Uma Nova Amiga...?

1 Chihiro e Chiaki


Fazia poucas semanas desde a cerimônia de abertura do novo ano letivo da academia Hope’s Peak. Um momento solene, em que os novos alunos e seus respectivos talentos são apresentados à escola inteira em um grande auditório. Isso provavelmente só era possível pois, dada a natureza daquela instituição, não eram muitos alunos que ingressavam a cada ano.

Não que Chihiro se importasse. Naquele momento, ouvindo seu nome sendo declarado perante a tantas pessoas, acompanhado do novo título que a escola lhe cedera, havia apenas duas coisas em sua mente. A primeira era o nervosismo – a timidez de Chihiro era quase tão lendária quanto seu talento. A segunda coisa era a esperança. Esperança de um novo começo, um começo melhor. Uma vida melhor.

Chihiro Fujisaki jamais tivera amigos, pelo menos não que pudesse se lembrar. Toda a sua vida fora um ciclo constante de bullying e solidão. Felizmente, nenhuma das pessoas que conhecia estava naquele colégio. Ninguém iria arruinar sua felicidade... e aquele lugar era seu novo lar. Era a chance perfeita de começar do zero, e finalmente fazer amigos!

... não demorou até que descobrisse a falha fatal em suas esperanças.

A classe 78, formada pelos 16 novatos, não era ruim. Claro, tinha o motoqueiro assustador, o garoto rico que estava sempre de cara fechada e a escritora que sempre reclamava de tudo e de todos, mas de modo geral, parecia uma turma decente, formada por pessoas decentes. Algumas até mesmo tentaram fazer amizade, como aquela nadadora e a supermodelo de roupas extravagantes, e eram super simpáticas... mas ainda assim, Chihiro não conseguia sentir uma conexão verdadeira.

E o motivo disso era claro.

Por mais que ter amigos fosse um sonho que há muito queria realizar... não era possível fazer isso fingindo ser outra pessoa.

Chihiro suspirou. Havia tantas pessoas simpáticas em sua classe... era tentador simplesmente largar tudo aquilo. Simplesmente... ser quem era... seria sonhar demais que seus colegas aceitassem...?

Claro que seria.

Respondendo a própria pergunta, sua cabeça se abaixou enquanto caminhava quase sem rumo pelo pátio do colégio. Não era a primeira vez que tivera aquele monólogo, e a resposta era sempre a mesma. Além do mais... era tarde demais. Mesmo que tivessem a chance de aceitar antes... depois de tanto tempo fingindo ser algo que não era, era óbvio que seria impossível isso não ter consequências negativas.

Era preciso encarar a realidade. Ao tentar fugir dos problemas... Chihiro enganara todos ao seu redor.

E ninguém gosta de ser enganado.

Sua solidão não era apenas o resultado óbvio de suas decisões, pensava. Era sua punição por ter enganado a todos.

Seu monólogo fora interrompido por algo macio.

Enquanto caminhava de cabeça baixa, acabou esbarrando em algo, de modo que tudo o que sentiu foi algo macio e quente vindo de encontro à sua cabeça. E no momento que a levantou, constatou o que era... e, num ato reflexo, deu um pulo para trás, com o rosto vermelho.

—M-Me desculpe! E-Eu não estava olhando... p-perdão...

Era uma garota. Uma garota mais ou menos uma cabeça mais alta, não que isso fosse difícil. E, justamente devido à diferença de altura, sua cabeça colidira diretamente com o busto daquela garota... e por isso seu rosto estava tão corado enquanto se desculpava.

A garota, por sua vez, nem parecera notar. Seus olhos estavam fixos na tela de um videogame portátil, cujos botões seus dedos pressionavam com uma velocidade inacreditável. Apenas alguns segundos depois, ao ouvir a voz de Chihiro, ela finalmente olhou em sua direção.

—... Está tudo bem?

—Huh? – Chihiro olhou para cima, olhando pela primeira vez o rosto dela. –E-Eu deveria estar perguntando... digo, eu esbarrei em você...

—É mesmo...? – Ela inclinou a cabeça, sem nenhuma mudança em sua expressão. –Provavelmente foi minha culpa... eu peço desculpas.

—N-Não! E-Eu não estava olhando para onde ia... f-foi minha culpa...

—Eu também não estava...

—...

Aquela conversa provavelmente se seguiria como um ciclo infinito de desculpas, se a garota mais alta não tivesse uma súbita mudança de expressão e mudado de assunto.

—Espere... eu conheço você!

—Hã? – Aquele rumo era inesperado. -É mesmo...?

—Sim, você é uma das alunas novas, não é? A Super Programadora de Nível Colegial?

Ah, sim. Aquele era o título que recebera no momento em que aceitara estudar em Hope’s Peak. Ainda era estranho ouvir aquilo sendo usado para se referir a si.

—Ah... sim... sim, sou eu...

Os olhos da garota brilhavam.

—Você realmente é a melhor programadora do mundo? Consegue programar qualquer coisa?! Tipo jogos?!

—Hã?! – Aquela avalanche de perguntas era intimidadora. –B-Bem, não sei se chega a tanto... d-digo, não me acho melhor que meu pai e... bem, eu não trabalhei muito com jogos especificamente, mas não parece ser difícil...?

—Isso é incrível!! – O sorriso da garota estava radiante, parecia uma criança no colo do Papai Noel. –Eu lembro quando te vi na cerimônia, quando falaram seu talento eu fiquei impressionada, é graças aos programadores que videogames existem, não é mesmo? Ah! Meu deus, me desculpe, esqueci de me apresentar! Meu nome é Chiaki Nanami, prazer em conhecê-la!

Chihiro mal conseguia acompanhar a conversa, aquela garota parecia tão quieta, aí do nada ela abria a matraca! Não que estivesse reclamando, pelo menos ela não estava chateada... e pelo menos conseguira ouvir seu nome.

—Chihiro Fujisaki... E-Espero que possamos nos dar bem, Nanami-senpai!

—Como você trabalha? Você disse que não trabalhou muito com jogos, isso quer dizer que já trabalhou? Que tipo de jogos você já fez? Você gosta de jogos? Que tipo de jogos você gosta?

—Ah... eu... – Chihiro não costumava receber tantas perguntas sobre seu trabalho, muito menos responder... era difícil até mesmo saber por onde começar. Chiaki pareceu ter percebido isso também, pois logo interveio com um convite.

—Eu estava indo até o dormitório, quer vir comigo? Aí você me explica no caminho!

O sorriso dela era tão puro e genuíno... era difícil dizer não. Não que Chihiro quisesse dizer não, era bom ter alguém tão entusiasmada pelo seu talento... apesar de tudo. A dupla foi andando, e como as duas partes tinham o resto do dia livre, o tempo não era uma preocupação e a conversa fluía cada vez mais.

Foi nesse percurso que Chihiro descobrira várias coisas sobre sua nova amiga. Chiaki era uma veterana, fora admitida em Hope’s Peak sob o título de Super Gamer de Nível Colegial. Isso explicava por que a fixação por jogos... o que acabou se tornando o novo tópico de conversa, por mais que Chihiro tentasse explicar que aquele não era o foco do seu talento... embora, de fato, não fosse impossível trabalhar com programação de jogos.

Apesar de tudo, no entando, Chiaki se revelara uma ótima ouvinte também. Quando Chihiro começava a falar, ela ouvia atentamente, e quando achava estar falando demais, ela tranquilizava e encorajava a continuar falando. Aquela era a conversa mais fluída que tivera desde o primeiro dia... tanto que mal notava o percurso, quando finalmente alcançaram o dormitório feminino e foram caminhando na direção do banheiro.

Chihiro só notou que havia algo errado quando, sem se alterar ou mesmo parar de falar, Chiaki começou a desabotoar a blusa na sua frente.

—N-NANAMI-SENPAI?!

—Hm? – Ela estava agora só de sutiã e calcinha, enquanto apanhava suas roupas no chão para guardar no armário. Chihiro, com o rosto vermelho como um tomate, olhava ao redor e percebia que estava no vestiário feminino.

—É-É melhor eu ir...

—Uh? – Chiaki tirava o sutiã, parecendo confusa e um pouco desapontada. –Mas temos o resto do dia livre... tem certeza que não quer tomar banho comigo?

As palavras “banho” e “comigo”, juntas, vindas de uma garota que tirava a calcinha e ficava completamente nua na sua frente, fizeram seu rosto explodir em chamas e seu coração bater feito um bumbo enquanto fechava os olhos com força.

—M-M-Mas... n-não é melhor fazer isso... s-s-sozinha...?

—Eu ia ficar solitária usando um banheiro tão grande sozinha... ainda mais quando ainda tem tanta coisa que quero conversar... – Ela deu um pequeno sorriso, enquanto colocava a mão no ombro de Chihiro. –A menos que você não queira... o que, bem... eu entendo.

O tom de tristeza em sua voz fez com que Chihiro sentisse um peso no estômago.

—N-Não é isso! – Chihiro abriu os olhos para olhá-la nos olhos, mas imediatamente virou a cabeça quando viu que ela ainda estava nua. –E-Eu só não estou muito a fim de tomar banho agora...

—Então pelo menos me faça companhia? – Chiaki segurou sua mão pelo pulso e puxou de leve, como que chamando para ir juntos. –Não precisa entrar na água se não quiser.

—...

Chihiro sempre fora terrível em dizer não. Ao notar que sua resistência diminuíra, Chiaki sorriu e foi andando até o banho, enquanto puxava sua companhia pelo braço.

O interior daquele banheiro era enorme, o que fazia sentido. Era um banheiro comunal para todas as meninas do dormitório, afinal. E Chihiro deu graças a deus por estar completamente vazio antes de entrar ali com Chiaki. Ainda assim... foi difícil ignorar sua nova amiga se enxaguando e se ensaboando toda bem ali na sua frente.

—Ah sim, voltando... – Ela continuou conversando, como se nada estivesse acontecendo. Chihiro tentou se concentrar na conversa, mas era difícil. Suas respostas eram mais monossilábicas do que gostaria, mas não estava apenas morrendo de vergonha... estava com um terrível peso na consciência. Pois sabia muito bem... que Chiaki jamais agiria daquele jeito se soubesse da verdade.

—Fujisaki-san... – O chamado de seu nome fez seu olhar ser instintivamente direcionado a ela, que agora estava sentada de costas. –Sei que você não quer se molhar, mas pode me ajudar a lavar as costas...?

Era isso. Não dava mais, Chihiro não podia mais continuar com aquela farsa. Sua nova amiga iria gritar, fazer um escândalo, provavelmente até lhe dar um tapa... e principalmente, nunca mais iria ser sua amiga. Mas não podia... não aguentava mais enganá-la daquela forma.

—.... Eu... m-me desculpe, Senpai!

Chihiro se ajoelhou no chão e curvou-se, com a testa no chão. Chiaki se assustou um pouco quando viu isso... não esperava deixar sua amiga tão desconfortável só com esse pedido!

—... Fujisaki... san? Me desculpe se-

—Eu menti para você!

—...?

Agora ela estava confusa e preocupada. Chihiro... claramente não estava brincando. Estava de joelhos, quase de bruços no chão, como se tivesse cometido um pecado imperdoável. E ela não tinha a menor ideia do que-

—Eu... eu na verdade sou um garoto!

—...

Vários segundos de silêncio se passaram, nos quais Chiaki apenas olhava para sua amiga... amigo? Ajoelhado no chão.

—... como é?

—É isso mesmo! – Ela não podia ver o seu rosto, mas o tom de sua voz deixava claro que estava chorando. –Eu sei que não devia, eu sei que enganei você, e eu sinto muito! Eu sei que você não vai me perdoar, e que vai me bater, e você está certa! Eu não devia ter entrado aqui, eu não devia estar junto com você e eu não-

—YAHOO! – Uma voz feminina alta o interrompeu, sobressaltando-os. –Caraca, o ensaio de hoje... eu ainda tô sentindo minha alma VIBRANDO!!! E AÍ, CHIAKI-CHAN!!!

Quando os dois olharam na direção da voz, três meninas nuas entravam na área do banho. Uma delas, que corria na frente das outras, simplesmente correu até a água e se jogou com um grito.

—Ah...! Mioda-san! – Chiaki conhecia aquelas meninas. A que acabara de pular na água era sua colega de classe, Ibuki Mioda. As duas que a acompanhavam, muito menos hiperativas, eram Mahiru Koizumi e Hiyoko Saionji.

Chiaki mal tivera tempo de reagir antes que elas finalmente notassem Chihiro.

—Ei, Chibi-chan! – Ibuki gritou para Chihiro, que ainda estava vermelho como um tomate. –Por que tá aqui toda vestida? O banho é a hora sagrada em que garotas lindas podem mostrar seus corpos esculturais sem medo de ser felizes!

—... E-Eu... err...

—Fujisaki-san não trouxe uma muda de roupas – interveio Chiaki, rapidamente. – Ela mora em casa. E eu já terminei, vamos, Fujisaki-san!

Ela mal tivera tempo de processar a situação, mas se Chihiro era realmente um garoto... não apenas seria um problema se ele visse as garotas tomando banho, se Mahiru descobrisse, seria problema em dobro! Sem tempo a perder, ela puxou seu amigo pela mão para saírem o mais rápido possível daquele banheiro... e o vestiário não estava melhor, pois já começava a se encher de meninas tirando a roupa. Sem parar por um segundo, a dupla caminhou depressa até finalmente saírem de vista.

—... Foi por pouco... – Chiaki dava um suspiro de alívio. Estavam no corredor na frente do vestiário, e parecia haver várias meninas se aproximando. Aquela devia ser a hora comum de tomar banho.

—Vamos. – Ainda segurando sua mão, ela o puxou consigo até o seu quarto.

Chihiro a acompanhava, vermelho de vergonha... mesmo que por um breve momento, ele vira mais garotas nuas do que jamais esperara ver na vida. Mas o pior de tudo era que, na pressa de sair do banheiro logo, Chiaki sequer se vestira!

—N-Nanami-senpai... você...

—Shh. – Ela fez um sinal de silêncio. –Aja naturalmente, ninguém percebeu.

Perceberam sim! Chiaki estava perambulando completamente nua pelos corredores do dormitório, e ninguém fazia questão de disfarçar os olhares estranhos que lançavam a ela! Envergonhado e aflito, Chihiro olhou para o rosto dela... impassível. Como se caminhar pelada pelo dormitório fosse perfeitamente normal!

“Isso... não pode ser normal...”

Os dois caminharam pelo que pareceu uma vida inteira. Os dormitórios de Hope’s Peak eram surpreendentemente grandes e sinuosos, ainda que a quantidade de alunos fosse desproporcional. Chihiro sentia seu rosto queimando, tanto pelo estado de Chiaki quanto pelos olhares de reprovação que os acompanhavam ao longo do percurso.

—Chegamos. – Chiaki anunciou ao parar na frente de uma porta e abri-la, fazendo sinal para ele entrar.

Chihiro não sabia o que esperar. Não sabia o que fazer, ou o que dizer. Se Chiaki o levara até ali, ao invés de expulsá-lo do dormitório, devia ter um motivo.

E por mais que ele soubesse que, qualquer que fosse sua punição, ele provavelmente merecia... ele estava com medo.

Medo de ter magoado Chiaki... e medo de ser irreversível.