Uma Queda Inesquecível
6 Capítulo seis
20 de outubro de 1981:
Nunca pensei que esse dia chegaria tão rápido, o dia que estaria nas mãos de Dumbledore não por querer, mas apenas para ajudar o lado que sempre acreditei e que queria continuar acreditando...
— Você parece com sono. — Observei o professor de poções, tentando parar de coçar os olhos.
Ele bateu à porta no meio da madrugada apenas para dizer que como a poção não fez aquilo que deveria fazer, deveríamos cair naquele lugar.
Tom me informou que o meu corpo aceitou a poção sem nenhuma penalidade, até mesmo me parabenizou por provavelmente ter sangue mágico em minhas veias.
Bom, não quis falar que talvez eu tivesse esse sangue devido ao seu desejo por encontrar alguém que o compreendesse.
Todavia, quando voltasse para essa mansão, Tom iria fazer o meu núcleo e tentaria ver se meu sangue iria produzir magia naturalmente, o que esperava que acontecesse.
— Você acabará arrancando os olhos. — Bocejei, enquanto tentava forçar meus olhos para vê-lo na escuridão.
— Como consegue me ver tão claramente? Você é um gato? — Bufou e me puxou pelo braço, tentando me fazer andar. _ Você avisou o Lorde?
— Não é necessário, ele sabe o que farei. — Dei um passo, antes que um ser sobrenatural aparecesse na porta em que passei.
Parecia um daqueles filmes de terror que tinha uma entidade e agarrava a guarnição da porta com apenas uma mão e deslizava as unhas gigantes pela parede.
Apenas que o ser sobrenatural era o Lorde, a pessoa que estava dormindo no meu quarto por ter "confundido" com o seu.
— Onde pensa que vai com a minha Lady? — Sussurrou, mas sua voz estava carregada de magia que me fez tremer.
— Meu senhor. — Fez uma mesura. _ Estou a levando para Dumbledore, como conversamos. — Felizmente existia uma pequena luz vindo do quarto ou não iria enxergar nada.
— A leve quando eu acordar, mas agora ela fica comigo. — Aproximou-se e agarrou minha cintura. _ Ainda preciso dormir. — Bateu na mão do Sev para soltar meu pulso
Olhei para cima, forçando minha visão para ver alguma coisa, mas tudo que vi foi seu corpo envolta das sombras.
— Você acha que sou sonífero? — Apertou minha cintura e me levantou do chão.
— Sim. — Continuou surrando.
Agarrei seu braço e comecei a lutar para sair de sua posse, já que agora era realmente um bom horário para ir, então não posso perder a minha oportunidade.
— Tom, preciso ir, assim voltarei mais cedo. — Esperava. _ E peça desculpas ao Sev, você bateu nele.
Sei que ele não pediria, apenas queria irritá-lo e acho que consegui já que ficou estático.
Tentei ver seus olhos para saber se falei alguma merda que me colocaria em sérios problemas, mas tudo que escutei foi um suspiro.
— Você não está usando roupas apropriadas. — Revirei os olhos. _ Esse short é muito curto para sair.
— Foi você quem comprou. — Merlim...
— Comprei para você dormir mais confortável, mas não para sair mostrando essas pernas. — Falou coquete.
— Não mudarei de roupa. — Apertei seu braço. _ Vamos, Tom, me largue.
— E essa camisa, ela mostra muito os seus braços e... — Tapei sua boca.
— Merlim, estamos em 81 e não em 1920.
— Elle... — Lambeu a palma da minha mão, me fazendo recuar. _ Apenas estou com medo de você ir e não voltar.
Colocou-me no chão e as luzes do corredor se acenderam, fazendo que fechasse meus olhos para tentar me adaptar a essa iluminação fora de hora.
Pisquei algumas vezes, mas apenas voltava a fechar os olhos, não sabia o que responder também.
Ele sempre me deixava assim, sem palavras e sem saber se isso era real ou não.
Antes que pudesse abrir meus olhos, algo foi depositado nos meus lábios, fazendo que a luz não fosse tão ofuscante e a pessoa a minha frente não fosse tão teimosa.
Seus lábios estavam colados nos meus e seus olhos vidrados em meu rosto, como se tudo que vivemos nesses dias fosse um sonho.
Era como se...
— Está tentando dizer que você não me quer? Pensei que tivesse me pedido em casamento. — Sussurrei. _ Isso é uma despedida, Tom? — Lambeu os lábios e negou.
— Não ache que estamos em uma das suas histórias que você inventa uma cena melodramática, isso é o mundo real, Elle. — Apertou minha bochecha.
— Então por que me beijou? — Minha voz saiu estranha.
— Porque você é minha. — Piscou. _ E queria beijá-la naquele momento, mas continuo querendo fazer isso, o que me faz repensar se devo te deixar ir?
Dou um passo para trás, saindo de sua posse, mas sua mão agarrou minha cintura, me puxando para seu corpo novamente.
Minha cabeça só considerava tirar proveito desse homem que, por algum motivo ou destino, gostava de mim.
Não que esteja reclamando, longe de mim, mas foi tão... Rápido (?)
Sei que nosso tempo é curto, sei que ele gostou de minhas memórias, da minha confiança além do limite, das minhas palavras ácidas e certeiras, de como o conhecia e o entendia.
Certo, já sabia os motivos dele gostar de mim, mas apenas que não deixava a minha cabeça confiar nisso, afinal, ele era o Lorde das Trevas, a pessoa que manipulava todos, e...
Encostei minha cabeça em seu peito nu, sentindo o calor de seu corpo e desejando que isso continuasse para todo o sempre.
— Seu ciúme é fofo. — Comentei. _ Mas não gosto do Severus. — Escuto o professor tossir. _ Prefiro uma pessoa de olhos vermelhos com um passado sombrio e triste.
Sorriu e dessa vez me deixou ir, fazendo que uma pequena despedida se formasse ali, no silêncio.
Dei alguns passos para o lado e caminhei em direção ao Sev, que me esperava.
— Desculpa pelo comportamento dele, ele está aprendendo a conviver com os humanos. — Mordeu os lábios para não rir.
— Escutei isso. — Era para escutar, já que não saímos da mansão. _ Você não está esquecendo de mais nada? — Olhei para ele e iria discordar.
Mas em sua mão estava o meu celular e tive que voltar até ele para pegá-lo, o colocando no bolsinho do pijama, mas isso me fez repensar em uma pergunta.
— Pode fazer algo que o Dumbledore não possa ver minhas memórias? – Ficou pensativo e colocou um dedo em minha testa.
Pensei que sentiria algum formigamento ou uma dor de cabeça insuportável, mas não aconteceu nada.
— Não tem necessidade. — Franzi o cenho. _ E não consigo fazer isso com você, não me pergunte o motivo.
— Isso só me deixa mais ansiosa. — Beliscou meu queixo.
— Volte em menos de um dia. — Dei alguns passos para trás.
— Tentarei. — Baguncei meus cabelos e segurei o braço do Sev. _ Tom, sempre o amei, mesmo você sendo de papel. — Pisquei, sumindo de sua vida.
O ar frio em meu rosto me fez fechar os olhos, mas foi o arrepio em meu corpo que me fez pensar se não deveria ter escutado o Tom.
E até mesmo poderia ter colocado algum calçado para que meus pés não estivessem nessa condição deplorável, mas logo depois lembrei que estava fugindo e isso não deveria ser prioridade na fuga.
Mesmo amando ficar descalça para sentir o frio na sola dos meus pés, alguns lugares tinham um certo grau de limite, principalmente a rua.
Entretanto, a tontura fora de hora me fez lembrar que ainda tinha anemia e que deveria tomar cuidado com a aparatação.
— Você está bem? — Já estive pior.
— Sim, apenas me dê um segundo. — Respirei fundo e pisquei algumas vezes. _ Pronto, vamos?
— Ainda não. — Fiquei confusa e logo entendi o porquê.
Larguei seu braço e corri até uma lata de lixo que havia no beco malcheiroso, vomitando tudo que fui obrigada a comer.
Acho que aqueles pedaços brancos ali, eram lagostas e sabe, tinha gostado delas...
— Não gosto de vomitar. — Funguei. _ Tem alguma poção para isso não acontecer? — Aproximou-se e retirou algo de seu sobretudo.
— Aqui, isso aliviará a náusea. — Peguei o vidrinho e não pensei muito, apenas desejei o conteúdo na minha boca.
— Obrigada. — Joguei o vidrinho ali. _ Você é uma boa pessoa, Sev. — Ficou surpreso. _ Mas continua resmungando pelos cantos.
Revirou os olhos e me puxou pelo pulso, como se estivéssemos correndo de pessoas que não existiam no momento.
Olhei em volta e observei as casinhas de uma época rudimentar, até que eram fofas e pareciam de boneca, mesmo sendo enormes.
Continuei observando e algo me veio em mente enquanto vias os potes de luz, como o Snape iria se comportar na presença de sua amada – ex amada –, com o marido dela?
— Você ficará confortável? — Não parou, mas falou:
— Nunca fiquei confortável e não será agora que ficarei. — Rude. _ Mas se isso for salvá-la, e se isso puder curar um pouco da culpa que me corrói, então farei tudo que puder.
— Já falei para desapegar.
— Estou fazendo o meu melhor, minha Lady. — Zombou e corri um pouco para ficar ao seu lado, e não atrás.
— Idiota, não sou sua Lady. — O empurrei e o escuto rir. _ Rir faz bem, continue rindo.
— Não sou palhaço. — Era realmente um rabugento. _ E você será a minha Lady, acho que não sirvo para ser da Luz, já que odeio o mundo.
— Bem-vindo ao clube. — Suspirei.
Cocei meus olhos, sentindo o sono voltar novamente e tentei conter um bocejo, mas foi mais forte que eu.
Queria voltar para a cama e sentir aquele friozinho que saia do corpo do Tom, o que era uma ótima sensação e que amaria passar o resto dos meus dias dormindo com essa pessoa.
Bocejei, tropeçando nos meus próprios pés, quase caindo no chão.
— Sei que o Lorde disse para cair, mas acho que era apenas uma metáfora. — Bocejei de novo e dessa vez foi mais forte, fazendo que lágrimas rolassem pelos meus olhos.
— Quero voltar...
— Realmente quer? — Que pergunta idiota, mas apenas concordei. _ Você realmente é uma pessoa estranha.
Concordei e bocejei, mas dessa vez aconteceu aquilo que Tom me pediu para fazer, cair na porta dos Potter.
Meus joelhos estavam doendo e os bocejos se foram como passe de mágica, fazendo que lágrimas que antes era por apertar meus olhos, agora fossem de dor.
Severus inclinou-se para me ajudar a levantar e sua tez tinha visgos de preocupação, mas a porta foi aberta e essa cena foi mostrada para o velhinho odiável.
— Sev? — Uma ruiva apareceu com uma criança no colo. _ É você mesmo?
O vejo morder os lábios e me ajudar a levantar, tentando não pensar na voz e na presença da mulher ali.
— Desculpe aparecer assim. — Sequei meus olhos. _ Mas Severus me falou que vocês poderiam me ajudar. — Limpei minhas mãos no meu pijama.
Dumbledore desceu alguns degraus e ficou atrás do portãozinho que nos separava.
— Você é a garota da profecia?
— Que profecia? — Apertei a mão do Sev.
Algo estalou em minha cabeça, fazendo que uma tontura me assolasse.
— Albus, a menina está pálida e provavelmente está com fome. — Não estava, apenas estava com gosto de vômito na língua. _ A deixe entrar.
— Lily...
— Ela é apenas uma trouxa, Albus. Ela não pode nos ferir. — Observou o Sev. _ E quero conversar com ele.
Concordou e abriu o portãozinho para que entrássemos no quintal, e posso não sentir com tanta clareza a magia ao meu redor, mas o ar dessa casa era quente e parecia acolhedor.
Porém, sempre preferi o frio e o silêncio de uma casa, já que isso poderia contar mais que palavras saindo de sua boca.
Puxei o garoto ao meu lado e começamos a andar até a porta aberta, e alguns sussurros podiam serem ouvidos.
Lily deu espaço e entramos na casa, sendo direcionados até a sala de estar, que continha um feitiço de expansão porque não caberia tantas pessoas, principalmente Hagrid com aquele corpo robusto.
Olhei para trás e Dumbledore fechava a porta, vindo em nossa direção.
Mas Lily sentou-se ao lado do marido, fazendo que Severus observasse seus pés.
— Olha quem está aqui, o ranhoso. — Sirius levantou o copo. _ E que bela senhorita você é.
— Ele tem nome. — Todos me olharam. _ Severus me ajudou muito nos dias que passei naquela mansão.
A sala que havia pessoas conversando onde olhasse, ficou em silêncio, procurando palavras para tirar aquele clima que ficou.
O que não aconteceu em alguns segundos, apenas que Dumbledore apareceu atrás de nós, e nos colocou sentados no sofá macio.
E fiquei ali, toda petrificada, não estava costumada a ser rodeada por Grifinórios, claro, estou dizendo os verdadeiros Grifinórios com magia e tudo.
— Certas manias não morrem. — Iria falar, mas James foi mais rápido.
— Não pensei que veria a garota da profecia com o Snape. — Arrumou os óculos. _ Quanto tempo, Snape. — O garoto nem se mexeu.
Respirei fundo e apenas fiz que aquele quebra-cabeça fosse concluído em minha mente.
Não foi Peter ou qualquer outro que contou que sou de outro mundo, já existia uma profecia que uma pessoa viria para esse mundo.
E essa pessoa, Dumbledore, será a pessoa que tentará de tudo para me tirar daqui.
Talvez o Tom não seja a pessoa que iria me manipular no final, e, sim, um velhinho da Luz.
— Ainda não sabemos seu nome, minha criança. — Sentou-se em uma poltrona.
— Maëlle. — Observei todos. _ Vocês estão dizendo profecia e não sei nada sobre isso.
— Uma pessoa de confiança previu que uma garota do outro mundo iria aparecer para nos ajudar. — Lily falou enquanto brincava com o garoto. _ Essa deve ser você, Maëlle.
Queria discordar e dizer que nunca apoiaria a luz, mas apenas fiquei quieta, ainda mais que nessas horas as informações deveriam sair deles e não de mim.
— Espero que tenham vindo sem nenhuma interferência. — Dumbledore retomou a conversa. _ E sem perseguições. — Ficou observando o Sev.
— Não foi fácil conseguir isso. — Comentou. _ Aquela pessoa aprecia muito a convidada.
— Como conseguiu trazê-la? — Não me lembrava que a voz de Minerva era tão rouca e baixa.
— Ele viajou e tenho acesso à mansão quando ele não está. — Suspirou e parecia cansado. _ Provavelmente vai saber que sou um traidor.
Lily parou de brincar com o pequeno Harry e tentava processar as palavras do seu amigo de infância, parece que o pedido de desculpas pode ser aceito.
Ou apenas preciso parar de deduzir os pensamentos alheios com apenas expressões faciais, isso nunca dava certo.
— Ele virá atrás de você, Sev. — James a observou. _ O que fará?
— Não sei, fugirei e tentarei não ser visto por ninguém. — Pensei que escutaria alguém dizendo que ele era covarde.
Mas todos concordaram com suas palavras, afinal, ele estava correndo perigo e...
— O que acontecerá comigo? Vocês estão dizendo que tenho uma profecia, mas ainda não sei exatamente o que ela fala, ou como devo ajudar vocês.
— Tenho algo que poderá fazê-la voltar para sua casa. — Minha respiração ficou presa. _ Você não precisa contar sobre o futuro, apenas precisa ir embora. — Alisou sua barba.
Antes que pudesse falar, um prato contendo pequenos hambúrgueres apareceu a nossa frente e não me importei muito, apenas peguei um para tentar pensar sobre o assunto.
Algo não estava certo, parecia que eles estavam me expulsando desse lugar por me temer, não por ser a pessoa que os ajudaria a ganhar...
Entendo, a profecia não estava dizendo que os ajudaria, porém, vamos ver até onde isso vai dar.
— E que coisa seria essa? — Mordi o hambúrguer. _ Um vira-tempo? — Franziu a testa. _ Realmente é um? — Fiquei surpresa.
— Conseguimos um vira-tempo que pule dimensões e realidades, mas só foi testado uma vez, não sabemos se vai funcionar corretamente. — Lily fez que todos a observassem.
Acho que ninguém queria eu soubesse desse detalhe, um detalhe que poderia me partir ao meio, literalmente.
Não que isso seja mais uma das histórias que li que viajem no tempo era como aparatação, e se algo acontecesse no meio de sua viagem, você morria.
— Vocês estão dizendo que ela pode morrer? — Cerrou os punhos.
— Severus, é para um bem maior. — Odiava essa frase. _ A senhorita entende, não é. — Discordei.
— Não entendo o porquê devo sair desse lugar se sou tão importante para a guerra. — Ri. _ É porque sou importante para ele e não para vocês?
Vejo o Sev pensar e concordar com as minhas palavras, até mesmo vi um vislumbre de seu sorriso, como se estivesse me parabenizando por pensar.
Suspirei e tentei me levantar, mas fui parada pela voz do velho.
— Você não quer voltar? — Neguei. _ Rever sua família...
— Claro que quero voltar. Esse mundo pode ser maravilhoso, mas não é para mim. — Observei cada um. _ Mas não quero morrer, ou ir para algum lugar estranho.
— Lily falou sem pensar, o testei algumas vezes e...
— Mas você não acabou de dizer que era para um bem maior? — Zombei. _ Então você concordou que posso morrer. — Levantei-me.
Acho que mesmo pensando que poderia ser manipulada por essas pessoas, a minha cabeça via cada nuance de suas palavras, e não deixava que nada me afetasse.
Entretanto, ele tinha razão em uma coisa, queria rever minha família e dizer que estava bem, mesmo que não pudesse voltar para esse mundo, estava tudo bem.
Afinal, já o salvei e ele poderia ter qualquer pessoa que desejasse, mas minha família só tem a mim, e minha amiga deve estar chorando pelos cantos.
Posso ter sido infantil quando caí aqui, dizendo que não me importava, mas claro que me importava, são as pessoas que sempre estiveram comigo.
Então, eu quero voltar...
Aproximei-me do velho e estendi minha mão, fazendo que Severus segurasse as palavras em sua boca.
Talvez ele tenha sido convencido com as minhas palavras de nunca deixar aquele homem, acho que até mesmo me convenci disso.
Mas não sou desse mundo e algo pode acontecer, não é? Ou apenas quero me afastar para não me machucar quando não for mais necessária?
Talvez seja a segunda opção, prefiro abandonar para não me machucar, mesmo já me machucando.
Acho que sempre gostei dos personagens fictícios devido a isso, eles não iriam me abandonar, não iriam me deixar sem entender o que queriam dizer.
Eles tinham parágrafos narrando cada pensamento, mas aqui não tem nada disso, cada um tinha um ponto de vista, uma verdade atrás de suas ambições.
Mas não dava para discernir o que era certo e o que era errado, como sempre pude fazer com os livros.
O mundo fictício é mais assustador que a realidade.
— Preciso voltar. — Escutei alguns suspiros de alívio. _ Não era isso que o senhor queria? — Semicerrou os olhos.
— Quero ter uma conversa particular com a senhorita, posso? — Concordei, mas olhei para o garoto.
— Sev, foi ótimo conhecer você e você é mais divertido que pode aparentar. — Alguém riu. _ E, Lily.
— Sim? — Aqueles olhos verdes eram realmente lindos.
— O Sev não fez por mal, entretanto, o que ele disse não foi certo, mas errar é humano. — Acho que já fiz o bastante e agora era com ele.
Porém, queria pelo menos conversar um pouco mais com essas pessoas para poder entender o motivo delas escolherem esse lado, algo que já sabia.
Mas queria saber coisas que não estavam escritas, como descobri que o Tom sabia cozinhar.
— Vamos? — Nem mesmo percebi que ele havia se levantado. _ Posso usar o escritório, James?
— Sempre. — Acho que ele se sentia deslocado em sua própria casa, já que Severus e Lily se comunicavam por olhares.
Não que esteja pensando que eles iriam se separar para que Lily tivesse um romance com Sev, longe de mim pensar nisso.
Apenas que não acho motivos dele ter ciúmes do Sev, já que era casado com a mulher e esperava um segundo filho com ela.
Mas vai entender a cabeça desse homem, uma pessoa tão... Não vou nem citar a palavra, vai que invoco aquela pessoa?
— Vamos? — Foi à frente e apenas o segui, saindo daquela sala. _ A casa é simples comparado a mansão em que esteve, não é?
— Acho que é mais barulhenta. — Sorriu e observei em volta.
Tinha móveis nos dois lados do corredor extenso, com luzes por toda a parte, guiando a pessoa para onde quisesse ir.
A escadaria já havia sumido e apenas a parede contendo quadros estava ali, quadros que não se mexiam, talvez estivessem com medo de um dos quadros estar interligado a outro cômodo.
— Você parece uma pessoa solitária. — Parou de andar. _ Que vive em seu próprio mundo. — Girou a maçaneta e abriu a porta.
— Talvez. — Entramos no escritório que não era tão espaçoso quanto a cozinha do Tom.
Uma comparação nada a ver, mas dava para entender, não é? Será que caixa de sapato era a descrição perfeita para isso? Não, acho que uma caixinha de fósforo...
— Foi ele quem colocou essa trava em sua cabeça? — A toquei. _ Não nesse sentido. — Sorriu.
— Nas minhas memórias? — Concordou e me sentei no sofá. _ Não sabia que tinha uma trava. — Ficou observando o lado de fora da janela.
— Espero que ele não tenha visto nada. — Na verdade... _ O que você contou a ele que pode prejudicar a guerra?
— Não muito, não contei quem era o garoto ou como terminava a profecia, ainda não sou louca o suficiente para isso. — Sou.
Alisou a barba e a luz refletiu em seus óculos meia-lua, tornando esse homem mais misterioso que o próprio Lorde das Trevas.
— Você acha que ele tem salvação?
— Todos no mundo têm salvação, uma segunda chance. — Parecia tão distante. _ Mas ele já as usou. — Olhou-me. _ A senhorita não deveria confiar tanto nas pessoas.
— Temos que ver o lado bom de todos, não é?
— Sim, porém, você precisa parar de ver o lado bom das pessoas e ver o que elas realmente mostram. — Franzi o cenho.
— E o que senhor quer me mostrar? — Essa conversa ficou profunda demais.
— Quero mostrar que sua escolha é a mais sábia para os dois mundos. — Suspirou. _ Mesmo que ela a machuque no final, a senhorita irá aprender com essa dor da maneira mais favorável.
— E se eu não quiser sentir a dor? — Ele virou meu psicólogo? _ Sabe, gosto dele. — Ri. _ Realmente gosto, mas não gosto do que ele faz. — Na verdade, não me importo. _ Por isso que estou indo embora.
Aproximou-se do sofá à minha frente, se sentando ali, como se estivéssemos em uma consulta com o meu psicólogo e isso iria demorar.
— É com a dor que evoluímos, e é com a dor que fazemos as escolhas mais impulsivas, ou as mais inteligentes. — Não estava errado, já fiz muita merda na minha vida.
— Tem vezes que prefiro viver na mentira, assim não guardo esse sentimento ruim no peito.
— Fechar seus olhos para a verdade não a fará feliz, só irá corroer sua alma e a si.
— Como ele? — Parecia triste. _ Você está me vendo nele? — Discordou.
— As pessoas preferem os opostos, outras preferem aquelas que são iguais, mas sei que ele sempre quis alguém que o entendesse. — Esse velho era dos bons. _ Por isso que sei que você o entende, por isso que ele a trancou na mansão.
— Porque ele sabia que qualquer oportunidade eu iria embora. — Concordou. _ Como sabia que conseguiria fugir?
— Severus é um bom menino e ele me prometeu que se alguém aparecesse iria me ajudar a ter uma conversa. — E aqui estou.
Acho que fiz bem em conversar com o garoto, mesmo sabendo que estava com o Dumbledore, ele não temeu em ser morto pelo Tom.
Apenas ficou surpreso e feliz quando falei que poderia tentar pedir desculpas a garota que sempre gostou.
— O senhor falou sobre a dor e outras coisas, mas, o senhor é feliz? — Sorriu triste.
— As escolhas que fiz não foram a mais inteligentes, mas aprendi com o erro e fiz novas escolhas.
— Grindelwald? — Suspirou. _ Acho que fiz a pergunta errada, o senhor não está vendo o Lorde em mim, está vendo você.
— A senhorita é mais inteligente do que aparenta. — Era um elogio e tanto para esse manipulador. _ Mas, respondendo sua pergunta, sou feliz, ou tento ser.
— Mudaria algo? — Negou.
— Mexer com o tempo traz consequências irreversíveis. — Respirei fundo. _ Não mudaria nada, mesmo que na hora quisesse muito, mas e você? É feliz?
— Aqui, ou no meu mundo? — Não respondeu. _ Não sei, talvez eu descubra quando voltar. — Parecia feliz com essa resposta.
— Realmente é uma criança solitária.
— Por quê? — Toquei meu rosto para tentar sentir o que ele via.
— Seu sorriso é o que me contou, ele é bonito demais para alguém que tem tudo. — Tão inteligente. _ Ele tinha o mesmo sorriso.
Por que continua me dizendo isso? Até parece que quer eu fique e acabe me casando com o Tom, tendo ninhadas de filhos correndo por esse mundo a fora.
Não que eu vá ter filhos, já que não gosto de crianças.
Mas apenas continuei o tópico depressivo que está quase me fazendo chorar.
— Acho que quando você tenta ser perfeita para os outros, esquece de cuidar de si. — Odiava essas conversas. _ Acho que devo ir, você já me desestabilizou o bastante.
— Não quis fazer isso. — Quis sim. _ Aqui. — Levantou-se e retirou algo do bolso. _ Esse é o vira-tempo, acho que você sabe como funciona. — Aproximou-se me entregando.
Peguei o vira-tempo e observei, tentando saber o motivo de tantas engrenagens em uma coisinha tão pequena e dourada.
Havia uma engrenagem para a data, hora e até mesmo realidade e dimensão, o que gostei bastante.
— Como saberei qual é a minha realidade? — Coloquei a data e nenhum tique e taque soou.
— Qual o ano que você sumiu? — Não falei e apenas comecei a girar as engrenagens até ter dois números aparecendo.
— Preciso saber de mais alguma coisa antes de ir? — Coloquei o vira-tempo no pescoço, e o tique começou a soar.
— Esse vira-tempo vai se partir quando você chegar aonde deveria estar. — Então não tinha volta. _ Gostei de conhecê-la, queria que tivéssemos mais tempo.
— Obrigada pelos conselhos, isso pode me ajudar. — Levantei-me e esperei desaparecer.
— Maëlle. — Levantei a cabeça. _ Uma criança quando é maltratada pelos pais não deixa de amá-los. — Aquilo doeu. _ Deixa de amar a si. — E aquela foi a nossa despedida.
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