Uma Seleção com Rosie Ambers
73 Capítulo 67
Notas iniciais
Saí da audição e me mandaram direto para uma sala cheia de carteiras, onde o resto dos candidatos esperava.
Só quando sentei é que reparei nas minhas mãos, que começaram a tremer. Um efeito tardio do estresse. Olhei para os meus dedos e só consegui agradecer aos céus por esse colapso ter esperado a apresentação acabar para dar as caras.
Eu sabia que tinha sonhado com aquele momento por muito tempo.
Sempre imaginei, no entanto, um futuro na Universidade de Columbia. Mesmo que na época eu ainda estivesse entre música, literatura e artes, era óbvio que minha escolha seria, mil vezes, a primeira.
Como fomos chamados em ordem alfabética e meu nome começava com "R", eu tinha sido uma das últimas a fazer a audição, então não demorou muito para o restante chegar à sala. Logo o teste teórico foi distribuído.
...
Laura estava na saída conversando com outros alunos. Ao me ver, se despediu e veio em minha direção.
"Como foi?"
"Nem ideia..."suspirei."Mas me livrei de ser uma tragédia, e acho que não vou mal na prova teórica. Só... vamos ser pé no chão, não sei se vai ser suficiente."
"Por que não?"
"A pergunta certa: é por que sim?" rebati.
"Que pessimismo horrendo." balançou a cabeça, rindo quando ouviu os meus argumentos. "Nem todos os aceitos tocam várias coisas. Bernard só tocava violino na época e o Jules entrou e saiu só tocando sax. É tudo uma somatória, ainda tem a prova teórica e análise das suas atividades. Pelo histórico que seus pais enviaram de Columbia, você participou de vários eventos artísticos, isso conta também."
Laura já havia me contado mais cedo sobre uma ligação que meu avô fez para os meus pais há alguns dias, pedindo que enviassem a lista das minhas atividades extracurriculares de Columbia.
Por causa disso, eu estava supondo que poderiam ter entendido que saí da Seleção muito antes de eu dizer na televisão. Talvez desde que fui para a França...
Desisti de convencer Laura e a segui para a saída, onde seu motorista estava à nossa espera.
Recostei a cabeça no banco, fechando os olhos apenas para descansar.
Pensava na audição, se a técnica que usei foi considerada adequada o suficiente para os avaliadores, que estavam sérios quando finalizei.
Minha boca estava seca, e o meu coração batia acelerado. Não tanto como bateu quando eu estava me apresentando, mas o suficiente para me fazer entender que, assim como a noite anterior, eu provavelmente teria problemas para dormir mais tarde...
Abri os olhos a tempo de ver o carro contornando a rotatória do Arco do Triunfo, antes de ir para uma rua em outra direção. Lá fora, a neve caía sem parar.
"Rosie, me espera um minuto? Vou comprar alguma coisa bem rápido." Laura perguntou, assim que pediu para seu motorista parar em uma padaria na esquina da avenida." Eu ia te levar num café bom que conheço, mas você está muito cansada para isso."
Voltou minutos depois trazendo um croissant para cada e um pacote de macarons coloridos para dividirmos.
"Você deveria descansar." tia Margot me lançou um olhar de pura preocupação assim que entrei em sua casa.
Assenti, indo para o quarto, e lá, ao menos, o sono finalmente venceu.
Lá para o anoitecer, uma discussão de Margot com Marie atrás de minha porta foi alta o suficiente para me despertar.
Marie estava querendo me levar a mais um compromisso com as debutantes. Mas, graças à intervenção da minha tia, consegui uma trégua.
Sem compromissos com a corte francesa, por ora. Peguei no sono novamente.
...
O subconsciente pode ser traiçoeiro quando quer. Ele pode trazer à tona diversas vezes algo que você tenta não pensar quando está acordado.
Acordei de madrugada por conta disso. A cena do término passava na minha cabeça como um filme mal editado que eu era obrigada a assistir de novo, e de novo.
Fiquei encarando o teto, me perguntando se Osten estaria dormindo ou se estaria concentrado naqueles documentos que nunca terminavam.
Passei as mãos pelo rosto, sentindo a umidade quente que eu insistia em ignorar. Respirei fundo, me controlando mais uma vez.
Instintivamente, meus dedos tatearam o colar em forma de 'R' e a pulseira com pingentes de violino que eu ainda usava.
Levantei, guardei o colar e cheguei a abrir o fecho da pulseira, mas parei.
Me lembrei de que a motivação para tê-la usado na apresentação não foi apenas pelo fato de ter sido um presente dele... Mas principalmente porque Osten tinha me incentivado a estar ali, a acreditar que meu sonho era possível.
Então, por hora, eu a manteria. Seria o registro de uma fase boa, que eu usaria de vez em quando, como uma lembrança positiva.
Permaneci um tempo acordada, revirando algumas lembranças pelo quarto.
Eu sabia desde sempre que era uma pessoa muito conectada ao passado... mas mentalizei que estava assim mais do que o normal, porque sentia que estava começando uma nova fase, e mudanças com certeza me traziam ansiedade.
...
'Pas de Deux' ('Passo de dois') sempre foi uma música que, para mim, tem um fundo poético e melancólico.
Inicia com uma sequência de notas que descem de modo lento e dramático e que chegam a crescer várias vezes.
Ela é uma composição de Tchaikovsky e parte de trilha sonora da peça 'Quebra Nozes', uma das mais lindas, em minha opinião.
Ah, e claro, o clássico dessa sinfonia é o violoncelo. Mas a versão do violino é perfeita...
Era difícil que não estivesse na lista de repertórios dos concertos e balés que eu assistia todo final de ano, na TV.
Eu tive a sorte, junto com mais dois estudantes, de ser escolhida para tocar violino em uma pequena orquestra que ficaria nos bastidores do teatro dessa peça, na escola.
Os ensaios em conjunto iriam durar alguns meses até a apresentação no final de ano, e eu estava muito animada.
Porém, a professora que estava dirigindo a peça foi convencida por uma das meninas, que estava entre os papeis principais, a cancelar.
Segundo ela, não precisavam de 'instrumentos que poderiam vir a falhar e comprometer a peça se a caixa de som faria um ótimo trabalho'.
Foi um completo desperdício.
Ignorei a frustração, iniciando a 'Valsa das Flores', outro repertório da mesma peça, porém mais rápido e com muitas passagens leves e agudas.
"Menina! Ei, menina!" encarei então o estudante que havia aberto a porta."Está no meu horário de treino." Apontou para o relógio.
"Ah, sim, desculpe! Eu me distraí hoje... Já estou de saída!"
Havia um combinado sobre o uso das salas de música: o horário era dividido entre quem fazia parte do clube de teatro ou das bandas oficiais.
Como minha apresentação tinha sido cancelada, eu não tinha mais prioridade.
Então acabava escolhendo os horários que ninguém queria, aqueles em que os alunos estavam envolvidos com esportes, clubes de jornal e aulas de idioma ou de dança.
Guardei o violino na caixa sob o olhar do ser impaciente que queria tocar a bateria.
Já era de costume, nas terças-feiras, ficar até mais tarde na escola lendo ou estudando, e então ir tocar algo na sala de música.
Depois eu esperava o final do treino de baseball de Tyler e pegava carona com a mãe dele para casa.
O mural com orientações sobre as universidades de Illea ocupava quase toda a parede do corredor, a caminho da área esportiva.
Nele estavam os pré-requisitos do que se esperava para diversos cursos.
Eu tinha receio de que, com o cancelamento da minha participação na orquestra com violino no teatro, eu tivesse um item a menos que meus concorrentes tinham para uma vaga em música.
Por outro lado, a seleção dos candidatos tanto para literatura e quanto artes era apenas teórica. Eu teria mais chance nelas...
Me dei conta de que já estava encarando o mural há um bom tempo, então continuei meu caminho para o campo de baseball.
Era cômodo me sentar naquele lugar da arquibancada, que ficava em boa parte das vezes vazia, e de vez em quando com um pequeno grupo de alunos assistindo ao treino. Dava para ler ou desenhar na tranquilidade.
"Hoje consegui a chave do carro." Disse Tyler, ao se aproximar. Atrás dele, o pessoal estava indo embora depois do treino."Vamos precisar passar no mercado e também buscar Douglas na natação."
"Hã?"
Ele achou graça da minha reação.
"Esqueceu que vamos fazer aquela fornada de brownies e cupcakes na casa das suas primas hoje?"
"...Ah, é verdade!"
Eu iria dormir na casa delas.
Já Tyler e seu irmão combinaram de passar a tarde lá e jantar com a gente, pois meus pais e os deles, que eram chefs na cozinha da universidade, tinham um jantar especial com outros funcionários.
"A Hanna e a Taylor disseram que têm o chocolate, mas a gente ficou de levar a manteiga. Vamos."ele completou indo na frente.
...
O cheiro de chocolate derretido e manteiga quente já preenchia a cozinha da tia Lizzie.
Tyler estava inclinado sobre o fogão, observando atentamente a manteiga derreter em fogo baixo.
Segundo ele, se ela passasse do ponto e começasse a espumar, o sabor do brownie mudaria completamente.
"Hanna, a manteiga já está líquida. Pode trazer o açúcar e o cacau", Tyler instruiu, assumindo a liderança como se estivesse no restaurante dos pais.
Ajudei Taylor a forrar as formas de cupcakes com papeis coloridos. Falávamos de uma série de mistério em cima de um assassinato, que estava em alta.
"Não me deem spoiler!" quase tive um surto, pois minhas primas estavam dois episódios à frente.
Hanna e Taylor começaram a falar de uma série de realeza com a trama de uma 'seleção'.
Na história, a protagonista conheceu o príncipe mimado- que estava disfarçado e fugindo das responsabilidades -durante uma briga pelo último sorvete de menta com chocolate em uma loja de conveniência.
O destino, claro, tratou de sorteá-la para a competição oficial logo em seguida.
"Você tem que ver, Rosie. É um 'Enemies to Lovers' muito bom."
Tentei não rir da cara de desgosto de Douglas, que reclamou que elas só falavam de príncipes e princesas, enquanto elas nos contavam vários pontos da história.
Eu, ele e Tyler liberamos as duas de desabafarem sobre os detalhes, porque não tínhamos intenção de ver.
"Eu gosto mais de roteiros com originalidade quando escrevo. Romances assim são muito previsíveis."Douglas disse.
"Eu também."Admiti.
"Mas esses romances água com açúcar de trama óbvia são os que vendem." Disse Tyler, dando de ombros.
"Vocês subestimam porque não gostam de romance. Tem muita coisa boa! Principalmente de trama de famílias reais. Histórias de Seleções... "Comentou Hanna." Ah, Rosie, sabia que estão dizendo que Illea vai finalmente abrir as inscrições para uma Seleção este ano?"
"Esses rumores não surgem todo ano, desde que esse príncipe tinha uns 16?" perguntou Douglas, focado em roubar alguns pedaços de morango, sem que Tyler visse.
"O príncipe Osten não anunciou, de fato, mas dizem que uma fala de Gavril no jornal deu a entender que a família real de Illea tinha uma surpresa!", Taylor pontuou.
Tyler riu, batendo a colher na tigela da massa dos cupcakes.
"Eu não esperaria muito, se fosse vocês. Se eu fosse um príncipe, não teria paciência para isso. O pai e a irmã mais velha fizeram por serem herdeiros do trono e tinha toda aquela tradição e marketing. Mas os outros dois irmãos dele casaram sem Seleção, acordem."
"Sonhar NUNCA é demais." Hanna rebateu.
"Vocês que sabem." ele respondeu em tom irônico.
Naquele dia acabamos nivelando a tal série de assassinato e assistimos até o final juntos. Tyler e Douglas foram embora já bem tarde.
Minhas primas trocaram para a série que me disseram, mas adormeceram no meio do terceiro episódio, me deixando sozinha e um tanto entediada.
Donald, o gato cinzento delas, já tinha cansado de assistir TV e dormia todo folgado e esticado no tapete.
Alcancei o controle, embaixo de uma almofada, e troquei de canal diversas vezes, até um jornal, que já ia passar direto, mas a legenda da notícia acabou me prendendo: Intercâmbio promovido pela família real.
A imagem na tela era caótica.
O príncipe Osten Schreave estava chegando a uma escola pública em Angeles, e o som dos gritos das alunas era tão alto que precisei reduzir o volume da reportagem a quase zero para não acordar Hanna e Taylor.
As alunas se empurravam para ficarem nas grades, estendendo mãos, cadernos e placas com declarações de amor, em um cômico surto coletivo.
Mas o meu riso morreu rápido, dando lugar a uma pontada de pena.
O príncipe andava cercado por repórteres e flashes, avançando por uma multidão que parecia querer arrancar um pedaço dele.
Refleti sobre o fato de que ele estava sempre cercado por interesseiros, gente que só queria fazer parte de sua vida por causa de uma coroa.
E metade do que se dizia dele em manchetes de fofoca provavelmente era invenção.
Devia ser exaustivo viver assim, sendo uma vitrine constante...
O que me intrigava nisso tudo era como ele mantinha um sorriso no rosto, como se nada o atingisse. E era muito simpático, mesmo quando as perguntas dos jornalistas eram invasivas.
Tinha a minha admiração por isso, embora eu também me perguntasse se tudo não passava de sorrisos e gentileza ensaiados.
Afinal, ele tinha uma ótima oratória, era bom em persuadir e manter a postura.
O príncipe subiu em um palco improvisado no pátio da escola e, assim que começou a discursar sobre o projeto, ficou claro que ele não estava ali apenas por protocolo.
Estava realmente empolgado com o programa de intercâmbio, que abriria vagas para praticamente todas as escolas de Illea.
Sua intenção era que fossem dadas aulas e cursos preparatórios antes das provas numa tentativa de nivelar os alunos interessados.
Me perguntei qual seria a real personalidade de Osten quando as câmeras finalmente eram desligadas, e cheguei a pensar que jamais o conheceria pra saber.
Hanna esbarrou no controle ao se mexer no sofá e o canal mudou para outro com um comercial aleatório.
Não voltei ao discurso, pois Taylor se levantou indo em direção a cozinha, provavelmente para beber água.
Fechei os olhos instantaneamente quando ela passou, fingindo que também estava no quinto sono.
Me distraí com qualquer outra coisa que passou no outro canal antes de adormecer outra vez. Naquela época era assim: bastava um clique na televisão para esquecê-lo.
...
(Capítulo 17)
Vancouver, Columbia, 25 de Junho de 2343
Querida Rosie, (...) Seja qual for seu caminho, se ficar no castelo, ou sair, trilhe-o com todas as suas forças. Lute pelos seus sentimentos e pelos seus sonhos.
Mesmo que as coisas não aconteçam do jeito que quer, e você sinta que foi partida em um milhão de pedaços, sempre há um jeito de recomeçar, de juntar os cacos e construir um novo futuro.
A vida nos prega peças muitas vezes cruéis, mas temos que olhar ao nosso redor e enxergar coisas boas que possam nos reerguer. Às vezes são as que menos imaginamos...
(...) Com um amor intenso e imensurável, Kriss e Elliot.
...
Dormi assim que reli a carta que recebi nos primeiros dias no palácio de Illea. Tinha sido escrita com a caligrafia da minha mãe.
Na época, as palavras pareciam apenas um incentivo sentimental, o tipo de coisa que pais dizem para encorajar os filhos. Porém, de certo modo, faziam mais sentido naquele momento.
Juntar os cacos e construir um novo futuro...
O problema de juntar os cacos é que as bordas ainda cortam. Mas eu sabia que era necessário.
...
Farine.Farinha. Lait. Leite.Sucre. Açúcar. Oeuf . Ovo . Cannelle. Canela...
Como seria a tradução de manteiga?
Eu estava no meio da checagem dos ingredientes para os biscoitos de Natal quando tocaram a campainha. Isaac foi atender, e voltou com quem imaginei ter chegado.
" Oi, como foi o ensaio final?" perguntei, ao mesmo tempo em que Laura puxava uma cadeira para se acomodar no balcão da cozinha, ao lado do meu avô.
" Foi bom. As crianças estão tocando muito bem..."
Assenti. Me sentia mal por ter perdido a hora pela manhã.
"À quelle heure la princesse appellera-t-elle?" (Que horas a princesa vai ligar?" perguntou Dani.
"Elle appellera à 15h30 dans quelques minutes" ("Ela vai ligar às 15h30, daqui a alguns minutos") , respondi. Seria por volta das seis da manhã em Angeles.
" Deixei o telefone carregando o máximo possível. E, qualquer coisa, conecto o cabo perto daquela tomada." Tia Margot disse indicando uma entrada que eu não havia reparado embaixo da bancada.
Ela tinha me avisado que, enquanto eu dormia no final do dia anterior, Kerttu fez contato para pedir uma ligação especial em conjunto com o Tyler para fazermos a receita de biscoitos de Natal dele.
Ela foi pontual com a ligação.
"Rosie!"
A cozinha deles estava barulhenta ao fundo, pois naquele horário os funcionários estavam trabalhando.
"Oi, Kerttu! Estou com minha tia Margot, meu avô Marcel, meus primos Dani e Isaac, e com a Laura, minha amiga. Estão todos aí?"
"Estamos aqui!" A voz de Tyler surgiu primeiro.
"Oi, Rosie! Feliz Natal!"
"Feliz Natal, Stefan!"
"Rosie, que saudade!" era Audrey.
"Saudades, Rosie..." E Amy.
"Oi, Rosie.É a Lee. Mamãe não vai poder participar da ligação, por causa dos eventos de natal. Ela está louca verificando os ingredientes da encomenda... Mas te mandou um abraço!"
"Manda outro pra ela!" respondi."Sinto muita falta de todos vocês..."
"Mas o importante é que você esteja feliz aí em Paris!"disse Audrey." Seu resultado da escola de música sai quando?"
Suspirei. "Amanhã de manhã..."
"Ah, e a Dani?"perguntou Kerttu"Deixa eu falar com ela!"
"Ela está aqui por perto."fiz um sinal para minha prima, que desenhava na mesa.
"Enchantée, Dani!" Kerttu soltou um francês charmoso, fazendo minha prima rir.
A interação entre elas foi rápida.Kerttu prometeu conhecê-la em breve, pois ela e Phoebe já estavam organizando tudo para passarem o próximo Natal na França comigo.
A princesa não demorou a emendar com suas fofocas.
"Você precisava ver a cara dele, Rosie!"Ela ria alto, contando que a pequena Eleanor vomitou em Kaden minutos antes de um jantar oficial.
Quando ela contou sobre as novas travessuras de sua labradora Bella e do cachorro de Stefan, o Murphy, e eu falei sobre os bichinhos na casa de tia Margot: a tartaruga Feffile e o furão Ratatouille.
"O Tyler mandou a gente fazer a receita assim, ó:"
"Eles não tão te vendo, sua burra!"
"Ô Stefan, deixa eu terminar?!"
Eu ri, imaginando as caras e bocas deles discutindo na cozinha. Estava sentindo falta da implicância deles...
"... Muito bem, gente..." Continuou Kerttu, em um tom de voz sério. "A massa dos biscoitos vai ser feita seguindo a receita do Tyler, que a Rosie já sabe. Primeiro você esmaga o açúcar com a manteiga até virar uma pasta. Depois joga os ovos e bate como se sua vida dependesse disso. Aí vem a melhor parte: taca canela sem dó!"
"E a apresentação de teatro, borboletinha?" rolei os olhos em resposta a pergunta repentina de Tyler, que deu um riso, provavelmente imaginando minha careta.
Meneei a cabeça sem como não acompanhar sua risada e senti os olhares curiosos de Laura, Marcel e Isaac a minha frente.
Com certeza, eu acabaria explicando para eles, mais tarde, sobre o fatídico dia da atividade da escola no teatro de caridade para algumas crianças órfãs, quando a atriz principal ficou doente e eu precisei entrar de última hora com aquela fantasia ridícula de borboleta...
"É uma orquestra de Natal, Ty. Só vai ser num local de ópera e teatros. "
"Legal. Queria estar aí para ver também pra ver... !"
"Sim, quem sabe no próximo ano?!"
"Eu junto uma grana se você me ajudar com a metade."
"Feito!"
Ele riu com a minha rapidez.
"Rico é outra coisa... Pode deixar que eu junto, Ro."
"Mas precisando de ajuda, só falar!"Ri." E como anda a sua mudança?"
"Está tudo certo! Até minha matrícula fiz novamente na escola onde a gente estudava. Vou voltar a jogar no time de baseball . E quero sua presença em pelo menos um dos jogos, hein!"
"Pode deixar, eu dou um jeito sim!"
Ele iria seguir a sua ideia de voltar a Columbia e repetir o último ano que ele largou, enquanto trabalharia no restaurante de sua família para ajudar a pagar as dívidas do pai.
No ano seguinte, ele finalmente iria para a faculdade em Clermont.
Lá, Fred, Arthur e Jean já moravam em uma república perto da universidade, e eu tinha a absoluta certeza de que seria questão de tempo até aquele local explodir com os quatro sob o mesmo teto...
Audrey me atualizou sobre o processo de estudos dela e de Amy.As duas começariam um curso que serviria como finalização da escola para no final do ano entrarem em alguma universidade.
Passado o assunto, voltamos a focar na receita. Como a Kerttu continuava acompanhando cada passo pelo viva-voz, assumi o papel de 'tradutora' da cozinha, organizando os comandos surtados de tão animados que ela dava do outro lado da linha.
Tia Margot ficou com o trabalho de formatar a massa dos biscoitos e meu avô organizou as formas, enquanto Dani e Isaac competiam para ver quem batia a massa mais rápido.
Laura e eu separamos o material de decoração dos biscoitos e ficamos responsáveis por decorá-los depois de assados.
Os formatos deles eram de estrelas, árvores de natal e pequenos bonecos de neve.
"Rosie, você não abriu o envelope ainda não, né?" perguntou Kerttu quando os biscoitos foram para o forno.
"Envelope? De quê?"
Foi então que tia Margot, com um sorriso cúmplice que denunciava que elas já tinham planejado aquilo, deslizou um envelope selado em minha direção.
"Ela me fez prometer que só te entregaria quando estivessem todos na linha", explicou.
"Obrigada, Margot!"A princesa disse."Pode abrir, Rosie! Agora!"
Segui o comando da princesa, ainda confusa, vendo que ali estavam cartões postais de Natal.
"Que lindo...Obrigada por me mandar!"
O primeiro era um retrato da família de Kerttu.
Na imagem, America, Maxon, Eadlyn e Eikko, aos pares, ao lado de Kerttu, que aparecia meio agachada, abraçando a irmã Amberly, que sorria em pé.
Na lateral direita, a pequena Eleanor descansava serenamente nos braços de Josie, enquanto um Kaden radiante completava a cena.
No verso, um recado escrito com a caligrafia apressada e fofa de Kerttu dizia o quanto ela me amava, que morria de saudades e que, em breve, daria um jeito de me visitar, ou me obrigaria a visitá-la.
O segundo cartão era uma foto de Tyler, Amy, Kerttu, Stefan, Delillah, Lee, Eduard, Willow, Audrey e seu namorado Charles no jardim do palácio.
Meus olhos se fixaram na imagem de Lee e Eduard.
De. Mãos. Dadas.
Soltei um riso afônico.
"Lee, eu não acredito que vocês... Achei que nunca aconteceria!"
Ela deu um riso baixo, sem graça.
"Só aconteceu..."
"Foi do nada!" disse Audrey."Eu e Amy ficamos chocadas quando chegamos de viagem e vimos os dois juntos!"
"Do nada, não. Eu te avisei que desconfiava."falou Amy.
"A questão é que Audy e eu achamos que Kerttu iria contar qualquer novidade nesse sentido."comentei."Mas nisso ela ficou bem calada, não é princesa?"
"Eu sei guardar segredos quando eu quero!" a pequena afirmou, em tom de orgulho.
...
Eu queria que aquela ligação durasse para sempre. Ela foi um verdadeiro presente pra mim... Não poderia estar mais grata a Kerttu.
Quando me dei conta já estávamos desejando Feliz Natal uns para os outros e desligando.
Assim que terminamos de preparar o café, nos sentamos a mesa. O resultado final foi uma mesa com biscoitos e chocolate quente em canecas com cobertura de chantilly e canudinhos doces, enquanto ouvíamos meu avô contar algumas histórias de família dos Natais passados.
" Acho que a ocasião perfeita para tirarmos uma foto em família é hoje, no jantar de Natal." Disse tia Margot." Vai ficar lindo pra enviar para a princesa."
Prometemos enviar um cartão para ela também no final da ligação.
"Acho que tinha que ser ao ar livre." Meu avô comentou."A cidade fica cheia de decorações bonitas nessa época do ano."
"Tem razão... mas onde?"
" Ali perto da pista de patinação que vamos amanhã sempre tem umas famílias tirando fotos." Isaac sugeriu à mãe." No Jardim das Tulherias. Posso mostrar onde fica."
"Tem também a Praça do Trocadero." Disse Laura. " Eu acho a visão da Torre Eiffel no fundo, do outro lado do Sena bem a cara de um cartão."
" O que você acha melhor, Rosie?" Tia Margot me encarou, como todo mundo.
" Qualquer lugar está bom." Sorri.
" Ótimo! Vamos em todos esses lugares, se possível!"
Nós rimos de sua animação.
" Adorei a ideia desses cartões." Completei."Vou enviar uma cópia para minha família adotiva também. É o primeiro Natal que eu não passo com eles..."
" Ah, querida...Você deve estar morrendo de saudade deles..." minha tia alcançou uma mão minha por cima da mesa. Assenti.
" Mas prometi fazer uma visita para eles no mês que vem. Não vai demorar muito pra passar, assim espero."
" Nas próximas férias podemos visitar sua família, sabe?" Meu avô Marcel falou, de repente." Posso pagar uma estadia num hotel ou alugar uma casa e passarmos uma temporada lá em Columbia."
Tia Margot e Isaac aceitaram na hora. E Dani ficou toda animada quando o irmão traduziu o que falávamos.
" Eu também tô dentro." Laura disse roubando um biscoito do meu prato e me dando uma piscada risonha." Vai coincidir com minhas férias. E novos ares sempre fazem bem."
Eu ri, sem acreditar que o tom deles era sério sobre a viagem.
"...Bom, realmente nas férias de verão seria o ideal. Tem muito mais coisas pra fazer. Parques, paisagens, até trilhas em reservas, se animarem..."
Me senti um pouco melhor com a notícia de que logo estaria em Illea de novo, duas vezes, no mínimo, no próximo ano.
...
A hora voou. Logo já nos preparávamos para os eventos do dia.
Eu não estava lá bem no clima, mas decidi que faria o possível para não deixar cair o astral.
Porém...
"Rosie?"
"Oui."
"Maman m'a dit aujourd'hui que tu as quitté l'équipe nationale parce que tu le voulais. Elle a dit que tu n'étais pas heureux là-bas... "
("Mamãe me disse hoje que você saiu da Seleção porque queria. Ela disse que você não estava feliz lá...")
"..."
Um gatilho pode acabar com tudo.
Encarei Dani pelo reflexo do espelho, parando por um momento de fazer a trança em seu cabelo.
A tia Margot finalmente conversou com ela sobre o assunto mais cedo.
Suspirei. Uma hora ou outra era esperado que minha prima me abordasse por curiosidade.
"Es-tu heureuse maintenant, Rosie?" ("Você está feliz agora, Rosie?") ela me encarou.
"...Dani, je voulais vraiment partir."
("... Dani, eu quis mesmo sair.") Disse, e ela continuou a me analisar.
"Vous et le prince ne vous aimez plus comme papa et maman?"
("Você e o príncipe não se amam mais, como a mamãe e o papai?")
Meu coração se partiu duplamente.
"Ce n'est pas pour ça, Dani... Tout ça, c'était pour... avoir une fin heureuse. Un jour tu comprendras, tu verras."."
("Não é por isso, Dani... Tudo isso foi para... ter um final feliz. Um dia você vai entender, você vai ver.")
Ela me deu um abraço repentino.
"Mais tu seras toujours une princesse pour moi."
("Mas você sempre vai ser uma princesa pra mim.)
Senti um nó na garganta, envolvendo ela de volta.
"Toi aussi..."
("Você também...") Dei um beijo na bochecha dela, voltando ao trabalho por mais uns minutos.
"C'est fait! Maintenant, c'est parfait" ("Pronto! Agora está perfeito") Sorri ajeitando sua trança de lado.
"Oh les filles, vous êtes si belles!"
("Ah, meninas, vocês estão tão lindas!") Tia Margot disse assim que chegou ao quarto. Todas usávamos trajes formais.
"Allez, ils doivent nous attendre dans le garage."
( "Vamos, devem estar nos esperando na garagem.")
...
O recital das crianças do orfanato foi marcado para as 19h, em um teatro de ópera.
Fiquei me perguntando quanto Marcel havia gastado para alugar aquele lugar, que claramente era um dos principais teatros da cidade.
Tinha uma entrada suntuosa em estilo clássico, com vários lances de escada e estátuas históricas por toda parte.
Mas o melhor estava lá dentro...o cenário era um sonho: pinheiros com decorações natalinas e flocos de neve artificiais, soldadinhos de chumbo, com seus casacos vermelhos e botões dourados, fadas brancas e coloridas, e estrelas brilhantes despencando do teto.
Eu estava apaixonada.
Abri o folheto entregue na porta, com uma sensação de déjà vu que me deixava entre a empolgação e a melancolia. Eu não saberia definir.
O repertório musical envolvia diversas apresentações com solos, duetos, trios, quartetos...
E era bem diversificado, mas a decoração e a maior parte das músicas não negavam que o tema central da noite era uma alusão à peça 'Quebra-Nozes'.
"Por que você está com esse sorriso estranho?" Oliver me encarou.
"Nada que você vá entender."
"Ok." Deu de ombros."Eu e Juliette estamos indo para nossos assentos no camarote."
"Nós também estamos lá em cima, só que do outro lado." Disse tia Margot, assim que meu irmão e sua namorada se afastaram.
"Ok, depois levo Rosie até vocês." Disse Laura ao ver as numerações dos ingressos.
"Até daqui a pouco."Acenei seguindo minha irmã, enquanto tia Margot, Dani e Isaac iam por outra direção das escadas.
O teatro não chegou a encher, mas reconheci pessoas da Academia de música, diversas debutantes com suas famílias e funcionários da empresa Artois.
Vi muitos desconhecidos também, mas deduzi que deveriam ser amigos dos amigos do meu avô.
Chegamos aos bastidores, onde o camarim conjunto estava um caos completo com as crianças do orfanato terminando de se arrumar ou treinando trechos de suas apresentações.
Algumas estavam mais agitadas que o normal, deixando os funcionários loucos ao correrem entre as araras lotadas de figurinos que deveriam ser bem caros, ou seja, que não poderiam ser danificados por nada.
Eles eram tão fofos...
Ajudei com a gravata dos meninos, que pareciam pequenos senhores em seus ternos, e maquiagens das meninas.
As mais novas estavam vestidas como princesas e fadas, enquanto as adolescentes tinham um visual de gala, mais condizente com sua idade.
"Ah, finalmente!" Laura interrompeu a maquiagem que fazia em Sérénité. Segui seu olhar até a porta.
"Atrasados, mas melhor do que nada." Jules entrou primeiro, equilibrando duas caixas enormes nos braços. "Trouxemos sanduíches, biscoitos e chocolates para as crianças. Se não dermos comida para elas agora, metade desmaia de nervoso antes da primeira apresentação!"
Atrás dele vinha sua prima Desirée, carregando duas cestas enfeitadas com fitas vermelhas.
Bernard apareceu em seguida, com um estojo de violino no ombro e uma pasta de partituras debaixo do braço. Ao seu lado, Lavinia, com mais uma cesta de doces.
"Est-ce du chocolat?" ("Isso é chocolate?") Uma das crianças perguntou.
"Oui !" ("Sim!") Desirée respondeu, e assim mais umas dez a cercaram pulando sobre suas cestas."Hé, un à la fois. On en a assez pour tout le monde!" ("Ei, um de cada vez. Temos para todo mundo!")
"File d'attente" ("Fila!") Laura bateu palmas. "Sinon, personne n'aura de bonbons!" ("Se não, ninguém ganha doce!")
Milagrosamente, todos obedeceram.
"Só espero que o açúcar não suba à cabeça deles." desabafou Jules."Disseram que estavam quase destruindo esse lugar..."
Eu ri.
"Logo a apresentação começa, relaxa."
Voltei minha atenção para Agathe, que tentava passar o batom sozinha diante do espelho, depois que terminei sua maquiagem.
"Attends..." ("Espera...")
Tirei os pequenos borrados.
"Merci, Rosie !"Ela correu para a fila. Meneei a cabeça prendendo o riso. Assim que lanchasse, iria sair o batom todo. Me sentei na cadeira onde ela estava para observar as crianças.
"Ei, Rosie." Olhei para o lado e era Bernard.
"Oi."Sorri.
"Descobri uma coisa sobre a sua audição."
Franzi a testa.
"O quê?"
"O pianista que acompanhou alguns candidatos era um amigo meu. O Gaël."
"Sério?"
"Sim. Ele me disse que, assim que você saiu da sala, um dos avaliadores comentou que sua interpretação tinha sido muito boa. E os outros dois concordaram na hora."
Meu coração pareceu falhar uma batida.
"Você... não está me zoando?"
"Não." Ele achou graça."Gaël, só não conseguiu descobrir quanto deu sua nota, porque o próximo candidato não precisava de piano, e ele saiu da sala também."
"Ah..." Assenti."Obrigada por me contar."
"Imagine."Sorriu."Estamos todos torcendo para você entrar."
"Desculpa interromper, mas vai um doce?"Lavinia apareceu entre nós segurando uma cesta de bombons.
Peguei um agradecendo.
"Aliás..." ela me analisou."Você está linda hoje."
"Obrigada, você também!"
Lavinia usava um vestido de gala dourado e cintilante, com um detalhe que lembrava um cachecol e mangas que caíam como uma capa.
Dentre as opções que Marie separou para mim, escolhi um vestido branco de mangas longas, justo ao corpo até os pés, com um delicado bordado que lembrava minúsculos cristais.
Ao sair de casa, cheguei a pensar que estava elegante demais para um concerto infantil.
Bastou, porém, olhar ao redor para perceber que minha preocupação tinha sido desnecessária.
A maioria das mulheres seguia o mesmo padrão: vestidos longos, tecidos refinados e muito brilho, algumas com pedrarias e lantejoulas ainda mais chamativas que as minhas. Muitas dali seguiriam para outras comemorações de Natal, como o jantar no Palácio de Versalhes.
"A Rosie não tá linda, irmão?" Eu demorei um tanto para processar a frase que Lavinia lançou com um sorrisinho, enquanto olhava para o irmão.
O silêncio que se seguiu pareceu durar muito mais do que o normal. Bernard me olhou por um momento antes de responder.
"Claro."
Ela fez uma careta.
"Ah, Bernard. Coitada da Rosie.Só um 'claro'?"
"O que você pretende com essa pergunta, Lavinia?" ele rebateu, com uma voz um meio defensiva."Não tá vendo que a Rosie está sem graça? Você adora colocar os outros nessas situações."
"Quê? Claro que não!"
"Rosie, vem comigo, vou te mostrar o seu lugar."Laura gritou para mim do outro lado do cômodo.
Pedi licença de imediato para segui-la, deixando os dois irmãos numa mini discussão.
Ao menos, Laura não perguntou sobre o que estávamos conversando. Andamos por um corredor que, segundo ela, era um atalho interno até os camarotes.
Um segurança guardava uma porta que separava os bastidores do anfiteatro. Depois andamos pouco até as escadas laterais às fileiras.
"Esqueci de te avisar, espero que não se importe" minha irmã continuou, sem diminuir o passo. "Eu convidei aquelas suas duas amigas da Seleção, Jade e Paige. Vão sentar do seu lado."
Eu nem deveria me surpreender, já que elas tinham se dado bem no Palácio de Versalhes, porém...
"Achei que elas iriam seguir o cronograma da família real..."Deveriam no mínimo ir a alguma igreja ou ter uma recepção de natal "Tem certeza que elas vem?"
Obtive minha resposta quando chegamos ao segundo piso. E vi não só Jade e Paige, como também a avó da rainha Camille juntas num conjunto de cadeiras.
"Por que a Aimée...?"
"Todo ano ela está aqui" Laura comentou baixinho, enquanto nos aproximávamos."O marido dela adorava esses eventos. Só estendi o convite às suas amigas."
"Ah, entendi..."
Assim que nos viram, Jade e Paige se levantaram para nos receber. Troquei um olhar aceno com Aimée, que ficou próxima à minha tia.
Laura não ficou muito tempo com a gente e pediu licença, enquanto eu me sentei no lugar reservado, ficando entre Jade e Paige. Elas começaram a me atualizar sobre o que fizeram durante o dia.
"Visitamos orfanatos, asilos e hospitais com a família real francesa pra distribuir presentes," disse Paige. "Depois fomos a uma missa agora há pouco e foi aí que Jade e eu viemos com a Aimée. O restante precisou voltar para o palácio pra começar a receber os convidados para o jantar de Natal."
"Nossa, foi realmente correria pra vocês..."
"E você não perguntou, mas achei que gostaria de saber que, quando fomos ao orfanato onde você dava aulas de violino para ver as crianças ensaiando, vi um certo alguém perguntando se você não estaria por ali."
"Jade, eu te disse que..."
"Só estou dizendo o que eu vi," ela ergueu as mãos em rendição. Respirei fundo, decidida a não prolongar aquela conversa.
"Rosie." Me virei para a pessoa parada na lateral das poltronas.
Era Jules.
"Ei! O quê...?"
"Precisamos da sua ajuda. As crianças fizeram algum tipo de brincadeira e conseguiram desafinar vários violinos de uma vez só. O Bernard já está lá embaixo tentando resolver sozinho, mas a Laura entra para acompanhar no piano e depois é a vez dele. Seu avô está de maestro. Eu não sei afinar violino, mas me disseram que você tinha facilidade."
Não pensei duas vezes.
...
Desci para a área de preparação, passando direto pelas crianças que aguardavam sua vez de entrar no camarim. Bernard estava numa sala mais a frente, afinando um dos violinos de ouvido.
"Pronto, deixa a Rosie te ajudar isso."
"Não acredito que tirou a Rosie do lugar dela, Jules." Bernard reclamou ao me ver."Ela devia assistir tudo."
"Calma! Uma ajudinha vai bem, não?" indiquei para os outros cinco na balcão a sua frente."Tudo pelo show! Quanto tempo temos?" perguntei quando Jules foi embora.
"Acho que uns cinco minutos? Oito." ele disse checando o relógio de pulso." Obrigado pela ajuda. Essas crianças capricharam, viu?"
Eu ri. Peguei o primeiro violino e conferi rapidamente as cordas.
Nenhuma havia arrebentado, então o problema só podia estar nas cravelhas. Bastava um giro quase imperceptível nelas para alterar completamente a tensão da corda.
"Desculpe pela Lavinia." Bernard quebrou o silêncio entre nós depois de um tempo." Ela está no desespero para que eu me 'vingue' de Lola com alguém. Mas não gostaria que ficasse desconfortável comigo por isso."
"Tudo bem, relaxa. Eu não tô desconfortável."
Ele sorriu de um modo irônico.
"Você finge que disfarça bem, e eu finjo que acredito nisso."
Soltei uma risada, meneando a cabeça, enquanto desviava os olhos dele. Será que ainda dava tempo de pedir para o chão abrir e me engolir?
"Ei, algum dos violinos que vocês estão acertando ficou pronto?" Jules voltou e Bernard lhe indicou alguns." Conseguimos atrasar um pouco, mas estão querendo começar."
Por sorte, a primeira apresentação era um coral com a Laura no piano, porém a segunda já era a do Bernard.
"Eu termino isso e levo." Falei pra ele."Faltam poucos, e nem todas crianças tocam de vez. Uma pode ir emprestando pra outra até lá."
Ele assentiu, resignado.
"Não fique o tempo todo aqui. Afine o que der, e vai ver a apresentação. Te agradeço muito!"
"Por nada."
Bernard saiu praticamente correndo com Jules.
Fiquei sozinha na sala, alternando entre um violino e outro enquanto o coral iniciava a primeira música da noite do outro lado da parede.
A música pausou, e eu ouvi o som dos aplausos. Tentei me apressar, conseguindo o som da segunda.
"Impossível afinar isso." murmurei, lutando com a cravelha.
"Não faço ideia do que fazer nesse caso, posso chamar reforços se quiser."
Encarei a porta, confusa, pois de algum modo tinha me conformado com o fato de que só o veria no baile de debutantes.
Osten estava ali, com um terno escuro e uma gravata borboleta.
O sorriso logo sumiu de seu rosto.
"Desculpa aparecer assim... Eu passei por Jules, e ele me disse que você estava aqui afinando uns violinos com urgência."
Osten entrou no cômodo, mas não se aproximou muito.
"Queria te desejar Feliz Natal..."continuou" Pode deixar que eu não confirmei pra ninguém da imprensa que vinha para o recital. Entrei pela porta dos funcionários e as luzes já estavam apagadas lá no anfiteatro, então não me viram vir até aqui."
"Tudo bem." Respirei fundo." Feliz Natal, aliás."
Ele tinha razão sobre o alvoroço em potencial, e eu só queria poder lhe dizer que não me importava nenhum pouco com as fofocas àquele ponto.
Por um momento apenas sorrimos um para o outro.
"...Você quer que eu chame alguém pra te ajudar?" Repetiu a pergunta e se voltou para o corredor."Só me dá um minuto até..."
"Não, não precisa de chamar ninguém. Só falta afinar esses dois violinos, eu dou conta. E nesse horário quem poderia ajudar está, ou no palco, ou perdido pela plateia..."
" Certo." Assentiu, olhando ao redor da sala."Olha, Rosie, eu não estou aqui pra te atrapalhar, então pode fazer o que precisa. Se não se importar que eu..."
"Pode ficar. Eu já estou terminando."Osten pareceu relaxar de certo modo. " Que bom que veio..."Olhei para ele quando ele puxou uma cadeira." Você vai adorar a apresentação, tenho certeza. As crianças treinaram muito!"
"Eu vi uma música ou outra quando passei pelo orfanato hoje. Gostei muito... E você, vai tocar também em algum momento?" Neguei com a cabeça."Eu pensei que fosse. Tinha te visto treinando com algumas delas na televisão... Passou uma reportagem sobre a orquestra do orfanato."
"Só ajudei nos ensaios. Mas a apresentação é das crianças."
"Ah, sim, entendi. Pode continuar a afinar." Fez um sinal para que eu me concentrasse.
E assim o fiz. Tentei, ao menos, manter o foco enquanto sentia o seu olhar acompanhando cada movimento meu.
Eu sabia que, ao vir me ver,Osten estava tentando manter a promessa de não romper de vez nossa amizade.
Mesmo com o término recente, ele estava cumprindo a parte dele, e eu faria a minha. Não me perdoaria, caso contrário.
Era apenas uma fase. Só teríamos que passar pelo desconforto de um pós término...
Dei um suspiro mais profundo.
"Acabei esse. Só falta mais um..." avisei.
" Como você sabe quando chegou no ponto certo?" Ele perguntou, e com minha atenção logo emendou." Perdão, depois você me responde. Continua."
"Não tá atrapalhando, calma." Ri." ! E... bom, pra afinar, é melhor fazer com um piano ou um aparelho de afinação pra ter certeza do som, mas eu já fiz isso muitas vezes, então dá para ter noção... O som, agora, por exemplo ainda não está muito harmonioso." Mostrei.
"Hum... não sei se consigo perceber."
Soltei uma risada baixa." Estou quase lá..." Foi necessário em torno de um minuto a mais."Pronto!"
"Acabou?"
Apenas toquei uma escala em Lá.
" Esse é o som que eu te disse." Olhei para ele."... Eu acho que... preciso entregar isso, pela hora."
"Tudo bem." concordou, e se ergueu da cadeira para me ajudar a colocar o outro violino no estojo."Então... nos vemos na saída... certo?"
"...Na verdade, se você com estiver com lugar perto de Jade, Paige e Aimée, vou para lá em alguns minutos."
"É mesmo?! Eu estou sim." Sorriu, me estendendo um dos violinos guardados.
"Obrigada."
"Tem certeza que não está pesado?"
"Claro que não." respondi colocando a alça no outro ombro."Até daqui a pouco..."
Talvez tenha sido minha demora em sair, ou Osten foi rápido o suficiente para me puxar para um abraço. Foi um gesto meio desajeitado por causa das caixas.
"Isso é completamente o contrário do que você pediu em questão de espaço, mas eu..."
Envolvi ele de volta.
"Já te disse que não vou te ignorar. Então, não se justifique toda vez que aparecer ou se aproximar."
Fechei os olhos e deixei meu corpo relaxar contra o dele. O perfume amadeirado me fez prender a respiração por um segundo antes de soltar o ar devagar. Senti a mão dele firme nas minhas costas e o calor do seu corpo contra o meu. Sem perceber, apertei de leve o tecido do terno dele.
Na última vez que Osten me abraçou, eu só conseguia pensar no quanto estava machucada com tudo o que tinha acontecido entre nós.
Mas aquele abraço... foi diferente.
Foi como respirar fundo depois de muito tempo. Como se, pela primeira vez desde o término, eu encontrasse um pouco de paz.
Não sei quanto tempo ficamos assim. Em algum momento, senti uma das alças escorregar pelo meu braço conforme eu relaxava. Quando Osten começou a se afastar, minha mão demorou um instante a mais para soltá-lo.
"Não vou te atrasar mais. Vai lá." Ele disse ajeitando a alça antes de mim. Assenti sorrindo de volta e, saí, de fato.
...
O interior do teatro estava mergulhado em um breu quase total. Me guiei pela meia-luz de lâmpadas nos degraus das escadas.
Por sorte, a porta ficava exatamente de frente para os assentos onde tia Margot, Dani, Isaac, Jade, Paige, Aimée e Osten estavam.
Pelo visto tinham trocado os lugares. Paige sentou no meu lugar, logo depois Jade. Sobrou o lugar à esquerda, ao lado de Osten.
Dei um breve aceno para Jade e Paige.
Em resposta, elas exibiram sorrisos mais largos do que o normal. Eu sabia que fora proposital, um empurrãozinho silencioso, e eu era grata a elas por me ajudarem a prolongar o tempo com Osten.
Me sentei ao lado dele, vendo pelo canto do olho ele tirar uma cópia do folheto da peça do bolso e abri-lo.
"Estou perdido com essa lista."Me olhou."Em que música eles estão agora?"
"Bom, perdemos o coral de Natal de Noite feliz. E essas músicas: Up on the Housetop, Ode à Alegria, Noite de Natal, Jingle Bells e Long, Long Ago, que acabou de terminar..."
"Ah..."ele encarou a folha." Então agora é 'Clair de Lune', aquela música que você gosta..."
Franzi a testa, conferindo na lista outra vez.
" Na verdade não é bem essa... O nome é parecido: é 'Au Clair de Lune'. Você vai ver quando chegar. 'Clair de Lune' é de um músico chamado Claude Debussy, o som é mais melancólico. E 'Au Clair de Lune' é um autor francês desconhecido e parece uma canção de ninar."
Osten assentiu de modo compreensivo para mim quando a melodia começou. Eles emendaram em 'Can Can', que era um pouco mais frenética.
Era uma graça ver quase todas crianças envolvidas... Dei algumas espiadas rápidas em Osten, e ele parecia genuinamente entretido.
"Rosie, eu comprei um presente de Natal."falou quando os aplausos soaram."Você pode receber amanhã?"
Concordei diante de seu rosto que começou a expressar algum tipo de apreensão com minha demora.
"... Pode, claro."Fechei olhos.
"O que foi?"
"Não comprei nada pra você." me odiei por dizer na lata. " Ainda não, pelo menos. Com tudo o que..." Fui interrompida pelo som da sua risada.
"Nossa, pensei que fosse algo sério. Por favor."meneou a cabeça." Você não precisa me dar algo em troca."
"É claro que preciso!"
Ele riu com os ombros, olhando para frente.
"Você sabe que não."
"Osten, isso não está em discussão. Eu vou te compensar, eu prometo."
Ele voltou a me encarar e assentiu com humor. Mas seu sorriso mudou, de repente.
Segui seu olhar até meu braço. Percebi que minha pulseira de pingentes, que estava escondida sob o tecido do vestido, havia ficado à mostra.
A mão dele se moveu lentamente em direção à pulseira, tocou por um segundo. E eu me lembrei de quando ele fez o mesmo durante a festa de apresentação das Selecionadas em Londres, pouco antes de dançarmos.
"Eu não te perguntei.Estava curioso para saber sobre como foi o seu teste ontem."
Encarei-o por meio segundo e olhei para o palco. As crianças desciam para lugares reservados, enquanto um violoncelista convidado se juntava a Laura, que estava no piano, para acompanharem o dueto de violinos.
"Com o teste foi tudo bem, eu acho." Fiz uma outra pausa, tentando organizar meus pensamentos. "Mas sinto que nada me preparou para aquele momento. Eu estava em pânico por dentro, mas ao mesmo tempo foi empolgante e libertador. Consegui tocar sem errar. "Respirei fundo, "Bernard me disse que um amigo dele, que estava no piano pra acompanhar as audições, ouviu os avaliadores dizendo que gostaram da minha. Ele e Laura acreditam que vou passar... Mas vamos ser realistas. Tem a prova teórica, a entrevista, meu currículo e o fato de quem realmente se prepara pra entrar lá, já faz isso há muito mais tempo do que..."
"Eu tenho que concordar com eles." Osten me interrompeu." Sabe o que você me disse da primeira vez que tocou violino? Que era uma iniciante, e quando te vi tocar, vi que já tinha uma boa noção."
Meneei a cabeça.
"Só não gostaria de esperar demais, pra depois me decepcionar.Minha apresentação pode ter sido boa, mas a de muita gente também."
"Certo, você tem um ponto nisso..." assentiu, com um suspiro."Vamos só esperar pelo melhor, então. Você... me conta no dia em que sair seu resultado?"
"Sai depois de amanhã... E, sim, te aviso do que deu..."Falei, pouco antes de Laura iniciar no piano 'Cânone em Ré Maior', num ritmo lento, sendo seguida pelos violinos de Destinée e Sérénité e pelo violoncelo do convidado.
A transição foi quase imperceptível para os primeiros acordes de 'Passo de Dois', o auge da melancolia de 'O Quebra-Nozes'.
"Se um dia eu casar, quero que toquem uma das duas na minha entrada..." ouvi Jade dizendo para Paige, antes de se inclinar em minha direção para buscar contato visual."Rosie, quantos anos essas meninas do violino têm?"
"Destinée tem 13 e Sérénité tem 11." respondi." Elas são irmãs, acabaram de ser adotadas."
As crianças subiram em conjunto para a última sequência do espetáculo, abrindo com a 'Suíte Quebra Nozes', uma melodia que adaptaram para uma versão mais lenta para que o grupo seguisse sem se perder.
A 'Marcha dos Soldados' veio depois, ela me lembrava grandes anúncios de entradas triunfais. Em seguida, a melodia da 'Fada Açucarada', tão delicada quanto a de uma caixinha de música.
Um adolescente fez um rápido solo da 'Dança Chinesa', um pouco mais complicada pela velocidade. Então todos voltaram juntos com som animado de 'Trepak'.
Quando os primeiros acordes da 'Valsa das Flores' preencheram o salão do Palácio, meu corpo reagiu antes da minha mente.
Meus dedos da mão esquerda contraíram levemente sobre o assento, repetindo por puro instinto a posição das notas que eu havia treinado exaustivamente para aquele teatro de Columbia.
Eu estava tão entretida, que percebi só no final, por reflexo, o olhar de Osten. Sorri de volta.
Uma salva de palmas soou enquanto sustentávamos o olhar.
Foi amargo me dar conta de que, em um momento como aquele, se estivéssemos sozinhos na sala de cinema, um de nós teria se aproximado, ou buscado a mão do outro...
Todos se levantaram, e nós também.
Ainda em meio ao som dos aplausos prolongados, ouvi meu nome ser chamado junto ao de Laura e dos outros músicos que ajudaram nos ensaios para o agradecimento final.
Jade, Aimee e Paige me incentivaram a ir logo e não demorar. Encarei Osten quando tocou meu braço.
"Rosie ainda tem algo que eu preciso te contar. E é importante. Mas deixa para depois." Olhei para ele sem entender e apenas assenti.
...
As crianças do orfanato cercaram Laura e eu assim que descemos do palco, entregando um buquê de rosas para mim e pra ela.
"Rosie, Laura. C'est pour toi." (Rosie, Laura. Isso é para vocês)
"Merci pour votre aide !" Christopher disse em nome de todos.
Abracei cada uma delas. Entre as pétalas, notei um pequeno cartão de agradecimento.
Comecei a voltar para meu lugar, sendo parada a cada segundo, recebendo cumprimentos de vários desconhecidos.
As poltronas de Osten, Jade, Paige e Aimée já estavam vazias quando cheguei. Já deviam estar a caminho de Versalhes. Era óbvio que os seguranças iriam tirá-los dali por um protocolo rígido de proteção...
Voltei ao térreo para procurar tia Margot, Laura e meus primos. Parei de andar ao me dar conta de quem estava com eles.
"Rosie!"
Meus pais interromperam a conversa que tinham com Allan e Marie. Eles vieram mais rápido na minha direção. Me apressei até eles no instante em que despertei do choque inicial.
"Ah, minha filha..." meu pai exclamou com a voz meio embargada me envolvendo."Olha só para você... Você estava maravilhosa lá em cima!"
"Que saudade, céus, que saudade de você," minha mãe sussurrou logo em seguida, envolvendo nós dois.
"Não acredito que vocês..."
" Eu quase te contei na ligação que a gente ia vir!." meu pai riu." Ah, você não faz ideia do desespero que foi esse voo... O avião atrasou na escala e eu achei que a gente só ia chegar amanhã..."
"Infelizmente só chegamos no final da apresentação." minha mãe emendou acariciando meu rosto." Nós avisamos Allan e Marie que estávamos vindo... Vamos passar o Natal e o fim de ano com você."
...
Era quase hora da ceia e eu andava sem parar por todos os lados da casa dos embaixadores de Illea.
Meus pais foram chamados de última hora por Allan para se juntarem a nós no jantar e disseram que iriam passar primeiro no hotel onde estavam hospedados, mas ainda não tinham chegado.
"Rosie, aceita alguma bebida. Água, suco, vinho?" Harper, a anfitriã, me parou. Neguei com a cabeça agradecendo." Qualquer coisa que precisa, me avise, está bem?"
Assenti. Ela, então, saiu para falar com os demais convidados.
Convidaram os Artois e várias outras famílias do círculo social de Marie. Algumas rejeitaram o convite para irem a comemoração no Palácio de Versalhes, mas havia uma quantidade grande de convidados, mesmo assim.
Me sentei no sofá de frente para uma lareira, me distraindo com a decoração. Da última vez que estive ali ainda não estavam com a árvores de Natal e as meias típicas da tradição.
Dava para ouvir o som das músicas que os filhos adolescentes dos embaixadores, Asher e Erza, tocavam no andar de cima. Laura, Bernard, Lola e Jules também estavam por lá.
Me apressei para entrada assim que ouvi o som da campainha. Meus pais tinham trazido um presente para mim: um brinco de flores douradas. Já meu presente para eles só conseguiriam abrir quando voltassem para Illea.
"Vem, eu vou mostrar a casa para vocês, enquanto não servem o jantar."
"Não vai apresentar seus pais, maninha?" Parei de andar, olhando para Oliver e Juliette nos encarando. Ele era o único da família que ainda não havia falado com eles. "Um prazer conhecê-los, Elliot e Kriss, não?" estendeu a mão para eles."Essa é minha namorada Juliette."
Aquele ser não cansava de me surpreender. Os dois na verdade.
"Prazer conhecê-los!" ela lançou um sorriso cortês.
Em vez de desconfiar, apenas considerei que estavam agindo daquela forma por estarmos sendo observados.
"Vão ficar aqui por quanto tempo?"perguntou Oliver.
"Apenas viemos passar o fim de ano."Minha mãe respondeu.
"Ah, que pena..." Não segurei a revirada de olhos."Espero que consigam aproveitar o tempo com Rosie. Devem estar cheios de saudade..."
" E como..." meu pai sorriu para mim.
Fiz questão de encerrar o assunto, pedindo licença ao casal para levar meus pais na direção do jardim dos fundos.
"Muito educado o seu irmão." meu pai comentou e eu não segurei a risada."O que foi? Estou errado?!"
" Elliot, Elliot..." Minha mãe me lançou um olhar humorado." Eu já esperava que vocês dois não se dessem bem. No mínimo, ele deve te odiar por questões de herança."
"Por isso e muito mais." falei abrindo a porta de vidro.
" O que aconteceu?"
"Ah, depois eu conto melhor pra vocês." respondi ele apontando para o jardim, e num instante ele deixou para lá. Entrou no ambiente quase que absorvendo cada detalhe.
"O que acharam?"Perguntei, mesmo sabendo a resposta.
" É magnífico!"
"Muito lindo." Minha mãe assentiu.
"Pra mim, é a parte mais bonita daqui." Admiti.
"Crótons, antúrios, avencas,lavandas, marantas, jasmins, tulipas..." meu pai se agachou perto da plantação no chão e olhou para cima." Se não fosse esse teto de vidro estariam todas murchas..."
" Menos as camélias."apontei." Elas são do inverno. Eu estive aqui há uns dias e Harper, a dona, me disse que já estavam aqui quando ela chegou antes de ela construir essa cobertura e plantar mudas das outras."
"Você tem razão. Elas jamais murchariam no frio!"ele concordou com um sorriso.
"Vocês disseram que ficariam até o ano novo..." comentei, recebendo atenção da minha mãe." Não teria como ficarem mais tempo, mais uns dias? Eu posso ajudar a pagar a estadia com..."
Ela discordou com a cabeça.
"Não podemos, temos que voltar por causa do trabalho na universidade."
"Ah..."
"Sinto muito, meu amor." segurou minha mão."Nós..."
"Não, tudo bem, mãe. Eu entendo... logo, logo vamos nos ver mesmo. Já na metade de Janeiro." sorri."Vamos... subindo? Tem mais da casa para ver."
"Rosie, pode vir um pouco aqui, querida?" Era Harper."Allan está te chamando na entrada. Ah, esses devem ser seus pais..."
Ela se apresentou para eles, enquanto eu fui na frente.
Laura passou diante de mim no meio do caminho. Tia Margot a chamou, seguindo-a sem sua resposta escadas acima.
"O que aconteceu com sua amiga?" ouvi a voz da minha mãe atrás de mim.
"Não sei..."
Me dividi entre segui-la ou olhar para a aglomeração que se formou de repente na entrada.
Consegui ver que os seguranças revistavam alguém pouco adiante da porta.
Allan me viu e se aproximou com certa pressa.
"Está tudo bem e sob controle, Rosie. Não precisa se preocupar." Ele então encarou minha mãe."É tudo protocolo, Kriss. Rosie, você me acompanha, urgente, só por um segundo?"
"Ele está com a gente!" Desviei a atenção de Allan na mesma hora para meu pai, que passou por nós.
"Elliot, espera."Minha mãe o seguiu." Isso é normal, aqui é uma embaixada! Eles têm que revistar. E já deixaram ele entrar!"
Eu o reconheci por causa da fotografia que Laura me mostrou. Allan tocou meu braço e tentou me chamar várias vezes e quanto meu pai e Ele se aproximavam.
"Filha... sabe da surpresa que eu te falei que estava preparando? Queria te apresentar alguém muito especial..."meu pai sorriu e apoiou a mão no ombro Dele." Nem sei por onde começar... Mas lembra sobre o que te falei sobre meu irmão mais velho, e do acidente?"
"...Sim."assenti. Sempre tinha achado triste como meu pai perdeu a mãe e o irmão mais velho em um só acidente. Eles foram assaltados em um táxi, o motorista fugiu e ficaram a mercê do criminoso.
Pegaram uma estrada, mas houve um acidente com caminhão de combustível. Tudo explodiu e eles tiveram que identificar os corpos...
"Temos muito o que explicar." meu pai continuou" Mas esse homem é o seu tio Brian. Ele conseguiu pular do carro em movimento antes do acidente, mas caiu em uma ribanceira. Por sorte, o terreno era de uma família que levou ele para um hospital... Ele ficou em coma no hospital, e depois numa clínica de cuidados paliativos por bom tempo... Quando saiu, conseguiu assumir um emprego de comerciante, mas não lembrava de nada sobre a família... A memória dele só voltou por completo por esses dias! Foi assim que conseguiu lembrar do endereço da sua tia Lizzie!"
Brian deu um aceno para o coletivo.
"Bonsoir à tous. Joyeux Noël." (Boa noite, a todos. Feliz Natal.)"A voz dele me deu arrepios."Que bom finalmente te conhecer, Rosie."
Dei um passo a frente para os braços estendidos de Brian, aceitando seu rápido abraço. Não consegui pensar em dizer mais nada além de um "Oi, prazer, Feliz Natal" automático.
Os anfitriões da casa, Theodore e Harper, foram cumprimentá-lo também. Nisso, meu pai reiniciou a explicação sobre o irmão.
Minha mente trabalhava a mil por hora, reorganizando todas as teorias sobre o meu passado.
Havia uma grande incoerência naquela história.
Pelo que eu sabia, o acidente com minha avó adotiva Lily e seu filho mais velho Brian, que levava o mesmo nome do pai, aconteceu anos antes de eu nascer.
Então não podia ser o mesmo mencionado na carta de Brian, na qual ele dizia ter sido provocado por Marie depois que voltou da França comigo recém-nascida para Illea.
Ele até escreveu que não se lembrava exatamente em que momento me tomaram dele. A única coisa de que se recordava era de entrar em um táxi antes de sofrer o acidente.
Olhei outra vez para Brian. Sua atenção já não estava voltada para mim, mas para Marie, que em algum momento havia parado ao meu lado. Os dois se encaravam de um modo sério a hostil.
Puxei o ar e o soltei devagar. Era impossível controlar a respiração ou o ritmo dos meus batimentos enquanto os dois eram "apresentados". Trocaram apenas um aperto de mão formal. Logo depois, Allan, meu avô Marcel e tia Madeline se aproximaram dele.
Mesmo que fossem dois acidentes diferentes, a pergunta continuava martelando na minha cabeça.
Brian realmente tinha perdido a memória em algum deles?
Pela versão de Madeline e Margot, para impedir que Marie me fizesse algum mal, eu havia sido enviada para Illea com uma ex-funcionária da família Artois. Minhas tias receberam a notícia de que eu tinha sido entregue a Brian... e, depois disso, nunca mais souberam de mim.
Meu olhar foi para os meus pais.
Independentemente da versão que Brian tentasse sustentar, havia uma coisa que eu não poderia ignorar.
Ele sabia.
Sempre soube quem eu era.
E me deixou com o próprio irmão por algum motivo que talvez tivesse relação com Marie. Talvez não.
A única coisa que finalmente fazia sentido era o comentário que eu ouvira a vida inteira sobre a minha semelhança com meu pai adotivo.
Elliot Piaria nunca tinha sido apenas meu pai adotivo. Sempre foi meu tio biológico.
...
Fale com o autor