Uma Segunda Chance

3 Tocando O Céu Com As Mãos


Quando finalmente chegaram na frente da casa dela, ele sentiu que precisava amarrar melhor as coisas... Queria prolongar os momentos com ela o máximo que pudesse, então teve uma ideia.

— Bom, chegamos, doutor. Muito obrigada por tudo, de verdade, eu não tenho como lhe agradecer...

— Bem, sabe que tem como me agradecer sim. – Disse já com um plano em mente. – E, por favor, não me chame de doutor. Para você é apenas Armando.

— Pois fale, Armando. Do que precisa?

— Poderia me convidar para entrar na sua casa. – Arriscou a proposta lhe dando um sorriso sedutor de tirar o fôlego e acrescentou. – Sabe, é que sinto sede e preciso ir ao banheiro também.

— É claro, Armando. Mas é que me dá um pouco de vergonha de receber alguém acostumado aos melhores lugares. – Disse olhando para os dedos e corando. – Além disso, sabe... Meu pai é um homem um pouco temperamental. – Declarou dando sua risada característica.

— Beatriz, não diga isso. Eu adoraria conhecer sua família e eu não ligo para luxo. – Disse, olhando fundo em seus olhos e sorrindo, enquanto levantava seu queixo. – Quanto ao temperamento do seu pai... Bom, digamos que eu tenho experiência. – Disse divertido, lembrando de Seu Hermes e suas histórias. – Vou conquistá-lo, prometo.

— Sabe, Armando, já que seremos amigos e me pediu para chamá-lo apenas de Armando, acredito que você possa me chamar de Betty, é como minha família e amigos me chamam. – Deu sua risada característica.

— Eu gosto bastante de pronunciar seu nome, Beatriz... Mas gosto do seu apelido também. Então, está bem, Betty. – Pronunciou o nome e apelido dela como se estivesse fazendo uma carícia e lhe dando um olhar tão sedutor que fez Betty arder por dentro. – E então, vai me convidar para entrar? – Pediu divertido.

— Claro que sim, Armando. Será um prazer recebê-lo. Vamos.

Armando saiu do carro e abriu novamente a porta para Beatriz e a acompanhou até a casa.

Betty entrou com ele, já chamando pelos pais, que vieram prontamente. Ela então explicou que o seu chefe a trouxe em casa e que precisava ir ao banheiro e também queria um copo d’água e os apresentou.

Seu Hermes e Dona Júlia ficaram felizes e honrados por receber o chefe de Betty, que se mostrava tão gentil em levá-la em casa. Acabaram convidando ele para ficar para jantar com eles, como Armando secretamente esperava que fizessem. Ele aceitou prontamente e sentou-se disposto a ouvir as histórias do velho Lázaro e a adular seu Hermes.

Betty estava envergonhada, mas Armando fazia questão de demonstrar que estava a vontade e satisfeito em estar alí com eles escutando as histórias de seu pai.

Ficaram conversando por um tempo e quando estava chegando próximo a hora do jantar, Nicolas adentrou a casa com suas brincadeiras desastradas.

Betty os apresentou e disse que eles eram como irmãos e que ele também entendia muito de números e investimentos. Disse a Armando inclusive que, se ele quisesse, Nicolas poderia ajudar a refazer as metas e o novo plano, para que a diretoria lhe desse outra oportunidade com a nova proposta.

Armando aceitou e passou a conversar animadamente com Betty, Nicolas e Seu Hermes, que ofereceu que eles trabalhassem lá durante a semana.

Betty tentou dissuadir o pai, constrangida. Mas Armando interveio, dizendo ter adorado a ideia, assim, contaria ainda com as sugestões de Seu Hermes.

Seu Hermes adorava cada vez mais Armando. Pensava, inclusive, enquanto a filha e Nicolas conversavam com ele animadamente, que adoraria ter um genro como ele. E, sem medir palavras, acabou sendo indiscreto perguntando se ele era solteiro.

Betty quase morreu de tanta vergonha, já Nicolas gargalhava e Armando sorria com pura simpatia, enquanto secretamente gostava de pensar que o velho senhor perguntava porque gostou dele e faria gosto em uma relação entre ele e sua filha. Respondeu de uma maneira que fez o coração de Betty acelerar.

— Bem, seu Hermes, estou solteiro. Para ser franco, era noivo, mas era apenas por obrigação, eu não a amava, então terminei. Eu quero uma relação verdadeira, sabe... Quero encontrar sossego e uma companheira para passar a vida. Não quero mais saber de relacionamentos vazios, o senhor me entende?

— Claro que entendo, Armando. – Disse dando sua famosa risada. – Sabe, o homem que se casar com minha Betty, será um homem de muita sorte. Muita sorte. – Disse com pompa e cheio de orgulho.

Armando adorou aquela declaração, pois significava que o senhor estava mesmo cogitando e fazendo gosto de uma possível relação entre os dois. Já Betty não sabia onde enfiar a cara. Estava mais vermelha do que jamais estivera, fato que Armando notou e achou adorável.

— Sabe, seu Hermes, eu tenho certeza disso. Na verdade, meu sonho era encontrar uma moça como a sua filha, inteligente, gentil, boa... – Dizia as palavras com uma devoção, que deixava Betty derretida.

Dona Júlia foi até a sala, chamando todos para comer. Durante o jantar, todos conversavam animadamente. Armando se desmanchava em elogios a comida de dona Júlia e Betty estava feliz em vê-lo tão a vontade em sua casa, com sua família.

Após o jantar, seu Hermes, Armando e Nicolas passaram a beber whisky, até que depois de seu Hermes já estar bastante afetado pela bebida, se despediu e subiu para se deitar. Nicolas já havia ido para casa um pouco antes. Dona Júlia disse que se recolheria também e Armando achou melhor se despedir e deixá-los descansar, embora quisesse ficar para sempre ao lado de Beatriz.

Betty o acompanhou até o carro e Armando, ao se despedir dela, um pouco envolvido pela emoção, acabou lhe dando um beijo doce e rápido nos lábios, deixando Betty atordoada, mas também com as pernas bambas. Sentiu que havia ido além e pôs a se explicar.

— Betty, por Deus, me perdoe. Não quis ser abusado, é que você estava perto e eu não pude resistir... – Atrapalhou-se em explicar, cheio de medo de ter assustado ela. – Quero que entenda que eu lamento por tê-la beijado de maneira tão repentina... mas não lamento o beijo. O beijo eu queria muito. Quis tanto que fui precipitado.

Betty não acreditava naquilo. Ele havia mesmo dito que queria beijá-la? Deveria ser pelo whisky, embora não parecesse que ele estivesse afetado pela bebida. Parecia lúcido.

Armando notando a dúvida no olhar dela, se aproximou, segurando seu queixo e disse:

— Beatriz, eu senti vontade de beijá-la desde que a vi. – Declarou com toda a firmeza e amor – Será que você me permite lhe dar um beijo de boa noite e despedida?

Betty não conseguiu dizer nada, apenas acenou com a cabeça. Ele, então, se aproximou e lhe deu um beijo cálido.

Perderam-se naquele momento. Depositaram suas almas naquele beijo, ambos sentiam que estavam tocando o céu com as mãos.

Até que Armando a soltou suavemente e se despediu, dizendo que retornaria na manhã seguinte para que trabalhassem juntos.

Betty acenou para ele da porta, enquanto ele acenava da janela do carro, antes de dar a partida.