Uma Nova Canção
1 One-shot
Notas iniciais
Ainda tinha muitas pessoas na pista de dança, balançando no ritmo da música que o DJ da Scorpions colocara logo que a “Suicide Circus” saíra do palco, quando Kenji atravessou a porta que separava o salão dos fundos da boate.
O show tinha sido ótimo... A sensação de estar no palco era sempre nova e fresca e cada vez que ele ficava de frente pra plateia, cantando, conseguia entender a paixão que o pai sentia pela profissão que escolhera, mesmo depois de tantos anos do the GazettE ter se formado... Quase quarenta anos, rodando o Japão e pelo mundo sem nunca sentir desejo de parar...
É claro que eles já não faziam a mesma quantidade de shows de quando tinham dez, vinte anos de banda... Mas Takanori sempre falara ao filho que tudo que estivera ao alcance do the GazettE tinha sido perseguido com toda a energia deles e esse era o motivo pelo qual agora não era preciso correr tanto... Mas não correr tanto não significava menos trabalho duro ou menos dedicação... Era apenas respeito pelo tempo que passara...
— Kato, uma cerveja, onegai... – Kenji se sentou em um dos bancos do balcão.
— Sabe que sua okaa não quer que eu lhe sirva bebidas... – o mais velho deu risada.
— Ela não está aqui, está? – o jovem desafiou. – Vai... Foi um show puxado... Eu preciso desestressar!
— Não sei, não... Ela me ameaçou... – o barman continuou o que estava fazendo, dando as costas ao que estava sentado no balcão.
— Eu não conto, se você não contar! Eu realmente estou precisando! Ela devia ficar satisfeita que eu não comecei a fumar como o otou-san!
— Convença-me...
— Você tem de parar de falar com ela, viu? Que saco! – o rapaz bufou, dando as costas para o outro, que gargalhava, olhando pra pista de dança.
— Achei que estaria com um humor melhor quando saísse do palco... – Kato observou.
— Só fico bem no palco!
— Sei... Sei... E o fato de Shin estar namorando a sua irmã não te incomoda nem um pouquinho...
— Ele podia ter um pouco de decência naquela cara e não beijá-la na minha frente! – Kenji esbravejou, voltando-se para Kato e esmurrando o balcão.
— Sabe que ele é muito decente, Kenji... Ele é um Uke! – o mais velho deixou escapar uma risadinha, que logo disfarçou.
— É nada! Sujo! Vil! Inescrupuloso!
— Parece seu otou-san falando... – o barman gargalhou. – Falou como um verdadeiro Matsumoto... Pelos menos, como os homens dessa família... Ah, é claro... Não acho que lhe interesse, mas eu tenho um recado pra você!
— Que recado? – o rapaz perguntou, sem interesse.
— Só se você parecer mais animado... – o mais velho brincou.
— Por que você não pega esse seu recado e...
— Olha o linguajar do Yoshiki! – Kenji bufou.
— Fala de uma vez!
— É que a sua banda tem uma fã muito fofa e muito tímida que gostaria de conhecer você... Mas ela me pediu pra ver se você não estaria muito cansado depois do show... Ainda bem que ela pediu, porque eu não gostaria de ver alguém como ela escutando esses desaforos que sua boca suja solta sem pensar!
— Como se eu fosse falar com uma fã do mesmo jeito que eu falo com você, Kato! Onde ela está?
O barman apontou uma das mesas do outro lado do salão com uma garota sentada sozinha, como se tudo a sua volta a intimidasse. Kenji deu risada e caminhou até ela.
— Konbawa! Posso me sentar? – ele perguntou, sensualmente e a garota assentiu, sem fôlego. – Eu sou...
— Kenji-sama... – ela disse num suspiro, levando as mãos à boca e ele gargalhou.
— É... Sou Kenji... – o rapaz disse constrangido, eriçando os cabelos atrás da cabeça. – E você? Como se chama?
— Natsumi... – ela respondeu, encabulada.
— Natsu... Minha estação preferida! – ela corou levemente e ele colocou-lhe uma mecha do cabelo atrás da orelha. – Gosta da “Suicide” então?
— Eu gosto muito do jeito como vocês conseguiram manter o espírito do the GazettE e ainda criar uma personalidade própria!
— Curte the GazettE também? – ele perguntou, entusiasmado.
— Os senpais são admiráveis! Mal posso esperar pelo novo álbum!
— É, o novo álbum deles está mesmo incrível!
— Está? Já vazou alguma coisa? – os olhos dela brilharam.
— Eu quis dizer... Que ele deve estar... Né? Pelo que... Os senpais falaram... Da produção... Da composição das novas músicas... – ele tentou consertar. – Já tinha assistido alguma apresentação da “Suicide”?
— Essa foi a quinta vez! – ela sorriu, constrangida, enrolando uma mecha de cabelo com o dedo, com o olhar dele.
— Sério? – Kenji perguntou, impressionado. – E qual música é a sua preferida?
— Com certeza, “Three Lines of Fate”! Toda vez que você canta… Meu coração dispara! – ela suspirou e ele sorriu.
— Você veio sozinha? Aqui pra “Scorpions”?
— Eu tive de vir... Minhas amigas gostam mais de música pop... – ela revirou os olhos.
— Eca! – ele brincou. – Ainda bem que você se salvou! – os dois riram. – Mas é meio perigoso você andar sozinha, não é? Alguém vem te buscar?
— Eu estava pensando em chamar um táxi...
— Hum... E eu estava pensando se fica muito estranho o vocalista da banda que você veio assistir te oferecer carona?
— Fica sim... Muito estranho! – Natsumi deu risada, mordendo o canto da boca. – Não precisa se preocupar... Eu me viro!
— E se nós dançássemos primeiro? Você acha que aceitaria com mais facilidade? – Kenji se levantou da cadeira e ofereceu sua mão, num convite mudo para dançar.
A garota piscou algumas vezes, surpresa antes de aceitar e ser guiada para a pista de dança. Ele enlaçou-lhe a cintura e conduziu os dois corpos pelas notas da música, sentindo o respirar ofegante da garota batendo contra seu pescoço.
— Não é muito comum pra mim esse negócio de falar com uma fã, sabe? – ele decidiu quebrar o silêncio constrangedor. – Gomen se eu extrapolei um pouco... – ela calou-o com um gesto sereno, pousando seus dedos sobre os lábios dele.
— Você é muito gentil, Kenji-sama! – ela sorriu.
— Você é muito fofa, Natsu! – ele afagou-lhe a face. – E eu espero... Que não se zangue comigo... – o rapaz puxou-lhe o rosto delicadamente e selou os lábios dos dois.
A garota se surpreendeu, mas passou seus braços pelo pescoço dele e retribuiu ao beijo, timidamente.
— Isso é loucura... – ela ofegou quando se separaram.
— É? – ele deu risada, surpreso. – Já ouvi uma história que começou assim...
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