Uma Segunda Chance

2 Tinha que ser você


Notas iniciais
Meninas, obrigadíssima pelo carinho e reviews
Espero que continuem a ler...
Bjus*

Sorri para tranquilizá-lo, mas ele continuou com seu olhar amedrontado. Minha atenção voltou-se a Cassie.

–Temos um novato na turma?- perguntei deduzindo o que aquele garotinho fazia ali.

Isso ai. Eu sou professora do jardim de infância, em uma escola de grande prestigio, aqui mesmo, em Seattle. O Center Scholl Cullen. Estava na miséria. Precisava de grana. Falsifiquei meu diploma, e sou professora há um ano.

–O quê?- perguntou Cassie confusa. Olhei novamente para o garotinho e ela seguiu meu olhar- Há sim! O nome dele é Sean...

–E ele entrou no meio do semestre?- interrompi Cassie, propositalmente.

Estava exausta demais para ceder minha audição de novo.

–Seu pai é um importante empresário, pediu esse favor a Sra. Cullen... Você sabe, mas um troféu para sua valiosa coleção...

Revirei os olhos, concordando com a ironia da Cassie.

A Sra. Cullen era dona, e diretora do colégio. Sua maior satisfação era vangloriar-se dos filhos das pessoas influentes que estudavam na sua escola. E ela não media esforços quando se tratava disso, fazia o que estava no seu alcance, inclusive deixar um garotinho entrar na metade do ano...

–Ele parece tão assustado... — comentei penalizada com o garoto, lançando discretos olhares na direção dele.

–Não é pra menos. Foi a Sra. Cullen quem o trouxe e apresentou pra a classe.

–O pai dele deve ser peixe grande- avaliei, começando a ficar curiosa.

Cassie deu de ombros, olhou mais uma vez para Sean, e iniciou a aula.

O pequeno Sean me prendeu de tal forma, que não conseguia explicar. Ele era pequeno demais, quieto demais, introvertido demais. Parecia que ele não se importava com os coleguinhas, fechado para a bolha dos seus pensamentos. Porém, Sean era o menor das minhas angustias. De certa maneira, pensava em Freddie. E na conversa que tive com o Shay mais velho no jantar de ontem.

Se Freddie retornasse mesmo para Seattle será que ele me procuraria? Daria alguma explicação, ou, sei lá!... Sinal de vida?!

–Tia Sam?- sobressaltei na cadeira encarando a pequena sardentinha que me chamou- Me leva ao banheiro?- pediu Sara, uma das minhas alunas.

Sara tinha cabelos nos ombros, ruivos, que combinavam perfeitamente com seus pequeninos olhos verdes, e suas minúsculas manchinhas espalhadas pelo nariz. Olhar pra ela me lembrava de morangos. Morangos azedinhos, mas bom.

–Claro, vem!- respondi. Peguei nas mãozinhas dela, e a levei para fora da sala.

–Tia Sam, ontem eu e minha mãe fomos ao salão de beleza...

–É... Que bom Sara. E ai, você gostou?

–Não. Ficar no salão é chato!- ela respondeu com uma careta.

–Eu te entendo- disse, rindo.

E o que era gelo derreteu. Eu havia aprendido a amar a cada criança dessa escola. Elas eram muito especiais. Sara, em questão, era a maior de todas. Ela era especial. Ela conseguia ser simpática e inteligente, ao mesmo tempo, tendo um gênio forte como o meu. E ela não se esforçava para ser assim, ela era e ponto.

Na volta topei com a víbora, quero dizer, Sra. Cullen.

–Srta. Puckett gostaria de falar com você, na minha sala- disse ela autoritária.

Assenti e pedi a Sara para que entrasse sozinha pela porta. Sara fez o que mandei, entrou na sala. Mas, antes, virou para a Sra. Cullen e mostrou sua língua, sorte que a Sra. Cullen já se encaminhava pelo corredor e não viu o gesto mal criado da pequena Sara. Contudo, fui forçada a segurar um riso enquanto começava a seguir atrás da Sra. Cullen até o final do corredor.

Subimos alguns degraus, viramos à esquerda, passamos pela Sidra, a secretaria fofoqueira da Sra. Cullen, e entramos em sua sala. Era uma sala neutra, mas medialmente intimidadora. Nela havia uma janela enorme atrás de sua escrivania, com vista para o jardim, a parede ao lado exibia o certificado de graduação dela, protegido pelo quadro de vidro, e na mesma parede existia uma estante de troféus, ao qual, Sra. Cullen tinha orgulho de exibir para cada trabalhador da escola. O outro lado da parede era reservado para as fotografias das mais diversas personalidades influentes do mundo, incluindo o presidente Ary Pover.

Ela apontou com seu braço gordo para a poltrona, indicando que eu me sentasse de frente para ela.

–Srta. Puckett- avaliou-me ela com o olhar contrariado- Pude observar que hoje a Senhorita chegou depois do horário exigido...

–Foi um atraso de cinco minutos, não vai mais acontecer. O meu despertador parou... — interrompi para ser interrompida.

–Eu não quero saber o que aconteceu. Você entende que aqui temos uma política rigorosa sobre atrasos de funcionários. Quando a contratei esperava o mesmo desempenho que sua colega vem tendo. Tenho que informar que estou decepcionada com sua falta de responsabilidade- a Sra. Cullen criticou severamente.

–Sim, Senhora, eu entendo- respondi eu, engolindo a minha raiva.

–Espero que você se esforce para melhorar. Pois, não é só porque você passou na melhor faculdade de Seattle que vou admitir essa atitude na minha escola.

–Sim, Senhora- estava ao ponto de voar no pescoço dela, degolá-la.

Ela me fitou com aquela cara de buldogue, os olhos reprovando-me por trás dos óculos.

Permanecemos uma olhando para outra até o sinal soar.

–Era só isso. Pode retornar para seu afazer- disse ela, voltando-se para o papel que estava na mesa.

–Sim, Senhora- levantei. Abri a porta- Bom dia Sra. Cullen.

Ela ficou calada, concentrada no papel.

–Bruxa!- sussurrei.

–O que disse?- perguntou ela, cinicamente.

–Nada- respondi nervosa. Ela voltou a me fitar, mas, depois, com a mão esquerda, indicou o lado de fora, esperando que eu abandonasse a sala.

Terminei de sair, fechando a porta as minhas costas. Sidra olhou para mim com os olhos saltados de expectativa, mais um interesse na fofoca do dia.

–O que é? Acha que vou dar o gostinho?- interroguei grossa, ignorando a cara feia que ela fez.

Bufei, e rapidamente abandonei o local.

Retornei praguejando todos os palavrões possíveis. E, pode ter certeza, meu vocabulário não era nada escasso. Eu estava dominada pela raiva. Se pudesse usaria minha meia com manteiga naquele momento mesmo, acabando com o hipopótamo zebral, apelido dado a Sra. Cullen devido ao seu cabelo bicolor, por mim. É claro.

Como não estava no pique, preferi ficar na sala e esperar até o intervalo acabar do que ir ao parquinho brincar com as crianças e Cassie. E eu não era a única.

–O que está fazendo aqui?- perguntei a Sean. Ele estava sozinho na sala, sentado em seu lugar- Por que não está curtindo com as outras crianças? Não gosta do recreio?

Sean endireitou-se na carteira e me respondeu:

–Não estava com vontade de brincar. Perguntei a Sra. Huff se poderia ficar aqui, e ela me deixou permanecer na sala- Ok. Fiquei impressionada com a dicção do garoto, ele parecia um adulto no corpo de uma criança.

Andei vagarosamente para perto, Sean oscilou com nossa proximidade.

–Você não gosta de brincar com as outras crianças?- perguntei, sentando na sua frente.

Ele negou com a cabeça.

–Não sou acostumado a conviver com outras crianças...

Ri com seu comentário. Ele olhou para a janela, observando as crianças brincarem no parquinho, inexpressivo. Foi à oportunidade perfeita para eu analisar seu rosto, já que sua aparência física me instigava. Ele me lembrava de alguém, mas eu não reconhecia quem. Sean voltou a olhar pra mim, sério demais para um garotinho de 5 anos.

–Eu te conheço- afirmou Sean, convicto. Espantei-me com o comentário.

–Me conhece?- perguntei cética.

–Sim. Você é a apresentadora do iCarly, um famoso Webshow da internet.

–Como sabe disso?- espantei-me outra vez. Mas quando perguntei a Sean, sorria. Nenhuma das crianças havia me reconhecido.

–Meu pai tem fotos suas em casa... E da tia Carly também.

–Tia Carly? Você a conhece?- perguntei confusa, ele acenou a cabeça.

Perdemos uns segundos nos fitando, depois, Sean voltou a olhar para o parquinho enquanto eu continuei a fita-lo. Estava confusa, muito confusa. Eu não sabia o que pensar falar ou agir. Tinha uma opinião formando, uma opinião que me deixava nervosa, e isso começava a me assustar.

–Sean...?- o chamei com a voz atribulada.

Ele olhou para mim surpreso.

–Você já sabe meu nome.

–É, faz parte de o trabalho saber o nome dos meus alunos- Sean arqueou a sobrancelha- Qual é o seu sobrenome?

–Rodrigues...

Que pensamento idiota que acabei de ter! Não era possível. Ele não faria isso comigo.

O sinal voltou a soar, propagando o fim do intervalo.

–Benson- ele terminou de dizer ao mesmo tempo.

Fiquei em choque. Imóvel. Processando o eco que aquele nome produziu na minha cabeça.

–Sem empurrar, Greg. Vamos entrar com calma- ouvi Cassie ralhar com a turma. Alguns alunos vieram até mim, pulando em meus braços.

–Sam? Está tudo bem com você?- quis saber Cassie, estranhando meu comportamento com as crianças. Normalmente eu as abraçaria de volta, porém, eu permanecia estática na carteira.

–O que você fez com ela?! Pode ir falando- ouvi Sara exigir ao longe, acusando Sean de uma coisa que ele não tinha culpa. Bom, talvez uma parcela de culpa.

–Eu não fiz nada. Estávamos conversando e ela ficou assim- defendeu-se ele, da acusação de Sara.

–E você acha que vou acreditar nisso?- insistiu Sara, emburrando a cara para Sean.

–Eu já disse que não fiz nada! Garota intrometida!

–Vai conhecer a garota intrometida- gritou Sara com sua voz fininha, partindo para cima dele. Sean encolheu-se na cadeira encostando as mãos na cabeça, amedrontado.

–Tudo bem- disse num salto, saindo do transe. Conseguindo apanhar Sara pela cintura antes dela chegar em Sean- Eu estou bem- tranquilizei Sara, e a turma.

Sara tentou por mais um tempo chegar no Sean, entretanto, ela cansou e resolveu relaxar nos meus braços.

–Ok. Tia Sam deixou bem claro que está bem. Agora, se sentando! Vamos!- mandou Cassie, batendo as mãos e empurrando alguns alunos para seus devidos lugares. Mantendo o controle na sala.

Carreguei Sara a sua carteira e a depositei lá, gentilmente. Após, fui à lousa e escrevi o assunto que aprenderíamos em ciências sociais.

Risos explodiram na sala.

–O que foi dessa vez?- perguntou Cassie à classe, que não parava de rir.

–O Sean fez xixi nas calças- respondeu Greg, apontando para um Sean todo encolhido e desconfiado do lugar.

Eu e Cassie trocamos olhares.

–Tudo bem, eu vou- disse- Sean pode vir comigo?!

Ele continuou na carteira, hiper vermelho, escondendo a cabeça nos braços. Fui até ele, o peguei no colo e sai da sala. Avisei a Sidra de que queria falar com a Sra. Cullen, e com superioridade ela informou a Sra. Cullen pelo telefone, me mandando entrar.

–Então, o que aconteceu agora?- perguntou Sra. Cullen no mesmo tom que usou pela manhã.

–O Sean urinou nas calças, em frente a toda a classe.

Ela olhou para Sean no meu colo, alcançou o telefone e apertou o botão vermelho.

–Sidra, por favor, ligue para o Sr. Benson e avise que ocorreu um incidente com o seu filho- quando ouvi a Sra. Cullen citar o nome de Freddie, minhas pernas bambearam sem controle. Era difícil permanecer em pé sem o auxilio de um apoio para o equilíbrio, ainda mais ter que segurar um sobrepeso nos braços.

Eu orava para ser qualquer outro Benson, menos o Freddie Benson. Filho da neurótica Marissa Benson, antigo morador do prédio 8-D, o pateta nerdão. Não o Freddie Benson, meu primeiro amor. Tudo, menos ele.

–Vai me contar o porquê dele ter se urinado? Tenho que dar uma explicação ao pai dele- eu não respondi, tinha medo de acabar entregando Sara.

É eu nunca dedurava meus alunos.

Sra. Cullen impacientou-se, exaltando a respiração.

– Ele teve um pequeno desentendimento... — falei o menos possível.

–Desentendimento?- ela perguntou irônica, me encarando incrédula.

–Bom... Foi um mal entendido... E um coleguinha o ameaçou... — Sean tremeu em meus braços.

–Esse colega é Sara Rivley?- outra tremida nos meus braços.

–Sim, Senhora- denunciei relutante.

–Essa menina não tem modos... Se seu pai não fosse um político tão importante, certamente estaria expulsa há muito tempo- a Sra. Cullen pareceu notar que Sean ainda estava no meu colo- Por favor, quer soltar o garoto e sair da minha sala- comandou ela, rabugenta.

–Claro... — suspirei triste.

Segurar Sean era o que me mantinha na sala até seu pai chegar. E, assim, acabar de uma vez todo esse drama. Mas correspondendo ao comando da minha chefa, empurrei o corpo do garoto para longe do meu, e como uma lula, Sean agarrou-se ainda mais em meus ombros. Tentei novamente, ele repetiu a ação apertando as pernas também, em volta do meu corpo.

–Não mandei tirá-lo do seu colo?- questionou a Sra. Cullen, ríspida. Soltando fogo pelas ventas enormes que tinha no meio da cara.

–Ele não quer me largar- expliquei-me, mostrando a ela o golpe. Sua expressão enrijeceu, demonstrando o desgosto.

O telefone tocou, e a Sra. Cullen atendeu.

–Obrigada Sidra. Pode mandá-lo entrar á minha sala- ela ordenou. Depois, desligou o aparelho e voltou-se a mim- O pai dele já esta aqui.

Meu nervosismo cresceu de tal maneira, que me manter em pé era obra de Deus. Meu coração pulsava aceleradamente, e eu pedi para que Sean não pudesse senti-lo sobre seu corpo pequenino. Não queria ser humilhada dessa forma, eu ainda conservava meu orgulho, repetindo para mim mesma que não era ele, não podia ser ele.

A porta abriu o que para mim pareceu ser em câmera lenta. E nela um homem com terno escuro, alto, musculoso, cabelos e olhos castanhos como os do filho surgiu.

O meu mundo desabou no momento em que o reconheci.

Era ele! Era o meu Freddie!