Notas iniciais
Espero que gostem!!!

A primeira vez que a garota o viu foi como se milhões de faíscas voassem à toda em sua mente, entorpecendo seus sentidos e fazendo com que ficasse toda boba, de repente muito consciente de sua pele suada e de suas roupas grudentas da corrida. “Que gatinho”, foi o seu primeiro pensamento. “Que sério”, foi o seu segundo. Ele tinha um porte alto e atlético, uma postura rígida e um ar observador e austero. E quando ela perguntou se ele estudava para concurso militar “ou algo assim” e ele respondeu que sim, ela meio que já sabia, já que tal fato transparecia em cada ponto de sua expressão, de seus modos. Ainda assim, sentiu-se animada, porque com a resposta curta e rápida o garoto lhe dedicou o vislumbre de um sorriso. As faíscas então ficaram mais fortes, até que nos dias que se decorreram elas se tornaram uma coisa involuntária, impensada, ardendo e queimando sempre que ele ocasionalmente lhe mandava mensagem, ou quando o viu uma vez correndo no calçadão, tão lindo, como se o próprio deus Apolo tivesse decidido descer do Olimpo para treinar para o TAF de alguma prova tola e mortal. Como se não fosse nada demais. Como se estivesse de bobeira e precisasse “esfriar” um pouco a cabeça de suas obrigações divinas. E quando ele se limitou a lhe dirigir a palavra ao vê-la caminhando ali, a garota teve vontade de morrer e ressuscitar no mesmo segundo apenas para checar se ele lhe diria mais alguma coisa. Mesmo muito envergonhada, ela ficou contente, porque afinal de contas, ele tinha falado com ela. Não por mensagem. Pessoalmente. E aquilo de alguma forma significou o mundo.

As faíscas em seu peito eram uma confusão de sentimentos que a garota conhecia muito bem. Admiração, atração, inveja, desejo, raiva, tristeza, ciúmes, amor. Indo contra todos os “alertas vermelhos” de sua mente, ela prosseguiu a alimentar tais emoções incabíveis, em especial a última, porque ela mesma não conseguia evitar ser uma romântica incorrigível. Ele, por outro lado, era tão confuso e complicado quanto geometria, simples, mas nem tão direto assim como uma regra de três, e certamente, tão insensível e cruel quanto álgebra. A garota nunca fora boa com números, contudo ela era teimosa. Esforçada, dedicada e ridiculamente teimosa. Antes que se desse conta, lá estava ela quebrando a cabeça para resolver mais daquela questão de matemática que era o garoto. E não estava ela conseguindo o decifrar sozinha? Ela não saberia dizer. As vezes ficava cada vez mais difícil de encontrar o valor de “x”, embora algo em seu interior lhe dissesse que estava perto. Mas ela tinha medo de marcar a alternativa incorreta e perder para sempre aquela questão, por isso buscava ser muito cuidadosa. Uma equação de cada vez.

Ele não sabia, ou pelo menos naquele período ele não tinha como saber, mas quando obteve sua primeira aprovação em seu estimado concurso público a garota rapidamente o botou no pedestal mais alto e mais dourado, e lá ela o deixou, brilhando tão forte que ofuscava qualquer outro pensamento racional. E ela o exibiu para seu pai, para seus amigos, só que de nada adiantou. Eles nunca o enxergariam da maneira como ela o enxergava. Reluzente, arrebatador, poderoso. E distante. Muito distante. Quando ela pensou que estava perto de resolvê-lo de vez, ele se mostrou ter uma pegadinha impiedosa e terrível, e mais uma vez ela teve que repensar cada passo que dera, cada cálculo feito errado. Ele era um jovem adulto, cheio de sonhos e objetivos muito concretos, um ser imortal que bem podia ter mil anos de vivência, um trovão a ser ignorado num dia tempestuoso, mas que estava ali, alto e barulhento, ressoando com brutalidade em seus ouvidos. Era um aprendiz de marinheiro, cuja mente potente se mantinha intacta apesar de tudo o que presenciava no curso de formação. Ele era tudo e mais um pouco. E ela não era nada. Não passava de uma gatinha manhosa se esfregando em seus pés em busca de atenção e mais atenção. Lá estava o valor de “x”. A alternativa correta. Talvez fosse por isso que ele não perdia seu tempo.

Mas ela estava errada de novo, porque aquela aparentemente não era a resposta que estava nos itens.

Ele a olhava, sim. E sentia-se atraído por ela tanto quanto ela por ele. Ela não sabia, não tinha como saber, seus sinais eram confusos, tinha muita informação no texto da questão, todavia quando se beijaram pela primeira vez sob a luz do luar, ela soube. Conseguiu pegar o raciocínio de vez. As faíscas dentro de seu peito, havia muito fracas, desesperançosas e melancólicas, voltaram a se acender mais brilhantes do que nunca. Só tinha bastado algumas palavras dele, alguns gestos pequenos e tímidos e ela se tornou dele. Somente dele. Seu cheiro era como o frescor da chuva, sua boca doce se encaixava perfeitamente na sua, os lábios tão macios quanto veludo, as mãos, muito ousadas e curiosas, ansiando por mais e mais dela. Abraçá-lo era como voltar para casa depois de uma longa viagem. Ouvi-lo falar era como escutar seu artista favorito cantar uma de suas canções mais prediletas. Seu olhar penetrante era como uma lareira quente numa noite estrelada e muito fria. Fazê-lo rir era como dar o primeiro mergulho no mar. Ele era assim. Como um sonho.

E ela agora se tornara uma aspirante a acrobata treinando para andar numa longa corda bamba. Mesmo aprendendo, ela temia que só restasse um passo em falso para tudo estar acabado. Não podia olhar para trás, não podia olhar para baixo, mesmo o chão estando muito perto. Não podia vacilar, hesitar, se desequilibrar. Não podia falhar com quem decidira lhe dar uma chance, com quem se tornara tão importante na sua vida. Enquanto isso ele nunca precisou se esforçar para conseguir um espaço em seu coração, para se mostrar ser apto para caminhar numa corda-bamba. Só bastou ser ele mesmo. Calmo, forte, determinado, belo, perfeito. E ela continuava a encará-lo, arrebatada e apaixonada, um adesivo pequeno e muito simples colado em seu caderno como um prêmio por ter acertado aquela questão particularmente difícil e ao mesmo tempo nem tanto, e pensava. “Como consegui isso? Não mereço isso. Não o mereço. Fiz algo errado de novo. A conta não tá certa.” E ela o revisava e revisava inúmeras vezes. E se irritava com ele, e consigo mesma por não ter encontrado uma outra maneira de resolvê-lo. Poderia ter achado uma outra forma, sim, de trocar o sinal, não? Foi mesmo preciso acrescentar o -1 entre parênteses para transformar o expoente em positivo? E seria mesmo aquele o comandado da questão ou estaria a garota sendo convencida demais? Não, não... Estava certo. Dessa vez o resultado estava nos itens. Ou teria outra pegadinha ali escondida? Isso tudo porque no decorrer de mais beijos e carícias, ele foi se transformando mais uma vez diante de seus olhos. Se desvencilhou aos poucos da máscara de ferro que costumava lhe exibir e baixou seu escudo, se entregando completamente a ela, sendo dela. Era impossível. Era um sonho devasso. Um delírio de sua cabeça. Um devaneio desavergonhado. Como haveria ele de estar apaixonado por ela? Logo ela, de todas as outras pessoas mais interessantes do mundo? Ela, tão burra para contas, tadinha, que não sabia resolvê-lo com maestria. Ela, que não era nada, nenhum terço do que ele era. Ela, que ao menos conseguia dar mais que três passos desastrados na corda-bamba. Era ridículo e errado. Aquele cálculo ainda não batia.

Faltava o valor de “y”.

Mas a resposta estava correta. Estava nos itens!

Ainda assim, já tinha o “x”. Restava achar o “y”, substituir os valores, talvez somar, subtrair...

Entretanto o resultado estava lá no gabarito, resplandecendo quentinho no papel impresso e em seu coração.

... dividir, multiplicar... encontrar uma resposta mais coerente, que se encaixasse com quem ela era, com o que ela merecia.

Só que o adesivo já havia sido colado em seu caderno. O resultado da questão marcado delicadamente com marcador de texto amarelo, e os braços dele envoltos em sua cintura. Seu toque, sua voz, sua presença sendo uma promessa de um futuro incerto e deleitante. Uma ilha calma num mar revoltado.

Ela respirou profundamente, soltou o lápis e sorriu para ele. Não revisou mais os cálculos. Não voltou mais atrás. Não havia mais o que fazer. Foi capaz de acertar o exercício, afinal. Mesmo assim, ela não pôde evitar sentir-se acuada e temerosa quanto ao que a aguardava na próxima questão. Ela o amava como nunca amou ninguém, o amava mais que amava a si mesma...Mas ela tinha um medo tão profundo que a paralisava, a fazia recuar. Ela não sabia o porquê. Não sabia que medo era aquele. Ou se sabia, nunca o admitiria em voz alta.

Ao invés disso, apoiou o queixo em sua mão, encarando a questão resolvida em seu caderno, o tracinho vermelho de “certo”, o adesivo... e sorriu feito boba para si mesma. As bochechas ainda formigando com o leve beijo que ele lhe dera.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!