Uma Seleção com Rosie Ambers

71 Especial: Osten Schreave - Parte II


05h45, Angeles, Illea-03 de Novembro- Capítulo 54

Eduard apareceu na entrada, pouco antes da minha saída.

"Bom dia, Alteza. Tenho resultados."

"Bom dia. Você conseguiu algo sobre o pai da Rosie?"

"Eu encontrei isso..."

Li o papel que ele me entregou e voltei a encará-lo.

"Está certo dessa informação?"

Eduard assentiu.

"Pedi para nossas fontes confirmarem várias vezes, e sim.É real."

Respirei fundo, pensando no que deveria fazer primeiro, e ele ficou à espera.

" Eu não sei como Rosie vai lidar com essa notícia. Vou ligar para Allan."

Quando falamos em uma conferência na Alemanha a respeito de um possível novo teste de paternidade, ele me revelou que já sabia que não era o pai de Rosie.

"Eu já tinha conhecimento disso." disse Allan na ligação."Sabe, Osten, eu dei uma boa investigada no passado da minha mulher, e também sei de informações sobre a paternidade de Rosie que gostaria de te passar. Algo me diz que você fará o melhor por ela."

"Senhor?"

"Conto com você."

...

Bridget tinha uma expressão de ironia, quando passei por ela no tribunal.

Eu tinha ido fazer o meu depoimento durante seu julgamento. Ela me chamou mais uma vez de corno, em referência à carta de Rosie.

"Recomendo não ter esperanças, Bridget, porque eu e Rosie não vamos romper."

"É claro que vão.Ela não gosta o suficiente de você. E você sabe disso. Vamos ver até onde vai se enganar."

...

07h29, Angeles, Illea-03 de Novembro- Capítulo 54

Passei no palácio para checar meus documentos, certo de que era o último a sair para o aeroporto. Mas, ao seguir para a cozinha, percebi que estava enganado.

Jade e Tyler estavam no maior amasso. Eles se afastaram, completamente sem graça. Eu, por minha vez, fiquei pasmo, nunca teria imaginado aqueles dois juntos.

" Hum... bonito, hein, dona Jade. Pelo visto, depois desse 'envolvimento', não vai querer mais viajar."

"Está doido?! É claro que vou! Nós combinamos que..."

Eu não aguentei ficar sério.

"Estou brincando, Jade, relaxa. É claro que eu não te deixaria de fora de um tour pelas capitais da moda. Pode se despedir à vontade."

"Já nos despedimos!" Ela passou por mim, sem olhar para Tyler, deixando- o completamente confuso, e visivelmente chateado.

Dei uma pausa desconfortável, sentindo pena dele. Resolvi não abordar o assunto, porque eu o conhecia há pouco tempo e não tinha convivência o suficiente para isso.

"Tyler, eu vim justamente para falar com você. Tenho uma pergunta sobre Rosie."

"Ah, claro, se eu puder ajudar."Ele cruzou os braços, esperando.

"Você conhece ela desde, bom, sempre. Acha que, com todas as mudanças que a Seleção trouxe, e também com o fim dela, ela... Você sente que ela conseguiria sair do país comigo?"

Tyler não escondeu a surpresa.

"Achei que fosse permanecer em Illea, pelo menos no início da carreira."

"Uma oportunidade surgiu. Estou sendo chamado para trabalhar fora."

Ele assentiu.

"Bom... " Tinha um pesar ao falar. "Rosie mudou muito desde então. Sinto que ela não tem mais tanto apego a Columbia. Acho que ela vai para onde você for."

"Certo, mas, na sua opinião, acha que seria ruim para ela?"

Dessa vez, ele demorou um pouco mais para responder.

"Eu vou ser honesto. Eu apoio vocês. Sei o quanto Rosie está apaixonada, e é bom ver ela com alguém que a trate da maneira que ela merece. Mas tenho medo dela se frustrar. Ela não nasceu pra ser o centro das atenções, então você vai precisar de muita paciência, se quiser fazê-la realmente feliz."

"...Eu sei."

Ele repousou uma mão em meu ombro.

"Não leve a mal, cara. Se vocês se amam, vão dar um jeito de dar certo. Cuida bem dela, tá?"

"Obrigado pelo apoio. De verdade. E, sim, vou cuidar."

...

Jade reapareceu pouco depois na entrada do palácio, já se dirigindo ao carro à frente, acompanhada das criadas que estavam com ela. Mas, ao me notar, deu meia-volta.

"Posso te pedir um favor, Osten?"

"Sim?"

"Não fale para ninguém do que você viu entre eu e... você sabe quem. Principalmente a Rosie." suspirou."Só acabou acontecendo assim que você entrou, mas eu e ele não temos nada oficial. Nem vamos ter, porque tenho certeza de que ele não estará no Palácio quando voltarmos, nem sei se você pretende me enxotar no meio da viagem, então..."

"Bom, tecnicamente. Ainda posso te eliminar agora, assim você e ele..."

"Não fale besteira!" se enfureceu, me fazendo rir. Jade mostrou há pouco tempo para mim que tinha um pavio bem curto, bem depois que esclareceu que apoiava Rosie e eu, e estava sendo interessante conhecer sua verdadeira personalidade.

"Ok, ok! Relaxa, prometo não falar nada."

Eu iria respeitá-la. Aliás, Rosie acabaria descobrindo num passo se Jade e Tyler se envolvessem no futuro.

"Obrigada. Por isso e por me deixar ir nessa viagem."

"Vai ser muito bom, só aproveite."

Ela sorriu concordando.

"Com certeza!"

Entrou no carro dela, e eu segui no meu, com alguns guardas extras.

Fui o último a embarcar no avião para a Espanha. Olhei em volta até encontrar Rosie. Ela acenou, e eu de volta. Esperava realmente que tudo desse certo.

...

23h27- Madrid, Espanha- 05 de Novembro — Capítulo 55

Rosie com certeza não estava no seu normal, enquanto esperávamos com a família real da Espanha e o restante da Elite pelo evento na sacada do palácio de Madrid.

Me aproximei na primeira oportunidade.

" Você está..."

"Não, tá tudo bem!"Ela apontou para o lado de fora, confirmando minha suspeita. "O tempo passou, mas ainda não fico cem por cento confortável com essas situações."

"Agora entendi."

"Pelo menos não serão flashes no rosto,no momento,mas..."ela disse, com um sorriso, tentando manter o tom leve e otimista "Mas vai ter isso quase que a viagem toda, não é?"

"Infelizmente não posso te prometer o contrário." Sorri, tentando transmitir conforto, enquanto me sentia mal por não poder mudar aquilo.

Desejei, no fundo do coração, que ela se acostumasse, porque a invasão da sua privacidade só iria piorar.

...

15h17, Madrid, Espanha- 06 de Novembro - Capítulo 55

"O que está fazendo aqui sozinha nesse frio?"

"Estou esperando a Amy, enquanto isso estava tentando terminar de inventar um discurso. Tarefas que passaram pra gente."explicou.

"Ah, sim." Sentei ao seu lado. Olhando pela janela, tinha visto Rosie sentada no pátio do Palácio de Madrid. Peguei o casaco extra que havia trazido, junto com uma luva, e desci. "Você quer ajuda?"

"Não, estou dando conta. Mas obrigada!"

" Posso ficar aqui e te fazer companhia até Amy aparecer?"

"Sim, claro que pode."Coloquei o casaco que trouxe sobre seus ombros. "O que? Mas eu já estou com um..."

"Não quente o suficiente," sorri, calçando em seguida a luva em suas mãos. Ela suspirou e riu levemente.

"Tá, ... eu só aceito, porque está realmente frio.Obrigada."

Aproximei-me um pouco mais e passei o braço por trás de seus ombros, em um abraço leve. Rosie correspondeu, se aninhando a mim.

"Depois que você acabar de escrever, quer treinar esse discurso comigo?"

"Não precisa..." ela balançou a cabeça, negando, ainda concentrada. "Eu sei que está ocupado."

"Não tanto. Podemos marcar um horário, só me avisar."Não resisti a deixar um beijo sobre sua bochecha. Eu sabia que ela estava preocupada com a atividade, então acrescentei."Não se preocupe, Rosie. Eu sei que você consegue, só não se pressione."

Ela assentiu.

Durante a semana na Espanha, a Elite ficou um tanto atarefada quanto eu, por ideia de Benjamin. Achei que seria bom para distrair a cabeça delas, enquanto eu resolvia questões do trabalho. Mas pelo visto isso foi um estresse, principalmente para Rosie.

Senti que os passeios turísticos dos dias que se seguiram vieram para melhor, para todas que estavam entediadas. Por sorte, Lorenzo se dispôs a acompanhar a Elite, enquanto eu resolvia as tarefas passadas pelos meus superiores.

...

14h58, Oslo, Noruécia — 13 de Novembro- Capítulo 56

Após as primeiras reuniões em Oslo, finalmente consegui um tempo para sair com Rosie e a Elite, fomos a um teatro em um anfiteatro de ópera. Era a única tarde livre na agenda.

Olhei para Rosie, sentada um pouco distante, concentrada na peça e na pequena orquestra que a acompanhava. De vez em quando, ela ria das cenas, com uma dificuldade enorme em ser discreta. Cobria a boca com a mão e lançava olhares preocupados ao redor, controlando o volume, o que só me divertiu ainda mais.

Eu queria convidá-la para algo que um namorado faria: um passeio de barco pelo rio, um jantar tranquilo, talvez... Mas me lembrei de nossa conversa no escritório do rei Olave, quando chegamos à conclusão sobre a dificuldade de sairmos sem sermos vistos.

Havia grande chance de que isso atrapalhasse o ritmo da viagem. Questionamentos surgiriam sobre as outras integrantes da Elite, sobre o motivo de eu não sair com elas. Eu teria que, ou fazer o mesmo com todas (o que não era opção), ou anunciar Rosie como minha noiva. E ainda não era o momento, ela não estava pronta e eu não queria que nosso noivado se iniciasse de uma maneira conturbada.

Rosie se mostrou compreensiva com as circunstâncias, mas eu não pude deixar de me perguntar se, no fundo, ela não sentia falta de momentos assim.

" Você parece ter gostado muito do espetáculo."comentei parando ao seu lado no parapeito, quando a peça terminou.Ela sorriu olhando para o andar de baixo.

"Quando eu era menor, me disseram que ópera é coisa para os mais velhos, como se fosse algo ultrapassado. Eu realmente gostei, principalmente do instrumental."indicou os violinos ainda tocando."Muita gente pode não ligar, mas sem uma boa trilha sonora metade da emoção vai embora."

"Faz sentido."concordei. "O mesmo vale para um filme ou uma série. A escolha do repertório..."

Eu iria dizer que a escolha do repertório musical pode elevar ou arruinar uma cena, bem no momento em que ouvi o chamado de Ophelia e Jade. Pedi licença a Rosie para ir ver se precisavam se algo urgente.

"Ei, Osten." começou Ophelia. "Eu só queria perguntar uma coisinha. Paige eu e estávamos querendo ir a biblioteca pública de Oslo. Aproveitando que o próximo compromisso não é formal, então não precisariam da gente."

"Ei, olha lá como você fala do desfile." Ambos encaramos Jade."Eu só estou aqui para dizer que o resto de nós continua querendo ir na apresentação de moda."

Rosie se interessou pela proposta da biblioteca, e eu precisei acompanhar Jade, Katie e Suki na ida ao desfile de moda. Alguns repórteres já estavam de olho em nós, e qualquer mudança inesperada na minha programação geraria comentários. Odiei a situação, mas não havia alternativa.

Observei enquanto ela se afastava. Queria aproveitar aquele tempo livre com ela, mas pelo menos Rosie parecia animada com a biblioteca.

...

19h22, Pequim, Nova Ásia — 17 de Novembro — Capítulo 56

"E isso é tudo, Alteza." disse Kou, chefe da guarda, antes de nossa saída para um jantar diplomático com autoridades da Nova Ásia."Estamos seguros de que nosso esquema de segurança junto ao do governo asiático será mais do que suficiente."

Por mais que o governo local tivesse prometido a segurança de todos, eu não estava confiando. Eles estavam passando por uma instabilidade política, e isso significava grupos rebeldes à espera de uma oportunidade para gerar caos.

Embora Pequim fosse capital, um local com menos chances de ataque, eu não tinha dúvida que convidados de Illea eram um alvo em potencial.

Fiz o que foi preciso para que saíssemos o menor número de vezes e para que a passagem por Pequim fosse breve.

"大家好,我是伊利亚的王子,奥斯滕,很荣幸能与各位相见。"

("Boa noite a todos, sou Osten, príncipe de Illea. É uma honra conhecê-los.")

Meu mandarim não era perfeito, mas o suficiente para a ocasião. O presidente e o primeiro-ministro me responderam, e seguimos para as formalidades antes do jantar. Mantive o tom educado, tentando manter a concentração nas conversas.

Eu não queria estar ali.

Antes de deixarmos a embaixada, eu estava prestes a receber a notícia sobre o nascimento do meu sobrinho, ou sobrinha. Josie havia entrado em trabalho de parto em Illea há algumas horas e, pelo horário, provavelmente já estava com o bebê nos braços. O gênero e o nome, porém, permaneceriam um mistério para mim até o fim da noite.

A algumas mesas de distância, vi Rosie. Estava completamente deslocada entre os convidados. Na primeira oportunidade, fui até lá.

Parei a tempo de ouvir Sammy Meyer, a diplomata alemã, provocando-a com perguntas capciosas. Lembrei-me bem de quando, no aniversário de Kerttu, ela havia diminuído Rosie diante das outras selecionadas só porque não falava tantos idiomas.

"Eu estava perguntando o que pretende fazer se você se tornar a próxima princesa de Illea?"

"Como... o que quer dizer? De serviço? O que pretendo fazer é apoiar o Osten em tudo, e ..."

"Está preparada caso tenha que ficar mais de dez anos no exterior?"

"Hã?"

"Afinal, quem se casar com ele vai ter que se acostumar com essa rotina. Às vezes são anos de missão diplomática no exterior. Já pensou sobre isso, certo?"

"...Ah, sim, claro! Não tinha entendido sua pergunta."

Inspirei, expirei.

Tudo em nome da diplomacia.

"Nem falei com vocês, perdão... A noite está sendo agradável?"

"Sem dúvidas, Vossa Alteza! A companhia dessas jovens é muito boa." Denis Meyer, por outro lado, era uma boa pessoa.

Sua esposa continuou a falar já tinha sua favorita entre as seis- e nem precisou dizer o nome, o olhar nada discreto para Suki deixava óbvio. Também comentou que estava falando com Rosie e Suki sobre o papel fundamental da futura esposa de um príncipe diplomata.

Olhei para Rosie de relance. Infelizmente precisaria deixá-la com eles mais cedo, pois Ben me chamava do outro lado do salão, e eu não teria escolha a não ser deixá-la naquela roda.

Do outro lado do salão, o embaixador Gordon e sua esposa Hilary se juntaram a Marid, eu, Ophelia e a alguns políticos da Nova Ásia. Abordamos sobre possíveis parcerias culturais e educacionais entre Illea e Nova Ásia.

O tempo passou rápido demais, e eu percebi que tinha esquecido do próximo momento do encontro: os discursos de integrantes da Elite.

Katie foi a primeira a subir ao púlpito. Não se podia negar: tinha uma boa oratória, segura e articulada. Mas algo que já tinha reparado nela era que parecia gostar de impressionar, mais do que de realmente viver a experiência diplomática, como Paige e Ophelia.

Alguém me tocou no ombro. Era Ophelia.

"Osten, estou preocupada com Rosie. Ela não me parece muito bem para discursar. Encontrei ela no banheiro meio pálida e tremendo."

Fui de imediato até ela.

"Ophelia me disse que você..."

"Estou bem para falar, não se preocupe." Rosie praticamente fugiu de mim para o palco, e eu comecei a torcer com todas as minhas forças para que ela suportasse mesmo fazer o discurso sem passar mal.

Quando Rosie olhou para o tradutor e começou a falar, consegui perceber o leve tremor em suas mãos, mas ela encontrou estabilidade sobre a mesa e manteve seu discurso com um tom firme. Sorri aliviado, ela estava conseguindo.

Ainda assim, não consegui esquecer a conversa que eu havia flagrado antes: Sammy a deixara sem respostas sobre a possibilidade de morar no exterior por vários anos, e aquelas mesmas inseguranças retornaram à minha mente.

Mas eu precisava acreditar. Se ela estava ali, enfrentando aquele público e falando com convicção, era porque estava evoluindo. E, acima de tudo, porque queria um futuro comigo.

...

00h13, Roma, Itália- 23 de Novembro — Capítulo 57

As batidas na porta foram tão fortes que quase derrubei a caneta da mão. Antes que eu pudesse dizer "entra", Delfina já tinha arrombado o quarto de hospedes do palácio italiano.

"Delfina, o que você..? Já ouviu falar em esperar alguém responder antes de invadir?"

"E você poderia, o quê?! Estar com um pijama de bolinhas? Me poupe! "ela retrucou, sem dar espaço. "A questão é que você não presta. Eu estava com a Rosie até agora pouco, ela me disse que você marcou de se verem depois do jantar e ficou te esperando, seu idiota!! Agora está super tarde e ela acabou indo dormir. Osten, o que tá acontecendo com você?!"

"Eu precisava fazer uma ligação para um contato na Nova Ásia e escrever um relatório, mas eu já estava terminan..."

"Ah, Osten, eu sei que você tem tarefas, e mais: eu não sou lá o melhor exemplo pra te mostrar o que se deve fazer em um relacionamento. Mas, pelo menos, eu aprendi com os meus erros. E você com os seus?! Vai continuar dormindo no ponto, omisso, esperando que ela ache que pra você tanto faz estar com ela ou não?"

Fiquei sem palavras. Eu sempre soube que um dos motivos para que ela deixasse seu interesse por Oliver florescer é que ele era mais presente.

"Delfina..."

"Isso não é sobre mim! Esquece. Estou falando sobre Rosie. Conserte isso, antes que seja tarde demais!"

Eu fiquei olhando para a porta depois que ela saiu, irritado com a invasão... mas irritado principalmente comigo mesmo, porque sabia que ela tinha razão.

...

19h37, Nápoles, Itália- 29 de Novembro - Capítulo 58

Tudo estava pronto. Luzes, mesas, decoração, convidados... Mas certa aniversariante ainda não havia descido para que a festa começasse de fato.

Enquanto isso, eu falava com Paige e Nathaniel. Estava feliz por vê-los bem.

Depois do pedido repentino de casamento de Nathaniel, Paige e ele tinham se desentendido. Porém, agora, tinham entrado num acordo. Paige continuaria como selecionada para aprender sobre diplomacia, até a mudança de sua família para Itália.

Os dois não tinham anunciado nada, porque iriam passar um tempo se relacionando em segredo, até que ela se decidisse. Eu conseguia vê-los casando, tinham uma sintonia incrível.

"Eu fico com tanta pena da Delf." comentou Paige. Nós olhamos para Delfina, que conversava com Oliver, Allan e Marie perto da mesa de doces."Estar no mesmo ambiente que o ex deve ser horrível, ainda mais depois de tudo."

"Ah, não se preocupe. Minha irmã já está em outra."disse Nathaniel.

"Como assim?!"

Dessa eu já sabia por meio dele. Delfina estava em boas mãos, alguém que zelaria por ela. Sempre a amaria, um fato, mas agora ela precisava de alguém que a amasse incondicionalmente- e esse alguém não era eu.

Um tempo depois do meu término com Delfina, as princesas alemãs, Anelise e Kayla, me disseram que o irmão delas, Aaron, sempre gostara dela. Não o conhecia direito, por ele ser muito reservado, desde a infância, mas me confortava saber que era alguém decente.

Suki entrou no salão e evitou qualquer contato visual comigo. Ela partiria no dia seguinte, e eu não conseguia deixar de me sentir culpado por não ter notado antes que ela e Rosie haviam se afastado nos últimos dias.

Minha ideia de levá-la para a Elite partia de sua amizade com Rosie e da facilidade com que lidava com reuniões e discursos do meu ramo. Então, na Noruécia, quando Rosie me alertou que Suki ainda nutria sentimentos por mim, prometi que iria falar com ela.

Tentei pensar numa maneira de sugerir sua eliminação sem ser indelicado, já que Suki havia jurado antes da viagem que não tinha mais interesse em mim.

Conversei com ela apenas na Itália, mas o resultado foi que no karaokê, em Roma, ela acabou ficando bêbada e provocou um clima tenso ao mencionar que Lorenzo já havia beijado Rosie.

Com Lorenzo, a situação foi até mais fácil. Conversamos na noite do Karaokê e em nossa rápida viagem junto Nathaniel para uma conferência em Veneza, enquanto Delfina passeava com a Elite por Nápoles.

Lorenzo foi honesto em dizer que ainda não tinha superado Rosie por completo, mas que entendeu há muito tempo que não teria chance e não tinha tentado mais nada desde que ela se envolveu comigo.

'Tenho o maior respeito por vocês.Não magoe ela, ou eu apareço para te trucidar' ele disse.

Eu sabia que ele tinha um coração muito maior do que o meu. Por abrir mão dela.

"Alteza, com licença."

Me virei e encontrei as tias de Rosie, Margot e Madeline. Elas comentaram sobre o desejo da família Artois de que Rosie pudesse passar um tempo na França.

"Meu pai já foi professor de violino da escola de música onde eu trabalho. Nós podemos levá-la a apresentações que ela com certeza iria adorar.Fora conhecer um pouco de onde ela nasceu, passear por Paris..."

"Nós não queremos atrapalhar o ritmo da viagem de vocês"disse Madeline" Mas gostaríamos que em algum momento Rosie fosse conosco. Não fizemos essa proposta para ela ainda. E não sabemos se ela vai aceitar, porque não nos conhece direito. De qualquer forma, queríamos que conversassem sobre isso. Acho que você tem influência o bastante para incentivá-la a vir."

"Vai ser muito bom para ela." completou Margot."E nós queríamos resgastar um pouco do tempo perdido... Ela não nos conhece de verdade, nem nós a ela."

"Não se preocupe. Rosie vai ficar bem com a gente. Só mande um pouco da sua segurança, o resto fazemos."

"Ela tá chegando!" Orabella, a irmã de Nicholetta anunciou de repente, e foi uma correria, todos se posicionando, até que Rosie apareceu na porta.

Ela ficou sem reação por alguns segundos, observando a quantidade de pessoas ali: sua família biológica, a Elite, a família italiana e convidados desconhecidos. Sorriu ao entender a surpresa.

A fila para abraçar Rosie ficou enorme, e ainda havia aqueles que queriam tirar fotos com ela.

O constrangimento de Oliver me foi indiferente quando Nathaniel o chamou para se juntar a nós (eu, ele, Lorenzo e Phillipo, o marido de Nicholetta) para falar sobre futebol. Decidi deixá-los forçar o assunto e entrei na fila.

"Aguente firme", sussurrei, abraçando-a na minha vez. Eu sabia que rever os familiares, depois de ler a carta confirmando o abandono por Marie, tornava a adaptação de Rosie às próprias origens ainda mais difícil.

Delfina puxou Rosie de mim, para que ela fosse abrir o presente da família italiana. Um violino.

"Boa noite, Osten."

"Boa noite, Allan." Demos um aperto de mão.

"Por acaso, minhas cunhadas, Margot e Madeline, te pediram para Rosie ir para França?" perguntou em tom baixo.

"Sim, pediram... O senhor acha uma boa ideia?"

"Depende, se for da vontade da Rosie, sim. Pode ficar a vontade para mandar a guarda que quiser, mas garanto que podemos cuidar bem dela."

"ELA VAI TOCAR!"

O salão bateu palmas após o grito de Delfina. Rosie começou a tocar em um tom baixo, hesitante. Aos poucos, a confiança foi crescendo.

Seus olhos se fecharam, ignorando a partitura à sua frente, ela conhecia aquela música de cor. O sorriso era visível em seu rosto enquanto dedilhava. Não era só talento ali. Era paixão.

Eles tinham razão. Sua possível ida à França era mais do que um simples passeio.

Era a chance dela se reencontrar, de fazer o que sempre quis: tocar, estudar, respirar música de verdade.

Ignorei o pessimismo. Sabia que, depois disso, ela poderia seguir carreira e não querer me acompanhar, mas eu precisava aceitar. Rosie merecia essa experiência.

...

22h26, Atenas, Grécia- 01 de Dezembro- Capítulo 58

"Está aberta, é só entrar."

"Sou eu...a Rosie."

Andei até a porta para abrir, já que ela não o fez.

"Por essa eu não esperava..."ela havia me pego desprevenido, estava com o visual mais desleixado possível."Continuo apresentável?"

Ela assentiu sem graça.

"Desculpa atrapalhar...você deve estar trabalhando ou até indo dormir e..."

"Estou trabalhando, no caso. E você sabe que não atrapalha." Levei-a para dentro, mostrando a pequena bagunça na escrivaninha.

"Nossa...Deixa eu adivinhar, Nova Ásia?"

"Estamos tentando uma nova negociação eles.Essas são as minhas ideias de abordagem para a próxima reunião. Estava finalizando... Mas, por que você...?"

O prazo de Marid pesava sobre mim, mas nada disso importava diante da presença dela. Eu ainda estava sorrindo pela surpresa boa de vê-la ali, até ouvir o que viera dizer.

"...Bom, tem um tempo que eu estava querendo conversar melhor com você, mas nunca temos oportunidade. Eu queria saber se está tudo bem mesmo... com que ouve com Lorenzo."

"Ainda isso?! Eu já falei que mil vezes que sim, Rosie."

"Eu sei, mas você está estranho."

"Estranho?"

"É... digo. A gente não se falou direito desde o que houve, e já tem uns dias. Eu queria saber se você realmente estava bem com tudo, ou se temos que conversar sobre isso."

"Não. Definitivamente você está enxergando coisa demais onde..." Fechei os olhos, amaldiçoando a mim mesmo por transparecer algo que não queria. O ciúmes que eu nunca superei por completo. Parte de mim acreditava que Lorenzo era uma opção melhor para Rosie- um artista como ela, cada vez menos ligado aos compromissos diplomáticos, mais atencioso. "Vamos esquecer isso, ok?" Minhas mãos foram direto ao rosto dela, quase sem pensar. Depositei um beijo em sua testa."Desculpa se eu fiz parecer que estava com raiva."

Eu iria me controlar, aquela seria minha última vez sendo tóxico.

Rosie sorriu de volta, e antes que eu pudesse reagir, veio até mim e pressionou os lábios contra os meus. Fui pego de surpresa, mas deixei que minhas mãos a envolvessem, segurando-a firme.

Senti a saudade acumulada explodir de uma vez, e me perdi completamente nela. Despertei quando a apoiei na bancada, beijando seu pescoço, sentindo o quanto ela também estava entregue, tão perdida quanto eu.

Foi preciso um esforço enorme para recuar, antes que fizesse algo realmente insano, eu sabia que aquele era o limite com ela. E, além disso, precisava terminar aquele relatório.

"Eu preciso terminar o documento..."

"Sim, eu sei..."

"Vai ser bem rápido."

Levei-a até o sofá, dei uma almofada e perguntei se queria algum cobertor, mas ela negou. Entreguei um livro que Ophelia havia me emprestado e voltei à escrivaninha.

Rosie poderia estar em silêncio, como sempre agia para não incomodar, mas isso não impediu que eu me desconcentrasse, encarando as linhas e parágrafos repetidas vezes.

Eu pensava nela durante o almoço na embaixada da Grécia, totalmente perdida entre os embaixadores e suas esposas. Eu não queria que a vida dela fosse apenas uma rotina entediante ao meu lado.

Me lembrei de seu sorriso ao tocar violino. Eu sabia que meus sonhos eram importantes, mas os de Rosie eram diferentes. O que me corria por dentro era pensar que, ao me acompanhar, possivelmente ela não poderia viver os dela.

Mesmo assim, eu estava demorando demais para questioná-la sobre isso. Entender o seu lado. E precisava agir, logo.

Decidi pedir Rosie em Londres.

Delfina estava certa: se eu esperasse até o final da viagem, como havia planejado, na estufa em Illea, talvez fosse tarde demais.

"Estou indo, tá?Amanhã conversamos, sem problemas."

"Hein?"

"E você precisa terminar isso e dormir.Se não tiver horas de sono, vai se estressar mais ainda e não vai conseguir absorver nada do que ler."

Ela se levantou junto comigo, vindo primeiro até minha direção para se despedir com um beijo.

Assim que a porta se fechou, tentei me concentrar no relatório, mas acabei me perdendo novamente, imaginando detalhes do pedido em Londres.

O aniversário verdadeiro de Rosie se aproximava, e assim que chegasse à cidade,me apressaria para juntar os últimos detalhes e preparar tudo da melhor forma possível — para que nada desse errado e ela tivesse o momento que merecia. Então, eu seria honesto quanto ao que vinha me atormentando, deixando a decisão em suas mãos.

...

14h08, Windsor, Inglaterra- 04 de Dezembro- Capítulo 59

"Você está com um alto astral insuportável, Schreave."

Tentei esconder, sem sucesso, o riso de deboche.

"Relaxa e curte aí. Estamos do mesmo lado, Noah."

Eu, Ophelia, Katie e o príncipe Noah formamos o primeiro time do jogo de polo. Os amigos de Noah: Gilbert, Riley e Cooper ficaram juntos com a princesa Victoria e uma de suas amigas, Ava.

A cada vez que Noah tentava se aproximar de Ophelia, eu aparecia de repente para tomar a bola. Ela ria e entrava na brincadeira, fingindo que passaria a bola pra ele, só pra me devolver em seguida.

"Nossa, mas meu irmão está possesso com vocês."Victoria, que conhecia a índole do irmão melhor do que ninguém, comentou com Ophelia.

"Sim, coitado." Ophelia respondeu, rindo.

"Osten realmente protege você, hein?"

"É claro."Sorri, dando uma piscada para Ophelia, que me olhava com agradecimento.Eu já tinha a alertado sobre o caráter de Noah, e ela estava fugindo de suas investidas como podia.

Ophelia e Victoria aproveitavam os intervalos do jogo para conversar. Notei que tinham se conectado pela personalidade extrovertida.

Meu foco se desviou brevemente do jogo para Rosie, que conversava com Jude, a sogra do rei George, e suas amigas em uma mesa de chá.

Desde que chegamos à Inglaterra, pedi a Jude que me cedesse o Jardim de Inverno do Palácio de Windsor, um presente que recebera da filha e do genro. Não era como a estufa, mas assim que entrei ali, pensei em uma decoração que deixaria o espaço tão bonito quanto minha ideia original.

A princesa Victoria me indicou um fornecedor de joias que atendia às participantes da Seleção inglesa, e eu pedi que me mostrasse algumas peças. Escolhi uma pulseira com pingentes de violino, a cara da Rosie.

Também liguei para contatos na França e garanti ingressos para uma ópera. Como combinado, eles chegaram de trem no final daquela tarde.

Agora faltava apenas um dia.

...

18h24, Windsor, Inglaterra- 05 de Dezembro- Capítulo 60

Rosie abriu um sorriso ao entrar no Jardim de Inverno, e eu soube de imediato que havia feito a escolha certa, vendo-a admirar as flores e a iluminação de natal branca, decorando o local.

"Achei que fosse uma surpresa te trazer até aqui, mas parece que você já conversou sobre isso com a Sra. Jude."

"Sim...Ela e as amigas me chamaram para conversar sobre botânica... Elas são uma graça."

Eu estava ansioso, mas ainda precisava tratar de uma questão.

"Tenho que te contar uma coisa... Conversei com suas tias Madeline e Margot, na sua festa, em Nápoles. A família Artois te quer por um tempo na França com eles. Pediram para que você passasse os primeiros dias com eles, enquanto eu vou para a Rússia com o restante das pessoas. Depois você voltaria a se encontrar com a gente."

Ela estranhou a proposta, mas disse que pensaria no caso. Suspirei, ao menos eu tinha dito o que devia. Pedi que ela me desse uma resposta até o final da viagem na Inglaterra, ao que assentiu.

Sorri, como um idiota, e toquei seu cabelo, mexendo em sua franja que caia sobre os olhos.

"Você tem duas opções, basta escolher. Ou ficamos por aqui e eu peço para trazerem um bolo, ou... Saímos nesse momento por Londres, para comemorar?"

Mas Rosie tinha realmente se esquecido de que agora tinha duas datas de aniversário: a biológica e a que seus pais adotivos registraram.

"Feliz aniversário, dessa vez de verdade."

Ela me abraçou em resposta aos presentes, e eu a envolvi de volta. Minha mão alcançou a dela no meu ombro, e nossos olhares se encontraram. Eu iria pedi-la.

"Desculpe por atrapalhar os pombinhos," Noah, seu maldito. "Mas, Rosie...tem algo urgente que você precisa ver..."

E com a notícia das acusações envolvendo as modelos, todo o meu planejamento foi por água abaixo. Eu tinha reservado um restaurante fechado à beira do rio Tâmisa, para que o jantar fosse só nosso, seguido de um passeio de barco, se a discrição permitisse.

Nada disso aconteceu. A prioridade agora era protegê-la, blindar Rosie da imprensa e pensar em um novo momento para finalmente pedir sua mão.

...

19h15, Londres, Inglaterra- 06 de Dezembro- Capítulo 60

O dia havia sido longo, e eu podia ver isso em cada gesto de Rosie.

Ela estava calada no almoço, se absteve de falar no debate e eu sabia que não estava bem quando olhei para ela na plateia.

Talvez ainda pudéssemos sair à noite, pensei, só para distraí-la um pouco e ajudá-la a esquecer os problemas do dia. Não era hora de pedir nada, nem mesmo pensar nisso. Eu só queria que ela respirasse, que se sentisse bem por algumas horas.

O último compromisso do dia era a coletiva de imprensa, sugerida por Benjamin, para que Rosie esclarecesse ao público seu lado quanto às acusações feitas pelas modelos Thalia e Prudence.

Ela estava saindo corredor afora, me apressei e consegui alcançá-la barrando seu caminho até a porta da ala onde teria acesso às escadas.

"Você conseguiu se sair muito bem."

"Que bom.Não fiz nada além de dizer algo pronto. A questão é se isso vai fazer tanto efeito quanto a reportagem."

"...Eles vão esquecer isso com o tempo, tenha um pouco de paciência,"Mas ela saiu andando."Rosie? Está chateada comigo?"

"Não."

Apesar do tom áspero quando ela se voltou para mim, percebi que se tratava, principalmente, de uma exaustão com a entrevista e demais contrariedades do dia.

"Por que então..?"

Por que não me deixa te apoiar?

"Olha, eu agradeço pela sua ajuda. Mas entenda que isso não é algo que está ao seu alcance para consertar. Todos esses escândalos: com a Bridget, com Tyler, e agora com essas modelos. Estão obcecados pra me derrubar. Isso cansa..."

Ela fechou os olhos, a ponto de desabar. Dei um passo instintivo em sua direção.

"Eu sei como é isso. Já esqueceu o que andam dizendo sobre mim pelos jornais? Eadlyn também ganhou muitas críticas durante a Seleção dela. É normal. "

Eu só queria que ela entendesse que tudo na mídia é passageiro. Por mais que machuque, é possível conviver com isso.

"Exatamente, é normal."me encarou, com os olhos lacrimejantes" Para você e sua família é muito mais fácil lidar com a fama. Você cresceu com os holofotes, se acostumou com eles. Mas EU os ODEIO. Para falar a verdade, estou cansada dessa viagem, dessas reuniões, e eventos, discursos, fotos, entrevistas, jantares, visitas, e recepções... É como um ciclo sem fim!"

Nada ali era novidade para mim, mas ouvir a confirmação da parte dela teve o seu efeito.

"Acho que estou sendo injusta com você." riu, seca."Me desculpa, mas você jamais entenderia o que é viver uma vida normal, e não dever satisfações para outros, e de repente estar no meio dessa confusão."

"Rosie..."

"Eu preciso pensar e ficar sozinha, OK?"

...

18h55, Londres, Inglaterra- 07 de Dezembro- Capítulo 60

"Não precisa tirar, o Natal está quase aí, e eu gostei de como ficou."

Olhei para trás, encontrando a Sra. Jude.

"Certeza? Então, tudo bem."

Eu iria retirar os piscas-piscas, mas desci a escada.

"O pedido não deu certo?"

"Não foi um bom momento, mas obrigado por ceder o local."

"Ah, que pena. Espero que você tenha mais sorte da próxima."

"Eu também."

"Me permite uma crítica?" perguntou com um tom gentil. Assenti. "Conversei isso com Noah, mas meu neto é tão cabeça dura quanto Courtney." Sua filha, a rainha britânica Courtney que faleceu por câncer. "Vocês são tão jovens... tão cheios de planos, e às vezes a Seleção coloca uma pressa que não devia existir."

Ela fez uma pausa, talvez esperando que eu falasse algo.

"Minha filha casou com o rei da Inglaterra, depois de poucas semanas que se conheciam. Foi um conto de fadas no começo, mas...o casamento não deu certo, e não foi fácil para nenhum dos dois viverem sob o mesmo testo depois que o amor acabou. Eu vi meus netos sofrerem com isso. Não acho que seja uma regra, mas às vezes me pergunto: com tão poucos meses, é mesmo possível ter certeza de que se quer estar com alguém para o resto da vida?"

Ela andou até a tomada para acender as luzes de natal.

"Eu e a rainha da França ficamos próximas depois que Courtney e George casaram. Aimée também se casou muito jovem, e o marido dela era um músico que precisou abrir mão de muitos sonhos para acompanhá-la. Eles tiveram muitos problemas, ela me disse. Não me leve a mal, mas pense sobre isso. Vocês também têm aspirações, entende? Hoje em dia não se vê mais casamentos arranjados como antes, mas ainda assim, membros da realeza costumam ser pressionados a se decidirem rápido demais... e a vida é longa, meu querido."

Eu me perguntava como Jude tinha adivinhado a situação, porém lembrei que minha discussão com Rosie gerou comentários. Algum funcionário poderia ter detalhado a conversa para ela, ou ela mesmo presenciado discretamente.

"Sim, Jude, eu entendi onde a senhora quer chegar. Obrigado."

...

Eu ainda tinha um tempo até a próxima reunião.

Ela estava dormindo. Sentei na cadeira disponível, pensando se a acordava ou voltava mais tarde. Quando me levantei para chamá-la, acabei arrastando a cadeira, e Rosie abriu os olhos.

"Desculpe... Eu cheguei agora a pouco, já ia te acordar..."

Ela se levantou e ficou sentada, apoiada na cabeceira da cama.

"Não, relaxa! Achei que fosse Amy e Audrey."

"Você melhorou?"questionei aproximando a cadeira.

"Mais ou menos. Estou bem melhor, garanto."

Chequei sua temperatura, vendo que estava normal.

"Escuta, Osten... sobre ontem. Me desculpe, de verdade, pelas coisas que eu te disse. Eu..."

"Não precisa, eu sei."

"Espera, você tem que ouvir primeiro!"

"Sei que não está passando por um bom momento. Eu é quem devo me desculpar. Falhei com você. Podia ter te dado mais apoio, mais atenção... Vivemos coisas diferentes, estamos acostumados com problemas diferentes."

"Tá, mas mesmo assim, você não merecia ouvir aquilo tudo!"

"Esqueça aquilo, está tudo bem, Rosie."

Ela acabou cedendo. Conversamos por mais alguns minutos, mas cada tentativa de diálogo de ambas as partes era inútil. O silêncio entre uma fala e outra era significativo.

Foi então que meus olhos caíram sobre uma fotografia no criado-mudo. Rosie a pegou antes que eu perguntasse e disse que era de suas primas Hanna e Taylor em uma viagem de formatura das turmas do último ano de sua escola.

"Você queria ter ido?" perguntei.

Ela confirmou.

"Eu queria muito estar lá, mas sei que vou ter outras oportunidades para viajar com elas."

"Sim."

Vi o sorriso que ela forçou se desfazer aos poucos, o que me fez refletir sobre o quanto sua vida havia mudado drasticamente desde que entrou na Seleção.

E, quando ela disse estar decidida em ir para a França conhecer sua família biológica, eu entendi que aquilo nada mais era do que a consequência de estar exausta de tudo.

Se afastar da minha realidade seria o melhor para ela.

...

20h14, Londres, Inglaterra- 08 de Dezembro- Capítulo 60

Ela descia aquelas escadas com um sorriso que não chegava aos olhos, que piscavam, nervosos, devido aos flashes constantes.

Rosie estava fazendo de tudo para não se mostrar abalada diante dos comentários.

Não... eu não posso submetê-la a isso pelo resto da vida.

Por sorte, Jade e Paige a acompanharam no início da festa de abertura da Seleção Inglesa. Me deixou aliviado saber que estavam lhe dando apoio.

Enquanto rodava pelo salão, fui abordado por diversas pessoas, inclusive pelas selecionadas inglesas. Elas vinham sempre em grupos e pediam fotos comigo, dizendo serem fãs ou algo do gênero.

Noah nos lançava olhares descarados, porém achei que, de certa forma, estaria fazendo um favor àquelas que ele eliminasse por rancor. Ele admitiu para mim com todas as letras que só estava fazendo o reality para ficar com várias mulheres ao mesmo tempo.

Não que fosse nobre usar a Seleção para tentar esquecer a ex e eu não tinha um histórico exemplar, mas pelo menos, tinha a consciência limpa por não ter tido uma motivação como a dele.

Rosie estava de costas, distraída, quando me aproximei. Jade me lançou um olhar mortal, que me deixou confuso, antes de Rosie me notar.

"Por sorte, ele finalmente resolveu tomar atitude! Por favor, brilhem na pista de dança. A imprensa tá precisando de um esfregão na cara."

Concordei, e ela nos deixou a sós. Segurei a mão de Rosie.

"Fico feliz que tenha gostado disso..."ela usava a pulseira com pingentes de forma de violino que lhe dei de aniversário. Com isso, consegui ao menos um sorriso de sua parte.

Desde o dia anterior não nos falávamos. O quarto dela fora a última vez. E eu podia sentir que o clima entre nós ainda estava estranho.

Eu a envolvi quando chegamos ao centro da pista de dança.

Durante o tempo em que dançamos, só pensei no fato de que tantas vezes a abracei para consolo, e apesar de estar fazendo isso naquele momento, não estava adiantando.

Queria poder poupá-la daquele sofrimento. Mas constatei que não importava o que eu fizesse para melhorar sua vida, comigo ela nunca se sentiria completa.

"Você pode me dizer. Qualquer coisa que te faça feliz, não importa o que seja."Mesmo que seja desistir de nós. "Estou aqui por você."Ela assentiu com um sorriso triste. Voltou a me abraçar, e não olhou mais nos meus olhos.

Nos deparamos com Victoria e Ophelia quando sugeri que procurássemos um garçom para pegar um copo de água, que era mais para ela.

"Estão gostando da festa?" Victoria perguntou, com aquele ar travesso de sempre.

"Você conseguiu superar as festas de Illea, mas não conta para Eadlyn, não."

"Ganhei a noite!"disse satisfeita com minha resposta."Lembra do meu aniversário de 15 anos, Osten? Quando te obriguei a dançar comigo? Hoje eu tenho vergonha do que te fiz passar. Mas eu tinha a maior queda por você naquela época!"

"Você tem é a maior cara de pau de admitir."

Ela se divertiu.

"Pois é, não é muito legal falar isso na frente de suas pretendentes. Como posso me redimir? Dancem e se divirtam!" Ela, então, empurrou Ophelia e eu para a pista de dança.

Encarei Ophelia e ela deu de ombros como se dissesse 'ah, vamos'.

"Gente, do nada." comentou quando chegamos ao centro da pista.

"Victoria é louca." falei.

"Tô começando a ver."

Olhei para o lado, vendo Victoria conversar com Rosie, e me distraí, mas a culpa de quase ir para o chão foi o tropeço de Ophelia.

"Foi mal!" Ophelia disse rindo.

"Tudo bem." Balancei a cabeça."Ah, olha só quem está entrando numa dança agora com uma selecionada para te fazer ciúmes." Apontei para Noah rodopiando uma jovem.

"Oh..."

"Melhor eu dormir de olhos abertos essa noite. Capaz de eu amanhecer com uma foto minha nos jornais, dormindo de cueca ou com a boca aberta."

"O quê?!"ela caiu na gargalhada.

"Ele é mais infantil do que você pensa. Da última vez, na Alemanha, ele sumiu com minhas roupas bem antes de uma reunião e deixou só fantasias ridículas no armário. Passei meia hora tentando achar algo decente pra vestir."

"Ah, olha só, o sujo falando do mal lavado. Como você não tivesse feito coisas horríveis na infância!"

"Isso não...não está errado."

Perdi Rosie de vista.

"O que foi, Osten?" Ophelia me encarava, agora séria.

"Nada. Deixa." Tentei me acalmar. Estava irritado, porque todo mundo daquela festa parecia ter decidido vir para a pista de dança.

"Quer me falar o que houve?" insistiu.

"Eu não sei se melhoraria as coisas."

" Então não precisa falar diretamente."

"... Não posso. Me perdoe."

Sempre falei com ela sobre Rosie, mas, naquele instante, percebi algo: assim como Suki havia mentido dizendo que tinha me superado, Ophelia também poderia estar escondendo o que realmente sentia.

Não seria justo da minha parte continuar comentando sobre isso. Se eu não tinha certeza de seus sentimentos, melhor ficar em silêncio.

Um anúncio da organização interrompeu nossa dança, e Ophelia se afastou dizendo que respeitaria meu espaço pessoal.

"Estarei pronta para ouvir, quando quiser falar."

Desviei o olhar para o palco, onde o Rei George e Louise, a princesa Herdeira, queriam agradecer a todos os convidados pela presença.

"Vossa Alteza, por favor, me acompanhe até o pátio." disse um dos assessores de Benjamin.

Era uma armadilha, eu devia saber. O pessoal da imprensa que não estava cobrindo lá dentro surgiu de todos os lados, cercando-me com perguntas inoportunas sobre a festa, a nova seleção, a repercussão da viagem e claro sobre Seleção de Illea.

Eu não era o foco da noite, mas parecia que todos esperavam que eu estivesse disponível, sorridente, pronto a falar.

Quando finalmente me vi livre, rodeei o salão. Como suspeitava, Rosie tinha ido embora. Confirmei com Victoria.

"Ela já saiu tem tempo. Não sei, mas a impressão que tenho é que ela odeia festas."

"Sim, ela odeia."

"Tadinha, está parecendo um peixinho fora d'água por esses dias. Quando vai mandá-la para casa?"

Olhei surpreso.

"Como assim?"

"Ah, espera... você não vai?"

"Victoria."

"Desculpa, desculpa. Só não leva para o coração. Eu acho que ela está cansada toda essa atenção negativa da mídia. Está acabando com ela, pra falar a verdade. Se você não percebeu, é um completo insensível."Ela virou a bebida de uma vez."Desculpa, de novo. Eu vou indo." sorriu, com uma voz fingida de bêbada.

Eu sabia que tinha sido proposital, mas independente disso, refleti. Todo mundo via. Todo mundo percebia. Eu sabia. Rosie mesma tinha dito que estava farta.

Deixei a festa, sem ligar para outros chamados.

Segui pelo corredor do andar superior até os quartos e vi Amy e Audrey entrando no quarto de Rosie, provavelmente para dormir.

Isso me deixou indeciso. Queria falar com ela, porém havia chances de já estar dormindo, finalmente descansando depois de ter passado a festa inteira se estressando.

Decidi lhe dar mais um tempo. Poderíamos conversar no dia seguinte, antes de sua viagem.

Foi o meu erro. Eu deveria ter falado o quanto antes com ela.

...

16h17, Moscou, Federação Russa- 14 de Dezembro- Capítulo 63

Empurrei a porta envidraçada da sacada da embaixada. O céu escurecia rápido, misturando cinza, azul profundo e os últimos traços do pôr do sol. Estava, desde cedo, cinzento, com uma nevasca pesada.

Reuni fôlego. Eu tinha alguns minutos.

O evento iniciou 14h com discurso de Marid e das autoridades russas; uma mesa-redonda com jovens representantes às 14h30; a mostra cultural às 15h30 e, finalmente, discursos dos representantes, inclusive o meu, em breve, às 16h30.

Enfiei as mãos nos bolsos do paletó. Meus dedos estavam rígidos pelo frio, e isso me lembrou das mãos geladas de Rosie, que costumava esquecer seu par de luvas. Dessa vez, fui eu.

Deslizei o polegar sobre o contorno da fotografia, como se pudesse acariciar seu rosto. Ela sorria, discreta, ao lado de Kerttu e eu, no canteiro lá de casa.

A foto tinha sido tirada por meu pai, há um bom tempo.

"Belo esconderijo!"

Virei rápido e dei de cara com Ophelia.

"Ei." Sorri, guardando a foto por reflexo, mesmo sem motivo para esconder." Eu concordo com você."

"Está tudo bem? Você não anda com uma cara muito boa ultimamente. Se eu puder ajudar em algo..." A expressão dela oscilava entre ternura e pena.

"Agradeço, Ophelia. Estou bem. Só... estou mentalmente exausto. Precisava descansar um pouco."

"Eu vou fingir que acredito em você, só porque acho que precisa apenas de companhia, no momento."

Forcei um sorriso de volta.

Ela estava ali de novo. Ao meu lado, como esteve em quase todos os compromissos das últimas semanas.

Ophelia era educada, perspicaz, sempre sabia o que falar. Para qualquer um de fora, éramos o retrato da harmonia: o jovem diplomata e a futura princesa exemplar.

Eu entendia o ciúmes de Rosie agora. Entendia de um jeito que doía.

Olhei para Ophelia com culpa. Eu tinha permitido que continuasse na Seleção, mesmo sabendo do peso disso. Ela gostava de diplomacia, sim, mas até que ponto aquilo tinha valido a pena? Esperava que muito. Que tivesse se sentido realizada com a viagem, pelo menos.

"Eu queria ver seu discurso antes da gente entrar. Posso?"

"Claro."Respondi.

Errei o bolso. Em vez do discurso, puxei de novo a foto , e junto dela, algo pequeno escorregou da minha mão. Caiu na neve com um som seco.

Tive uma reação imediata, e me agachei estendendo o braço para pegá-la.

"Ah, isso é..."

Desenterrei, e ergui a aliança, conferindo se estava intacta. Fechei-a na mão.

Sim, eu era um tolo por carregar aquilo no bolso, como se um pequeno gesto pudesse trazer alguma mudança além do meu próprio consolo, enquanto Ela estava a quilômetros de distância.

"Sinto muito por isso..." Esperei por alguns segundos e levantei.

"Eu posso ver?"Hesitei, mas abri a palma da mão diante dela. "É muito linda. Rosie tem muita sorte..."

"Ophelia, eu..." As desculpas travaram quando meu reflexo captou uma figura diferente no vidro.

Flashes, e a aliança caiu de novo.

"Oh, céus, quer ajuda?"

"Não, deixa que eu pego. "estendi a mão para cima"Está ao alcance."

Dessa vez já me levantei na pura adrenalina, e abri a porta de vidro.

"Ei, me ajudem a pará-lo!"

O homem se misturou entre os convidados. Ninguém entendia a minha correria, talvez nem mesmo os poucos seguranças que me seguiram para ajudar.

Varri os quatro cantos da embaixada. Nada. Nenhum sinal daquele maldito jornalista.

Devia estar a caminho de alguma emissora, porque, claro, ele tinha o que queria: O furo do dia.

"Osten, o que está fazendo? Está quase na hora do seu discurso, não pode ficar por aí!" Ouvi a voz de Benjamin depois de um minuto sentado em um banco, próximo à entrada. Ele se aproximava com os nervos à flor da pele." Que loucura foi essa de sair correndo?"

Bufei, pedindo que ele me seguisse a um cômodo reservado para resumir a situação.

"Então, me desculpe, tudo isso foi para tentar evitar um escândalo, mas parece que temos um a caminho."

"Bom, analisando melhor, um drama pode vir a ser bom para você. A Seleção não estava com tanta audiência e agora vamos ter uma repercussão positiva com o seu noivado vazado."

"Espera, o QUÊ? Não pedi Ophelia em casamento!"

"Não?!"

"Não, definitivamente, não!"

Ele me encarou como se eu fosse louco.

"E se não é a Ophelia que vai escolher, qual delas vai ser?! A doida que te trocaria por qualquer homem mais rico? A que só quer saber de moda? Ou a pretendente não tão secreta do rei Nathaniel?" Seu rosto, de repente se contorceu em compreensão." Ah, não! A loira que só te coloca em escândalo?!"

"Benjamin."

"Não acredito. Garoto, paixões arrebatadoras sempre passam! Achei que tivesse caído na real quando mandou aquela jovem embora, porque ela não tem perfil nenhum para diplomacia! Aliás, você escolheu um péssimo grupo de Elite, se me permite dizer. E, agora, a ÚNICA opção mais viável, você descarta!?"

"Benjamin.Chega. Por favor."Eu estava numa calma me surpreendia, mais do que seu rosto incrédulo."Você desrespeitou todas as integrantes da Elite. Pode achar o que quiser delas, mas guarde pra você. Ouvir isso de você é surreal. Sempre foi uma inspiração para mim. Me fez sair do zero quanto às relações internacionais, e me guiou em todos os passos. Eu sou grato, não se engane. Mas no que compete a minha vida pessoal e às minhas escolhas, só te peço o MÍNIMO de consideração."

Ele estava com o rosto fechado, mas deu de ombros e assentiu.

"Se você está pedindo... mas saiba que, como seu mentor, sempre quis o melhor para você."

Eu o considerava mais do que um mestre, ele foi um avô que nunca tive.

"Eu sei..."falei apenas."Já estou a caminho do salão para o discurso, não se preocupe."

Praticamente me arrastei de volta para o salão, tentando me recompor, pois precisava subir no palco como se nada tivesse acontecido. Afinal, foi para isso que fui treinado.

...

21h39, Moscou, Federação Russa — 14 de Dezembro — Capítulo 63

"Ah, eu não acredito que está achando mesmo que a Rosie vai te atender depois de te ver noivo na TV. Ela não vai te perdoar! Quando ia contar pra ela sobre você e Ophelia?!"

Respirei fundo olhando para Jade, que tinha batido à porta e entrado no escritório onde eu estava ao telefone.

"Você entendeu tudo errado."

"Não estou entendendo nada, pra falar a verdade! Primeiro a Rosie foi embora, e você se afundou no seu trabalho. Não falou com nenhuma de nós direito por esses dias, só aparece quando tem algum evento. E agora, do nada, você e Ophelia estão noivos?!"

Ela ficou parada de braços cruzados, e conforme eu explicava o que realmente aconteceu, sua expressão foi ficando cada vez mais enfurecida.

"Eu continuo te achando um idiota. E que história é essa de só revelar quem vai ser sua noiva só depois da viagem acabar? É ideia do Marid, não é? Foi ele quem mandou você dizer isso na entrevista para prolongar o mistério sobre a Seleção, certeza. Você é um pau mandado, sabia?!" riu, sarcástica."Boa sorte pra você, porque EU acredito que não tenha pedido Ophelia em casamento, mas todo mundo acha o contrário!"

Massageei a testa.

"Pior que você tem razão."

"Eu tenho!" rolei os olhos com essa resposta." Agora me diz, sério, se sempre foi a Rosie, porque deixou ela ir pra França?!"

Balancei a cabeça.

"É um tanto complexo."

"Ah, jura?!"

"ESSE NÃO É O MUNDO DELA, JADE! " tentei me acalmar."Não importa o que eu faça. Eu não consigo dar uma vida livre pra ela, anônima, sem satisfações para a imprensa, com uma rotina normal e os sonhos dela."

"Mas... Ah, droga, Osten. Eu consigo te entender nessa."

"Hã?"

"Ainda acho que você foi um idiota, mas... eu seria uma hipócrita se dissesse que não te entendo." Continuei encarando-a sem norte. Ela suspirou."Eu já me apaixonei antes, não deu certo com o James, nós tínhamos caminhos diferentes. Eu sugeri que ele fosse embora, e nós brigamos. Hoje ele está com outra pessoa, mas está bem. E eu também."

"...Eu sinto muito."

Não esperava que ela fosse abrir algo tão pessoal.

"Não sinta."franziu a testa." Isso é passado pra mim. Me fez crescer, de alguma forma, então... Tudo bem, vou te deixar em paz."

"Jade?" Chamei-a quando ela estava quase na porta.

"Oi."

"Obrigado por ajudar a Rosie quando a notícia com as modelos saiu, e por tudo que me falou, eu precisava desse choque de realidade."

"Por nada."sorriu." Boa sorte. Torço pra que as coisas se encaixem pra vocês."

Disquei o número de Rosie mais algumas vezes e em nenhuma tentativa ela atendeu, por isso, desisti de ligar. Precisava respeitar seu espaço.

Querida Rosie,

Finalmente achei sua carta. Ela ficou entre alguns documentos que não eu tinha urgência de revisar, dentro de minha pasta. Lembro de ter guardado tudo de uma vez em Londres.

Com o que disse nela, consigo entender melhor sua decisão repentina de aceitar o convite de sua família biológica para passar um tempo na França... Sei que o motivo vai muito além de apenas estar longe da atenção da mídia e de toda a pressão sobre o assunto "Seleção e Elite".

Desconfiei que algo estava errado com sua pressa em partir, mas agora compreendo que minhas atitudes foram determinantes para sua escolha.

Preferia conversar sobre isso com você em outras circunstâncias, mas o escândalo recente me obriga a explicar por escrito.

Quero que saiba que Ophelia e eu nos demos bem de cara. Eu considerei ela como uma opção real, já desde o primeiro encontro, dentre todas as outras selecionadas. Enquanto você me lembrava Delfina em vários aspectos, como já sabe.

E mesmo depois que os sinais começaram a ficar óbvios, eu ainda me recusei, de certa forma, a aceitar meus sentimentos. Ophelia foi uma das primeiras pessoas a perceber, e me aconselhou a me declarar, mesmo que você me enxergasse apenas como um amigo.

Ela fez um acordo comigo de permanecer na Seleção, porque sempre gostou do estudo de idiomas e da ideia de uma viagem na Elite. Me disse que estaria ali, caso você nunca retribuísse o que eu sentia.

E você retribuiu.

Apesar disso, Ophelia me implorou para ficar. Só pude tentar ser um bom amigo para compensar isso... O meu erro foi não conseguir mandá-la embora. Acabei machucando vocês duas.

Não sei até que ponto acredita nisso, dado o mal entendido, mas escolhi aquela aliança para apenas uma pessoa.

Eu sei o quanto falhei com você. Me perdoe.

Quanto a sua dúvida sobre como me comportei depois do Karaokê, não foi nada mais do que meus ciúmes falando alto por Lorenzo ter se declarado e tentado algo com você primeiro. Não me afastei por ressentimento.

A verdade é que fomos pouco a pouco nos perdendo, seja pela minha ausência com os compromissos de trabalho, seja com os nossos mal entendidos.

Rosie, você me pediu para ser honesto quanto ao que eu sentia, agora peço que faça o mesmo.

Eu te observei durante toda a viagem. Quis que conhecesse a minha rotina e, talvez, o que seria a sua rotina no futuro, caso decidisse seguir ao meu lado.

Eu precisava ter a certeza de que estava fazendo a escolha certa, mas, ao longo dos dias, notei como você foi perdendo o brilho no rosto.

Vi seu esforço para cumprir todas as tarefas e como suportou todas as críticas que surgiam ao longo do caminho. Isso me fez sentir uma mistura de orgulho, esperança, angústia e culpa.

Você estava certa sobre o que disse naquele dia: Somos diferentes. É por isso que jamais deveria se esforçar para "merecer" estar ao meu lado.

Eu nunca quis que se adaptasse a uma imagem de "parceira ideal de um diplomata" e estou certo de que você também não.

Sinto sua falta. Mas, nos momentos em que eu quase me arrependo por sugerir essa distância extra entre nós, me lembro de que o tempo em que está longe é importante para você.

Espero que estar em Paris tenha lhe dado clareza sobre o que quer.

Não quero e não vou te prender a um futuro em que esteja isolada de todos, cumprindo um "papel" ao meu lado, se o que pode realmente te fazer feliz é estar em outro lugar.

Eu te amo, Rosie. Isso não vai mudar, mesmo que você siga seu caminho.

Osten Schreave.

Aquela carta era uma solução mais viável, apesar de eu querer falar com ela.

Amy, uma das criadas que a acompanhava, foi compreensível ao me atender e prometeu que aguardaria o fax e entregaria para ela. Com isso, tive esperança de que Rosie me ligasse de volta. Contudo, no decorrer da semana, entendi que esperei em vão.

...

20h41,Moscou, Federação Russa- 21 de Dezembro-Capítulo 65

Não andei muito pelo centro de Moscou. Vi apenas o essencial: luzes fortes nos letreiros, vitrines acesas, gente apressada enfrentando o frio. A cidade parecia sempre em movimento, mesmo à noite. Em poucas horas iríamos partir novamente. Para a França.

Eu podia contar nos dedos as vezes em que dirigi sozinho. Encontrei uma pista vazia, sabendo que não demoraria para o carro da guarda me alcançar na curva, ou para algum veículo da imprensa aparecer no retrovisor.

Liguei o áudio do carro no máximo. Lembrei-me da reprise que tinha visto na televisão, ela tocava violino com as crianças do orfanato. Exatamente onde deveria estar.

A entrevista dela era mais recente, da festa da empresa Artois.

"A verdade é que não sou mais uma selecionada. Essa não é uma opção para mim. Não esperem isso de mim nesse baile. E sim, vou estar acompanhando os meus pais. Não estou aqui para afirmar nada sobre o noivado, espero que entendam a minha posição."

Ela surgiu dançando com um cara durante a festa. Comentavam sobre um possível romance entre eles, algo que era esperado acontecer eventualmente, não exatamente naquele momento, como afirmavam as entrevistas sensacionalistas. Mas aconteceria, cedo ou tarde.

Espero que ela encontre alguém que seja tudo o que eu não fui.

As árvores e a neve eram os únicos pelo caminho. Rosie gostaria sem dúvida dessa paisagem.

Eu deveria ter passado mais tempo com ela, saído mais ao seu lado, mesmo antes de Londres. Apesar do risco de sermos flagrados e de existirem notícias sobre nosso noivado circulando, ao menos haveria uma mínima chance de eu ainda estar com ela.

Era sempre assim.

Eu mergulhava no trabalho até esquecer quem eu era fora dele. Frenético, entre compromissos, reuniões, relatórios, tratados... como se o mundo dependesse da minha constância.

E no meio desse turbilhão, esquecia do essencial: dividir o tempo. Mostrar o que sinto, com gestos, com palavras. Foi uma falha recorrente.

Apenas aceitei o que eu merecia.

"Você estava certo sobre Paris. Vir me fez entender que eu estava mentindo para mim sobre meus sonhos.Obrigada por me ajudar a enxergar."

Ela estava sorrindo sinceramente ao responder essa pergunta, e eu sabia exatamente o que estava me dizendo.

Rosie entendeu que eu a deixei ir, e tinha tomado sua decisão.

Agora eu só poderia amá-la de longe.