Uma Noite de Verão

1 Uma Noite de Verão


Uma Noite de Verão


Era uma típica noite quente de verão no Reino de Órion. As estrelas cintilavam intensamente no céu escuro, como diamantes espalhados sobre um manto de veludo. Um ar quente e úmido envolvia as árvores, fazendo com que os troncos e as folhas parecessem emitir calor.


Nos jardins, havia mais soldados do que arbustos, do que mato e do que flores, mas eles não as intimidavam, pois elas continuavam a espalhar o doce aroma que todos os dias, ao pôr do sol, atiravam para o ar. O som suave das fontes e o canto dos grilos rivalizava com as risadas dos homens, que conversavam para matar o tempo. Outros se distraíam cantando as gestas de heróis antigos para os companheiros, diante do fogo.


O vento leve agitava as folhas das árvores, criando um sussurro enigmático que simulava uma assembleia tumultuada. E, no meio dessa beleza inesperada, um guerreiro se movia calado, se esgueirava entre galhos e ramos. O comandante de todos ali. Um garoto. De nome Arashi, não chegava aos dezesseis anos de idade.


Sua pele bronzeada resplandecia à luz das chamas, suas vistas azuis claras refletiam as fogueiras acesas ao redor dos outeiros. As multidões sob sua liderança. Mas em seus olhos havia mais do que o reflexo da paisagem. Havia preocupação. Todas aquelas vidas dependiam de suas decisões, afinal de contas. O cerco da Cidade de Mira foi ideia sua. Mas, jurou para si mesmo, poria um fim naquilo antes de amanhecer.


Das trevas dos confins da selva, onde foram postos os acampamentos, Kin veio até ele. Com notícias. Seus cabelos loiros, logos e encaracolados, denunciariam sua chegada mesmo se a escuridão fosse completa. Ela nunca soube ser sutil, nem com o visual e muito menos com a personalidade.


— Arashi? — O chamou. Ele, retirado das reflexões, os cabelos negros em desalinho, olhou por cima dos ombros. — Nosso batedor conseguiu achar uma falha na fortaleza de Mira. Vem, ele está lá na tenda! Te dará todos os detalhes!


Foi informado de que havia uma abertura a sudeste da cidade. Que, sabendo dessa fraqueza, os oficiais inimigos erigiram ali uma torre e puseram atalaias. No minuto que lhe contaram isso, Arashi pôs a ágil mente para trabalhar. E não demorou para elaborar um plano. Precisava, claro, verificar a torre pessoalmente para ter certeza, mas conhecia o padrão de construção deles.


Reuniu, ao todo, cinquenta guerreiros e guerreiras na frente da tenda. Compartilhou com todos sua tática. À sua maneira: conciso do início ao fim, com cara de poucos amigos. Os capitães acharam ousada, perigosa, mas genial. Bem típica dele. Os soldados acreditavam nele. E como não acreditar? Vinham de uma sequência de vitórias de cair o queixo. Zero derrotas.


— É a nossa melhor chance! — Bradou Kin, diante da quietude dos ouvintes estupefatos. Se Arashi era a mente do exército, Kin, um ou dois anos mais velha do que ele, era o coração. Ela jogou o punho pro alto com empolgação e motivou a todos com um grito: — Vamos reconquistar Mira!


Ecoou o bramido de Kin pelo perímetro, ecoaram os aplausos e o clamor dos cinquenta, atiçados por ela. O jovem general examinou seus guerreiros. Não viu medo em ninguém. Assim resolvido, o garoto assentiu. Todos se dividiram pela floresta, apesar de terem por destino o mesmo lugar. Tanta gente junta numa só direção iria levantar suspeitas dos vigias.


Arashi liderou seu grupo cuidadosamente, evitando detectores e patrulhas adversárias. A lua, esta, era-lhes contrária, pois luzia imensa, como se quisesse alertar o campo oposto da chegada deles. O garoto fez um sinal para que seus guerreiros se abaixassem, camuflados pela noite e pela relva. "Aguardem", sussurrou, ao ver a torre a poucos metros de sua posição.


A Torre de Mira erguia-se imponente, sua silhueta esguia cortando o céu noturno como uma lâmina afiada. Construída com pedras escuras e granitos reluzentes, refletia a luz prateada da lua, como se estivesse envolta em um manto de mistério. Seus 30 metros de altura desafiavam a gravidade, enquanto suas janelas estreitas e altas pareciam olhos vigilantes, observando os movimentos dos invasores.


Com alguns segundos de análise, o menino soube a rota que tomar. Estendeu a mão para Kin, que estava ao seu lado, agachada. Pedia-lhe a lança. Ela lhe deu, ele se pôs de pé e a quebrou ao meio com o joelho. Por fim, do interior do bosque, veio um aliado. Este trazia-lhe os galhos com folhas que ele requisitou. Arashi cingiu-se com as folhas, tornando-se capaz de camuflar-se de modo a ser indiscernível nas matas. Assim vestido, ele intrepidamente marchou na direção do alcácer.


Cauteloso como a serpente, frio como um gato indo em busca da presa, ele se arriscou, se esgueirou por entre as árvores do caminho. Não havia um só lado do campanário que não fosse tocado pelas folhas de várias das árvores próximas. Arashi pôs os olhos na meta. O topo. Segurou firme as metades da lança, mas tremeu. Por um breve segundo. Decidido, meteu as hastes nos furos da parede e escalou. Escalou sem olhar para trás.


Enquanto Arashi subia, as folhas que o camuflavam começaram a se soltar, caindo silenciosamente no chão lá em baixo. Ele congelou por um instante, esperava que ninguém notasse. O vento leve agitou as folhas restantes. Quando se deu por si, já galgara metade do caminho. Mesmo se quisesse, não poderia retroceder. Não temia nada por si mesmo, vale ressaltar. Temia tão só fracassar e condenar a última grande chance de dar fim ao cerco.


Arashi inspirou profundamente e prosseguiu, seus músculos tensos, as lanças firmes nos furos. A lua iluminava seu rosto determinado. Cada movimento era calculado, preciso. Sabia bem que em cada janela havia um guarda, portanto, qualquer som ou gesto suspeito significaria o fim da expedição. Foi quando escutou os ruídos dos passos das sentinelas do ponto mais alto da torre. Parou, prendeu a respiração e abaixou a cabeça.


O vigia inspecionou tudo o que, só com os olhos, foi possível inspecionar. Se ateve duas vezes às folhas com as quais Arashi se camuflava. Afinal, saiu dali. Arashi expirou sossegado, aliviado. Seus olhos voltaram-se para o topo, agora mais perto. Com um movimento preciso, inseriu a lança em outro furo e subiu mais um degrau.


Rápido, sem medo, pôs a mão na borda e saltou por sobre ela. Estava nas costas do vigia que quase flagrou-o. Com um célere gesto de mãos, fabricou para si uma espada de gelo. Apunhalou o desavisado pelas costas. Antes que ele caísse ou gritasse, contudo, segurou-o e tapou a boca dele com a mão. Arrastou-o para atrás da pilastra mais próxima, para as sombras.


O outro guarda desconfiou de seu repentino sumiço e foi até lá verificar. Arashi engoliu seco. Sem largar o cadáver, tacou as costas na parede do pilar e aguardou. Quando o curioso chegou e olhou, foi golpeado bem na garganta. Ficou impossibilitado de gritar. Arashi saiu das sombras, esticou o punhal e atacou. O oponente, no entanto, foi capaz de se guardar pondo um braço entre a mão do jovem comandante, mas levou um cruzado de direita e caiu. Neste ínterim, Arashi pegou de volta seu punhal e cravou-o no coração do adversário caído.


O menino olhou ao redor. Certo de que não sobrara mais vigias, correu para o local por meio do qual teve acesso àquela área e fez os sinais combinados para seus soldados lá em baixo. Kin foi a primeira a vê-lo. Ela deu as ordens para os primeiros avanços e todos, felizes, a seguiram. Mais uma vitória, pensaram.


Depois disso, Arashi desceu com as vestes de seus inimigos, se livrou dos espias e franqueou para seus aliados a entrada da cidade. E foi assim que o cerco acabou. Antes do amanhecer, como o jovem general desejava. Que Kin e os guerreiros de Órion recuperaram a cidade de Mira durante a grande guerra intergalática. Assim, aquele adolescente ficou famoso como "Arashi, o Sem Pavor".

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