Uma Serpente no Paraíso!
1 Uma serpente no Paraíso
Paraíso! Para alguns esta palavra evoca bem-estar, dinheiro, poder, sexo, realização dos sonhos. Para outros, vem carregada de um sentido religioso e de uma simbologia que lembra, ao homem, sua queda, sua entrada no Vale de Lágrimas, onde “ganhará seu sustento com o suor de seu rosto”!
Para Kamus e Milo, o Paraíso era estarem juntos, vivenciando um amor intenso que sobrepujava as diferenças existentes entre eles.
Se o orçamento estava apertado, Kamus fazia os cálculos, Milo fazia sexo. Se brigavam, Kamus discutia a relação e Milo fazia mais sexo. Se estavam felizes e de bem com a vida, Kamus e Milo faziam muito sexo!
O dia-a-dia, neste Paraíso, funcionava assim, com Kamus assumindo o lado pensante, quando Milo o deixava pensar, é claro, e Milo sentindo, despertando emoções como era da sua natureza alegre e impulsiva. Tudo ia bem, até que uma "serpente" apareceu neste Paraíso particular...
– Alô! Hyoga você está em Atenas? Como assim está em um hotel? Fique conosco, vou pegá-lo para jantar, Milo vai adorar ter alguém para comer os pratos gregos que ele adora inventar. — disse Kamus ao receber a ligação de seu ex-aluno e grande amigo.
Milo comprava as verduras com cuidado, mas nem precisava, pois conhecia todos os feirantes e era adorado pelo jeito despojado e feliz com que percorria as bancas, falando com todos e cumprimentando-os pelo nome.
Kamus admirava isso em Milo, como ele sabia da vida de todos e se interessava ,de verdade, pela opinião de cada um, navegando naquele mar de gente que só de pensar, provocava arrepios nele.
– Ei, Milo, venha cá, tenho tomates, berinjela, ervilha, quiabo e cebola, fresquinhos, do jeito que você gosta! — disse uma senhora alegre, de 78 anos de idade.
– Acácia, se você não tivesse netos tão ciumentos e fortes eu me casava com você!
– O quê?! Eu ser o pomo da discórdia entre você e o ruivinho tesudo?
– Por você, eu faço uma exceção e vivo um triângulo amoroso! — disse Milo rindo e beijando a mão calejada da senhora.
– Ah! Me engana que eu gosto! Garanto que essa alegria toda e esse cuidado com as verduras é prá cozinhar prá ele!
– Sua vidente disfarçada! Hoje, vamos comemorar a dois! Recebi uma oferta de trabalho que vai mudar a nossa vida prá melhor!
– Então vá menino e... aproveite!- disse Acácia com malícia nos olhos que já haviam visto muitas coisas nesta vida.
E assim foi Milo, saltitante para casa, feliz, certo que a noite seria perfeita com ele e Kamus jantando à luz de velas e depois fazendo amor em todos os comodos da casa. Ledo e total engano!
– O quê?! Hyoga vai ficar aqui em casa? Hoje?! — gritou Milo, perplexo com a novidade.
– Desculpa eu tentei te ligar prá avisar antes, mas você nunca leva o seu celular! Hyoga está em Atenas e vai ficar somente três dias. Achei que como ele é nosso amigo, você iria gostar de recebê-lo.
Seu amigo! E fale por você! Que merda! — respondeu Milo para si mesmo.
– E então? O que você acha? — continuou Kamus, esperando uma resposta.
– Tudo bem, Kamus se você está feliz, eu também estou! Vou preparar um jantar de boas-vindas bem gostoso. — respondeu com um sorriso forçado e um beijo rápido.
Oito horas da noite, Kamus chega com Hyoga. A cena que se seguiu quase fez Milo ter um colapso. O jovem em nada lembrava aquele garoto que tinha em Kamus, um ídolo, um mestre. Estava mais maduro, solto e, estupidamente, bonito.
Ai, meu Zeus! pensou Milo, sentindo uma pontada de ciúme ao vê-lo com Kamus, sorridente e com uma garrafa de vinho caro, Chateau Grand-Puy-Lacoste, o preferido do francês.
– Olá, Milo! Agradeço a gentileza de me receber, tomei a liberdade de trazer este vinho. Lembrei-me que Kamus o aprecia. — disse Hyoga com aquela educação polida dos russos.
Milo ouvia as palavras ditas com educação e cortesia, visualizando o momento em que se jogaria em cima daquele loiro empertigado e arrancaria aqueles cabelos sedosos e bem cuidados. Calma Milo...
– Quanta gentileza, Hyoga! — disse sorrindo falso, pegando o vinho das mãos do rapaz e beijando Kamus com intimidade.
– Aham...Milo...- disse Kamus afastando-se um tanto constrangido.
– O que foi, amor? Constrangimentos na frente do nosso amigo? Que tolice! Não acha Hyoga?
– Claro! Não quero mudar a rotina, nem atrapalhar vocês!
– Você não atrapalha, Hyoga! — completou Kamus com rapidez.
– É claro que não! Quanto tempo, você pretende ficar, mesmo? — continuou Milo.
– Só três dias! É uma visita rápida.
– Ah, o tempo é uma coisa tão relativa, não? Para alguns, três dias é muito, para outros pouco, mas, bem, vamos passar para a sala de jantar!
Ao convite de Milo, Kamus relaxou. Sabia que Milo era possessivo e ciumento, mas também alegre e atencioso com as pessoas. O jantar transcorreu, razoavelmente, sem incidentes, a não ser quando Milo o agarrava por baixo da mesa ou fazia algum comentário indiscreto da intimidade dos dois. Hyoga parecia não notar nada de errado e mantinha-se atento a tudo, solícito, gentil e sorridente.
Onde ele tinha aprendido a sorrir assim? Sorrateiro, magnético como uma serpente...uma serpente no seu Paraíso e tentando o seu Kamus! Milo olhava para os dois na mesa, conversando numa intimidade intelectual que fazia Kamus sorrir daquele jeito gostoso. Pareciam duas abelhas trocando informações, atentas à colméia, ao trabalho árduo, ao mundo das preocupações! E ele ali, ouvindo, entediando-se e, na maiora das vezes, desconhecendo o assunto.
– Milo? — chamou Kamus.
– ....
– Milo, você está bem? — tornou a perguntar.
– Estou! Acho que bebi demais. — disse saindo do transe em que via os dois como abelhas gigantescas zumbindo perto dele.
– Então vá se deitar, sei que acorda muito cedo amanhã. Eu cuido de tudo aqui! Afinal, você nos brindou com este belo jantar! — disse Kamus sorrindo.
– E eu ajudo! — completou Hyoga
Querem que eu saia de perto, na certa para continuaram o “papo agradável” sem o mala do Milo por perto! Pensava Milo de forma obssessiva.
– Então tá! Boa noite, Hyoga! Kamus, estou te esperando, não demora!
– Já vou, não se preocupe! — disse Kamus, novamente, constrangido.
Na cozinha, Kamus e Hyoga arrumavam tudo com eficiência e organização. Sim, tinham muito em comum e não foi por acaso que Hyoga tornou-se amigo do seu melhor professor na universidade.
Kamus era titular da cadeira de Geometria Descritiva I e II e Hyoga tinha sido seu melhor aluno. A relação de amizade surgiu quando Hyoga o escolheu como orientador do seu projeto final. O jovem formou-se com louvor tendo Kamus como o paraninfo da turma.
Kamus sabia o quanto aquele jovem tinha se esforçado, sobrepujando todas as tragédias de sua vida, para chegar até ali e admirava a sua fibra e a inteligência.
– Pronto! Deixamos a cozinha como se nada tivesse sido feito aqui! — disse Kamus sorrindo para Hyoga.
– É verdade! Você continua o mesmo, mas vejo que algo mudou. — falou Hyoga com malícia.
– Você notou...
– Claro, ficar com Milo fez bem a você, embora eu não saiba como você consegue lidar com aquele vulcão! Achei que ele ia me espetar com o garfo, na hora que eu disse que você seria o meu eterno mestre!
– Milo é ciumento demais! Mas sem ele, a minha vida se torna um inferno!
Escondido, cedendo à tentação de ouvir a conversa particular, Milo chegou um pouco atrasado e ouviu parte da frase sentindo o coração parar e o sangue ferver. Nem esperou a continuação e subiu para o quarto bufando.
– Então viver comigo é um inferno? Ele não sabe em que demônio eu posso me transformar! — esbravejava baixo, os dentes tensionados.
Na cozinha, Kamus continuou a conversa que Milo ouvira pela metade.
– Eu não imagino ficar longe dele! Amo aquele grego louco, como nunca amei ninguém, entende?
– Perfeitamente, mestre! Vivo a mesma situação com certa pessoa, embora ele não seja tão explosivo como o Milo! — respondeu rindo.
Kamus acomodou Hyoga no quarto de hóspedes e foi para o quarto. Encontrou Milo deitado, virado de lado e já dormindo. Pelo menos, foi o que pensou. Encostou-se nele, sentindo o cheiro daquela pele, sussurrando baixinho no ouvido do grego:
– Está dormindo?
– .....
– Hum...esse seu cheiro me deixa....
Nem terminou a frase e um cotovelo o atingiu em cheio, quase ferindo o seu olho.
– Ai!
– ....
Kamus encolheu-se furioso, pelo visto o sono do grego estava agitado “demais”. No seu canto, Milo fingia ter tido um espasmo do sono e continuou virado de lado, afastando-se do francês por vingança e para não cair em tentação. Um inferno, ele dissera! Ele ainda não sabia o que era, realmente, um inferno!
Manhã ensolarada, o dia começando. Sons de água caindo do chuveiro e Kamus acordando surpreso, vendo o lugar ao seu lado vazio.
Milo? Acordado a essa hora? Mas é muito cedo! Pensou Kamus.
- Milo? — chamou Kamus.
Nenhuma resposta, nenhum som, nada! A porta do banheiro abrindo e um Milo saindo, já vestido.
– Milo, onde você vai a essa hora? Trabalha ainda mais cedo, hoje? — preguntou Kamus estranhando aquela movimentação e esfregando os olhos sonolentos.
– Estou indo viajar, Kamus! — disse seco sem sequer olhar para o francês.
- Como assim, viajar? Você não me disse nada e...
– E o escambau! Tô caindo fora! Você não disse que viver comigo é um inferno? Pois estou deixando você livre prá ficar com o “anjinho loiro” que você tanto adora!
– Milo, o que você está dizendo? Quando eu disse...?
– Que viver comigo era um inferno? Ontem! Bebeu demais da porra daquele vinho caro e esqueceu? Pois eu não, e ouvi muito bem o que você disse! — respondeu já com os olhos cheios d'água.
– Milo, você ouviu pela metade eu disse...
– Não me interessa, Kamus! Acho que já deu o que tinha que dar mesmo! Não sirvo prá você e, no mais, a National Geographic me chamou para um trabalho no Egito. Era prá ser uma segunda lua de...Ah, deixa prá lá! Tchau!
Milo foi saindo com uma mochila e uma maleta de mão, já previamente, arrumadas, sem olhar para trás, deixando Kamus em estado de choque.
Mas que merde! O que esse maluco pensa que eu falei?! pensava Kamus enquanto procurava uma roupa para vestir.
Na escada, Milo encontrou Hyoga, a vontade de socá-lo rondando sua mente, enlouquecida, ainda mais que notara uma cesta enorme em suas mãos.
– Bom dia, Milo! Ainda bem que saí bem cedo ou não chegaria a tempo! Kamus disse que você gosta de tomar café na cama e eu lhes trouxe essa cesta para um café à dois! — disse Hyoga sorrindo.
Nos segundos rápidos em que Hyoga falava e mostrava a cesta, Milo deteve-se num cartão trabalhado, em forma de coração. Seu cérebro focou uma frase, escrita em vermelho:
Para os meus amigos queridos cujo exemplo me fez acreditar que a vida, sem amor, torna-se um verdadeiro inferno e com ele, um Paraíso!
Nesse meio tempo, um Kamus esbaforido com um pé de sapato e outro de chinelo, corria atrás de Milo, estancando quando deu um encontrão no grego parado no último degrau da escada.
– Milo, Pour l'amour de Dieu!
– Por que você escolheu essa frase?- falou Milo olhando abobalhado para Hyoga.
– Porque ontem, Kamus disse que a vida dele seria um inferno sem você! Confesso que senti um orgulho muito grande de ver o meu “eterno mestre” tão feliz! Por isso, aceitem este presente, por favor!
Milo olhou para Kamus constrangido, enquanto este tentava acalmar sua respiração.
– Eu pensei...é...eu ouvi...- gaguejou Milo.
– Apressado e impulsivo como sempre! Além de ficar escutando atrás das portas! Você é um idiota, Milo! — falou Kamus.
– Eu sei...mas é...
– Quer saber, cala a boca e me beija ! — disse Kamus puxando o grego pela nuca e beijando-o do jeito que fazia Milo derreter-se.
Hyoga sorria satisfeito. Deixou os dois sozinhos e saiu de fininho, depositando a cesta, devagar, para não quebrar o momento. Um bilhete de agradecimento selou a visita.
Kamus e Milo voltaram para o quarto, desfazendo o mal entendido do jeito que sempre resolviam suas coisas, fazendo amor!
Para Kamus, o Paraíso era provar daquele delicioso fruto proibido que era Milo e para o grego, era estar com seu “Adão”, seu único homem, seu primeiro e grande amor!
Fim
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