Notas iniciais
Fiz essa fanfic baseada numa ideia que deram no grupo do Nyah do Facebook. Espero que gostem.

“Você gostaria de se vingar?”

A voz ecoou em sua cabeça quando estava prestes a colocar a corda no pescoço. Ray largou o laço e olhou em todas as direções possíveis do quarto, mas não havia uma única alma viva ali além dele próprio. Tinha certeza de que sua mãe estava no hospital naquela hora, então ele era o único na casa.

― Enlouqueci de vez? ― disse, dando um suspiro cansado.

“Aqui, Ray.”

― Q-quem? ― dessa vez o garoto teve certeza de que ouviu mesmo uma voz vinda de algum lugar.

― Estou bem aqui. ― a voz veio bem detrás dele e Ray sentiu uma mão sendo colocada em seu ombro. O garoto quase pulou de susto e se virou imediatamente em direção ao desconhecido, dando de cara com um garoto albino que vestia um terno branco.

― Quem diabos é você? Como sabe meu nome? E como entrou na minha casa? ― Ray perguntou, enquanto se afastava do estranho.

― Eu? ― o albino sentou-se sobre a cama dele e o encarou com uma expressão de falsa inocência. ― Eu sou um demônio e vim aqui lhe fazer uma proposta.

O garoto encarou o estranho com uma expressão confusa, enquanto sua mente assimilava as palavras que havia acabado de ouvir. Então, de repente, Ray começou a gargalhar, como se tivesse ouvido a piada mais engraçada do mundo.

― Qual é a graça? ― indagou o albino, visivelmente irritado.

― Um... demônio... hehe... ― falou entre as risadas. ― Essa foi muito boa.

― Humanos. Sempre incrédulos. ― dito isso, o albino se levantou e caminhou até o outro. Então seu rosto de repente mudou, durante alguns segundos o rosto do desconhecido assumiu a forma de alguma coisa que Ray não sabia dizer o que era, mas com certeza não pertencia a esse mundo. O garoto caiu no chão e parou de rir instantaneamente.

― Agora acredita em mim? ― o demônio estendeu a mão para Ray, que ficou com certo receio, mas acabou segurando sua mão, ficando de pé logo em seguida.

― O que foi isso? Você...

O albino revirou os olhos. ― Será preciso que eu o arraste para uma visitinha as profundezas do inferno? ― ao finalizar sua pergunta, os olhos azuis do demônio mudaram para um vermelho sangue. O humano deu um passo pra trás inconscientemente.

― Não é necessário. ― Ray balançou as mãos nervosamente. ― Ok, supondo que você seja mesmo um demônio. O que diabos quer comigo?

― Pra alguém tão inteligente. ― disse o albino, apontando com a cabeça em direção a uma estante com vários livros. ― Você é bem tapado hein. Eu já te disse, estou aqui pra te fazer uma proposta.

― Que tipo de proposta?

― Isso eu também já te disse. ― ele voltou a se sentar. ― Você gostaria de se vingar, Ray? Você irá para o inferno de qualquer forma pelo que estava prestes a fazer, então não precisa recusar caso esteja com medo disso.

O garoto pensou por alguns minutos antes de falar alguma coisa. ― Se eu já estou destinado a ir pro inferno, pra que fazer um trato comigo? Minha alma já está garantida de qualquer forma.

― É simples. Estou com tédio.

― Tédio? ― Ray arqueou uma sobrancelha.

― Sim e você não está ajudando. Se ficar enrolando demais, irei retirar a proposta.

― Certo certo. Então, eu posso me vingar de qualquer pessoa?

― Exato, meu caro. Não importa o gênero, classe social e nem mesmo o número de pessoas. Estou te oferecendo uma chance única de poder se vingar de absolutamente todos aqueles que o incomodaram alguma vez nessa vida.

Ele fez outra pausa antes de continuar a conversa. ― E o que o faz pensar que eu tenho pessoas de quem quero me vingar?

― Bem, você estava prestes a se matar. Qualquer pessoa em sua situação certamente guarda rancor de pelo menos uma pessoa. Você não? Ray.

― Isso... é muito pra processar. Poderia me dar alguns minutos para pensar?

― Como quiser. Mas não demore muito. Ao contrário do que vocês mortais pensam, nós, criaturas da noite, não temos toda a eternidade.

Sim, era verdade. Havia muitas pessoas das quais Ray guardava rancor. Havia o motorista bêbado que atropelou sua irmãzinha, Emma, e a deixou em coma, iniciando assim a ruína da família de Ray. O pai do motorista que usou seu dinheiro e influência para permitir que o filho se safasse de seu crime. O juiz corrupto que aceitou o suborno. O chefe incompreensivo de sua mãe que a demitiu por ela ter faltado ao trabalho por estar deprimida demais.

Havia tantos deles e Ray poderia enfim se vingar de todos. Bastavam apenas algumas palavras e todos eles enfim pagariam por seus crimes.

Mas...

― Hey. ― o garoto deu um sorriso discreto. ― Se você pode mesmo fazer eu me vingar de qualquer pessoa, isso significa que você tem o poder para fazer qualquer coisa, certo?

― Correto.

― Então... Você ouviria minha proposta?

Ao ouvir aquelas palavras, o demônio esboçou um largo sorriso. Aquele humano definitivamente estava o divertindo.

[...]

Ray caminhou pelos corredores do hospital, parando em frente ao quarto com o número 63194, número este que ele viu bastante nos últimos meses. Ele permaneceu parado em frente a porta e ao notar que o garoto não tinha intenção de abri-la, o demônio usou seus poderes para permitir que eles fossem capazes de enxergar através da porta.

No interior do quarto, Ray viu sua mãe, Isabella, e sua irmãzinha, Emma. Diferente da última vez em que a viu, Emma agora estava acordada e sorrindo, ela conversava animadamente com Isabella, que também estava sorrindo. Ao ver aquela cena, algumas lágrimas escaparam dos olhos do garoto.

― Você condenou sua alma por causa dela e ainda assim não vai nem entrar?

― Não. Pra mim isso é o suficiente. ― ele enxugou as lágrimas e afastou-se da porta. ― E você não disse que minha alma já estava condenada?

― Sim, mas quando eu disse isso era suposto que você se mataria. Mas você não fará mais isso, não é? ― o demônio lançou um sorriso travesso para Ray.

― Bem, acho que não da pra esconder nada do diabo.

― Norman. ― o albino o corrigiu. ― O nome é Norman.

― Norman? Não me parece o nome de um demônio.

― Você quem precisa rever os seus conceitos de “nomes de demônios”. ― ele fez aspas com as mãos. ― Enfim, estou indo agora. Obrigado Ray, isso foi bastante divertido. ― Norman segurou o rosto do humano e aproximou seu rosto do dele, dando um sorriso sarcástico. ― Quando chegar a hora, definitivamente virei buscá-lo pessoalmente.

Dito isso, o albino o largou e caminhou pelo corredor, ficando gradualmente transparente até desparecer de vez. Ray deu um suspiro alto e ergueu a manga de seu casaco, revelando uma pequena marca preta em seu pulso, a prova de seu contrato.

O garoto puxou ainda mais o capuz para cobrir sua cabeça e fez seu caminho para fora do hospital. Sabia que um dia teria de pagar o preço pelo que fez hoje, mas ver o sorriso de Emma mais uma vez foi o suficiente para fazê-lo concluir que tudo valeu a pena. Por agora, ele apenas se concentraria em usar seus anos restantes na terra para proteger aquele sorriso.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!