Uma Semideusa Inadequada
18 Medo
Notas iniciais
Fiquei olhando para as portas fechadas sem acreditar no que tinha acabado de acontecer. Tinha esperança de que mamãe fosse repensar, abrir as portas arrependida e me abraçar. Mas não, ela não fez isso. Quem me abraçou foi Cooper.
— O que você está fazendo? – indaguei, limpando as lágrimas.
— Tentando te confortar?
— Eu não preciso do seu conforto. — me desvencilhei de seus braços, irritada. – Pare de tentar se aproximar de mim!
A expressão dele era uma mistura de espanto e mágoa, mas não fiquei olhando pra ela. Virei-me e saí dali, andando apressada. Só não corri por que seria muito dramático.
Trent me seguiu a certa distância e logo encontramos Juliet. Ela estava conversando com alguém no celular, dando risada e mexendo no cabelo.
Antes que eu o fizesse, Cooper arrancou o celular das mãos dela e o atirou na parede de rochas.
— Você enlouqueceu?!
— Se eu enlouqueci? – ele olhou furioso para ela. – Você é burra demais ou nunca te ensinaram que falar no celular é como gritar a sua localização para os monstros?!
Envergonhada, ela desviou o olhar e falou baixinho: – Pensei que estivéssemos seguros aqui...
— Esqueçam isso. – falei impaciente. – Vamos embora.
Juliet me olhou, confusa. – O que aconteceu?
— Eu fiz o que tinha que fazer. Agora vamos.
E sem esperar resposta, saí andando. Eles hesitaram, mas logo vieram atrás de mim. Alcançando o portão, vi uma limusine preta estacionada perto da calçada. Parei subitamente e o vidro da janela desceu, revelando o sorriso irônico de Éris.
— Você demorou. – disse ela, abrindo a porta para mim. – Foi tão ruim quanto eu desejo que tenha sido?
Cerrei os punhos e entrei na limusine, ignorando seu último comentário. – Eu cumpri minha parte. – falei, me sentando de frente para ela com Trent e Juliet do meu lado. – Agora é a sua vez.
Ela deu um risinho irônico e ergueu um copo de milk-shake do McDonalds, levando o canudo a boca. Olhava divertidamente para cada um de nós, e aquilo estava me irritando.
— Muito bem. – disse finalmente. – Qual era o acordo mesmo?
— Você ia me contar quem roubou os pomos de Hera.
— Ah... esse acordo... – bebericou novamente o milk-shake. – É fácil! Foi o Hades!
— O que?! — exclamou Juliet.
— H-A-D-E-S! – Éris soletrou, em seguida soltando um suspiro entediado. – Você é meio lerda, né? Deve ser filha de Poseidon...
— Afrodite! — Juliet corou. – Sou filha de Afrodite.
— Estava brincando – a deusa revirou os olhos. – Claro que eu sei de quem você é filha. Sou uma deusa, eu manjo dessas coisas.
Franzi as sobrancelhas. Hades tinha roubado os pomos. Hades. Isso não faz o menor sentido! Ele é mal, mas não é burro. E além do mais, que eu saiba ele só rouba mulheres, não comida!
— Pra onde estamos indo? – Trent indagou, fazendo com que eu despertasse de meus pensamentos. – Onde você está nos levando?
— “Você” não! – Éris empinou o queixo, ofendida. – Eu prefiro Senhora Suprema da Discórdia.
Ele arqueia uma sobrancelha, e é até fofa a expressão de surpresa e sarcasmo em seus olhos castanhos. Não, não, não. Apolo! Olhos azuis do Apolo. Apolo sorrindo e exibindo seus dentes perfeitos. Apolo me acordando com o barulho daquela flauta irritante...
— Já chegamos. – disse Éris. – Trouxe vocês do Colorado a Los Angeles em alguns minutos, eu não sou fodastica?
— É sim – disse Trent com escárnio. – Você é perfeitamente fodastica, Senhora Suprema da Discórdia.
Éris sorriu e jogou o cabelo para trás. – Eu sei.
O mais depressa que pôde, ele abriu a porta do carro e saímos todos os três, um depois do outro. Éris acenava com uma mão e cantarolava um melodioso um “tchau” acompanhado de um sorriso diabólico e irônico.
Quatro meses atrás
— Tem certeza que não quer uma festa? – papai insistiu. – Posso providenciar uma agora mesmo se você quiser...
— Não, pai, eu não quero. – revirei os olhos. – Eu vou comemorar com o Adam.
Ele torceu o nariz, mas eu sabia que ele gostava de Apolo, apenas fingia que não para me irritar. Aliás, ele tinha vindo lá da sua turnê no Japão só pra passar a tarde toda comigo e até alugou uma sala de cinema inteira só pra nós dois. Foi bem divertido. Mas a noite estava reservada para Adam. Quer dizer, Apolo.
A companhia tocou. – Deve ser ele! Tchau, pai!
— Tchau...
Corri escada abaixo, me jogando em Apolo com os braços ao redor de seu pescoço. Ele usava um moletom cinza, jeans e sapatos do tipo mocassim. Lindo como sempre!
— Onde iremos? – perguntei entusiasmada.
Ele sorriu.
— A um lugar que você nunca foi antes.
Fiquei ainda mais animada, até perceber que era um parque de diversões no centro de Nova York.
— Na verdade eu já vim aqui – comentei. – Várias vezes.
— Droga.
— Tudo bem – depositei um beijo na bochecha dele. – Tenho boas memórias daqui de quando eu era criança. Vai ser divertido.
Apolo deu um pequeno sorriso de alivio e entrelaçou seus dedos nos meus. – Onde quer ir primeiro?
— Na casa do horror.
E ele imediatamente parou de sorrir.
— Tem certeza? Podemos ir na montanha russa. Soube que inaugurou uma nova semana passada. Ou então a roda gigante! O que poderia ser mais romântico do que a roda gigante?
— Apolo – dei risada. – Você está com medo?
— Eu? — exclamou ofendido. – Eu não tenho medo de nada!
— Ok, então você vai à casa do horror comigo?
— Vou, claro que vou!
E nós fomos. Ele se manteve quieto no começo, olhando nervoso a espera de coisas assustadoras. Quando a primeira apareceu, ele me abraçou como se eu fosse um bote salva-vidas e gritou mais do que a garota do vagão de trás. Eu ria, ao invés de ficar com medo.
Quando saímos do brinquedo, a expressão de Apolo era cômica. Os olhos azuis estavam alarmados, o cabelo loiro bagunçado e o rosto corado pelo frio.
— Meu amor – falei, rindo baixinho. – Você está bem?
— Claro que estou bem!
— Tem certeza?
— Absoluta!
Soltei sua mão e parei na frente dele, abraçando seu pescoço.
— Obrigada – me inclinei, lhe dando um selinho. – Você foi muito corajoso!
— Eu não sou uma criança, Tracy. – ele apertou os olhos, desconfiado. — Sei o que está fazendo!
— O que estou fazendo?
— Tentando me agradar, mas está fingindo. A verdade é que você está querendo rir agora.
Mordi os lábios. Eu estava mesmo com vontade de rir.
— Tudo bem, ria! Vamos! Pode rir!
Tirei os braços dele e tapei a boca com as mãos. Apolo cruzou os braços e esperou eu terminar minha crise de risos. Quando me acalmei, sorrindo, fiquei na ponta dos pés e o beijei.
— Foi engraçado – admiti. – Mas obrigada por ter enfrentado seu medo só pra me agradar.
Ele arqueou uma sobrancelha, ainda desconfiado.
— Eu não sei que medo é esse que você está falando. Mas, hipoteticamente falando, se eu tivesse mesmo medo...
— Se.
— Se. — ele repetiu e fez uma pausa, me olhando. – Não seria maior que o meu medo de perder você.
Fiquei sem saber o que dizer diante daquilo.
— Eu sou louco por você. Sabe que me tem nas mãos, não sabe?
Franzi a testa. Que papo maluco era aquele?
— Por favor, não comece a recitar nenhuma poesia... – fiz uma careta. – É sério.
— Você é tão antirromântica... – ele fez cara feia. – Acabou com a minha inspiração!
Revirei os olhos e entrelacei nossos dedos, puxando-o até a barraquinha de algodão doce.
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