Uma Nova Chance
5 Uma nova amizade? Talvez.
Notas iniciais
— Sophi... O que nós já tínhamos conversado antes? — Christian apareceu, chamando a atenção da menina. — A Srta. Roberts é muito ocupada, certo? — ele perguntou, se dirigindo a Ana.
Ela não sabia o que responder, então, apenas concordou com a cabeça.
— Agora vamos, já a incomodamos bastante. Tenha um bom dia, Srta. Roberts
Assim que terminou de pagar a conta, Christian pegou a mão da menina e foi em direção a porta. Sophie olhava para trás alguns vezes sorrindo para Ana, antes de saírem na porta, ela ficou os observando atravessarem para o outro lado da rua e entrarem no carro. Confusa do que acontecera minutos atrás.
◦◦◦
O movimento do restaurante durou até as dez da noite. Desde que fora contratada, ela não vira uma movimentação tão grande quanto naquele dia.
Ela trabalhava no restaurante desde o final de outubro. Quando o Sr. Clayton dissera que ela poderia trabalhar no primeiro dia de novembro, ela se segurou para não chorar na frente dele. Naquele tempo, ela não comia há um dia.
O emprego no Clayton’s era bom e ela estava feliz por estar lá, mas a comida servida no restaurante não era cara, isso significava que as gorjetas não eram altas. Por causa de sua dieta habitual, nesses últimos meses, que era composta por feijão com arroz, macarrão e mingau de aveia, ela perdera peso. No entanto, depois que o Sr. Clayton a perguntasse porquê ela era a única a não levar comida para almoçar, e receber uma resposta um tanto tocante, ele a permitiu que almoçasse no local. Outra vez, Ana se segurou para não chorar. E Ana já via resultado, ela engordara desde que começou a almoçar no restaurante. Algumas semanas atrás, ela tinha círculos escuros ao redor dos olhos, os quais imaginava que jamais iria sair do rosto.
— Quer que eu a leve para casa? — José se oferecia pelo menos duas vezes na semana.
— Não é preciso, José. Eu não moro muito longe — Ana respondeu, enquanto arrumava o casaco em seu corpo.
— Mas eu insisto, ficaria feliz em levá-la.
— Obrigada, mas eu gosto de caminhar — falou simplesmente, ele apenas assentiu.
Ela havia sido liberada, Rose, Clarisse e Jhon haviam chegado para ficar no lugar dela, de Margareth, uma outra garçonete e José, no turno de noite. Antes que pudesse alcançar a porta de saída, ela viu um casal de jovens ocupando uma das mesas. Eles pareciam felizes, uma sensação de déjà-vu tomou conta de si. Há muito tempo ela tinha sido como eles, na verdade, por um momento. Ou pensou que havia sido, porque hoje sabia que aquele momento era apenas ilusão. Ana desviou a atenção do casal, voltando a caminhar direção a porta da saída, desejando poder apagar de sua memória para sempre e nunca mais voltar a ter aquela sensação.
◦◦◦
Ana franziu a testa ao presenciar aquela cena. Uma mulher, que aparentava ser mais nova que ela, talvez em seus 25 anos, cabelos loiros-avermelhados, estava inclinada em sua janela, como se quisesse ver alguma coisa, mas a barriga atrapalhava um pouco.
— Posso ajuda-la em alguma coisa? — Ana perguntou, parando de andar. A mulher em virou rapidamente.
— Ah, nossa. Você me assustou — falou, colocando uma mão sobre o peito. Ana apenas ergueu uma sobrancelha. — Eu não queria bisbilhotar, é apenas... Eu, é, eu não tenho uma boa desculpa — Se enrolou enquanto falava. — Foi pura curiosidade. É que eu moro na casa ao lado.
— O corretor me disse que não tinha vizinhos próximos — Ana falou, cruzando os braços. — que a família que morava naquela casa, se mudou há mais de dez anos.
— Sim, eu morava naquela casa. Resolvi voltar e me contaram que seriamos vizinha — falou, descendo as escadas da varanda. — Aproposito, me chamo Katherine Kavanagh, mas meus amigos me chamam de Kate.
— Ana Roberts — falou simplesmente, apertando a mão de Kate.
— É, então, eu cheguei hoje de manhã. Sei que está tarde e você quer descansar, então, eu vou indo. Amanhã a gente se fala, ok?
— Tudo bem — Ana respondeu, indo em direção a sua porta.
— Foi um prazer conhecê-la, Ana.
— Igualmente — falou, sorrindo, antes de entrar em sua casa.
◦◦◦
Na manhã seguinte, Ana foi até a varanda de sua casa. Como de costume, havia acordado cedo, não fora uma das melhores noites, mas conseguiu dormir. Aquela garotinha, dona de lindos olhos azuis e um sorriso encantador não saíra de sua mente. Depois de preparar seu chá, foi até a varanda com sua xícara, sentia o piso ranger sob seus pés, se apoiou no parapeito enquanto levava a xícara até sua boca.
Ela gostava daquele lugar, Hangersburg era diferente de Aspen, de Vancouver e também Atlantic City. Era o primeiro lugar em sua vida que se sentia segura.
Sua casa não era nem um pouco grande, mas era sua e discreta. Isso era o que importava. Era uma de duas estruturas parecidas localizadas no fim de uma rua de cascalho. A sala e a cozinha eram pequenas, a casa já era mobiliada, incluindo cadeiras de balanço na varando. O lugar não estava caindo aos pedaços, no entanto, estava coberto de poeira por conta dos anos que permanecera fechado. Ryan, o proprietário, oferecera produtos de limpeza e a manutenção se Ana se oferecesse para arrumar o local. Como o aluguel era barato, ela aceitou. Então, desde que se mudou passara a maior parte do tempo ajoelhada no chão ou em cima de uma cadeira limpando ou pintando a casa.
Ela esfregou o piso e as louças do banheiro até que tudo estivesse brilhando. Lavou o teto com um pano úmido e limpou as janelas com vinagre. Ana passou horas ajoelhada na cozinha, tentando remover a ferrugem e a sujeira acumuladas no piso. Ela cobriu os buracos na parede com massa corrida e depois lixou tudo até que a superfície estivesse lisa. Chegou até mesmo a pintar as paredes da cozinha em um tom alegre de amarelo e os armários com tinta brilhante. Seu quarto agora tinha paredes em tom vinho, a sala de estar tinha três paredes brancas, com a tinta que sobrou do quarto, ela pintou uma das paredes da sala, e na semana passada, ela havia colocado uma nova capa sobre o sofá que fez com que ele parecesse ser novo em folha.
Depois de finalizar a maior parte da faxina, Ana gostava de se sentar na varanda e ler os livros que pegava emprestado na biblioteca local. Além de seu chá, a leitura era o único luxo, já que não tinha televisão, rádio, celular ou carro, todos os seus pertences cabiam em uma única mala.
Com seus 25 anos, não tinha amigos e deixara de ser uma jovem loira com os cabelos cumpridos há algum tempo. Agora, ela pintava seus cabelos curtos e de cor castanhos na pia da cozinha. Ela tinha se mudo para aquele lugar praticamente sem nada, e alguns meses depois, ainda tinha pouco. Ela guardava o dinheiro que ganhava como gorjeta em uma lata que deixava escondido sob uma taboa do piso na cozinha. O dinheiro era para emergência. Ela não ousava a usá-lo, preferia passar fome. Só de saber que a lata estava ali, ela podia respirar mais aliviada, pois a passado estava sempre à espreita, que poderia retornar a qualquer momento. Um passado que a cruzava o mundo a procura por ela, e ela sabia: a cada dia que passava, a fúria aumentava.
— Oi Ana, bom dia.
Ana se virou, na casa ao lado, Kate estava na varando acenando para Ana. Uma de suas mãos estava em sua barriga enquanto caminhava em direção a Ana.
— Dá para acreditar nesse tempo? Nem parecia que ontem fazia frio. — Kate sorriu, subindo os poucos e largos degraus que davam acesso a varanda.
Ana sorriu surpresa e ao mesmo tempo cautelosa, desde que se mudou, ninguém tentou uma aproximação como Kate estava fazendo: ela estava em sua casa.
— É mesmo, o clima nos traz muitas surpresas, e que ás vezes não dá para acreditar. — Ana falou, sem muito animo na esperança que a moça fosse embora.
Ela não queria conversar, não queria amizades e muito menos laços por ali. Tudo o que ela queria era ficar sozinha; viver sua vida na pouca paz que lhe restou, a paz mesclada com o tormento que colocava seus sentimentos em conflito. No entanto, a resposta de Ana não impediu Kate continuar na varanda. Muito pelo ao contrário, tudo que Kate fez, fora sentar-se em um dos degraus da escada. Ana viu que não teria outra alternativa, ela não iria ir embora e Ana não iria a expulsar, ela ainda tinha a boa educação que recebera. Talvez um pouco de conversa não faria mal, seria apenas uma conversa.
— Aceita um pouco de chá?
— Não, já tomamos nosso café da manhã.
Kate sorrindo, envolveu as duas mãos em sua barriga, como se quisesse proteger o ser que lá dentro crescia. Ana olhou intrigada para ela, não havia visto sinais masculinos na casa de sua nova vizinha e nem uma aliança em sua mão, mas não se atreveu a perguntar não era de sua conta.
— O que está achando de Hagersburg? É totalmente diferente, né?
— Como assim? — perguntou Ana, enquanto bebericava mais um pouco de chá.
— Você não parece ser daqui, em algum lugar ao oeste, imagino.
Ana fez que sim com a cabeça. — Estou gostando daqui, é bastante diferente de onde vim.
Kate assentiu, mas não falou nada.
— E então, está de quanto tempo? — Ana perguntou, colocando a xícara já vazia ao seu lado.
—Estou de seis meses.
— E pretende ter o bebê aqui?
— Sim, aqui é calmo e eu nasci e cresci aqui, vai ser perfeito para mim e o meu bebê — respondeu sorrindo, ela olhava para sua barriga — Aqui nos afasta de muita coisa, pena que nossos pensamentos pregam peças, não é Ana? — O sorriso que antes estava estampado em seu rosto, se apagou rapidamente e Kate voltou seu olhar para o pequeno caminho de cascalho visto pelo lado dentro da varanda.
— Kate, se eu falei alguma coisa errada, me desculpe, ás vezes sou grossa sem querer, não era minha intenção te chatear.
— Não, que isso Ana. Você não me fez nada, são coisas minhas. Coisas que já se tornaram parte do meu passado, mas infelizmente tem dias que não consigo deixar para trás — Ana sentia exatamente o que Kate sentia.
Enquanto Kate falava, uma lágrima solitária escorreu ligeiramente de seus olhos e Ana o que preocupou Ana, afinal Kate estava grávida.
— Kate está se sentindo bem? Quer que eu chame seu esposo?
Kate balançou a cabeça em negação, tampou o rosto com as mãos, e os soluços saiam compulsivamente. Ana ficou desesperada, não sabia o que fazer, ela apenas passou as mãos pelas costas de Kate, consolando-a, ficaram em silêncio por alguns minutos.
— Eu não sou casada, Ana. O meu filho não terá um pai. — Kate finalmente falou erguendo a cabeça, passou as mãos no rosto enxugando as lágrimas que escorriam. E Ana sentiu-se na obrigação de confortá-la um pouco.
— Kate... Não fique assim, pode fazer mal para o seu bebê — falou, Kate maneou a cabeça positivamente.
— Sabe o que é Ana? É que ás vezes eu não me conformo, por que a vida é tão cruel com a gente: nos dar coisas, nos permite sonhar e depois nos tira? — A pergunta de Kate soavam com revolta. — O pai dessa criança não sabe que ela existe e, eu não quero que aquele homem sabia nada de mim e nem do meu bebê, essa criança é só minha. Por isso eu vim para esse lugar, vai ser melhor assim.
— Acalme-se, Kate, acho que entendo, como se sente. Mas você tem um motivo para não deixar se abater, pense no seu filho que vai nascer.
Ana levantou e foi até sua cozinha, retornou com um copo de água gelada com uma pitada de açúcar e a entregou, Kate foi tomando em poucos goles.
— E você Ana, o que te trouxe para Hagersburg? E sua família? Mora com você? Está aqui a muito tempo?
Katie a fez uma série de perguntas, mas Ana sabia que não poderia responde-las. Mas também, não queria expulsar Katie de sua casa, ou deixa-la sem nenhuma resposta, afinal, não precisava e nem iria entrar em detalhes. Algo lhe dizia que Kate estava ali como ela, ambas cheias de cicatrizes e feridas ainda abertas que a vida lhe deixou.
— Não, eu não tenho família. E estou aqui a uns quatro meses.
— Veio por causa de alguém?
— Não.
— Então, simplesmente mudou-se para cá?
— Eu queria um lugar para recomeçar, Kate.
— É, temos o mesmo objetivo, Ana. — Katie parecia mais calma e os soluços já haviam se sessado, tudo o que ela precisava era desabafar um pouco, um ombro amigo.
— E você já sabe o sexo?
— Sim, antes de me mudar, eu fiz um ultrassom e vai ser um garotinho.
— Viu só! Agora Kate você tem que pensar só nesse meninão lindo que está vindo.
Kate deu um pequeno sorriso e Ana sentiu um alivio.
— Estou morrendo de vergonha, você mal me conhece e eu invado sua casa e começo a chorar. Deve estar pensando, que sou uma louca, não é?
— Não, claro que não. É... Por que não entra e não conversamos mais? Já escolheu o nome, do bebê.
— Ainda não pensei em nada. Ah... não quero incomoda-la ainda mais Ana — Kate falou, sem graça — E um amigo meu de infância virá aqui me ajudar a arrumar as coisas, se eu te contasse o quanto de poeira tem lá dentro, você não acreditaria.
— Não será incomodo nenhum. Eu tenho que trabalhar mais tarde, aí, quando seu amigo chegar, você vai. E eu acreditaria sim — elas riram. — Vamos?
Ana levantou e Katie a seguiu rumo ao interior da casa. Sentaram no sofá —que Kate achou aconchegante —, poderia ser ou não o começo de uma bela amizade cogitou Ana em seu pensamento ao se sentar ao lado de Kate, Ana não tinha nenhuma pretensão de fazer amizade com alguém, ela poderia ir embora a qualquer minuto, mas ela simplesmente não conseguia enxotar Kate.
Elas conversaram mais sobre o bebê até que o amigo de Kate chegasse.
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