao seu encontro e dança com Oliver. Ela pensou por um momento em deixar isso de fora – não era essencial para o entendimento na crise da noite – mas mudou de ideia. Se nada, queria ver se encontraria algum sinal de ciúmes em seu rosto.
— “Me diga com quem dormiu a noite passada”, era o nome da música — Ela se lembrou. — De algum grupo chamado Nirvana. Já ouviu falar?
Regulus não respondeu sua pergunta.
— Você gostou?
— Da música?
Os olhos dele pesaram nos seus, atentos.
— De dançar com ele. O seu amigo.
Ela hesitou. Mesmo agora, o fantasma do toque de Oliver em sua cintura queimava, como se tivesse deixado uma impressão em seus nervos. Mas, ela sabia que aquilo não era sobre Oliver. Era sobre há quanto tempo ela não era tocada de maneira nenhuma, por ninguém, e como as suas conversas com Regulus a deixavam ardendo em lugares que ela queria que fossem alcançados. Por ele.
— Uma garota tem suas necessidades — Foi a sua resposta, com um pequeno dar de ombros.
O olhar dele poderia cortar vidro, mas era difícil saber se estava ou não irritado. A dureza em seu maxilar sugeria que ele estava… alguma coisa.
— Continue a história — ele pediu, inescrutável. — O que aconteceu depois da dança?
Ela continuou contando sobre a banda e as luzes se apagando e os gritos começando. E a fonte dos gritos.
— Cobras multiplicadoras? — Regulus a interrompeu pela primeira vez. — Venenosas? Que tipo de pessoa leva isso para dentro de uma escola?
— Eu sei. E estavam enfeitiçadas para atacar mestiços e nascidos-trouxa. Magia negra aperfeiçoada pela adorável Casa Greengrass, muito provavelmente.
Regulus ficou em silêncio por algum tempo, considerando. Bervely se pegou admirado a linha séria e reta do queixo dele, o contorno delgado do pescoço branco e longo sumindo pelo colarinho das vestes do que ela achava ser veludo negro. Lugares que ela queria morder e lamber e sentir de novo. Os olhos de Regulus encontraram os seus e o que quer que ele estava prestes a dizer sobre as serpentes multiplicadoras se perdeu quando ele viu a expressão em seu rosto.
— Tudo bem? — Ele perguntou num tom mais baixo do que antes, mais lento e especulativo. Os pêlos do braço de Bervely se eriçaram com a lembrança daquele mesmo tom de voz raspando em seu ouvido enquanto as mãos dele corriam pelo seu corpo, no que parecia ter sido há uma eternidade.
— Tudo — A sua voz também saiu rouca, consumida pelo calor de sua vontade.
— Continue — ele pediu, os olhos presos nos dela. — O que aconteceu depois?
— Eu… — Bervely tentou organizar os pensamentos, a boca seca. — Ajudei a evacuar as masmorras e acompanhei as vítimas até a enfermaria. Potter conseguiu capturar uma das serpentes, então eu fiz um antídoto.
— Você fez um antídoto? Do nada?
— Não do nada — Ela piscou, tentando se lembrar que importância tinha aquilo, naquele momento. — Eu debridei o veneno e usei os princípios da Terceira Lei de Golpalott para combinar os ingredientes corretos com o ingrediente adicional necessário para neutralizar a fórmula, que aconteceu de ser…
Ela se esqueceu do que estava falando, o olhar de Regulus cravado tão intensamente no seu que ela precisava se concentrar para respirar. Ela apertou as pernas uma na outra, dobradas em frente ao corpo, puxando ar devagar, tentando aliviar o aperto da necessidade que pulsava em suas entranhas.
A história. Se concentre na história, lembrou a si mesma.
— Pó de chifre de bicórnio. O ingrediente adicional. Bem óbvio, quando você pára para pensar a respeito.
Ele sorriu como se aquilo fosse de alguma forma engraçado.
— Eu tenho um amigo em Gomorra que adoraria conhecer você.
— Quê? — Ela perguntou, perdida. Do que ele estava falando?
— Um amigo alquimista — ele esclareceu. — Você deve conhecê-lo de suas leituras, um certo Sir. Linfred de Stinchcombe?
Bervely sentiu a parte racional remanescente do seu cérebro sacudir o resto dela com violência. Seus olhos se alargaram:
— O Sir. Linfred de Stinchcombe? O inventor de Esquelecresce? Como…? — Então ela se deu conta de como um alquimista nascido no século doze poderia ser amigo de Regulus. — Ele é um vampiro?
Regulus sorriu, não o sorriso provocador de antes, mas um amplo e divertido que mostrava os caninos afiados por detrás dos lábios pálidos.
— Esse mesmo. Achei que estaria interessada.
Bervely se sentou mais reta na cama, eletrizada com a informação.
— Mas o quê! Como… por quê? Ele foi um dos alquimistas mais proeminentes do século doze! Um dos primeiros a fazer uma fortuna comercializando poções para o mundo inteiro! Ele é… ele ainda…?
— Uau. Eu não estava esperando deixar você tão excitada assim. Suponho que eu deveria passar o espelho para Linnie, vocês claramente têm muito o que conversar.
— Não seja ridículo — Ela se deteve, o coração disparado, o rosto quente. — Eu só… eu admiro o trabalho dele, só isso.
— Posso lhe conseguir um autógrafo — completou Regulus com um risinho.
— Não enche — ela resmungou, mas no fundo queria mesmo que ele conseguisse. Talvez ele tivesse visto isso em seu rosto, porque completou:
— Vou ver se ele assina algum livro velho para você. Mas, você tem que manter segredo. A comunidade bruxa não é suposta a saber que ele ainda está… ativo.
— Eu não vou contar a ninguém — ela prometeu, ainda chocada. Regulus deu outro de seus pequenos sorrisos, de quem sabia muito mais sobre o que estava passando em sua cabeça do que Bervely gostaria de admitir.
— Então, você fez o antídoto e salvou a vida de todos os afetados? Mais um dia comum na vida de Bervely Black. Hogwarts deveria abrir uma quinta casa em seu nome, sinceramente.
Ela rolou os olhos para o exagero.
— Não é bem assim. Digo, foi por pouco. Eu tinha tantas chances de conseguir fazer o antídoto ou falhar miseravelmente e matar todos eles.
— Mas você não falhou — ele disse, de novo sério. Ela mordeu o lábio inferior.
— Não. Não dessa vez.
— Bom trabalho.
A nota de orgulho na voz dele a deixou toda quente por dentro de novo, e Bervely se permitiu um sorriso de gratidão. Os olhos dele se suavizaram, movendo-se por seu rosto, talvez tentando capturar o que se passava em sua cabeça quando ela ficava em silêncio. Às vezes ela achava que Regulus era bom demais naquele jogo de adivinhação, melhor do que alguém com quem ela convivera tão pouco deveria ser.
— Você deve estar exausta — ele disse por fim, ou pouco pergunta, um pouco constatação.
— Sim — ela admitiu, mesmo agora sentindo o corpo pesado, os músculos das costas e das pernas doloridos pelo tempo de pé diante do caldeirão, tensa com a possibilidade de falhar e matar os estudantes envenenados na enfermaria. — Mas, não estou com sono.
— Nem eu — ele brincou, fazendo-a sorrir. Ele sorriu de volta, num reflexo fácil, inevitável. — Por que não se deita e fica confortável? Vou fazer o mesmo. Eu estava indo para a cama quando você chamou.
Ela assentiu.
— Só um segundo, vou tirar o vestido.
Bervely deixou o espelho no criado-mudo e arrancou o vestido apertado do corpo, jogando-o numa bola ao lado da cama. Não fez menção de pegar a camisola, no entanto. A sua roupa de baixo – um conjunto preto sem detalhes especiais, perfeitos para não marcar sob o vestido – eram bons o suficiente para dormir. Puxou o cobertor até os ombros e pegou o espelho de novo, dessa vez deitada de lado, segurando-o com uma mão só, a outra dobrada sob a cabeça para apoiar o rosto.
Regulus estava deitado em sua cama, com a cabeça apoiada em um travesseiro com aparência macia. Ela teve um vislumbre de sua clavícula quando ele se moveu para se ajustar melhor, o que significava que também tinha se livrado das vestes de veludo e não a substituiu por outra coisa. Bervely imaginou o quanto dele estaria descoberto, o que fez renascer o calor pulsante no centro de seu corpo. Ela não lutou contra ele, dessa vez. Estava cansada demais para isso. Só queria continuar ouvindo a voz dele, deixando que entrasse pelos seus ouvidos como mel e deixasse as suas articulações moles e o seu centro quente.
— Como foi o seu dia? — Ela perguntou num tom baixo, agora que o espelho estava bem perto do seu rosto. — Como os vampiros celebram São Valentim, de toda forma?
— Não celebramos. E acredite ou não, não salvei nenhuma vida em risco hoje com minhas incríveis habilidades em alquimia.
— Você deveria se envergonhar — ela zombou. — Então o quê? Mais um dia como qualquer outro?
— Mais ou menos. Bastante trabalho… e fiquei esperando você aparecer para torná-lo mais interessante, mas como não tive essa sorte — ele fez um pequeno movimento de “fazer-o-quê” com os ombros e a cabeça.
— Mas eu estou aqui agora — ela ofereceu, num tom preguiçoso de consolo.
— Você está — Regulus concordou, mas havia uma ressalva em sua voz. Algo o incomodava. Bervely sondou o rosto dele, tentando descobrir o que poderia ser, mas não conseguiu nenhuma pista.
— O que foi?
— Não é nada — Mas ao contrário do que costumava fazer, Regulus não se esforçou para esconder a expressão com uma neutralidade fora do alcance, o que fez Bervely pensar que ele queria que ela insistisse.
— Me conte. Eu conto tudo a você. Tem que ser recíproco, é como funciona.
— É como o quê funciona? — ele perguntou, obviamente para ganhar tempo.
— O jogo do espelho.
Isso o fez dar um sorriso distraído. Um sorriso de garoto, ela pensou. Às vezes era fácil esquecer o quão mais velho ele era, especialmente quando Regulus não estava tentando parecer maduro e no controle da situação e deixava as suas emoções aparecerem em seu rosto. Suas emoções eram simples, juvenis. Confiáveis. Ela se pegou desejando que ele as deixasse transparecer com mais frequência.
— Você não me conta tudo — ele devolveu, de novo, ganhando tempo.
Bervely torceu o canto da boca, sentindo-se quente e confortável no abraço do lençol, mas ainda com aquela agonia de necessidade pulsando dentro dela, como um animalzinho inquieto, cuja fome crescia e a quem só era dado migalhas.
— O que eu não te conto, Regulus? — Ela suspirou. Tinha certeza de que o que ela não contava com palavras, ele via em seu rosto. Ela nunca fazia um esforço monumental para disfarçar nada, nunca tinha conseguido, desde que tinham se conhecido naquela noite de dia das bruxas.
Regulus não respondeu. Bervely não ficou surpresa. Aquela era a linha implícita que eles tinham decidido não cruzar. Um de cada lado eles seguiam, empurrando e testando e provocando aquela barreira invisível de acordo mútuo, com as suas provocações e flertes e comentários e olhares longos e significativos, mas nunca dando o passo para o outro lado, nunca verbalizando o que as entrelinhas gritavam.
— Feche os olhos — ele pediu, na voz baixa e macia que lembrava a ela da primeira noite. Do mágico de Oz, fazendo o seu corpo acordar e responder para ele como nunca tinha respondido para ninguém, antes.
Ela obedeceu. O mundo ficou escuro, só a voz dele para guiá-la.
— Se eu estivesse com você essa noite, nós teríamos dançado — ele continuou, baixinho. O tom era de quem lhe contava uma história secreta. — Não essa música estranha que os adolescentes ouvem hoje em dia… uma valsa.
— Uma valsa. Que… tradicional — ela caçoou, sorrindo com os olhos fechados. Ali estava o que queria ouvir na voz dele antes, uma admissão. Ele se importava que ela tinha dançado naquela noite, e não com ele.
— Não há nada errado em um pouco de tradição. — Bervely achou ouvir a sombra do sorriso em sua voz. — Sei exatamente qual… a Valsa Noturna¹. Já a ouviu?
— Não ando tendo muito tempo para música clássica, nos últimos tempos — ela admitiu, num tom de troça irresistível.
— Pena. Quem sabe um dia não mostro a você.
Bervely abriu os olhos, curiosa.
— Você toca algum instrumento?
— Não… mas eu tenho uma vitrola que toca o que eu colocar nela.
— Hum. Quanto charme.
— Feche os olhos, Bervely — ele a advertiu, num tom autoritário que mandou arrepios por sua coluna. Bervely obedeceu, dessa vez com mais afinco. Ia se entregar à voz dele, se era o que Regulus queria dela.
— Eu a seguraria firme contra o meu corpo — ele continuou. — Fazendo-a se mover junto comigo, como se fossemos um corpo só. Obedecendo a música. Entrega completa, nenhuma hesitação. Como manda o jogo.
Ela mordeu o interior das bochechas, sentindo o calor aumentar, lembrando-se da sensação tão recente e firme do corpo de Oliver contra o dela, enquanto dançavam nas masmorras. Ela imaginou que tinha sido ele, e não Oliver, a girá-la devagar pelo salão, uma mão na base de sua cintura, a outra segurando a sua, ambas irradiando calor contra a sua pele. Não era uma imaginação difícil. Era tão fácil que era quase um pedido na ponta da sua língua.
Venha até aqui e dance comigo.
Sabia que não estava fazendo o menor sentido. Também sabia que não precisava dizer em voz alta, ele podia ler o pedido em seu rosto. No vinco entre as sobrancelhas, nos lábios apertados, na respiração se acelerando.
— Eu me inclinaria para sentir a sua pele — continuou Regulus, naquele voz baixa e rouca que prometia muito mais do que as suas palavras significavam. — Toda a pele exposta pelo seu vestido de alças. Eu sentiria o seu cheiro e a pulsação do seu coração em sua garganta. Primeiro batendo no ritmo da música e então, sob os meus lábios, se acelerando como se quisesse me dizer alguma coisa.
Nisso ele estava certo: ela podia sentir o seu coração se acelerando agora mesmo e não era segredo nenhum o que estava querendo dizer para ele. O ritmo era o mesmo da pulsação entre as suas pernas.
— Eu me pergunto o que poderia ser — ele murmurou, num tom de provocação. Parecia mesmo que ele estava sussurrando contra a sua pele. Com os olhos fechados e a voz tão próxima, era difícil conceber que ele estivesse a quilômetros de distância.
— Regulus — ela suspirou, chamou, pediu, tudo encapsulado no som do nome dele.
— Não fale nada. Me deixe ouvir o que o seu corpo está dizendo.
Ela expirou o ar com agonia, trazendo o espelho para mais perto, contra a pele exposta do colo, entre os seios. Ele não podia mais vê-la, mas talvez pudesse ouvir o que queria, com a sua audição apurada de criatura das trevas. Devia poder ouvir a sua respiração acelerada, o peito subindo e descendo rápido, o ar assobiando quente para fora dos lábios. O coração disparado, talvez até o sangue pulsando em suas veias, irrigando as partes mais ao sul do seu corpo.
Bervely deixou o espelho repousando contra a pele e correu a mão livre pela lateral do seu corpo devagar, começando pelas costelas descobertas. Ela passou os dedos sob o sutiã e massageou o seio esquerdo, o mamilo endurecido, a pele arrepiada respondendo com arrepios. Um pequeno suspiro cortou sua respiração, e ela o mordeu a meio caminho de deixar os seus lábios, o que só serviu para deixá-lo ainda mais óbvio. Supunha que ele podia ouvir o raspar suave de sua mão contra a sua pele, o farfalhar da coberta se deslocando com movimento de sua mão. Talvez pudesse até mesmo ouvir a diferença do atrito que os seus dedos fizeram contra a pele do seu ventre, comparados àquele de quando ela tocou o tecido da calcinha. Seco sobre a pélvis, então úmido entre as suas pernas.
— Regulus — ela chamou de novo, a voz pequena e recortada. — Você pode ouvir?
— Sim — ele confirmou, também soando grave e alterado. — Sim, é claro que eu posso.
— Ainda estamos dançando? — Ela perguntou sob a respiração, para que ele continuasse falando com ela.
— Bem que eu gostaria — Foi a resposta através do espelho, rouca. — Eu amo… essa música.
Ela sorriu, os olhos ainda fechados, sentindo-se encorajada a tocar-se por baixo da calcinha. A ideia de que ele podia ouvir a fricção dos seus dedos contra a sua intimidade só a deixava ainda mais molhada. Ela evocou as memórias que tinha de Regulus – inclinado entre as suas pernas, devorando-a com abandono, os cachos negros roçando as suas coxas, as mãos pálidas e fortes segurando as suas pernas abertas… o seu corpo vibrou, uma onda de prazer se acumulando sobre a outra, outro gemido interrompendo sua respiração agitada, exceto que dessa vez ela nem tentou reprimí-lo.
— Você tem alguma ideia… — ele começou, mas então se interrompeu com um suspiro, ou foi um gemido? Ela apertou os olhos, o espelho frio contra a pele, imaginando se ele estaria se tocando também, do outro lado. Soava como se estivesse. Não tinha a audição apurada de vampiro, mas a voz dele soava entrecortada.
Ela o imaginou em sua cama em Gomorra, todo músculos longos e duros, tensos de necessidade, os olhos azuis queimando sob os cílios cheios e negros, a boca que se tornava vermelha e faminta quando o coração dele acordava. Até a lembrança das pupilas em fendas, aquele sinal sutil de que ele não era humano, a deixava quente e desejosa. Ela se viu cobrindo o corpo dele com o seu, compartilhando o calor que a consumia com ele, em torno dele, quando ele se enterrasse fundo, os seus quadris se movendo juntos…
— Sim — ela murmurou, sentindo que a combinação da voz dele, da sua imaginação e da fricção dos seus dedos a lançavam rapidamente para a borda do abismo. — Sim, eu faço.
— Me deixe ouvir, então — ele pediu, sabendo exatamente para onde ela estava indo. Talvez estivessem indo juntos, no mesmo passo. — Me deixe ouvir que você não me conta.
Ela mordeu um sorriso, apertando as pernas uma contra a outra com mais força, contraindo-se, mergulhando os dedos no calor apertado do seu corpo, o que pedia por ele sem poder tê-lo. Exceto que em sua imaginação ela o tinha, cada parte dele, não só a voz fantasmagórica através de um espelho, mas o seu corpo, o sorriso, os dentes, as mãos, a pele, o cheiro, a fome com que a tinha tomado para ele, reivindicado cada partícula dela…
Ela ofegou, o corpo tomado por um orgasmo violento e antecipado, como uma represa que explodia no meio da noite, afogando uma vila inteira. Os tremores a sacudiram do epicentro até as pontas dos dedos, os ouvidos zunindo, o ar roubado dos seus pulmões. Ele disse alguma coisa que ela não entendeu, ainda atordoada e com o sangue pulsando em todos os lugares, mas não importava, o que importava era o tom da voz dele, morno, carinhoso, cobiçoso, ardente. Tudo ao mesmo tempo, fora do alcance e bem ali, perto do seu ouvido, um sussurro no escuro.
Por longos minutos só ouve o som da respiração dela, se acalmando aos poucos. Ela teve a impressão de que ele queria ouvir isso também – era parte da música, era o fim da valsa. Então não disse nada. Respirou para ele. Talvez estivesse ficando maluca… talvez os dois estivessem.
— Regulus? — Ela chamou, ainda com os olhos fechados. O espelho caíra ao seu no colchão, mas ela não o recuperou. Preferia fingir que ele estava ao seu lado, em algum lugar perto o bastante para tocá-lo se estendesse o braço só um pouquinho.
— Sim, Bervely? — Ele respondeu com prontidão. Tanta coisa em sua voz… Era a voz de um amante sussurrando em seu ouvido, pouco importava se estivesse ali ou há milhares de quilômetros.
— Eu posso cair no sono a qualquer momento — ela murmurou, o corpo mole cada vez mais pesado entre os cobertores. — Só queria que ficasse avisado.
— Não tem problema.
Ela caiu no sono quase imediatamente, embora uma parte dela ainda soubesse que ele estava ali com ela. Que não ia para lugar nenhum, não aquela noite.
— Feliz dia de São Valentim, amor — Regulus murmurou, embora soubesse pelo ritmo cadenciado da respiração de Bervely que ela não estava mais ouvindo.
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