Uma Stark, Um Lannister
6 Velymir
Notas iniciais
Tinha tido a impressão de que já conhecia Lyannia Stark. Comentara isso com Daeon uma ou duas vezes, mas estava quase certo de que a conhecia. Puxou o Senhor do Rochedo pelo manto carmesim e foi ao encontro de Pyers Targaryen. Chegaram ao estrado onde ecoavam muitas conversas regadas a hidromel e cerveja, mas nada muito importante.
– Pyers, vamos dar uma volta. Aqui está desconfortavelmente fedido a álcool – Velymir Arryn tinha dezenove anos, mas detestava o cheiro do álcool e o efeito dele sobre as pessoas. Quase cogitou se afastar de Daeon – que já tinha bebido algumas taças dos vinhos da Árvore -, mas o odor do vinho era suave e doce; era suportável.
– Nos encontramos então na Mesa de Pedra. Deixem-me apenas avisar Mattys – o jovem e corado Targaryen afastou os amigos com um movimento de sussurrou uma coisa qualquer nos ouvidos do rei. Pediu licença a todos e a qualquer um e deixou o estrado com Daenya se acomodando sobre seus ombros.
Estavam sentados sobre a Mesa de Pedra havia quase uma hora quando Pyers apareceu. Cumprimentaram-se com alguns insultos e se esticaram sobre a pedra polida. A Mesa de Perda se situava no centro da antiga praça do Castelo de Maegor. Com doze metros de diâmetro, era na verdade um altar vazio com runas da Antiga Valíria cunhadas na lateral. Foi a forma da Rainha Daenerys mostrar aos Sete Reinos que todos os deuses do mundo poderiam ser encontrados ali. Mas para Velymir, Pyers e Daeon, era o lugar onde se escondiam do mundo na infância.
Velymir ainda lembrava do dia em que Pyers levara uma surra do irmão Jon por ter perdido a Noite Eterna. A espada era conhecida como a única feita com gelo selvagem, um metal ainda mais resistente e leve que o aço valiriano. A espada dupla havia sido encontrada junto com o Berrante de Joramun, a Rosa das Sombras, a Víbora Vermelha, a Rede de Ferro, o Fogodedragão, A Espinha do Vale e a Garra Dourada, as armas dos Oito Reis (os selvagens também foram colocados nessa contagem pela Rainha).
Naquele dia, encontraram Pyers encolhido no centro da Mesa de Pedra, com hediondos hematomas violetas na pele branca do rosto e dos braços, e uma vermelhidão no pescoço que depois ficaram sabendo se tratar de uma tentativa de enforcamento. Ao contrário de Jon Snow, o bastardo mais digno do Norte, Jon Targaryen era desonrado como fora o rei rapaz Joffrey Baratheon; e mais cedo havia sido tomado pela mácula, tal como o bisavô Aerys. No fim, o rei Barristan cortou um dedo do próprio irmão para lavar a honra do caçula.
Quando acordou da lembrança, Velymir Arryn viu que Mattys Snow também se juntara ao grupo, e havia trazido consigo Lyannia Stark. A garota havia se debruçado sobre um maço de pergaminhos com pena e tinteiro, e quando se aproximou, viu que ela desenhava um corvo, um lobo gigante e um falcão.
– Seus traços são graciosos – se ouviu dizendo -, Lyannia, é isso?
– É bem sabido que não recorda de mim, não? – ela sorriu de um jeito estranho.
Só então se deu conta de que os animais eram símbolos de Casas e o corvo da Patrulha da Noite.
– Recordar? Eu devia... – e um estalido irrompeu a memória de Velymir. Era uma noite da segunda Falsa Primavera. Devia ter cinco ou seis anos e havia levantado na calada da noite para espreitar as cozinhas. Foi quando ouviu uma pequena comitiva entrando pelo Portão do Norte. Correu de volta para o quarto temendo que Barristan o procurasse e acabou caindo no sono. Na manhã seguinte, durante o desjejum no salão das cozinhas, notou uma criança que parecia ter a mesma idade que ele. Cabelos claros, rosto redondo e rechonchuda. Era risonha, mas nunca sorria de verdade. Passaram duas quinzenas trocando conversas sobre dragões, lobos e o Norte. Nunca mais a vira. Até agora – LYANNIA! – a exclamação saiu entre um sorriso igualmente estranho.
Voltaram a falar sobre dragões, assunto que acabou por interessar a Pyers também, ele que naquela época era protegido em Dorne, não vira a comitiva chegar ou partir. Falaram sobre Drogon, o dragão da Rainha Daenerys, e de como descobriram que Viserion era na verdade uma fêmea, e de como ficou arredia enquanto cuidava dos quatro ovos que viriam a se tornar os dragões dos filhos da Rainha. Lyannia falou alegremente de sua loba gigante, e lembrou que o animal não aparecia há dois dias.
– Ela está na Mataderrei. Entro na pele dela a cada duas ou três horas para saber se está bem. Voltará gorda como uma porca – ela era uma troca-peles. Uma warg.
– Consegue entrar na pele de Daenya? – notou que os olhos de Pyers cintilavam naquele púrpura acastanhado e ouviu Lyannia dizer que a pele de um dragão é impossível de se vestir.
– O dragão é a fera inexpugnável. Além disso, dizem que sob sua pele é extremamente quente. Eu com certeza não voltaria de uma troca dessas.
As palavras pareceram cuidadosamente escolhidas apesar de uma aparente informalidade. Velymir passou a conversar com Mattys e deixou o Príncipe e o Lannister prestarem atenção na Stark.
– Ela sempre desenhou bem – começou -; não cheguei a vê-la a não ser sentada, mas aparenta ter a nossa altura – havia pouco mais do que espanto naquela voz.
– Com o salto da bota está mais alta que nós – corrigiu Matt – Além do mais, é a filha mais velha de Brandon, o Grande.
Quase se esquecera de que o pai de Lyannia era conhecido como O Grande por ter quase dois metros e trinta de altura.
– Os Stark não costumam ter cabelos escuros? – ouviu-se perguntar.
– A constituição Stark vem perdendo força nas últimas gerações. Lorde Brandon casou-se com uma senhora de Pentos quando não era mais velho que nós aqui. Dizem que foi durante a viagem que soubera da morte do pai, e acabou recebendo refúgio na cama da neta do Magíster Illyrio. Casou-se no dia seguinte. A Senhora Mopatis é serena e doce, e tem cabelos cor de mel, que dominaram a cabeça de Lyannia – Mattys Snow era como um volume encadernado da História de Westeros, e enquanto falava sobre os Stark, chamou a atenção de mais alguém naquele grupo.
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