Uma Seleção com Rosie Ambers
67 Capítulo 63
Meu avô Marcel e seus amigos tinham uma tradição: a de organizar encontros de tempos em tempos envolvendo a presença de suas famílias. Motivo pelo qual estávamos em um campo de golfe de Chambéry naquela manhã.
“É tão longe assim pra precisarmos usar esses carros?”perguntei a Oliver enquanto nos aproximávamos do grupo.
“Se preferir, pode ir andando de buraco a buraco do jogo, fique à vontade.”
Jules e uma garota morena fizeram contato visual conosco.
Oliver passou direto por eles para falar com uma outra jovem mais a frente, de cabelos cacheados, e a convidou para entrar em um carro de golfe.
Meu avô e um colega saíram também seguidos de outros carros.
“Rosie, Lola. Lola, Rosie.” Jules apresentou a amiga, que parecia ser simpática. “ Pode vir com a gente, se quiser. Uma pena que seu irmão tenha ido na frente.”
“Ah, eu estou agradecendo!”
“É mesmo?” ele me olhou com curiosidade” Então ele já mostrou o lado sombrio dele? Nem a própria irmã foi poupada?”
“O que ele já fez pra você?”
Olhei para o lado surpresa, vendo que quem perguntou foi Bernard. Não tinha visto-o chegar.
“Ele foi bem mal educado, desde que nos conhecemos. Nunca nos demos bem, em resumo. ” dei de ombros.
"O cara nunca fez questão de ser simpático.” continuou Jules. “Sempre ridicularizou a gente em qualquer oportunidade. Ainda bem que cresceu na Itália! Seria insuportável ter ele na mesma sala de aula. Ele até deu em cima da Lola quando ela estava com Bernard.”
“Ah, claro.” Revirei os olhos.”Não me surpreende.”
”Foi ótimo ver a máscara dele cair com a princesa!"comentou.
“Nem fala. Eu descobri isso bem antes, esse é só mais um dos motivos dele me odiar.” Sorri irônica.
“Queremos um relatório completo depois.” Jules pontuou.”Agora vamos, o pessoal já está lá na frente.”
Fiquei confusa quando nos aproximamos dos carros. Eu estava mais perto prestes a entrar ao lado de Jules, quando Lola tomou a frente e foi com ele.
Encarei Bernard sem palavras.
“Lola é minha ex.”ele disse “E Jules não sabe calar a boca.” Balançou a cabeça” Ela evita ficar sozinha comigo sempre que há oportunidade.”
“ Ah, entendo, de verdade.”
“ Já teve um ex que te traiu?”
Abri os olhos, não tinha entendido pela fala de Jules que chegara a esse ponto.
“ Ah, não. Na verdade eu nunca…” travei e ele ergueu as sobrancelhas.
“Nunca namorou antes da Seleção?”
“Não.”
“Hum… Não há nenhum crime nisso.”deu de ombros.
Ele sentou ao volante enquanto eu me repreendi mentalmente por ter lhe dito algo desnecessário.
Me sentei ao seu lado, e ele me encarou.
"Tem carteira de motorista?"
" Já tirei, mas… nunca dirigi muito, sabe? Passei as aulas de direção, mas nem meu melhor amigo conseguiu me fazer dirigir mais do que um quarteirão sozinha."
Ele riu.
"Tudo bem,esquece que não precisaria. Vou te ensinar os comandos. Entra aí" Ele cedeu o lugar do volante para mim."Primeiro de tudo, esse pedal aqui é o acelerador, e esse outro, o freio. Só dois pedais. Sem mistério.Essa alavanca aqui é pra frente e pra ré. Não precisa trocar marcha nem nada."
"Então, literalmente, só acelerar e frear?"
"Exatamente. Ah, e cuidado com as curvas. Não é pra virar como se fosse um carro normal, senão você capota o carrinho e a gente vira a atração do campo." Ele piscou, rindo, enquanto eu arregalava os olhos.
"Ok, sem capotar. Mais alguma coisa?"
"Sim, buzina aqui" ele apertou o botão, fazendo um bip que parecia mais um brinquedo de criança “E não precisa pisar fundo. Esse troço não é uma Ferrari."
Foi a minha vez de rir.
“Ok, entendido.”
Fui pegando o ritmo da coisa. O campo se estendia como um mar verde sem fim, de vez em quando com um grupo de árvores e pequenos lagos. O ar gelado vindo contra nós era estranhamente agradável.
“Ei, pode acelerar, Rosie.”
“Você que avisou para não nos matar!”
Ele me devolveu um olhar irônico.
“Estamos a menos de CINCO por hora!”
Rolei os olhos e pisei fundo no acelerador. O carrinho deu um tranco leve antes de ganhar velocidade.
“Ai, sim, garota!” Bernard vibrou ao meu lado, me fazendo rir.
“ISSO DAQUI VIROU RACHA?!” Jules gritou quando o ultrapassamos.
“Só se você quiser, irmão.”Bernard acenou para o amigo.
Continuei.
“Pisa mais, Rosie. Faz ele comer poeira!”
Fiz questão de manter a vantagem até o final do percurso. Quando finalmente chegamos à área onde todos estavam, Oliver e sua nova companhia lançaram olhares entediados na nossa direção, como se fossem adultos observando crianças.
Logo depois, as duplas foram formadas para o jogo. As mesmas dos carros.
Jules, que me deu as instruções desde o início, revelou ser um jogador tão ruim quanto eu. Das três primeiras jogadas, erramos todas, e não foram buracos tão difíceis. Já Bernard e Lola pareciam conhecer bem o jogo.
“Espera, Rosie, vou te ajudar antes que você nos afunde com a pontuação.”Bernard me ajudou a posicionar o taco. Ele se inclinou ligeiramente para ajustar meu ângulo, senti que se esforçou para manter uma distância educada. ”Relaxa os ombros. Isso. Agora mira na bola, não na bandeira. A força é média, sem exagerar.”
Segui suas instruções, e para minha surpresa, a bola percorreu uma distância considerável, quase acertando o buraco.
“Isso aí!” sorriu.
“Obrigada.”sorri de volta. De fato, ele não era a primeira pessoa da qual eu iniciava com reservas, apenas para perceber, no final, que meus julgamentos iniciais não faziam o menor sentido.
“Acho que ela aprendeu mais rápido que você no começo, Bernard.”
Ele apenas deu de ombros, ignorando a provocação de Lola. Percebi que os dois passaram o resto do jogo evitando olhares.
Me senti mal por eles, refletindo sobre a confiança que os dois haviam perdido no relacionamento.
Ainda bem que Jules estava presente para deixar o clima mais leve, porque eu não tinha habilidade para quebrar gelo desse jeito.
…
“Hoje eu passei o dia com meu avô, os amigos e netos dos amigos deles. Um deles,o Jules, disse que te conhecia de um estágio na embaixada francesa.”
“Ah, sim, conheço. Ele é uma ótima pessoa.”
“Ele me disse que vocês dois passaram por alguns perrengues por lá.”
“Ah, o que ele disse?”
“Falou que, além das funções normais do estágio, vocês faziam coisas como buscar café, levar papeis, passar recados para pessoas que poderiam conversar diretamente... E que, como você é um príncipe, descontavam mais em você. Fazem… isso até hoje?”
“...De vez em quando, mas todo mundo tem que passar por algo do tipo, não só na minha profissão.” seu tom se tornou reflexivo.” O pior mesmo é ver a casa cair, as pessoas tomando decisões precipitadas e não poder intervir. Enfim. Não tem como controlar tudo, nem aqui, muito menos em Illea.”
" Pois é… Phoebe me contou, esses dias, que os conflitos que continuam por lá…”
“Sai até do controle de Eadlyn. Como ela entregou o poder para o Parlamento, a interferência dela não é muito significativa também…”
“Entendo.”
“Há um tempo atrás, quando escolhi diplomacia, eu tinha ideais. Utopias. A realidade é bem diferente. Mas mesmo assim, é disso que eu gosto, não escolheria fazer algo diferente.”
“Eu não tenho dúvidas.” sorri.
“Amanhã é a reunião mais importante que faremos aqui..."continuou.
"A tentativa de acordo?"
"Isso. Conversamos com os representantes russos, e parece que querem manter neutros como Illea… O que é ótimo, porque agora podemos chamar representantes da Noruécia e Nova Ásia e decidir o que fazer com essas terras. Estou otimista com essa reunião. Tem que dar certo… São milhares, e dependendo da proporção que isso tomar, até milhões de vida em jogo. Chega de guerra.”
A ilha no Ártico não era só uma questão de posse.
Controlá-la significava ter acesso a rotas marítimas e recursos valiosos. Não era surpresa que a Rússia tivesse ficado de olho nela por tanto tempo, nem que a Noruécia e a Nova Ásia estivessem tão determinadas a não ceder. Por isso, essa viagem era tão importante, em termos de acordos pacíficos.
“Imagino que a Ophelia e a Paige estejam ajudando bastante…”
“Sim, elas estão dando um grande apoio…”
"Isso é… bom.”suspirei.”Tenho mais uma novidade. Consegui aulas de violino por aqui.”
“É, sério? Onde?”
“Sim, meu avô ofereceu… é daqui a pouco, inclusive…”
“Isso é ótimo! É como eu te disse: o fato de você e sua família gostarem do mesmo iria ser bom para deixar sua viagem menos tediosa. Minha mãe sempre me disse que quando se aprende algum instrumento, nem se vê o tempo passar. Acho que devo acatar o conselho e tentar algum dia. Por qual acha que eu deveria começar?”
“Não sei… piano, violão, ou um instrumento de sopro, talvez?”
“Talvez eu tente piano, ou quem sabe bateria.”
“Bateria?” acabei rindo.
“O quê, não acha que combina comigo?!”
“Não é isso, é que… meio difícil te imaginar tocando algo. Seria bom de se ver, um dia… Você precisa mesmo de um novo hobbie para desestressar com o trabalho. Os filmes não estão sendo o suficiente.”
“ Acho que faz um bom tempo que não vejo um, a última vez foi com você na Itália.”
Estalei a língua.
“É disso que estou falando! Já parou para descansar desde que chegou? Pelo menos conheceu a cidade?”
“Ah, não... Deixei Jade e Ophelia liderarem o passeio delas e das demais. Acho que foram ao centro.”
" Você só saiu para curtir um pouco de turismo em Londres e na Noruécia. Não dá para dar nem que seja um passeio noturno em algum pátio?”
"Bom, está nevando muito lá fora, Rosie. Não dá para sair.”
" Vai fazer um boneco de neve, qualquer coisa! ”Ele riu em resposta. "Você me disse para descansar. Prometo curtir Paris ao máximo. Mas você também precisa fazer isso por aí. Vou para minha aula. Tchau."
" Espera, Ros..."
Não segurei o riso ao bater o telefone.Mas isso não durou muito.
Eu deveria ter perguntado da carta.
Em vez disso, estava optando por uma conversa casual, como se estivéssemos completamente despreocupados. Como se não houvesse nenhum problema entre nós.
Abri a porta dando de cara com Oliver.
“O que está fazendo aqui?”
“Não tenho direito a andar livremente por essa casa?” ele franziu a testa com uma expressão fingida de ofensa, e então sorriu.” Isso não deve demorar muito tempo, você e o Osten.Não se engane. Ele não sabe manter relacionamento à distância. Eu vi a Delfina passar noites chorando como uma idiota, esperando ele ligar. Quem sabe o que ele estava fazendo nesse meio tempo... traindo ela, talvez?”
“E você, logo você, vai acusá-lo?” Minha voz saiu afiada, mas ele sequer piscou.
“Osten já ficou com várias mulheres, fez até uma Seleção só para isso.”
“Oliver.”
“Acorde, Rosie. Todos seguem em frente. Ele conseguiu esquecer a Delfina, que era ‘o primeiro amor’ dele. Você vai se tornar passado em um piscar de olhos. Uma ou outra mulher vai chamar a atenção dele, se já não for o caso.”
Deixei ele sem resposta e sai andando para a sala de estar, onde Marcel afinava seu violino. Me sentei ao seu lado no sofá.
“Me disseram que você deu aulas de violino em Illea.”
“Ah, sim, eu dei umas noções para uns príncipes e princesas que estavam no palácio de Illea, quando recebemos visita de outras famílias reais. Foi… uma boa experiência.”sorri”Eu consegui dicas de violino também com a América Singer nesse meio tempo em que estava na Seleção.”
“Aquela mulher tem um talento incrível também… Você estava treinando o quê com ela?”
“Nocturne in Sharp Minor.”
Ele sorriu assentindo.
“Então reproduza para mim.”
“Assim, de repente?”
“Tenho certeza de que posso te ajudar se houver mais algo a melhorar. Conseguiu tocar na sua festa, por que não agora?”
“Antes eu não sabia que o senhor era professor de violino.”
Ele achou graça.
“Por falar em aulas. Estou ajudando em um trabalho de violino com um coral de crianças. Elas são de um orfanato.”
“Ah… legal.”sorri.
“Se quiser me acompanhar nos próximos dias, é só avisar.”
Pisquei atônita com a proposta.
“Claro, quero sim!”
…
“Ah, saudades da minha sobrinha maravilhosa!” A tia Margot me deu um abraço de urso, assim que chegamos a sua casa, em Paris, depois de uma manhã inteira de viagem.”Sejam bem-vindas!”abraçou também Audy e Amy e cumprimentou o resto da família.
Allan, Marie e Marcel estavam conosco. Passaríamos os próximos dias ali. Graças aos céus, Oliver preferiu se hospedar em um apartamento particular, então sua presença seria mínima.
Minha priminha Danielle apareceu na porta visivelmente animada, com um bichinho em mãos que parecia uma mistura de rato com gambá, com pelagem de branca, marrom e preta.
Foi tudo muito rápido. Amy deu um grito de pavor quando a loirinha inclinou o animal em sua direção, mas Audrey o pegou na mesma hora.
“C'est Ratatouille, C'est mon furet. Il a 2 ans, c'est un mâle, il est très brouillon!” (Este é Ratatouille, meu furão. Ele tem 2 anos, é macho e é muito bagunceiro!)
Meu cérebro quase deu uma pane com a velocidade da fala de Dani, mas consegui entender o geral.
“Alguém diz para ela que ele é a coisa mais fofa que eu já vi!” pediu Audrey, e tia Margot a atendeu..
“Et où est Féfille?”(“E onde está Féfille?”)
“Là, dans sa petite maison, oncle Allan” (“Lá, na casinha dela, tio Allan!”)
A loirinha apontou para a tartaruga que estava em sua casinha de vidro decorada com pedrinhas coloridas, um ‘laguinho’ e uma plantinha artificial.
“Prenez-vous bien soin d'elle?” (“Vocês estão cuidando bem dela?)
“We”(“Sim.”)
Ela assentiu com um sorriso fofo.
Meu primo surgiu na sala parando no batente da porta de outro cômodo. Tanto ele quanto a irmã estavam com roupas escolares branco e azul com golas.
”Olá para todo mundo.”deu um aceno de longe e já ia saindo de vista, porém…
“Isaac.”
Ele deu meia volta e veio até nós com um mau humor não disfarçado após a repreensão da mãe.
“Ah, mas que falta de educação.Olha lá como você cria essas crianças.”
“Agora não, Marie. Depois EU converso com ele. ”Houve uma troca de olhar tensa entre Margot e Marie.
“Se não se importa, filha. Estamos cansados, podemos ir entrando?”
“Claro, pai, pode deixar sua bagagem aí na porta, depois vamos levando.”
Assim como em Chambéry, o tamanho da casa comportava toda a família. Enquanto Marie, Allan,Marcel sumiram de vista, um homem que entendi ser o mordomo me chamou.
“O príncipe de Illea ligou para a residência há uma hora. Eu disse que vocês não tinham chegado. Ele deixou o número para você retornar quando possível.” Assenti, enquanto era puxada pela mão por Dani, que me guiou pelas escadas.
Amy e Audrey vieram atrás com o furão.
“Il est adorable” falei a Dani, quando Audrey me entregou o bichinho por um instante. Seu pelo era bem sedoso, parecia quase aveludado ao toque. Só que ele não parava de se mover, quase o derrubei na hora de devolver.“Ratatouille é um nome… diferente.”
“É o nome de uma comida que a Danielle adorou quando fomos a um restaurante.” disse Isaac, andando atrás da gente.”É feita com uns legumes e um molho que, sinceramente, não sou muito fã.”
Ele continuou explicando que, no dia dos animais de estimação na escola de Danielle, ela acabou assustando o professor de espanhol com o furão. O homem deu um grito e o chamou de ‘Rata’. Danielle achou super engraçada a semelhança do termo ‘Rata’ com ‘Ratatouille’ e acabou dando esse nome a ele depois de tudo.
“Sei que soa meio confuso para vocês, mas mais sentido para nós, porque em francês ‘Rata’ se traduz como ‘Raton’ ” Isaac comentou.
“Eu nunca vi um animal como esse, sinceramente foi uma surpresa” disse Amy.” Ele é bem energético…” Apontou para o animal dando mini pulinhos no colo de Audrey (querendo pular no rosto dela).
“Essa coisa dorme umas 18 horas por dia, mas quando acorda é esse explosivo ambulante. Boa sorte pra vocês!” Ele finalizou, desviando para um quarto que entendi ser o seu, antes de entrarmos no quarto de Dani.
Dava para notar o quanto a loirinha era apaixonada por contos de fadas só pela quantidade de desenhos de princesas animadas decorando as paredes.
Eu tentava entender as histórias que ela contava sobre as coisas dela e responder às suas perguntas em francês.
Dentro do guarda-roupa havia pôsteres de todas as famílias reais.
Isso não me surpreendeu tanto assim, porque eu sabia que Danielle e tia Margot acompanhavam a Seleção de Illea. Mas quando ela me mostrou um álbum completo de figurinhas da Seleção, precisei segurar a risada.
Nem sabia que esse tipo de coisa existia…
Lá estavam todas as Selecionadas. As figurinhas eram das fotos de quando a gente chegou e fizeram nossa “produção” pela primeira vez.
"As-tu déjà pris une photo avec une couronne ?"(“Você já tirou uma foto com uma coroa?”)
Neguei explicando que nunca tinha usado uma.
“Et un diadème, l'as-tu déjà utilisé?” (“E uma tiara, você já usou?”)
“Une fois, lors d'une fête.” ("Uma vez, em uma festa.").
"Vous devriez l'utiliser plus souvent, les princesses le font." ("Você devia usar usar mais vezes, princesas usam.")
“Oui, tu as raison…” ("Sim, tem razão…”)
Assenti sorrindo de volta para ela.
"Quand tu deviendras une vraie princesse, puis-je emprunter ta couronne pour une journée?"
(Quando você virar uma princesa de verdade, posso pegar sua coroa emprestada por um dia?)
“...Oui.Bien sûr, vous pouvez.”
(...Sim. Claro que você pode.”)
Engoli em seco. Como prometeria algo que…
Suspirei. Deveria haver outro assunto, qualquer outro…
“Venham comigo, meninas!”Margot entrou elétrica no quarto” Vou te mostrar o quarto separado para vocês, enquanto estiverem aqui com a gente.”
Ela nos guiou até tal cômodo, que tinha um papel de parede bege com desenhos de flores douradas e três camas brancas de solteira.
“Ai que gracinha…” Audrey disse.
“Foi uma correria pra acertar tudo, quando você finalmente confirmou a vinda tentei adaptar esse quarto de hóspedes para ficar bem a sua cara”.
“Obrigada, tia Margot.”
“Disponha, sobrinha.” piscou para mim.
Segui Amy e Audrey até a pequena varandinha, que permitia uma visão de outros prédios e de uma praça. A casa ficava na esquina de um restaurante italiano, era possível ver o pessoal se divertindo lá embaixo. Dei uma espiada, ao que tudo indicava os paparazzi tinham ido embora.
“Poderíamos sair agora, o que acham?”sugeriu Margot.” Quero mostrar a cidade para vocês e acho que podemos começar pelo menos por pontos turísticos mais famosos hoje.”
Os olhos de Audrey praticamente brilharam, e eu sabia que o primeiro lugar que iríamos era a Torre Eiffel.
…
O céu estava nublado. A vista no horizonte revelava as outras pontes do rio Sena. Aquela era a famosa ponte dos cadeados, como um mosaico colorido contra o metal envelhecido.
Achamos um específico escrito M & W, que a tia Margot comentou ser dela e de seu ex -marido.
"Sabe… É bonito pensar em todas as promessas que esses cadeados representam, mas o amor, por si só, nem sempre é suficiente. Meu casamento, por exemplo, não terminou por falta de sentimentos, mas porque tínhamos interesses muito diferentes." Ela não deu mais detalhes, visto que Danielle e Isaac voltavam da esquina, onde foram comprar um doce.”Will se mudou para Alemanha depois do divorcio, mas sempre aparece vez ou outra para buscar os meninos para um passeio...”Ela olhou para longe com um sorriso que não soube interpretar como triste ou resignado.“E então, mais algum lugar onde querem ir?”
“Vários.”Audrey sorriu.“Fomos na Torre Eiffel, mas não na praça do Trocadero. Lá é também ótimo para tirar fotos…”
“Podemos ir em algo que não seria necessário andar?” perguntou Amy.” Subir a Torre Eiffel me quebrou.”
Concordei.Apesar do elevador, a maioria tinha decidido subir a pé, o que foi bom para curtir a vista em várias alturas, mas chegamos ao topo com meio metro de língua pra fora.
“Nesse caso, podemos passear de barco pelo rio Sena. Tem um píer bem ali, inclusive. ” tia Margot apontou”E tem assentos dentro dele."
Todos amaram a ideia. Fomos direto para o local, apenas parando em uma banca para comprar chaveirinhos no formato da Torre Eiffel. Também havia roupas e boinas com desenhos dos pontos turísticos.
“ Vai querer essa, Rosie?”
Assenti rápido confirmando meu tamanho para a tia Margot, que comprou uma blusa com o desenho da torre. Meus olhos pararam em um lugar específico da banca.
“Rosie, está a hora de embarcar.” Audrey gritou lá de baixo, e eu me surpreendi por não perceber que tinha sido deixada para trás.
Apressei a minha compra e a desci em direção ao barco onde ela e o restante do pessoal entravam.
"Rosie…?”Audrey me olhou.
“Depois. Vamos aproveitar o passeio.”
…
No dia seguinte, acabamos desistindo de sair por conta da chuva. Vimos séries em francês legendadas para o nosso idioma. Amy e Audrey já tinham se enturmado completamente com a tia Margot e os meninos.
Minha tia parecia determinada a nos mimar ao máximo e comprou tanto chocolate que ficamos nos perguntando se aquilo daria para o mês inteiro.
Vimos fofocas sobre a Seleção inglesa. Uma série de tapas entre selecionadas no pátio do castelo inglês resultou em uma eliminação tripla. E uma dessas eliminadas saiu xingando o príncipe Noah de todos os nomes possíveis.
Allan fechou a porta no final da tarde e lançou um sorriso de canto para nós.Dani estava jogada no sofá com a cabeça encostada na almofada em meu colo. Ratatouille estava por cima dela, todos nós cobertos com o mesmo lençol.
“Estou vindo de uma reunião na embaixada. Está quase na hora de se arrumarem para o recital, não?”
Assenti.” Deixei Amy e Audrey irem primeiro.”
“Posso colocar no canal de notícias por um instante?”
“ Sim, claro. E pode ficar assistindo. Eu estava quase pegando no sono aqui…”
Surgiram imagens de Osten em trajes formais, ao lado de um alto diplomata russo, reconhecido por Allan. Atrás dele, Katie, Jade, Ophelia e Paige.
“Ah, parece que estão saindo de uma orquestra, ela é famosa lá em Moscou, fica no centro”
A reportagem explicava que a Elite iria para um evento oficial do governo russo.
“....Acho que vou me arrumar logo”Me levantei pegando Dani no colo tentando não acordá-la.” A hora está avançando, mais um pouco de moleza e atrasamos.”
Fechei a porta do quarto e encarei a revista que vi no Sena.
Osten tinha pedido desde o dia anterior que eu retornasse a ligação. Acabei não fazendo isso quando cheguei daquele passeio.
Eu queria dizer para mim mesma que isso era apenas porque estava sonolenta e Osten deveria estar cheio de trabalho, sem tempo para conversa. Mas no fundo eu sabia que eu era a maior hipócrita, só estava agindo em resposta ao que estava sentindo.
Apesar de entender a escrita em francês muito melhor do que pronúncia e escuta, tive certo trabalho para traduzir.
O texto falava sobre a Elite seguindo para Moscou com Osten, enquanto eu ficava em Paris.
Idealizaram justificativas para a eliminação de cada candidata, e, no meu caso, não faltaram especulações: minha ausência ao lado deles indicava que eu poderia ter sido eliminada da competição.
Segundo os relatos eu estava séria, calada, distante das interações sociais durante o baile inglês. Apesar de dançar brevemente com Osten, ressaltaram que deixei a festa duas horas antes do término oficial.
Conseguiram uma foto de um momento em que eu me lembrava de estar circulando pelo salão acompanhando Jade e Paige. Eu estava por um momento sozinha e talvez distraída demais para ver o fotógrafo capturando a imagem.
Me interpretaram como melancólica, e aquilo… não estava muito longe da verdade.
A reportagem mencionava Ophelia como a nova favorita em Illea, Itália, Inglaterra e diversos outros países.
Um parágrafo do artigo de opinião sugeria que ela era a maior aposta de princesa. Ophelia, de fato, era a que mais vinha se destacando nas atividades e aparições públicas com Osten, o que deveria reforçar para muitos a ideia de que ela era sua parceira ideal.
Fechei os olhos.
Não queria pensar nela de um modo negativo. Ophelia não era como Suki.Ela não se exaltava por ser a única pessoa da Elite que conhecia bem o trabalho de Osten.
Pensei naquele jantar da Nova Ásia, quando Suki me ignorou na mesa com a conversa com os diplomatas.
Suki provavelmente quis usar essa vantagem para que eu me sentisse desajustada com o ambiente. Enquanto isso, Ophelia me apoiou e estava preocupada com meu bem estar.
…
Entramos nos carros às 18h. Deveríamos chegar ao recital marcado com meia hora de antecedência.
" Está tudo tão bonito com essas luzes de natal…" Allan falou do volante.
A única luz que realmente me chamava atenção naquele momento era a refletida em uma mistura de cores pela água da chuva no asfalto.
Respirei fundo. Seria uma longa noite.
A intensidade da chuva aumentou durante o percurso. Quase não era possível enxergar um palmo à frente de tanta água. Nossa recepção foi poupada de excesso de câmeras pelo fato do estacionamento ser interno.
Os corredores eram iluminados por uma luz suave, que refletia nos pisos de mármore e nas molduras douradas dos quadros de ex-alunos. Tia Margot apontou para uma parede em específico. Havia uma foto de uma turma segurando vários instrumentos musicais em um canteiro.
" Esse é o falecido príncipe consorte Vincent. Ele estudou nessa academia até os 26 anos e foi um dos nossos professores durante um tempo."
Eu me lembrei dos dias em que ficamos naquele Resort para o casamento de May Singer. A rainha Aimee- que abdicou do trono francês- contou que conheceu seu marido Vincent quando ele era da orquestra daquela escola.
Eles conversaram após uma apresentação e, aparentemente, se interessaram rápido um pelo outro, fazendo o possível para terem mais encontros. Vincent se tornou príncipe consorte da França ao se casar com Aimée e tinha falecido recentemente.
Continuamos o caminho. Passei os olhos pelas salas ao longo do corredor com violinos, violoncelos, harpas e outros instrumentos. De longe, avistei uma sala de ensaio e o brilho da madeira polida de um piano de cauda.
Me peguei pensando em como seria estudar ali e como seria o som de várias orquestras ensaiando ao mesmo tempo, cada sala abrigando uma pequena parte de uma sinfonia.
"Mon Amour…"
Parei a caminhada.
A voz não era igual.
Mas olhei para trás vendo um homem cochichar algo no ouvido de sua parceira e ela rir.
"Você sabe...Convivemos há tanto tempo e não temos apelidos um para o outro… Talvez francês seja uma boa língua para pronúncia …Meu amor, mon amour. Minha querida, mon cheri. Minha senhorita, Ma mademoiselle, o que acha?”
Ultimamente só nos chamávamos pelos nossos nomes próprios.
Quase tropecei no ressalto,se não fosse pela ajuda da tia Margot.
"Você está bem? Estou te achando tão tristinha hoje…”
“Estou bem”Assenti.”Obrigada…"
Chegamos ao anfiteatro do local, ele estava um pouco mais escuro, a luz era maior no palco, ao que só pude agradecer, porque já estava cheio.
Um funcionário nos direcionou para a primeira fileira.
Sentamos nos locais reservados, sentindo os cochichos nada discretos sobre minha reputação ao nosso redor.
Observei meu avô Marcel lançar um olhar impaciente para o público, claramente irritado com a falta de discrição do pessoal.
“Madeline, por onde andou?” Segui o olhar dele.
“Vim direto do serviço. Encontrei a Laura.” tia Madeline colocou a mão no ombro da garota de cabelo loiro cacheado. ”Vim trazer ela aqui para apresentar a Rosie.” Se virou para mim.” Essa é a Laura Blanchet. A neta da Sara e do Claude, amigo do seu avô.”
“Madeline me disse que você também gosta de música.” Ela estendeu a mão com um sorriso.
“...ah, sim, gosto. De violino, especificamente.”
Eu segurei a mão dela, ainda meio choque. Ela não estava loira quando a conheci, mas a cor de seus olhos ainda eram iguais aos que me lembrava: azuis.
"Quem é ela?"
" Não contou pra garota? Sou uma aliada.
Vou te tirar do prédio como plano B. Não se preocupe.”
Ponderei se estava exagerando. Laura sorriu, talvez percebendo meu desconcerto, talvez de um modo irônico.
Afinal, ela me disse que iria me encontrar.
“Acompanho um pouco da Seleção. É... interessante. Tenho curiosidade de como é lidar com um bando de mulheres obcecadas pelo príncipe e a coroa.”
Troquei o olhar entre ela e Madeline.
“Foi uma loucura, mais no início. Depois as coisas foram ficando mais calmas. Eu posso te contar mais tarde se quiser.”
Ela semicerrou os olhos e assentiu.
E, em troca, você precisa me explicar tudo o que prometeu.
"LAURA ! O que está fazendo aqui a essa hora?” Uma mulher aleatória veio andando com pressa.
“Já vou!”
Ela olhou para minha família e de um modo simpático pediu licença para sair.
Já que estudava naquela escola, deduzi que se apresentaria também em alguns minutos.
Encarei Amy e Audrey, que ficaram confusas com minha expressão de ‘viram isso?”.
Eu esperava que elas confirmassem que eu não estava vendo coisas, mas me lembrei que quem estava comigo no hotel de Angeles quando toda a confusão de tiros foi Lee.
…
“O que foi, Rosie?” Amy perguntou quando pedi licença para irmos ao banheiro.
“... Acho que achei a Megan.”
“Quem?”
“Megan. Da carta. Ela disse que entraria em contato comigo na França, e acho que é a Laura Blanchet. O cabelo é diferente, mas o rosto e os olhos são iguais aos que me lembro.”
Houve um silêncio das duas por um momento.
“Você tem certeza?”
“Ainda não totalmente, mas daria uns 99%.” respondi a Amy..
Não podia ter certeza absoluta.
"Você não se atreva sair daqui."
" Mas ele vai morrer."
"E VOCÊ MAIS RÁPIDO AINDA."
A Megan que eu conhecia no passado era impulsiva, respondia com mais emoção e sem filtros.
Laura, por outro lado, parecia quase… calculista.
Cada movimento e palavra dela pareciam controlados, adequados a uma pessoa que estimava muito pela sua reputação e por boas relações sociais.
“Megan poderia ser um pseudônimo…” concluí.
“Então é isso?”Amy me encarou ainda incrédula.”Finalmente a achamos?!”
Audrey riu.
“O cérebro de Eduard vai explodir.”
…
“Ei, Rosie. ”
Jules chegou com sua família,sentando ao meu lado.Apresentei ele às meninas que estavam do outro lado.
Uma mulher subiu ao palco para fazer a abertura do evento e apresentação dos alunos.
"Como diretora dessa instituição,fico honrada em apresentar nossa trigésima segunda turma."
Laura abriu o recital ao som de ‘Ode à Alegria’, de Beethoven. Ela tocava piano maravilhosamente bem.
“Ela é insana, não? “Jules comentou com um sorriso em direção ao palco que me fez desconfiar se por acaso… Quem sabe.
Converti meu sorriso malicioso em um normal quando ele olhou para mim. E então, uma ideia.
“Então, Jules… quantos anos vocês têm? Você, Laura, Bernard.” questionei, tentando parecer casual.
“Laura e Bernard tem vinte, eu faço vinte e um em algumas semanas.Sou o mais velho da turma” Piscou.
“ Vocês falam minha língua tão bem… já saíram do país?”
“ Ah, sim”ele respondeu com um brilho no olhar.”Bernard é metade inglês, vai para lá às vezes. Laura fez intercâmbio em Illea no ano passado. Foi uma experiência... interessante para ela” franziu a testa. “Eu, por outro lado, acabei passando um semestre na Inglaterra.”
O fato de Laura já ter ido a Illea era mais uma prova de que ela e Megan eram a mesma pessoa.
Enquanto Jules contava sobre sua estadia na Inglaterra, do sotaque e descrevendo o lugares, comidas e pessoas, eu tentava me concentrar no que ele dizia, mas minha mente dava algumas fugidas do foco.
Estava com muitas perguntas sobre Laura, e Jules parecia não ter pressa de terminar. Conclui o quão péssima investigadora eu era.
Bernard subiu ao palco para uma apresentação de violino. A música me era desconhecida.
“Seu amigo também é muito bom.” Elogiei.” Brilhou muito.”
“Ele treina desde os cinco anos de idade sem parar.”
…
Ao recital se seguiu uma pequena comemoração nas dependências da academia.
Marcel e Marie passaram a me apresentar a todos que cruzassem o caminho- professores, alunos e convidados- tocando na tecla de que estavam 'muito felizes por finalmente reunir a família'.
Observei e esperei o momento de nos aproximarmos de Claude, Sara e Laura Blanchet.
“Laura, essa é a Rosie. Rosie, essa é minha neta Laura. Ah, finalmente vocês duas se conheceram! As duas têm muito em comum!”
“Nós nos conhecemos, vovô” Laura respondeu Claude se voltando para mim sorridente..”Foi mais cedo, antes da apresentação.”
“É como se Marie e Celine estivessem juntas novamente…” disse Sara Blanchet.
“Deveríamos tirar uma foto não acham?”
Olhei para o lado vendo Oliver e um fotógrafo.
“Ah, Oliver. Ótima ideia.”meu avô Marcel e o fotógrafo começaram a caçar um cenário para isso. Laura e eu nos posicionamos em frente a uma janela, numa posição em que um lustre nos iluminava bem.
Não precisei pensar muito para chegar a uma conclusão: era natural que os Artois quisessem aproveitar dessa conexão entre nós para reforçar uma imagem positiva da família.
Nossos avós se distraíram conversando. Andamos até uma mesa, ela se serviu de um pedaço de bolo. Peguei um suco.
“Gostei da pulseira…”
Ela me encarou e apontou para meu braço, onde estavam pendurados os pingentes de violino.
“Ah, obrigada…”
”Quem te deu?”
“...Foi o Osten.”
“Ah, sim…” ela assentiu olhando dessa vez para meu colar.”Ro de Rosie?”
Assenti devagar.
“É bonito.”
“ Seu colar também.” Elogiei.
Tinha uma pequena pérola nele.
“ Significa Megan.” respondeu em tom baixo.” O nome que eu deveria ter ganhado.” Encarei-a pedindo por mais detalhes "Veio de alguém especial.”
“ E é só isso que vai me dizer?” Segurei-a antes que saísse.
“ Aqui não é hora nem lugar para conversarmos sobre isso. Concorda?”
Ergueu as sobrancelhas. Algumas pessoas estavam por perto.
Ela seguiu os avós, enquanto me aproximei de novo dos Artois, que agora estavam com professores da instituição. Esses tentavam convencer Marcel a dar mais aulas ali, mas ele explicou que estava ocupado demais com a empresa e com o projeto de música no orfanato.
“Ah, claro, incrível o trabalho que está fazendo Marcel.”
“E, sem dúvida, vocês estão fazendo muitos talentos com essa escola.”
"Estamos sempre procurando novos talentos. Há sempre espaço para mais.” um deles olhou para mim ao dizer isso.”Soube que toca violino. E agora que você saiu da Seleção é livre para escolher seu próprio caminho."
“Não exatamente.” rebateu Marie.”Na verdade, Rosie e Osten estão apaixonados, e a vinda dela primeiro para França é um tratamento especial que ele deu a quem ele gosta. A mídia que gosta de interpretar tudo errado. Eles estão noivos e vão anunciar o casamento quando ele chegar em poucos dias.”
“Ah, entendi...”
Marcel quebrou o gelo ao comentar sobre a ideia de um concerto beneficente que integrasse os jovens músicos do orfanato e os estudantes da academia de música.
Pensei em Osten. Ele deveria estar naquele momento num ambiente como aquele, com sorrisos falsos, comentários vazios e aqueles olhares de avaliação que pesavam mais que qualquer palavra.
Katie deveria estar tentando chamar atenção de qualquer homem russo rico. Jade de olho no figurino das mulheres, se divertindo com novas amizades. Paige empolgada com a oportunidade de ter contatos da diplomacia. E Ophelia ajudando Osten com as negociações.
…
O número de Osten estava em cima da bancada. Respirei fundo, havia adiado demais aquele momento.
Um funcionário atendeu a minha ligação e em menos de um minuto Osten assumiu a linha, com um extremo bom humor.
“Fomos a uma orquestra hoje em Moscou. Eles tocaram maravilhosamente bem. Era um ambiente onde só faltava você. Estão noticiando em um canal francês, vou te passar o nome… Só deixa eu procurar no bolso…”
Fechei os olhos.
“Osten…”
“Eu pedi que eles tocassem ‘Clair de Lune’. Eu sei que você adora essa peça!”
“OSTEN, você leu minha carta?!”
Um momento de silêncio.
“Carta?! Que carta?”
Juntei forças para continuar.
“ Deixei junto com o relatório, em Londres. Na escrivaninha junto com outros papeis…”
“Que carta é essa, Rosie?” Ele parecia realmente confuso. “Eu não recebi nenhuma…”.
“Olha, eu não sei qual é o caso. Se você realmente não leu ou está fingindo que não sabe. Só… por favor, seja o que for, me diga a verdade quando estiver pronto. Estou indo, boa noite.”
Sem esperar por uma resposta, desliguei a ligação. Meu coração batia incontrolavelmente.
Eu me sentia muito mal por ser ríspida daquele jeito, mas acabei, no fim, me sentindo aliviada.
Estava feito. Ele iria ler a carta, e, em breve, nós finalmente poderíamos conversar sobre o assunto.
…
Fui a última da casa a acordar. Todos estavam à mesa do café, menos Oliver, que como fiquei sabendo não deu as caras por ali desde o dia anterior.
Marie me encarava desde que pisei ali. Tentei desviar o olhar após lhe desejar bom dia. Não poderia ser pela maquiagem. Eu com certeza fui bem sucedida, porque Amy e Audrey estariam surtando com meu rosto inchado.
“Je vais patiner sur la place avec des amis, maman, mère.” (“Vou andar de skate na praça com uns amigos, mãe”).
“Ne sois pas en retard pous le déjeuner (“Não se atrase para o almoço”).” tia Margot respondeu ao filho “Danielle, enlève ce furet de la table basse. Votre grand-père et votre tante sont dégoûtés.”(“Danielle, tira esse furão da mesa do café. Seu avô e sua tia estão com nojo.”)
Minha prima obedeceu-a com um biquinho fofo nos lábios. Vi ela pegando um pedaço pequeno de presunto para dar ao bichinho embaixo da mesa.
“ Amanhã vamos ao orfanato, ok, Rosie?” Assenti para Marcel.”Hoje eu e sua mãe vamos dar uma passada na empresa com Oliver. Não precisa ir.”
Allan deu um beijo sobre minha cabeça e saiu para uma reunião urgente antes deles. A tia Margot olhou para mim quando saíram.
“Vamos receber uma visita.”
A campainha soou quase uma hora depois. Madeline e Laura entraram se acomodando no sofá da sala de estar.
Amy e Audrey levaram Dani para o quarto no mesmo instante que entenderam o momento.
“Por onde começamos?” tia Madeline quebrou o silêncio."Bom… não vai muito longe do que te falei naquela carta. Quando eu e Margot descobrimos o que sua mãe planejava, pensamos em uma maneira de você crescer longe dela. O motivo dela te odiar é o seu pai, Brian. Ele foi um caso extraconjugal de Marie, e ironicamente ela queria ele só para ela, mas ele tinha lá suas outras aventuras." Rolou os olhos.
"MAD! Não era para resumir desse jeito!” tia Margot balançou a cabeça.”Rosie, querida, seu pai era um estrangeiro que sua mãe e a mãe de Laura conheceram num restaurante. Quem começou a se envolver com ele foi a Celine, que estava solteira, mas Marie sempre esteve de olho nele. Celine engravidou dele por acidente, mas estava prometida para um amigo de infância da família, o…"
"Rodolpho,” completou Laura.” Meu padrasto.”
"Isso, Rodolpho. Ele quis assumir Laura como filha, uma pena que Celine morreu no parto..."
Olhei para Laura, que me encarou de volta.
“Isso quer dizer que somos…”
“Irmãs?” ergueu as sobrancelhas, com um sorriso de quase irônico.“Isso. É tudo uma bagunça mesmo, também demorei a me acostumar. Somos irmãs por parte de pai, e você é irmã de Oliver por parte de mãe.”
“... Ok, então recapitulando, Marie traiu o Allan com Brian e me teve, enquanto Celine tinha se envolvido com o Brian e tido Laura um pouco antes.”
“Na verdade, foi quase tudo na mesma época. Você e Laura têm quase a mesma idade.” Pontuou tia Madeline.
Um murmúrio de frustração. Da tia Margot.
“Deveríamos ter dito essa parte com mais emoção, isso era para ser uma revelação importante para Rosie! Parabéns Mad.”
“Não sei quanto tempo você vai demorar para aceitar,” Laura me olhou de modo… solidário? ”Mas estou aberta a te explicar o que quiser.”
"Poderia, então, me dizer o que estava fazendo num hotel em Angeles com uma pistola na mão?”
Ela riu em resposta.
“Simples, Harry me ensinou tudo o que sei e eu fiz algumas aulas num clube de tiro.”
“Ah,é?”
“Acredite se quiser.”deu de ombros.
“ Já fez intercâmbio em Illea, Jules me falou, é por isso que estava lá.”
“Uma boa teoria. Mas eu não fiz intercâmbio nessa época,ele foi uma desculpa para conhecer o Brian, ano antes. Eu era meio… sonhadora.”rolou os olhos” Meus avós maternos não gostaram de saber que a filha deles pulou a cerca com um ‘qualquer um’. Eles esconderam tudo sobre meu pai biológico depois da morte da minha mãe, mas Rodolpho, meu pai adotivo…”ela fez uma pausa. Um sorriso triste passou por seus lábios.”Ele me contou sobre tudo. Ele sabia que minha mãe não gostava dele, mas mesmo assim cuidou de mim quando ela se foi.”
Eu estava perplexa com a narrativa. Não interrompi.
“Quando ele também se foi, me vi sozinha com dois velhos insuportáveis que só queriam ‘a neta perfeita’ para expor como um prêmio para seus amigos. Eu não aguentava mais... O intercâmbio em Illea foi o meu escape. Eu usei correspondências antigas que minha mãe trocou com o Brian para conseguir o endereço dele. Fui parar na província de Angeles há um ano. O Harry trabalhava como um dos seguranças daquela casa, e não me deixou entrar por nada. Mas ele acreditou em mim quando mostrei os envelopes, e não deixou que os outros seguranças descobrissem que tentei entrar. Foi graças a Harry que não cometi o erro de conhecer o Brian."
“O Brian…”
Minha mente começou a criar uma nova teoria…
“Ele é a última pessoa que você vai querer conhecer, Rosie.”me olhou séria” Já trabalhou há muito tempo com os rebeldes sulistas de Illea, mas parou o que fazia ao conseguir entrar para uma gangue. E desde então foi crescendo lá dentro… até virar um dos chefes. Ele tem um emprego de empresário de fachada e comanda vários crimes em Illea. Isso tudo e mais sobre ele foi Harry quem me disse. Ele continuou em vínculos com Brian, mesmo entrando para a guarda de Illea, e também já sabia por outro colega de serviço que Brian tinha uma filha perdida. Não podia ser eu, porque ela morava em Illea. Os recados que o Brian mandou ele escrever para você só aumentaram nossa certeza."
"Laura juntou os pontos sobre você e nos procurou quando voltou," a tia Margot interrompeu.
Laura detalhou mais sobre Harry.
Ele queria muito sair daquela vida, para cuidar dos irmãos, mas isso era impossível. Então se limitou a continuar no palácio e escrever os recados em nome de Brian. Enquanto isso, mantinha contato com Laura, que já havia voltado para a França, sobre tudo o que estava acontecendo.
No dia do atentado do hotel, que foi planejado por um grupo aliado de Brian, uma equipe foi infiltrada para me sequestrar em meio à confusão que fariam no hotel. Brian tinha a intenção de me usar para conseguir dinheiro; ninguém da equipe voltou, graças a Harry.
Laura viajou escondida dos avós, com ajuda da tia Madeline e da tia Margot, e mandou uma mensagem de última hora para o namorado, dizendo que o ajudaria com o plano de me levar a um lugar seguro.
“Aliás,” a tia Madeline me encarou” Brian não descobriu recentemente sobre você. Como te falei, nós te enviamos para Illea, para a mesma casa em que Laura quase entrou. Na época, a gente não fazia ideia de quem realmente ele era.Quando ela nos contou, tudo fez sentido: Ele recebeu você da mulher que eu contratei, mas pelo visto te entregou para adoção na primeira oportunidade. Me desculpe. Não pensei que ele pudesse ser alguém que iria te criar bem longe de Marie..."
Levantei-me por impulso. Todas me encaravam.
O discurso delas ia de encontro à versão escrita por Brian. E, honestamente, eu já estava cansada de novas versões sobre toda a minha história.
“ A gente ia te contar a verdade naquele dia mesmo, no hotel, mas… Bom, você sabe que deu tudo errado.”
Mas algo que eu não poderia negar foi que Laura se arriscou durante o ataque, e perdeu a pessoa que amava.
“ Eu sinto muito por Harry…”coloquei minha mão por cima da sua, encarando-a”Eu sou muito grata pelo que fizeram por mim.”
Ela assentiu.
“ Tome cuidado,” respondeu.“Brian ainda é uma ameaça. Ele quer se aproveitar da sua posição como princesa, tanto quanto sua mãe.”
"Não se preocupem. Vamos manter Brian sob controle, caso ele apareça" disse Madeline” A família real de Illea já sabe sobre isso também, então sem risco deles ou você se machucarem.”
Olhei para minha tia em choque.
“...Desde quando eles sabem?!"
“ Tem um tempo já…Se não me engano, Allan passou o recado para o príncipe Osten.”
Fiquei incredúla por um instante.
Como Osten sabia o tempo disso e não me contou?!
De repente, não era mais tão estranho que ele tivesse concordado tão rápido com a minha estadia na França. O problema central não era mais os Artois.
…
“Será que poderíamos ir ao Louvre de metrô?” Audrey perguntou.” Nunca andei em um.”
“Não tem isso em Illea?”
“Não muito na minha cidade.” ela respondeu a Isaac.
“A imprensa vai nos seguir, não vai ser legal,” comentei, imaginando o caos.
Tia Margot riu.
“Tenho uma ideia que vai depender um pouco da sorte” Segui o olhar dela até o relógio da loja onde entramos e não entendi a princípio.
Quando o plano dela foi revelado, me perguntei se ela estava falando sério. Um funcionário nos entregou os bilhetes de metrô comprados discretamente, e tia Margot sorriu.
Saímos andando como se nada estivesse acontecendo, mas, ao virar a esquina, aceleramos o passo.
“Vamos precisar de sorte. Agora, corram!”
Descemos as escadas e passamos pelas catracas o mais rápido possível.
As pessoas nos olhavam como se fossemos um bando de loucos fugitivos.
Avistamos o metrô parado com as portas abertas, vendo que o horário decorado por minha tia havia sido certeiro.
Os paparazzi tentaram nos seguir, mas conseguimos despistá-los ao entrar no metrô nos últimos segundos antes das portas se fecharem.
Isaac gritou algo que não reconheci em francês, levantando as mãos em um gesto nada respeitoso para os fotógrafos.
Tia Margot tentou segurar os braços dele, mas era tarde demais: as câmeras já haviam capturado tudo.
“Isaac, pelo amor de Deus, sem escândalos!"
Ele baixou as mãos, sem dar a mínima para a repreensão da mãe.
O metrô já estava em movimento.
A risada que Audrey soltou foi contagiante.
“Ah, isso é igualzinho àquela vez que corremos dos guardas!” Amy disse, ainda ofegante. Ao que Audrey e eu concordamos.
"Tia Margot, eu não devia ter concordado com essa loucura...”
"Claro que devia," Laura foi quem me respondeu com um sorriso satisfeito. Ela tinha sido convidada pela tia Margot a passar o resto da tarde conosco.
…
“Já te disseram que os olhos da Monalisa acompanham você de um lado para o outro?”
“Ai, que pertubador.” Amy disse ao comprovar o dito por Isaac, ao caminhar para os dois lados do salão.
Meu primo bancava o guia turístico pelo Louvre para Audrey e Amy. Tia Margot cuidava de Dani para que não mexesse em tapeçarias caras. Me vi andando ao lado de Laura, sem saber ao certo o que dizer.
“ Está um pouco difícil se acostumar com a ideia, né?” Ela me encarou risonha. Dei de ombros.” Não sou como Oliver, não precisa ficar com o pé atrás.”
“Ah, eu acredito. Nada pode ser pior do que ele. E já fiquei sabendo que você jogou o bonito no Sena. Isso te dá muitos pontos de confiança comigo.”
“Como que você…? Ah,” ela fez uma cara irônica.”Deixa eu adivinhar, Jules?”Assenti” Ele é o maior fofoqueiro que existe, não fale demais da sua vida pra ele.”
“Pode deixar.” ri. “Jules me disse que você empurrou Oliver depois que descobriu do que ele fez com a Lola e o Bernard.”
“Sim. Foi isso MUITO satisfatório.” Ela devolveu o sorriso.
Após sairmos do museu, fomos para a Champs Elysées, onde entramos em um café com vista para o Arco do Triunfo.
Tia Margot pagou croissant e chocolate quente para todos. Os doces ficaram a critério de cada um. Pedi um doce de chocolate, chantilly e morango.
“Margot, seria possível pedir mais um?”
Amy deu uma cotovelada de leve na amiga.
Notei que Laura me encarava.
“Você tirou a pulseira e o colar.”
Assenti.
“ Vocês brigaram ou algo assim?”
“... Não, mas… é complicado.”
Eu tinha feito aquilo após a última ligação com Osten, olhar para eles era um tanto demais naquele momento.
Laura estava com a curiosidade estampada na cara, mas não me perguntou mais nada. Passou a escutar a conversa do restante da mesa.
“ROSIE”
O susto que levei com o grito de um homem desconhecido que pegou uma câmera e tirou uma foto do outro lado do vidro não foi tão grande quanto a surpresa com a correria que fez logo depois.
“Eles endoidaram de vez.” Isaac pontuou enquanto os guardas fizeram um bloqueio na entrada do café para que os jornalistas não chegassem até mim.
O homem que se tinha apresentado como dono do estabelecimento se levantou rapidamente para mudar o canal da televisão.
“ ROSIE, o que RAIOS esse infeliz…?”
“ Rosie…” Amy me olhou tapando a boca de Audrey.
“ Vamos sair daqui.” Tia Margot se ergueu determinada.
“ Um carro para esse tipo de emergência já está a postos na esquina.”disse um dos guardas.” Estão vindo.”
Todos tentaram se posicionar ao meu redor no caminho. Os flashes e gritos eram desesperados.
“O que você tem a dizer do noivado de Osten?” consegui ouvir de um dos repórteres antes de entrar.
…
“Rosie, o Osten está ligando sem parar, isso só pode ser um mal entendido.”
”Pare de defender esse traste!”
Amy suspirou em resposta a Audrey.
“ Vamos te deixar por um momento sozinha, qualquer coisa estamos aqui.”
Assenti.
“Obrigada, meninas, por…tudo.”
Elas esbarraram com o mordomo na saída do quarto. Ele me encarou com uma certa expressão de pena.
“Com licença, Srta. A Sra. Marie está te chamando.”
Respirei fundo e o segui.
Como esperado, ela não iria deixar aquilo passar em branco.
Entrei no quarto de Marie, notando que sua televisão estava ligada. Ela não disse nada. Estava com o controle em mãos e deu play.
Vi a continuação das imagens do café. Osten e Ophelia no que deduzi ser a sacada da embaixada em Moscou.
O título na parte inferior era: “O suposto noivado de Ophelia Shelves e sua Alteza real Osten Schreave”.
Quando os flashes das câmeras começaram a disparar, algo brilhante caiu da mão de Osten, e Ophelia ficou paralisada enquanto ele se abaixou para pegá-lo. O zoom mostrava ser realmente um anel.
O som da entrevista de Osten veio logo em seguida.
“O anúncio da minha noiva será feito em Illea. O que aconteceu lá não foi um pedido de casamento”, disse ele, com a voz firme e controlada.
Marie, então, desligou a televisão.
“Vamos supor que isso aqui for um mal entendido.” ela sorriu irônica.”Com uma ligação tão curta e sem emoção de vocês dois ontem a noite…” pisquei atônita me perguntando como ela sabia que…”Me diz, Rosie,o quão séria é a sua relação com Osten Schreave?”
“...Nós sempre fomos amigos, apesar de tudo.” ela continuou me encarando.” Mas não recomendo que espere pelo nosso casamento. Não te dou certeza de nada.”
“É pior do que eu pensava!”ela bateu sobre sua estante com tanta força que me surpreenderia se não tivesse ficasse ao menos um avermelhado. ”Allan me garantiu que tinha certeza de que o príncipe iria pedir sua mão.Quando te convidei, estava certa de que seria a próxima princesa de Illea, mas nem pra segurar um homem você serve!”
“Não é questão de segurá-lo. Ele sempre foi livre para tomar a decisão que quiser, e eu também.”
“Então não quer casar com ele?! Vai desistir assim?! ROSIE. VOLTE AQUI.”
…
Nunca foi tão difícil cumprir a palavra.
Não fomos perseguidos por muitos paparazzis, porque acho que ninguém esperava por minha saída tão cedo assim.
Chegamos às nove da manhã no orfanato em que Marcel dava aulas de música.
Um prédio com uma disposição de corredores tão confusa quanto a de um palácio.
Acabei me perdendo de Marcel no momento em que parei para observar o mural com desenhos infantis.
“ É por ali a aula.” A voz era familiar.
Olhei para trás, encontrando Bernard. Ele segurava um violino.
“ …Veio ensinar também?”
Ele assentiu.
“ Dou aulas. As crianças são uma graça. Vão te adorar. Tenho certeza.”
Fui recebida com alguns olhares curiosos assim que entrei. Alguns me reconheceram imediatamente, provavelmente por terem visto meu nome mencionado em algum canal de notícias, onde fui retratada como uma ex-selecionada.
Porém, ao contrário do que eu esperava, elas não ficaram tão focadas em mim. Logo se distraíram com o lanche que estava sendo servido na sala ao lado, e aquela sensação de ser observada foi dissipando.
Sentei-me no fundo da sala de aula. Marcel estava à frente, com as crianças ao redor dele, já organizando os instrumentos para a aula de música. Ele parecia estar à vontade, conversando com os pequenos e explicando como funcionavam as atividades daquele dia.
Bernard estava com um violino nas mãos, ajudando as crianças que pareciam ter um pouco mais de dificuldade com os instrumentos. Invejei o seu lugar, me lembrando de quando ensinei violino para as crianças reais.
Refleti sobre o fato de que aquela era mais do que uma simples aula de música; era uma chance para essas crianças de se expressarem e se distraírem de sua triste realidade.
Algumas olhavam para mim enquanto tocavam, e eu retribuía com um sorriso tímido. As risadas e os sons imprecisos dos violinos e flautas me faziam sorrir.
Quando terminaram o primeiro repertório conjunto, elas bateram palmas, orgulhosas de si mesmas. Aplaudi junto, sentindo minha minha visão embaçar.
Não consegui disfarçar isso muito bem, pois Bernard me encarou de longe e veio até mim
“Está tudo bem?” assenti.”Se quiser sair sair para tomar um ar.”
Sorri em resposta.
“Acho que seria uma boa ideia.”
Segui para a saída. Andei até um jardim interno que era rodeado por quatro corredores e tinha um teto de vidro.
No centro, uma fonte. Me sentei no banco pensando nas ironias do destino.
“Um lugar com verde para pensar.
É a sua cara."
Sorri e respirei fundo algumas vezes.
Amy me disse que elas resolveram atender Osten na noite anterior para explicar que eu não iria falar naquele momento, não importava quantas vezes ele ligasse.
Tirei do bolso a carta que ele enviou por fax com urgência naquela manhã.
Não hesitei em abrir as folhas.
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