Uma Odisséia em Outra Terra
6 Entre insetos.
Fomos a uma antiga Igreja na parte baixa da cidade, Óneiros disse que conversaria com um antigo conhecido. Pelo o que entendi, a OVP também comanda a religião, eles tentam se auto afirmarem através dos deuses e de seus mitos. Aguardei em frente a fachada observando os detalhes arquitetônicos, com a demora de meu novo companheiro resolvi adentrar. Apesar de sua simplicidade havia em seu interior rosáceas e vitrais, era realmente admirável, nesse momento me aproximei cada vez mais de uma das figuras que se estendiam até o teto pintadas nesses vidros. No pé de tal figura pude ouvir sussurros que repetiam uma antiga canção, tomei a devida coragem para ver o rosto da misteriosa pintura. Lembranças de um sonho retornaram, seus versos, seu semblante, sabia que já a tinha visto.
—Está tudo bem?
Um idoso vestido com roupas similares ao pessoal do centro educacional me assustara. Era o conhecido de Óneiros, o qual estava logo ao lado. Olhei para ambos com surpresa e perguntei:
—Quem é ela? – apontando para o desenho a minha frente.
—Ah, seu amigo me contou sobre sua... condição. É natural que não saiba, mas essa é a deusa mais amada por nosso povo. A grande deusa da vida, Kiririsha— esclareceu o religioso.
—Obrigado pela informação. Você já resolveu o que queria Óneiporos?
—Sim, podemos ir – respondeu o mesmo.
Demos alguns passos para fora da construção, eu ainda não conseguia parar de pensar no vitral. Estávamos voltando para casa, pelo o que entendi iriamos pegar nossas malas e partir durante alguns dias para uma cidade próxima. Ele ainda não me dissera o que exatamente faremos lá, talvez tenham outros livros, ou algo do tipo.
Recolhemos nossas coisas, trancamos a casa e partimos, durante o caminho investiguei sobre minha situação:
—Precisaremos de montarias, o clérigo de agora pouco me deu uma boa quantia em dinheiro, se juntarmos com o resto de minhas economias, deve ter dinheiro suficiente para essa jornada – disse o astrônomo sorrindo.
—Você está bem animado pelo o que vejo, mas o que será essa jornada?
—Primeiro, iremos a uma vila próxima para eu me despedir de meus pais, depois, iremos a uma cidade portuária, e de lá pretendo leva-lo ao centro da OVP. Esses ignorantes das pequenas cidades não entendem de ciência, apenas nosso SLR pode te ajudar.
—Você tem certeza? Não é ele que tem impedido vocês de se desenvolverem e de pensarem livremente? – perguntei fazendo uma sugestão de ser uma dúvida ambígua.
—Não insulte nosso grande líder. Afinal, será ele que o ajudará – trovejou o ignorante alienígena.
—Se você diz.
Não confiarei minha vida em uma crença estúpida de um amigo, todavia será uma ótima oportunidade de conhecer o exterior das muralhas e utilizar meus novos conhecimentos que obtive.
Entramos em uma espécie de estábulo, vários tipos de montaria estavam disponíveis a venda. De certa maneira, conforme adentrávamos o estábulo, ele ficou mais parecido com um zoológico de quadrupedes. Alguns lembravam grandes cachorros de corrida e outros eram extremamente altos, como girafas e deviam ser igualmente lentos. E insetos extraterrestres... Grandes olhos compostos, seis patas segmentadas e uma sela no tórax. Eu não vou montar esse bicho asqueroso.
—Queremos dois Greixos¹— disse Óneiros, apontando para dois dos mais nojentos insetos.
—Ótima escolha, eles são muito amigáveis e de uma conhecida linhagem, estarão prontos na entrada, agora venham para o caixa.
—Não! Por que não escolhemos outros? Tem muitos outros e só olhamos essa pequena porção – tentei persuadi-lo inutilmente.
—Meu dinheiro, minhas escolhas e ajeite esse capuz que estou quase conseguindo ver sua cara feia – sussurrou o desgraçado.
Tentei montar no ‘Coisa Horrenda’ encostando o mínimo possível em seu corpo. Depois de inúmeras tentativas e hesitações ele abriu as suas asas peludas me empurrando para longe.
—Coisa Horrenda!
Perdi minha paciência e montei nele normalmente, senti comichões que foram passando gradativamente.
—Esse é o nome que o deu? Acho que caiu bem – disse Óneiros rindo.
Começamos nossa cavalgada. “Insetada”, talvez? Os greixos alcançavam os 15 km/h. Finalmente saímos das planícies em que quase dois meses atrás acordara e começamos a entrar em uma densa floresta.
—Veja, eu escolhi essa espécie, não foi para te perturbar, eles são excelentes em lugares estreitos, seus corpos são extremamente flexíveis e facilmente conseguem escalar árvores e montanhas. Fique atento ao caminho também, será um dia de caminhada por esse terreno e deveremos encontrar nosso alimento em meio a essas plantas. Os monstros, como você gosta de chamar, também ficam nessa região, durante o dia eles ficam escondidos e por isso devemos nos apressar para sairmos daqui enquanto ainda há claridade – me explicou.
—Ótimo, você não é um mal sujeito, apesar de me irritar – eu disse em meio a gargalhadas.
Duas horas de galopadas já passaram, eu ainda me acostumava com a montaria, mudava de posição constantemente e ainda me coçava de quando em quando.
—Uma frutífera logo a frente, podemos parar e descansar um pouco – pedi.
—É uma boa oportunidade, qual fruta é?
Abri meu livro e estava marcada como comestível, recolhemos algumas e comemos repousados em uma das árvores. A fruta não era muito doce, mas tinha o dobro do tamanho de uma maçã, duas foram o suficiente para me saciarem.
—Os monstros realmente só aparecem a noite, mas ainda não deveriam ter animais e insetos perigosos por aqui? O que vai os impedir de virem atrás de nós?
—Excelente pergunta Sophro, a resposta é simples: nada, nada vai os impedir. Essas espadas que trouxemos — respirou — que os deuses me perdoem, mas serão úteis.
Uma fruta espatifou ao meu lado, depois outra logo em seguida. Acima de nós, um artrópode se apoiava em duas patas e comia as folhas. Nossos insetos que faziam o mesmo em árvores próximas, pararam de comer e entraram em posição de defesa.
Mais e mais criaturas foram nos cercando, sacamos nossas espadas e caminhamos com o mínimo de barulho para nossas montarias.
—Eles não parecem muito interessados em nós – falei em voz baixa.
—São onívoros, não estão nos atacando porque acham que temos nenhuma chance de fuga, quando acabarem a salada, seremos o prato principal. Sua maldita boca, nunca mais me pergunte sobre nada perigoso. Você é um amuleto do azar!
Recebemos olhares intensos. Óneiros tinha aumentado sua intensidade de voz na última frase que proferira. Alguns começaram a estridular², nossos insetos se levantaram em duas patas e bateram as asas rapidamente também emitindo sons.
—Tampe seus ouvidos! – Eu gritava cobrindo minhas orelhas.
O som vinha de todas as partes e começava a aumentar de intensidade, como o Coisa Horrenda estava batendo suas asas, foi difícil me aproximar, o ameacei com minha espada até que parasse. Montamos ambos rapidamente e esperamos por alguma oportunidade chave. Ninguém queria se arriscar em meio ao caos, nenhum homem, nenhum inseto. Eles voltaram a comer e nós conversamos sobre a fuga.
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