Uma Pestinha Em Minha Vida
35 Brincadeiras do Destino
Notas iniciais
Foi realmente um alívio ver que as contas vieram menores este mês. Mesmo conseguindo aos poucos pagar a dívida da empresa de papai, as coisas ainda não estavam fáceis, mas já agora meus amigos estavam me ajudando, tudo começou a melhorar. Este mês foi possível até encher um pouco mais o carrinho do supermercado sem eu precisar cortar alguns gastos, e com umas duas sacolas de compras a mais nas mãos, agora eu voltava pra casa.
Já próxima à minha casa, passando pela praça onde Natsu e Gray me acertaram uma vez com um freesbee, um barulho me chamou atenção. Duas garrafas de vidro se estilhaçaram seguidos de um praguejar de uma voz conhecida. Gajeel. Ajeitando melhor as compras que agora pesavam em meus braços, alterei meu caminho e segui em sua direção.
– Enchendo a cara a esta hora da tarde? Está até parecendo a Cana, o que houve, Gajeel?
Larguei as compras num banco próximo a onde ele estava jogado e sentei ao seu lado. O estado de Gajeel era deplorável, estava com olheiras enormes, olhos vermelhos, tonto e fedia a álcool.
– Bunny Girl, é você? – olhou para mim com olhos turvos e se jogou de costas no chão com uma risada irônica e desengonçada. – O destino tem umas brincadeiras chatas, hein?
– Do que está falando?
– Eu a perdi. – soluçou. – Eu perdi a baixinha.
Gajeel levou uma terceira garrafa à boca, mas a jogou longe quando se deu conta de que já estava vazia.
– Fui até a casa dela ontem. – ele falava mole e com um braço por cima de seus olhos. Era triste vê-lo deste modo, mas tudo o que eu fiz foi escutar. – Ela estava com aquele... – soluçou novamente. – Mauricinho. Eu ia enfrentar o pai dela, juro. Cansei de ver ela daquele jeito, mas aí. – novamente um soluço. — Aquele cara segurou a mão dela, e ela não fez nada.
– Gajeel...
– É assim que começa, Bunny Girl. – Soluçou. – Encontros “amigáveis” – desdenhou desta palavra. – Depois mãos dadas, não duvido nada que este cara tenha beijado ela já.
– Gajeel, sabe o que a Levy sente por você!
– Esses sentimentos mudaram! – Gajeel gritou, o que me fez recuar assustada, então ele se acalmou. – Mesmo que ela ainda sinta alguma coisa por mim, aquele desgraçado já está no coração dela, eu a conheço o suficiente para saber que a perdi. Agora me deixa em paz.
– Gajeel, eu sinto muito... – fui interrompida por ele.
– Não sinta! Acabou! Já era! Agora vai embora Bunny Girl, me deixa aqui.
– Mas eu...
– Vai logo!
Eu nunca havia visto Gajeel desta maneira. Ele estava mesmo arrasado, isto cortou meu coração, mas eu não podia fazer nada por ele agora, mesmo porque, seu orgulho ferido não permitiria. Peguei as compras e voltei para casa pensando seriamente em ligar para Levy, mas depois refleti um pouco. Eu já me meti demais em sua vida amorosa e acho até que piorei as coisas, mas esta era uma decisão que apenas ela poderia tomar, e eu não iria atrapalha-la mais nisto.
[...]
Um dia após minha conversa com Gajeel, Levy me ligou pedindo para que eu fosse até sua casa. Disse que havia chamado as meninas para passar a noite lá, e como nesta noite não teria de cuidar de Mavis, aceitei o pedido. Levy queria dizer alguma coisa, tenho certeza, ainda mais depois da conversa com Gajeel, e sua ansiedade durante a conversa delatou isto.
Arrumei uma mochila com coisas para passar a noite fora, deixei o jantar pronto para meu pai e um bilhete em cima da mesa avisando que dormiria na casa de Levy.
Quando cheguei, Erza e Juvia já estavam lá, com uma pilha de DVDs na frente, discutindo quais filmes assistiríamos nessa noite. Juvia escolheu uma aventura e Erza um filme de ação. Levy apareceu com 4 baldes de pipoca e refrigerantes e logo começamos a sessão. Erza e Juvia estavam vidradas na tv fazendo um comentário ou outro sobre as cenas e rindo, mas o olhar de Levy estava distante, provavelmente pensando no que tinha para nos falar. Decidi não questionar e esperar ela se sentir confortável para nos falar, enquanto isso, voltei a prestar atenção no filme.
Algumas horas mais tarde, depois que os pais de Levy já estavam dormindo, ela nos chamou para seu quarto, com a ansiedade explícita em seu rosto. Eu, Juvia e Erza nos acomodamos em sua cama enquanto Levy se jogou em sua cadeira giratória.
– Meninas, chamei vocês aqui porque preciso de um conselho. – começou.
– Juvia viu que Levy-san estava com o olhar distante o filme inteiro, deve ser algo bem importante. – Juvia se pronunciou, surpreendendo a todas, esta menina consegue prestar atenção em tudo!
– Pode falar Levy-chan. – Incentivei.
– Estaremos do seu lado, não importa o que for. – Erza disse.
Levy suspirou e tomou fôlego logo em seguida. Hesitou por alguns segundos, então seu rosto começou a tomar um tom fortemente avermelhado.
– Então... – sua voz tremia. – Ontem à noite o Rogue me levou para jantar...
Imediatamente sorrisos maliciosos tomaram os rostos de Juvia e Erza. Elas gostavam bastante de Rogue e tinham esperanças de que algo acontecesse entre eles. Erza tinha perdido as esperanças sobre Gajeel e preferia ver Levy feliz com alguém que a compreendesse e não a fizesse esperar. Já eu, estava em cima do muro. Gosto muito de Gajeel e queria que os dois ficassem juntos, mas Rogue era uma boa pessoa e fazia Levy feliz. Não sabia qual partido tomar, mas tudo o que importava para mim era a felicidade dela.
– E ele me pediu em namoro.
– Kyaaaa! – Erza e Juvia comemoraram enquanto Levy ficou mais vermelha ainda e abraçou seu travesseiro.
– E o que você respondeu? – Erza perguntou curiosa.
– Nada.
– O QUE?! – Perguntamos nós três.
– Eu disse a ele que aquilo me pegou de surpresa e que precisava pensar. Ele disse que não tinha problema e que esperaria a minha resposta. Foi por isso que chamei vocês aqui. O que devo fazer?! – como se não bastasse a vermelhidão de seu rosto, agora ela bagunçava seus cabelos. – Eu gosto muito dele, mas ainda sinto alguma coisa pelo Gajeel! Eu não sei o que fazer!
– Levy-san... – Juvia começou, segurando sua mão e olhando em seus olhos com o mesmo olhar materno que me deu quando revelei meu segredo a ela. – Você precisa seguir seu coração, por mais confuso que ele esteja, ele só escolhe uma pessoa de verdade. Quem é esta pessoa?
Todas ficamos em silêncio por um momento olhando para Juvia. A cada dia mais esta garota nos surpreendia e a cada dia mais me orgulhava de ter dado uma chance a ela.
– Eu... só não quero sofrer. – admitiu com um suspiro.
– Gajeel tem feito você sofrer bastante com esta espera, não é? – perguntei mesmo sabendo a resposta.
– E Rogue te compreende, além de ter os mesmos gostos que você, ele te faz feliz, certo? – Erza continuou.
– Então devo dizer sim a ele?
– Se assim seu coração mandar...
E no final, Gajeel estava certo, ele a havia perdido.
[...]
Era bom ver o sorriso de Levy de volta a seu rosto. No dia seguinte, enquanto eu e Natsu levávamos Mavis ao zoológico, Levy ficou de encontrar Rogue lá para dar sua resposta. Ela estava radiante e Rogue mais ainda. Me senti mal por Gajeel por um segundo, mas talvez não fosse para ser, como ele mesmo disse, o destino tem mesmo essas brincadeiras. Talvez eles simplesmente não estivessem destinados um ao outro e tudo fosse apenas mais uma brincadeira do destino, mas acredito que com o tempo a ferida dos dois irá cicatrizar e ambos serão capazes de seguir em frente e felizes. Mas devo admitir que no fundo ainda tinha uma mínima esperança de que os dois pudessem se entender e ficar juntos, mas agora esta pequena fagulha terá de ficar guardada em uma caixinha em meu coração. Levy estava com Rogue agora, e estava feliz, e era isso que importava, sua felicidade.
Mavis também estava radiante neste dia, ela adorava o zoológico. Adorava todos os animais, principalmente os felinos. Natsu estava na mesma empolgação com a pequena, querendo ver logo os animais considerados mais perigosos.
– Tia Lucy! Tio Natsu! Olha aquele tigre! Tirem uma foto, por favor!
Liguei a câmera de meu celular e tirei uma foto nossa. Depois de visitar boa parte do zoológico, mavis começou a puxar a blusa de Natsu.
– Tio Natsu, compra um algodão doce pra mim?
– É pra já, baixinha! Volto logo!
Me deu um selinho e perguntou se eu iria querer algo, respondi que não. Assim que viu de longe a fila da área de restaurantes, Natsu engoliu em seco, arrancando risadas minhas e de Mavis.
– Er... Isso pode demorar um pouco.
– Demore o tempo que quiser, tio Natsu!
– Boa sorte com a fila, “tio Natsu”. – Imitei Mavis e ele fechou a cara, me arrancando mais uma risada. Assim que me virou as costas, Mavis me chamou a atenção para mais um animal. Ao longe, avistei Loki e este acenou em minha direção e eu acenei de volta, o chamando. Se eu soubesse no que isto resultaria, jamais teria permitido que Natsu saísse de perto de mim.
[...]
NATSU POV’S ON
Até que não demorou tanto para conseguir aquele algodão doce. Já voltando para onde havia deixado Lucy e Mavis, ao longe avistei minha Lucy conversando com aquele ruivo, Loki. Entendo e aceito a amizade que ela tem com ele, mas definitivamente não gosto do jeito que esse cara olha para ela.
Já apertando o passo em direção a eles, a última pessoa que eu esperava encontrar neste zoológico me chamou.
– Você vai se arrepender de estar com ela.
– Lisanna?!
Não via Lisanna fazia algum tempo e também não estava louco para isso acontecer. Ela saiu de trás de uma árvore e caminhou lentamente em minha direção com um sorriso vitorioso. Alguma coisa ela está aprontando, e eu não estou gostando disso.
– Como está o namoro, Nat-kun?
– Ótimo. O que está fazendo aqui?
Ignorando minha pergunta, Lisanna começou a enrolar a ponta de seus cabelos.
– Se eu fosse você, pulava fora antes que fosse tarde.
– Do que está falando?
– Olhe você mesmo.
Olhei por cima dos ombros e vi Loki e Lucy conversando. Ela estava de costas para mim, impedindo-me de ver sua expressão, mas Loki olhava atentamente em seus olhos, com suas mãos posicionadas em seus ombros, e... Ela nada fazia para quebrar esta proximidade.
– Sabe que eu e ela já fomos amigas, não é? Mas sabe por que esta amizade acabou?
Nada respondi, apenas continuava olhando para Lucy inconformado.
– Ela sempre fez isso, Nat-kun. Desde que éramos crianças. Ela não podia saber de ninguém que eu gostava que de repente, num passe de mágica, esta pessoa começava a gostar dela. Do nada. Ela sempre dava corda no começo, mas pouco depois pulava fora e partia para outro. Foi sempre assim. Foi assim com Rufus, foi assim com Laxus, agora com você, e pelo visto, o próximo alvo é o Loki.
Ainda não conseguia acreditar no que estava vendo, muito menos nas palavras de Lisanna.
– Pare de falar besteiras! A Lucy me ama! E eu a amo!
– Ela te ama, é? Quem pode te garantir isto? Ela? Me poupe, pelo que eu saiba, ela mentiu pra você este tempo todo, não? Quem garante que ela também não está fingindo este relacionamento?
Eu queria retrucar Lisanna, queria ignorar todas essas bobagens que ela estava dizendo, mas então meu coração foi partido de vez. Loki beijou Lucy. A minha Lucy. Mas ela não fez nada para afastar ele.
Então... Era verdade?! Esse tempo todo, ela mentiu pra mim?! Eu não queria acreditar, mas meus olhos não me enganavam. Não pode ser. Não pode ser! Até quando vou ser feito de idiota?!
Uma lágrima escapou do canto de meus olhos e este foi o prêmio de Lisanna.
– Não disse? Eu te avisei. Quando quiser alguém que te valorize de verdade, pode me chamar.
– Cai fora, Lisanna!
– Já não está mais aqui quem falou. – ela levantou as mãos em rendição e saiu dali rebolando.
NATSU POV’s OFF
Não conseguia acreditar no que Loki me dizia. Ir embora?! Por minha causa?! Isso não podia estar acontecendo. Queria fazer algo, mas meu corpo não se movia.
– Eu conversei com Mira, ela perguntou se eu preferia a distância ou a sua amizade, mas isto não é mais suficiente pra mim. Eu te amo, Lucy.
– Loki, não...
Queria dizer algo, dizer que não podíamos ficar juntos, que ele não precisava ir embora, mas nada saía de minha boca. Mavis estava tão chocada quanto eu.
– Eu vou passar um tempo com meu tio. Sabia que te encontraria aqui hoje, então vim realizar meu último desejo antes de ir embora.
Antes que eu pudesse fazer algo, ele me beijou. Era informação demais para minha cabeça. Não correspondi o beijo, meu corpo estava em estado de choque e não me obedecia, não o afastava.
– Então era isso, Lisanna estava certa.
Gelei ao ouvir a voz de Natsu atrás de mim. Isso não pode estar acontecendo. Meu corpo finalmente começou a me obedecer e empurrei Loki, me virando para Natsu.
– Não é o que você está pensando! Eu juro!
– Cala a boca!
Como explicar para ele que era um mal entendido? Ele viu Loki me beijando e eu não fiz nada para impedir. Lucy, você é uma idiota.
– Natsu, realmente não é o que parece. – Loki interveio, mas Natsu lhe deu um soco em resposta.
– Não se meta, infeliz!
– Tio Natsu... – Mavis tentou falar, mas foi completamente ignorada.
– Ela tentou me avisar! Não acredito que me fez de idiota este tempo todo! Tem alguma coisa na sua vida que não seja mentira, Lucy?! Este é mesmo seu nome?! – Natsu falava com nojo cada palavra.
Eu estava completamente paralisada, não acreditando nas palavras que ele dirigia a mim.
– Tio Natsu...
– Acabou tudo, Lucy! Não acredito que perdi meu tempo com você!
– Espera! NATSU!
Queria fazer algo, impedi-lo, gritei seu nome diversas vezes e corri até ele, mas ele me ignorou, então apenas observei seu corpo desaparecer no meio da multidão que preenchia o zoológico naquele dia. Várias lágrimas começaram a preencher meus olhos e um vazio a tomar conta de meu peito.
– Lucy, me desculpe...
– ME DEIXE EM PAZ, LOKI!
Na minha completa irresponsabilidade por deixar Mavis sozinha com Loki, eu corri sem rumo. Apenas queria ficar sozinha, longe de qualquer um que pudesse me magoar ainda mais, apenas eu e meu coração completamente despedaçado.
Fim da 1ª Temporada
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