Uma Piscina Sob O Luar
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Para quem lê alguma fic minha, já conhece o casal AyChi.
Essa One é um presente de aniversário para uma amikinha ^^
Espero que gostem :3
Existem momentos na vida em que parece se iniciar uma contagem regressiva. Às vezes, lenta e interminável, fazendo-nos acreditar que os períodos difíceis não cessarão. Outras vezes, é rápida e parece poder chegar ao zero a qualquer instante, deixando aquele medo de que algo bom na sua vida corre o risco de acabar ou sumir. Atualmente, a contagem de minha vida está cheia de números racionais. Sinto como se ela nunca fosse acabar ou se reiniciar de outra forma, por isso já perdi algumas noites calando-a de forma forçada ao ingerir certas doses de álcool. O barman do hotel onde estou hospedado até mesmo já me conhece e sabe exatamente o que pedirei. Acho que atingi aquele momento mais baixo e desprezível da vida de um ser humano, o momento em que a esperança ou vontade de lutar por algo desaparecem sem dar avisos e não parecem querer retornar tão cedo. Estou envergonhado de mim mesmo.
Talvez seja o destino que carrego por ser um Uchiha e estar em inserido em uma família tão complicada. Com meu irmão mais novo passando por uma fase de extrema rebeldia e meu pai rígido vendo todos os planos que fez para seu segundo filho ir por água abaixo, nada mais consigo fazer além de ser o mediador dos dois, o que, por ser um papel estupidamente estressante, levou-me a recorrer ao Johnnie, Jack e Logan. Porém não quero mentir, superar a traição de sua ex-namorada com seu ex- melhor amigo não é algo de fato fácil e, talvez, tenha sido isso o que realmente me levou a fazer de meu local favorito a banqueta de almofada aveludada e vermelha localizada na ponta no balcão de madeira brilhosa.
—Gostaria de outra dose, senhor Uchiha? — o jovem que me servia todas as noites perguntou, tirando-me de meus martírios pessoais. Eu me pergunto como será a contagem da vida dele? Será que ele é feliz sendo barman? Será que tem poucos problemas e alguém para extinguir a carência? Acho que nunca saberei... Suspirei e passei as mãos pelos cabelos, que ultrapassavam a linha de meus ombros. Deveria ser tempo de eu cortar, contudo nem vaidade parecia algo útil nos últimos tempos.
—Mais uma, por favor. — a última, pois quero conseguir chegar ao meu quarto sozinho. Virei meu rosto por alguns instantes e, por azar, encontrei um espelho. A camisa amassada e o cabelo despenteado formavam um visual que faria meu pai me impedir de entrar em casa. Suspirei outra vez. Verdadeiramente, gostaria que essa contagem lenta e torturante terminasse de uma vez por todas. Nem mesmo me importaria se ele terminasse em uma gigantesca explosão, ainda que fosse um dos atingidos.
O garoto colocou o copo de vidro sobre um guardanapo e logo o recipiente estava cheio. Peguei a bebida e sai do ambiente, afinal, não poderia me deixar cair na tentação de tentar entrar em um coma alcoólico apenas para ter paz por algum tempo. Passei pelo saguão do hotel, extremamente deserto devido ao horário, e, em vez de entrar no elevador, decidi continuar seguindo, acabando por sair na piscina externa. A lua cheia refletia na água límpida e tremulava como se dançasse junto com a brisa suave que balançava as árvores. Aproximei-me da beirada, tirei os sapatos, subi as barras da calça e sentei, deixando meus pés afundarem na água gelada.
Então me invadiu uma ótima sensação de tranquilidade e paz. É uma pena que poucos saibam aproveitar a beleza de alguns momentos de absoluto silêncio. Os pensamentos mais interiores parecem fazer-se mais audíveis e entendíveis. São nos momentos de absoluto silêncio que certos incômodos são superados. Foi por isso que, por apenas algumas horas, decidi não pensar em meu irmão, quem insistia a odiar tudo e todos, ou em meu pai, quem insistia em controlar tudo e todos. Exalei o ar com exaustão.
—Ah... Não imaginava que haveria alguém aqui uma hora dessas... — a voz suave e melodiosa me tirou de devaneios. Virei meu rosto na direção do som e, por um segundo, achei que estava recebendo a visita de um anjo. Uma bela mulher, de corpo pequeno e miúdo, porém curvilíneo, tinha os longos cabelos negros sendo balançados pelo vento. Sua pele alva parecia brilhar junto com a lua e seus olhos negros intensos transmitiam uma serenidade que aqueceu meu peito. As doses de álcool deveriam estar fazendo seu efeito, por isso terminei o conteúdo restante em meu copo com uma única golada. — Alguém parece não estar vivendo o melhor dos dias. — ela comentou enquanto se aproximava. Olhei-a mais uma vez, só para ter certeza, todavia uma sensação boa preencheu meu corpo novamente.
—Acho que já me esqueci o que é um dia bom. — disse. Ela sentou ao meu lado. Suas roupas eram bem simples se comparadas com as da maioria das mulheres que frequentavam o hotel. Vestia apenas uma regata branca de algodão e um short jeans. Não usava maquiagem ou joias... Contudo não conseguiria imaginá-la mais perfeita do que estava naquele momento. — Como se chama?
—Ayame... E você, senhor sofredor? — um sorriso de canto brotou em seus lábios, criando em mim uma imensa curiosidade de vê-la sorrindo de verdade.
—Itachi.
—Não é um nome muito sortudo. — Ayame colocou uma mecha de cabelo atrás da orelha e arrumou a franja bagunçada pela brisa, movimentando a água da piscina com seus pés.
—É bom ter um nome assim, dá para culpá-lo quando não consigo achar outra coisa para culpar. — o ambiente ficou silencioso por algum tempo, após eu receber um pequeno sorriso em resposta. Então, sem aviso prévio, a mulher se levantou e começou a tirar a blusa. Entrei em estado de choque enquanto ela se despia, revelando o lindo corpo, digno de deixar qualquer homem com desejos internos não muito respeitosos. Além disso, a delicada lingerie preta me fazia agradecer pelas doses de whisky. —O... Quê está fazendo? — consegui perguntar, vendo-a dar de ombros.
—O que vim fazer.
Antes que eu tivesse tempo para outra pergunta, Ayame mergulhou na piscina com muita classe e habilidade, emergindo após alguns segundos um tanto distante da onde eu estava. Ela arrumou os cabelos molhados para trás e olhou para mim com aqueles olhos misteriosos. Fosse efeito do álcool ou não, eu estava sendo completamente seduzido, ainda que não soubesse se era essa sua intenção.
—Nadar de madrugada com certeza não deve ser bom para a saúde...
—Sabe, senhor Itachi, acredito que eu sei qual é o seu problema... — um sorriso divertido passeou pelos lábios carnudos da mulher enquanto ela sentia o movimento da água com as mãos — Você se preocupa de mais... Já tentou fazer algo sem pensar em todas as possíveis consequências?
Franzi a testa involuntariamente. Era assim tão óbvia a minha constante preocupação? Desde criança, não me lembro de uma atitude minha sobre a qual eu não havia pensado cuidadosamente a respeito, principalmente sobre os aspectos de como tal atitude afetaria meu futuro. Talvez eu realmente me preocupasse de forma demasiada, afinal, por que exatamente eu me envolvera no meio dos problemas de meu pai e irmão? E por que eu estava sofrendo por duas pessoas que não acumularam algum arrependimento após tamanha traição? Acho que eu simplesmente adorava arrumar preocupações para minha cabeça.
—Creio que nunca tomei uma atitude impensada em minha vida... — suspirei. Ayame sorriu novamente, imergindo e voltando a emergir depois de certos minutos.
—Vou te contar um segredo, senhor Itachi... Eu não estou hospedada nesse hotel. — não pude evitar uma feição confusa que a fez rir. Sua risada era adorável e a deixava ainda mais bonita. Aquela piscina nunca havia sido tão interessante. — Eu acabei de pular o muro dos fundos e despistar um segurança... Sabe por quê? — eu apenas balancei a cabeça negativamente. Não queria falar, se pudesse, ficaria ouvindo-a e a observando pelo resto da madrugada ou, quem sabe, pela eternidade. — Porque agora essa piscina iluminada pela lua de forma tão maravilhosa é única coisa que importa... Eu também tenho preocupações e problemas me rondando, mas eu acredito que os melhores momentos da vida acontecem quando você não está pensando.
—Os piores erros da vida acontecem do mesmo jeito. — Ela sorriu e começou a boiar com maestria.
—Mas certos erros te levam aos melhores acertos... — como podia uma única pessoa, em um único encontro, abalar meus pensamentos de tamanha forma? Eu simplesmente não conseguia ver mais um sentido em meu diário esforço para tomar as decisões corretas. — Que tal parar de pensar por enquanto e me fazer companhia? — por alguma razão desconhecida, a oferta não me pareceu absurda. Na verdade, eu cheguei a pensar: Por que demorou tanto para convidar?
Deixei-me soltar uma risada curta e breve. Ayame parou de boiar e nadou até a borda da piscina, apoiando os braços e recostando a cabeça na mesma. Se minha bebedeira estivesse me fazendo delirar, eu ficaria muito furioso pela manhã. Levantei e me despi. Quando olhei para ela, senti meu rosto aquecer. Fazia tempo que eu não ficava nervoso por causa da proximidade com uma mulher.
—O que foi? — indaguei, afinal, seu penetrante olhar impossível de ler começou a me deixar desconfortável.
—Nada... Só não sei como você pode ter algum problema nessa vida com um corpo desse. — então eu corei. Infernos, eu parecia um adolescente novamente. Meu coração estava palpitando. Por céus, minhas mãos estavam suando! Com toda certeza vou colocar toda a culpa no whisky.
—Por alguma razão, ele não foi suficiente para me fazer conquistar boas namoradas. — disse um pouco envergonhado e mergulhei. A água estava um tanto gelada, contudo o choque térmico acabou por ser relaxante. Ayame nadou para se aproximar e eu nunca vou admitir que queria agarrá-la e beijá-la como se não houvesse um amanhã.
—Elas deveriam ser as maiores putas. — não consegui evitar rir e, de certa forma, senti-me incrível. Fazia tanto tempo que não ria e me sentia tão livre.
—Você sempre fala tudo o que pensa? — ela deu de ombros e nadou ao meu redor.
—Sempre fui assim... Histórias de brigas são o que não me falta.
Nós sorrimos e o sorriso continuou em nossas faces. O silêncio se instalou e eu simplesmente não consegui desviar o olhar de seus olhos. A lua estava exatamente acima de nós e o movimento da água dava a impressão que o tempo não passava. Os lábios de Ayame estavam molhados e avermelhados, estupidamente convidativos. Senti algumas gotículas de água escorrerem por meu rosto e pela parte exposta de meu peitoral, e ela acompanhou o caminho delas com os olhos. Sua lingerie preta molhada aderia ainda mais aos seus seios e adquiria uma transparência enlouquecedora.
Como se uma atração magnética estivesse trabalhando, quando dei por conta, estávamos a milímetros de distância, ambos encarando os lábios um do outro. Então, ela mordeu seu lábio inferior. Esqueci o que era pensar. Esqueci a existência de consequências. Esqueci as preocupações. Esqueci o mundo ao meu redor.
Tomar seus lábios no meu foi a melhor primeira impensada atitude da minha vida.
Nossos corpos se colaram de imediato e eu podia sentir contra minha pele cada curva de seu corpo. Escorreguei minhas mãos para suas costas, posicionando uma em sua nuca e outra em sua lombar enquanto as delas passavam por meu rosto, pescoço e cabelos. Beijávamos-nos com uma paixão e desejo tão avassalador que podia sentir cada músculo meu vibrar. Algo parecia queimar dentro de mim e eu me sentia ótimo. Não conseguia me lembrar da última vez que beijei alguém com tanta paixão e luxúria. Nossas línguas se moviam como se fossem antigas conhecidas. Ela mordeu meu lábio, eu mordi o dela. Eu marquei a pele de seu pescoço e colo, ela arranhou minhas costas e deslizou seus lábios macios por meus lábios, rosto e pescoço. A água entre nós parecia nos proporcionar um contato mais intenso e enlouquecedor.
Eu queria mais, queria sentir cada pedaço de carne do corpo dela, por isso escorreguei minhas mãos para suas coxas e a fiz envolver minha cintura com as pernas. Senti em minhas mãos cada região enquanto nos beijávamos com mais urgência. Após minutos de toques necessitados e beijos vorazes, diminuímos o ritmo.
Passamos a nos demorar na junção dos lábios, nas mordidas e nos beijos. Sentindo com mais cuidado o aroma, a suavidade. Deixando-nos deliciar com a eletricidade que arrepiava os cabelos de nossa nuca.
Eu poderia nunca parar de beijá-la. Seus lábios macios e carnudos deixavam-me tão louco quanto suas mãos pequenas e delicadas acariciando minhas costas, peito e rosto.
Afastamos nossas bocas, porém continuamos de olhos fechados, misturando nossas respirações por alguns minutos. Às vezes, roçávamos nossos lábios provocativamente. Os corpos ainda colados, o coração batendo depressa, a respiração desregulada. Quando abri os olhos e voltei a encarar os misteriosos e sedutores dela, a minha realidade perfeita havia se transformado em continuar beijando Ayame naquela piscina pelo resto de minha vida.
Uma mulher que eu mal conhecia havia deixado minha noite miserável perfeita.
—Então, está a fim de me explicar como alguma mulher teve coragem de te deixar? — sorrimos e encostamos nossas testas, tentando recuperar o fôlego. — Eu preciso ir embora...
—Não vai... Não quero que esse momento maravilhoso livre de preocupações acabe.
—Já valeu a pena... Só de te beijar nessa piscina em baixo dessa lua incrível... Já valeu a pena invadir o hotel. — rimos. Ela desceu as pernas e deslizou as mãos pelo meu abdômen até me envolver em um abraço apertado, o qual eu correspondi com um aperto ainda mais firme. Ela suspirou e depositou um beijo demorado na curva de meu pescoço. — Seria tão bom se eu pudesse viver e morrer nesse abraço...
—Na verdade, seria maravilhoso. — disse. Ela soltou uma risada sonhadora e, após alguns minutos, interrompeu o abraço. Depois de ter seu corpo colado ao meu, parecia simplesmente um crime vê-lo tão longe. Ayame sorriu e acariciou minha bochecha, um toque tão maravilhoso que me fez fechar os olhos por instinto.
—Foi ótimo te conhecer, Itachi. — recebi um selo delicado em meus lábios e a observei nadar até a borda da piscina. Segui-lhe segundos depois, vestindo-me da mesma forma que ela fazia.
—Você não vai me falar seu sobrenome? — perguntei enquanto a observava arrumar os cabelos. Recebi um dar de ombros em resposta e ela se afastou alguns passos, falando de costas depois de parar.
—Não sei se acredita em destino, Itachi, mas eu acredito. Se for para nos encontrarmos novamente, meu sobrenome não fará diferença alguma...
Então observei Ayame se afastar. Inexplicavelmente, a odiosa e torturante contagem havia acabado, dando espaço a uma rápida e irritante, que parecia marcar o tempo que eu tinha para tomar uma atitude antes que aquela mulher incrível sumisse da minha vista. Ela era um como um grande botão vermelho que te instiga a apertá-lo para ver o que acontece. Se eu apertasse, algo incrível poderia acontecer, porém eu também corria o risco de ser vítima de uma explosão a nível nuclear. Só que, naquele momento, eu estava pouco me importando para as consequências.
Eu queria uma pessoa que me fizesse sentir um adolescente mesmo que não mais fosse um. Eu queria alguém que me enlouquecesse, fazendo-me desejar seu toque e seu corpo. Eu queria alguém que me fizesse esquecer o mundo e a realidade. Eu queria ficar bêbado com os beijos dela.
Não queria esperar o destino agir. Simplesmente não queria. Iria apertar o botão vermelho e torcer para nunca mais me deixar ser abatido pela contagem.
Corri até ela, puxei-a pelo braço e a beijei com toda a paixão que um dia já habitou dentro de mim. Não a deixaria ir de forma alguma.
Afinal, eu sou o dono do meu próprio destino.
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