Notas iniciais
Eis que o irmão mais novo do Rei aparece e se manifesta.

Acompanhara de longe a chegada dos senhores e senhoras para a reunião. Vira o Lannister envergonhado, o Frey bêbado, o Blackwood barulhento e o Redwyne escandaloso. Também viu a senhora Thunderline com suas quinze filhas, cada qual diferindo entre bela, feia e indescritivelmente estranha; o sucessor do Terror dos Gigantes; um velho Slynt, uma senhora da Lua e a irmã e inimiga em questão de terras, senhora do Sol; homens dos clãs do Vale, senhores menores, a Princesa Martell, senhores dos mares e até um ex-senhor de Asshai da Sombra. Agora, cinco dias após a chegada do último convocado, chegava a comitiva de Winterfell.

Os senhores-rei do Norte vinham em capas e túnicas cinza, com os batedores montados em garranos, os cavaleiros em corcéis de guerra e o líder, lorde Brandon, em seu corcel castanho. Ao lado dele, uma jovem vinha em uma égua negra com os pelos da cauda e da crina trançados, assim como seu próprio cabelo cor de outro envelhecido.

O rapaz observava tudo de trás do Trono de Ferro, nunca sendo notado. A bem da verdade, ele nunca era notado por ninguém. Esguio e rápido como uma raposa, mais silencioso que o filho de Robert Arryn, os cabelos prateados deixando sempre uma mecha sobre os olhos, as vestes em tons de branco ou cores muito claras, em alusão ao irmão mais velho. Lorde Brandon entrou a cavalo junto da filha para cumprimentar o Rei.

– Olá Barry ele fez uma reverência divertida de cima do cavalo -, como está? Perdoe-me a demora, mas nosso querido inverno não perdoa sequer seu próprio senhor as palavras fizeram o irmão de Pyers se levantar abruptamente.

– Algo aconteceu, Bran?

– Perdemos um homem e três cavalos em uma tempestade de neve, e também a carroça de mantimentos...

– Nossos homens estão com frio e com fome, e alguns têm as pontas dos dedos e as orelhas em um tom enegrecido, Vossa Graça. Poderia dar-nos o atendimento necessário o quanto antes? O gelo não perdoa nem mesmo os homens do Norte a filha do Senhor do Norte interveio, falando no lugar do pai diretamente a Barristan em tom gentil, mas altivo. Ela arrematou o pedido descendo graciosamente de sua égua negra, andando até os pés do Trono de Ferro e se ajoelhando perante o Rei.

Barristan sorriu para Brandon e desceu lentamente as escadarias do trono, ajoelhando-se perante a Stark e erguendo-lhe o rosto com um toque no queixo.

– Lyannia... Você saiu exatamente a seu pai Pyers observava tudo de longe, e via muita ternura nos gestos do irmão Seu pedido será atendido prontamente, cara donzela. Agora vamos, os Stark precisam de descanso para a grande reunião ele ajudou Lyannia a se levantar e encaminhou-os pessoalmente aos aposentos.

Pyers teve tempo de perceber que Lyannia notara sua presença no salão. Até desaparecer pelo corredor lateral, ela olhava-o, e antes de passar pelo arco interno que dava acesso ao corredor, ele recebeu um aceno e um sorriso. O Príncipe sorriu de volta, mas ela já havia partido.

O jovem Targaryen ia novamente se dirigir para seus aposentos, mas suas pernas o levaram involuntariamente para o pátio da fortaleza. Parado à sombra de uma das colunas de sustentação, ele observava rapazes verdes que ansiavam por uma batalha, cavaleiros que nunca foram à guerra, e, aqui e ali um ou outro sexagenário guardado por criadas e escudeiros, tentando dar ordens e ensinar aos mais novos o que poderia ser uma guerra.

Novamente Pyers sorriu; andou até um dos velhos e o cumprimentou com um aceno rígido. Imediatamente, o homem berrou por uma espada e equipamentos, trazidos ao Príncipe em poucos minutos. Um escudeiro atou-lhe a placa de peito e um gorjal, deu-lhe luvas de cota de malha e um meio-elmo de platina encimado por uma cabeça de dragão.

Um dos rapazes no pátio veio até Pyers e fez uma meia reverência, falando algo em um idioma estranho. Ao ver que o príncipe nada tinha entendido, pigarreou e recomeçou:

– Boa tarde meu senhor. Dar-me-ia a honra de um breve duelo? É bem verdade que não vemos Vossa Graça andando pelos pátios ou treinando, mas creio que o Rei gostaria de vê-lo empunhando uma espada aquele desafiante era Ronnyl filho de Tarth, dos Filhos da Lua no Vale de Arryn. Fora mandado para Porto Real para honrar o nome do clã e aprender a ser um espadachim de verdade.

Ainda era fácil lembrar do dia em que Ronnyl treinou pela primeira vez. Era um moleque desajeitado e medroso, e a espada de madeira escorregava de suas mãos como se tivesse sido untada com manteiga. Agora, o Filho da Lua era o melhor espadachim entre os novatos e já empunhava uma espada de aço valiriano que comprara com o dinheiro conquistado nos torneios que vencera. Obscura era o nome da espada. Longa demais para ele, cinza como a morte e tão afiada quanto. Mesmo assim, era incrível como parecia fácil para Ronnyl manejá-la.

Pyers aceitara alegremente o desafio. De certo o jovem do clã pensava que a vitória viria tão fácil como um pêssego maduro vai ao chão. Pena que não estava com a Donzela. Sua espada era de um aço diferente. Mais afiada e leve que o aço valiriano, mais branca que leite ou neve; era enfeitiçada por magos além de Asshai da Sombra e dizia-se que tinha a bênção dos Sete. Na falta dela, Pyers ficara com uma espada longa qualquer que lhe foi arranjada de improviso.

A postos, os jovens ouviram um estalido vindo do velho e começaram o treino. O rapaz do clã não hesitou em disparar uma estocada direta no peito do Targaryen, aparada com uma mão em cota de malha e revidada pela espada longa de Pyers com uma escapadela pelo pescoço de Ronnyl. Os dois se separaram e atacaram-se novamente. As espadas retiniam uma, duas, três vezes. Pyers notou um golpe vindo à sua direita e abaixou-se, mas a espada valiriana teve tempo de cortar-lhe uma mecha da prata de seus cabelos. Deu uma volta acocorado e estendeu uma perna em sugestão a uma rasteira, percebida de imediato por Ronnyl, que pulou a tempo de se desviar, mas não a tempo de perceber que a espada de Pyers vinha pelas suas costas. Sentiu uma mão de gelo percorrer-lhe a espinha quando a ponta do aço tocou-a por entre as omoplatas e parou. Deixou a espada cair e sorriu.

– Ganhou, meu Príncipe ele caiu sobre um joelho e sorriu -. Obrigada pela agradável luta.

Também sorrindo, Pyers o ajudou a se levantar e retribuiu o agradecimento, deixando o pátio em seguida e finalmente se dirigindo ao seu quarto. Passando pelos corredores da escadaria, notou que os archotes já estavam acesos. Ao entrar em seu quarto, viu o porquê através da janela. Um ocaso cor de fogo se opunha às montanhas do oeste, como se um grande incêndio tomasse conta do mar na outra extremidade do continente. Virou-se para fitar o que o entardecer fizera a seu quarto: não precisaria de archotes ou lampiões por algum tempo. Todo o interior estava iluminado pelos últimos raios de sol, com os detalhes do dossel de cama incendiados pela luz e as paredes de granito cintilando por todos os lados. O espelho parecia fumegante, as armas nas paredes tinham um belo tom de vermelho, exceto, a Donzela, que brilhava em um tom muito claro de alaranjado no centro da parede leste ao lado da cama de Pyers. Logo, os tons de fogo foram substituídos pelo violeta, pelo roxo e o azul, até que o negro tomou conta do aposento. Nesse momento, o Targaryen fitou um par de olhos incendiários em cima da armação em madeira e veludo da cama, descendo lentamente até o primeiro archote, acendido por uma chama vinda do nada.

– Daenya, não me assuste assim o rapaz foi até o filhote de dragão e tomou-o nos ombros Espero que não se incomode, mas hoje precisará sair do quarto o animal bufou em desaprovação, mas recebeu um carinho na mandíbula inferior -. É a recepção aos senhores do reino, e creio que todos gostarão de saber que ainda são dominados pelo Dragão. Seus irmãos estarão lá também ia dizendo o rapaz enquanto mudava de roupa -, e você não deve se comportar mal, entendeu?